Noite de gala no Dragão, suada em Munique

Abril de 2015. A época desportiva entrava na sua reta final e muito ainda por decidir. Em Portugal, a luta pelo título estava ao rubro, com FC Porto e SL Benfica separados apenas por três pontos, com vantagem para os encarnados. Já a nível internacional, os “dragões” eram os únicos portugueses ainda com compromissos, visto que, após eliminar categoricamente o FC Basel (5-1 no agregado), a equipa comandada por Julen Lopetegui mediria forças com o “todo poderoso” Bayern de Munique, em eliminatória a contar para os “quartos” da Liga dos Campeões.

Era quase que unânime em toda a Europa do futebol a opinião de que, com maior ou menor dificuldade, os bávaros garantiriam um lugar nas meias-finais da Champions, uma vez que eram largamente favoritos neste duplo confronto com o FC Porto.

Contudo, uma velha máxima no futebol diz que é necessário demonstrar o favoritismo dentro das quatro linhas. E, nesse aspeto, o Bayern pecou logo na primeira mão deste confronto, deixando nas mãos dos azuis e brancos uma vantagem de 3-1, uma vantagem que a turma portuguesa procurava defender com unhas e dentes em Munique.

A expulsão de Neuer no Dragão, após cometer a grande penalidade que daria o 1-0 aos “dragões”, e o facto de jogadores como Danilo e Alex Sandro terem escapado a um cartão amarelo, que os deixaria de fora do segundo jogo, aumentavam ainda mais a esperança da equipa lusa de seguir em frente na prova milionária.

Por outro lado, os germânicos, em sua casa, procuravam mostrar uma faceta diferente daquela que mostraram na cidade invicta; e, efetivamente, conseguiriam mostrá-la. Após uma entrada fortíssima da formação de Pep Guardiola, que incluiu uma bola ao ferro e quase uma mão cheia de oportunidades para marcar, um cabeceamento certeiro de Lewandowski, após cruzamento da esquerda de Juan Bernat, inauguraria o marcador na Alemanha. 1-0 para os alemães.

Ainda antes do apito do árbitro que ditaria o fim do primeiro tempo, o Bayern chegaria ao segundo e à consequente vantagem na eliminatória. Thiago Alcântara, sozinho à entrada da área portista, remata colocado e deixa Fabiano debaixo dos postes sem reação. A equipa portuguesa abandonava as quatro linhas em direção aos balneários com o sentimento de impotência, dado o avassalador domínio que os comandados de Pep Guardiola haviam tido durante os primeiros quarenta e cinco minutos.

No segundo tempo, apesar de uma entrada mais “atrevida” dos azuis e brancos, continuava a ser o FC Bayern a comandar as operações, contundo exercendo esse domínio bem mais longe da área do FC Porto. Jogava-se a ritmo de treino do lado alemão, oportunidades flagrantes de golo nem vê-las. Até que, por volta dos 75’, numa rara jogada de inspiração pelo corredor, Ricardo Quaresma consegue “cavar” um livre lateral já bem junto à linha divisória da grande área. Bola cruzada para o interior da pequena área, enorme confusão após uma saída algo atabalhoada de Pepe Reina, acabando mesmo o esférico por sobrar para os pés de Jackson Martinez que, sem sequer hesitar, empurra-a bem para o fundo das redes.

Jackson Martinez seria o responsável por colocar o FC Porto nas meias-finais da Liga dos Campeões
Fonte: FC Porto

Estava feito o 2-1, resultado que carimbaria o passaporte portista rumo às meias-finais da Liga dos Campeões. Até ao final, assistiu-se a uma turma alemã completamente perdida dentro de campo, sem ideias de como chegar a zonas de perigo; quando o conseguia, Fabiano, com menor ou maior dificuldade, afastava a bola da zona de perigo, assegurando, assim, um lugar para si e para os seus companheiros entre o top four da Europa.

