Hoje a “nação portista” acordou moribunda. Não porque uma qualquer competição (das duas que restam disputar) esteja irremediavelmente perdida, mas porque ao cabo de 28 jornadas o FC Porto perdeu uma liderança que não há muito tempo parecia sólida e quase definitiva. E perdeu-a, mais uma vez, para o bicho-papão (há que o dizer) do futebol português, o SL Benfica.

E há que mergulhar nas profundezas do cérebro humano para encontrar as razões para esta hecatombe. O treinador, como demonstrou ao longo da época, é competente. Não deixou de o ser do dia para a noite. Nenhum jogador é, hoje, pior do que há três ou quatro semanas atrás e os dirigentes, que muito tenho criticado neste espaço de opinião, nada fizeram nos últimos tempos para que lhes possam ser assacadas responsabilidades pelo momento periclitante da equipa. Responsabilidades, essas, foram assumidas (e muito bem) por Sérgio Conceição no final do jogo de ontem e fez-se, dessa forma, uma vital proteção de um plantel que, animicamente, deverá ter atingido o ponto mais baixo desde o começo da época. Espera-se que não tenha atingido um ponto sem retorno.

Mas como dizia, a razão para o descalabro exibicional (que nem uma vitória discreta sobre o rival da cidade conseguiu maquilhar) e consequentes repercussões ao nível dos resultados, está intimamente ligada aos desmesurados níveis de ansiedade de uma equipa desabituada de ganhar e que quanto mais perto se vê do seu objetivo final, mais se dispersa a nível emocional. No fundo, o que quero dizer com isto é que a fibra de campeão já não mora para os lados do Dragão e, ao invés, realojou-se pelos lados mais vermelhos da Segunda Circular. Só assim se explica que uma equipa que durante a grande maioria da temporada praticou um futebol não mais do que pobre se encontre, hoje, como porventura o principal candidato a um título nacional que parecia destinado a vestir-se de azul e branco.

A história repete-se. Mais uma vez, no momento das decisões (como tem acontecido várias vezes nos anos mais recentes) a equipa voltou a falhar.

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O FC Porto saiu derrotado do Restelo e perdeu a liderança do campeonato
Fonte: FC Porto

Não consigo deixar de olhar para tal situação como um sinal dos tempos. Podemos (os portistas) continuar a viver do passado e pensar que o FC Porto continua a ser o clube hegemónico que outrora demonstrou ser, mas a verdade é que a seca de títulos pesa (e de que maneira) no subconsciente de todos os portistas e, acima de tudo, dos jogadores, e essa ânsia de vencer, nas últimas semanas, tem prejudicado a equipa e o seu rendimento. Também tem sido ela, é certo, a alavancar a equipa para uma campanha que estava a ser brilhante dados todos os constrangimentos que são já sobejamente conhecidos, mas quando se tratava de encetar o ataque final ao tão desejado título a equipa soçobrou. Há que tirar ilações, há que ter a humildade de reconhecer que depois de quatro anos de fracassos os jogadores não souberam gerir as emoções e lidar com a pressão de defender aquele lugar que chegou a ser seu por direito. E voltamos à estaca zero. Resta à equipa “correr atrás do prejuízo”.

Todo este cenário apocalítico pode parecer exagerado. Já sei que um ponto é apenas um ponto e que o FC Porto ainda vai defrontar o SL Benfica mas, para quem já teve cinco pontos à maior, lidar com uma desvantagem pontual representa voltar a ter que escalar uma montanha inteira depois de quase ter tocado o cume. No entanto, esta abrupta queda terá, forçosamente, que ter o condão de tocar no orgulho de cada jogador, treinador ou dirigente. Cada um deve assumir as suas responsabilidades. Nada está perdido.

Portanto, Sérgio Conceição e a sua equipa técnica têm a fundamental missão de recuperar mentalmente todos os jogadores para as batalhas que se avizinham e blindar o plantel, conferindo-lhe a tranquilidade necessária e construindo uma estrutura mental sólida imune à ansiedade que permita a este conjunto de jogadores, que brilhantemente têm navegado este navio por tão turvas e traiçoeiras águas, levar a embarcação a bom porto.

Em suma, o que se passou ontem foi mais um capítulo (espera-se que o último) de um falhanço coletivo de um clube, de uma cidade, de uma “nação”. Temos agora a palavra todos nós. Dirigentes, treinadores, jogadores e adeptos (uma palavra de apreço para todos os que têm, semana após semana, nas vitórias e nas derrotas, demonstrado um enorme apoio à equipa). Todos serão necessários e fundamentais nas seis batalhas que restam. Unidos, fortes, confiantes e pacientes. No estádio da Luz só um resultado interessa e se cada portista fizer o seu papel, no dia 15 de abril (se não acontecer antes), assumiremos o primeiro posto e não mais o largaremos. Um por todos e todos por um.

Foto de Capa: FC Porto

artigo revisto por: Ana Ferreira