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Da imensa história que o FC Porto tratou de escrever, de Sevilha consta uma das suas páginas mais bonitas – quem recorda uma noite quente de Maio de 2003, sabe que a cidade anfitriã se apaixonou e rendeu a uma das mais épicas finais europeias da história (o FC Porto 3-2 Celtic Glasgow, no Estádio Olímpico), numa demonstração de qualidade, classe e sofrimento do Dragão. Havia, então, Baía, Jorge Costa, Ricardo Carvalho, Maniche, Deco, Alenitchev ou Derlei. Da mesma forma que, já mais recentemente, em 2011, com Rolando, Moutinho, Hulk e James, a mesma cidade havia testemunhado competência, equilíbrio, paixão e mais uma vitória do Dragão (o Sevilha 1-2 FC Porto, nos dezasseis-avos de final). Em qualquer dos casos, o FC Porto foi feliz em Sevilha; em qualquer das situações, o sonho europeu construiu-se em Sevilha. Sempre na Liga Europa.

Com saudades da sua Terra dos Sonhos, o comum e mortal adepto portista, chegado à capital da Andaluzia, sorriu: havia confiança, crença e comodidade com o calor (ainda assim muito menos do que em 2003), o mesmo que o fazia sentir-se nostálgico. Até ao apito inicial de Gianluca Rocchi. Porque, a partir daí, todos esses sentimentos foram violentados…

Ainda o Ramón Sánchez Pizjuán memorizava os onzes iniciais (o do FC Porto sem Fernando e Jackson, mas com Defour, Herrera e Carlos Eduardo no meio-campo e Ghilas a ‘9’) e já o argelino e o belga faziam cerimónia na hora do remate. A partir daí quem não teve cerimónia nem contemplações foi o Sevilha: pegou no jogo, partiu para cima do FC Porto e marcou três golos em 25 minutos. Primeiro por Rakitic (5’) na transformação de uma grande penalidade (a castigar um desmaio de Bacca, e cuja origem do lance é ilegal por fora-de-jogo), depois por Vitolo (26’), consequência de uma péssima abordagem ao lance de Danilo, e, finalmente, por Bacca (30’), após um lance inaceitável numa competição deste nível, em que a bola andou a saltar dentro da grande-área portista sem que ninguém a aliviasse.

O FC Porto nunca soube amedrontar o Sevilha  Fonte: UEFA
O FC Porto nunca soube amedrontar o Sevilha
Fonte: UEFA

Nesta primeira meia hora, assistiu-se a um Dragão demasiado intranquilo e desconcentrado, com uma incapacidade gritante de segurar a bola e controlar o jogo, com inúmeros passes falhados, transformando uma boa equipa do Sevilha – é verdade – num autêntico bicho papão. O cenário não podia ser pior e a equipa procurou, de algum modo, regressar ao jogo: Quaresma ia tentando (ainda que nem sempre com as melhores tomadas de decisão), Herrera revelava-se esforçado e voluntarioso mas Carlos Eduardo e Varela nunca apareceram para dar apoio a um desamparado Ghilas. Focando-se, o conjunto azul-e-branco acabou por criar três lances de perigo no final da primeira parte: Herrera (38’), Defour (41’) e Quaresma (43’) assinaram remates que criaram relativo perigo; por outro lado, o próprio Sevilha baixou o seu ritmo – Rakitic e M’bia foram reis e senhores do espaço central em toda a primeira meia hora da partida – mas sempre que possível esticava o seu jogo, procurando o oportuno Bacca.

Se havia um plano de jogo, o mesmo havia sido traído por Rocchi e apunhalado pelos próprios jogadores portistas, com tamanha apatia e incapacidade de suster o ímpeto (normal e expectável) do adversário. Ao intervalo, como que tentando ressuscitar a equipa, Luís Castro trocou Carlos Eduardo e Varela por Quintero e Ricardo. O certo é que o FC Porto melhorou substancialmente: Ghilas podia ter marcado de pontapé-de-bicicleta (num lance que acabou com a expulsão do treinador portista) e Quaresma enviou uma bola à trave, ainda antes de Coke, defesa direito do Sevilha, ser expulso (53’). Contra 10, a equipa passou a acreditar um pouco mais e voltou a dispor de oportunidades, quer por Herrera (54’), quer, logo de seguida, por Quaresma. No entanto, a equipa sevilhana respondeu bem: Emery substituiu Reyes por Diogo Figueiras e montou a equipa da melhor forma, com um bloco baixo mas coeso e com Bacca (e depois Gameiro) e Vitolo sempre à espreita de uma oportunidade.

Sem ter concretizado as oportunidades de que dispora e com imensa posse de bola, o FC Porto revelou-se, ainda assim, muito previsível e inconsequente. Mesmo a entrada de Kelvin (por troca com Danilo) não surtiu efeito; pelo contrário, a equipa tinha muita gente com capacidade para circular a bola mas dois extremos que se colavam à linha (óptimo para dar largura mas muitas vezes inconsequente pela forma individualista como definiam as jogadas) e que nunca se aproximavam do ponta-de-lança, deixando Ghilas a viver num plano fechado, demasiadas vezes desacompanhado na área. A lucidez e a crença tornaram-se inversamente proporcionais ao tempo que havia para jogar e o FC Porto nunca conseguiu, sequer, criar o mínimo perigo que alimentasse uma ténue esperança que ainda pudesse haver.

M'Bia foi intransponível na 1ª parte e Kelvin, na 2ª, não trouxe nada de novo  Fonte: UEFA
M’Bia foi intransponível na 1ª parte e Kelvin, na 2ª, não trouxe nada de novo
Fonte: UEFA

Não compreendendo a entrada de Kelvin (pouca maturidade e experiência nestas andanças), a solução menos má seria ter lançado Licá para junto de Ghilas, ganhando presença na área e capacidade de disputar as segundas bolas, parece-me. Com Kelvin em campo, então por que não adiantar Mangala (ou Reyes) para área, numa solução de recurso, com o mesmo intuito? O tempo era já curto e o risco teria de ser maior… O mesmo risco que acarreta uma equipa subida e que dá espaço nas costas da sua defesa: eis o que permitiu ao Sevilha chegar ao quarto golo, por intermédio de Gameiro, após uma rápida transição (79’).

Se já era quase impossível, o FC Porto percebeu que os dias na Liga Europa 2013/2014 estavam contados. O FC Porto que Sevilha conhecia não foi aquele que esteve, esta noite, nessa quente e bonita cidade. Por isso, Quaresma, num assomo de brio, trataria de assinar o mais belo momento da partida, num grande remate, que mais não foi do que deixar em Sevilha um resquício do FC Porto de outrora. Daquele que nunca desiludia a Terra dos seus Sonhos.

A Figura: Hector Herrera.
Não foi um jogo brilhante do mexicano, longe disso. Porém, foi sempre ele que desequilibrou em termos individuais no centro do terreno, rematando ainda à baliza com perigo e nunca fugindo do jogo e da bola. A relativa boa ponta final do FC Porto na primeira parte muito a ele se deve.

O Fora-de-jogo: Silvestre Varela.
Entre Carlos Eduardo e Varela, a decisão é difícil: ambos estiveram desaparecidos do jogo. De todo em todo, a opção pelo português resulta de, em jogos como o desta noite, os jogadores mais experientes terem a obrigação de assumir a causa e estar num plano de concentração e clarividência superior ao dos elementos mais novos. Ora, Varela, precisamente, esteve ausente.

 

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