Na cidade Invicta, a festa tomara conta da noite portuense, os adeptos haviam tomado conta do Aeroporto Francisco Sá Carneiro com o objetivo de congratular a equipa. Até porque, daí a alguns dias, havia clássico na Luz…

Que venha daí o Barcelona (sem esquecer o campeonato)

Era na ressaca da estrondosa eliminatória frente ao FC Bayern de Munique que o FC Porto visitava o Estádio da Luz, num jogo que, em caso de triunfo, colocaria os dragões em igualdade pontual com os rivais encarnados, ainda que com vantagem no confronto direto para os comandados de Jorge Jesus.

Sem muitas alterações no onze inicial, comparativamente àquele que atuara em solo alemão, Lopetegui parecia dar a indicação de que aquele jogo era para vencer.

Contudo, durante todo o jogo, os cerca de sessenta mil nas bancadas assistiram a um jogo morno, muito disputado a meio campo, com poucas oportunidades que fizessem os adeptos levantar das suas cadeiras. Tudo parecia encaminhado para o nulo final, até que um remate potente de Casemiro, bem longe das redes defendidas por Júlio César, sofre um desvio em Jardel e trai o guardião brasileiro, atirando os “dragões” para a frente no marcador.

Casemiro seria o autor do golo solitário que daria a vitoria ao FC Porto na Luz por 1-0
Fonte: FC Porto

Com esta vitória, Lopetegui colava-se a Jesus, numa disputa pelo campeonato nacional que prometia ser até ao último segundo. Por outro lado, havia que pensar também no FC Barcelona, equipa que os azuis e brancos visitariam dentro de alguns dias.

Camp Nou vestia-se de gala para presenciar o primeiro duelo entre catalães e portugueses nesta fase da liga milionária. Com linhas extremamente baixas e juntas, a turma de Lopetegui parecia tentar de tudo para evitar os danos nocivos do trio MSN, abdicando, inclusivamente, de atacar.

Foram noventa minutos de ataque contra defesa, de sentido único. Desse “ataque contínuo” dos blaugrana resultaram dois golos: o primeiro de Messi, aos 67’, e o último da autoria de Neymar, já bem perto do final (86’). Era um resultado que, segundo o treinador basco do FC Porto, deixava tudo em aberto para o segundo jogo, jogo esse que os “dragões” fariam de tudo para ganhar.

E o técnico acabaria por seguir as suas próprias palavras à risca.

Internamente, ainda quando tudo estava em aberto no que à luta pelo primeiro posto diz respeito, Julen opta por um onze inicial repleto de mudanças para a receção ao Gil Vicente, num jogo em que, após uma paupérrima exibição, o FC Porto não conseguiria levar de vencida a turma gilista, empatando a uma bola.

Tais poupanças com vista ao jogo da Champions não surtiriam efeitos efetivos, sendo os “dragões” novamente derrotados, desta vez em casa, perante o Barça de Luis Henrique por duas bolas a zero.

Era o pico máximo da contestação: com a equipa eliminada da Champions e com o Benfica já a dois pontos de distância, perspetivava-se uma segunda época sem qualquer novo título para o museu do Dragão. E tal acabaria mesmo por verificar-se, visto que os encarnados não perderiam qualquer ponto até final, erguendo a taça de campeão nacional na jornada 34, em jogo frente ao Marítimo.

Após uma temporada sem nenhum título conquistado, Julen Lopetegui aceita o convite da Federação Espanhola
Fonte: FC Porto

Lopetegui, durante o verão, acabaria por trocar o comando técnico do FC Porto pelo lugar deixado vago por Vicente del Bosque na seleção espanhola, “forçando” Pinto da Costa a reforçar-se na Luz, oficializando, dias depois da saída do basco, Jorge Jesus como novo técnico dos azuis e brancos.

Foto de capa: FC Porto

Artigo revisto por Joana Mendes

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