– Taça UEFA, o “clique” europeu –

BnR: Tens espaço em casa para as medalhas todas?

JC: [Jorge hesita antes de responder] Tenho, tenho…

BnR: Mas foram várias…

JC: Sim, mas eu não sou… Infelizmente, porque agora passamos uma fase complicada, consegui ter tempo para parar, pensar e ver. Passaram muitos jogos das campanhas europeias do Porto e da Seleção, e deu para eu recordar muita coisa. Porque enquanto jogador a vida é tão intensa, hoje és campeão europeu, amanhã tens uma final da Taça para jogar e depois uma decisão do campeonato. Não tens tempo para usufruir e festejar como deve ser as grandes conquistas que vais tendo. E de facto foram grandes conquistas. Nestes três meses deu para perceber as conquistas e de que forma foram conseguidas. Eu falo por mim, tenho títulos na carreira que são brutais, quase impensáveis, e eu sinceramente nunca tinha parado para pensar naquilo que conquistei. Hoje sinto-me muito mais orgulhoso e vaidoso de tudo aquilo que consegui. Eu não tinha essa consciência.

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BnR: Taça UEFA, Liga dos Campeões e Taça Intercontinental. Qual te deu mais satisfação ganhar?

JC: Foi a Taça UEFA. Por ser a primeira prova de grande importância pelo clube do coração, pelo jogo em si, o ambiente, o prolongamento… E acho também que foi importante porque foi aquele jogo que nos deu o clique a nível europeu [pausa para Jorge fazer marcação cerrada aos seus três cães] Desculpa, estou só a tentar que eles não fujam para a rua.

BnR: Sem problema. Dizias sobre o clique a nível europeu?

JC: Sim, foi o clique de, para além de campeonatos e tal, nós também podíamos ficar na história a nível internacional.

BnR: Lembro-me perfeitamente de ver o jogo em casa, estava um calorão cá. Imagino lá em Sevilha…

JC: Siiim, estava um inferno. Eu tinha um carro de sete lugares e foi a família toda lá, foi um ambiente diferente. Não é aquela final em que apanhas o avião e tal. Vais de carro, chegas e estão 40 e tal graus, não sei quantas mil pessoas no estádio, outras tantas fora do estádio. A viagem do hotel para o estádio foi fantástica, foi todo um ambiente que marcou.

BnR: O que é que sentes na chegada às Antas após a conquista da Taça UEFA?

JC: Foi brutal. Infelizmente muitos dos nossos adeptos estavam em viagem ainda, portanto não nos puderam receber. Mas foi brutal. Nós sentíamo-nos a última bolacha do pacote [Jorge ri-se com satisfação]. É uma sensação indescritível. E isso existe, a sensação indescritível existe. Não consegues encontrar adjetivos para explicar como te sentias na altura.

BnR: A decisão foi tua de levantar a Taça UEFA e a Liga dos Campeões em conjunto com o Vítor Baía?

JC: Foi. Mas foi das decisões mais fáceis e mais justas que poderia haver. Posso contar a história desde início: no ano anterior eu saio nos últimos seis meses para o Charlton e o Vítor fica como capitão. Depois, eu volto no início da época seguinte e no estágio de pré-época em St. Etienne…

BnR: O Mourinho decide fazer votação entre ti e o Vítor.

JC: Exato. E o Vítor antes de começar a votação pede a palavra e diz “Eu se for a votar, o meu voto é no Bicho”. Ele depois explicou porquê, e bem. Nós tínhamos muitos jogadores novos, novos de idade e novos no clube, Maniche, Paulo Ferreira, Derlei, Nuno Valente, Tiago. Eram muitos e que iriam ser colocados a tomar uma decisão que iria ser complicada para eles. Na altura, o Vítor, por tudo aquilo que mostrou, por tudo aquilo que era, eu tomei a decisão de partilhar os momentos de sucesso com o meu braço direito e esquerdo.

BnR: Decidiram isso antes do jogo ou foi no momento?

JC: Não houve uma decisão. Eu na altura de levantar a taça chamo o Vítor, até porque esta [a Taça UEFA] não tem as orelhinhas como a Liga dos Campeões, e ele deu-me uma ajuda para levantar esta taça que era difícil [risos].