Vivemos, atualmente, um momento de bola parada forçada e contínua e, na melhor das hipóteses, o apito que a volte a pôr em movimento chegará a partir do final do mês de Maio. Até lá, a pausa convida à reflexão sobre o que até aqui aconteceu no mundo do futebol e serve também para remexer no passado e requentar a emoção de algum jogo para o presente, tentando enganar esta fome de bola que nos assola.

Nestas linhas vou, porém, focar-me na reflexão. Durante uma das viagens diárias pela internet, deparei-me com um pertinente artigo da GoalPoint, ao longo do qual é analisada, através de uma perspetiva analítica, a prestação do Sporting CP, seja individual ou coletiva, no campeonato. Assim, enquanto os meus olhos deslizavam pelos dados e respetivas interpretações, procurava contrastar as minhas perceções do que (não) acontecia no relvado com a realidade dos números trazidos pela GoalPoint. Acredito que só nos é permitida uma maior aproximação ao que se passa efetivamente dentro das quatro linhas, criando conhecimento real e informação útil sobre o jogo e os seus protagonistas, através da interpretação qualitativa aliada ao contributo das analytics – e ambos devidamente enquadrados no contexto.

Em Alvalade, o contexto não é diferente daquele que está à vista de todos. Nesta época, o banco leonino já conheceu quatro treinadores diferentes que, cada um à sua maneira, puderam “desfrutar” de uma política de mercado que teve um impacto mais negativo do que positivo na equipa. Sobre estas “areias movediças”, a irregularidade e instabilidade leonina construiu um pobre 4º lugar (37 golos marcados e 26 sofridos), que é condizente com o (pouco) futebol produzido até ao momento.

Luciano Vietto foi o único reforço, na verdadeira aceção do termo, que esta temporada chegou ao clube e teve um impacto imediato. Para avaliar o seu desempenho individual e a sua influência no jogar leonino, vou tomar os dados fornecidos pela GoalPoint como ponto de partida para a análise.

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De acordo com a GoalPoint, o Sporting CP só se destaca coletivamente em dois dos 12 rankings: na circulação progressiva e na quantidade de bolas que coloca com sucesso no último terço, sendo em ambos o segundo melhor registo do campeonato. Em contrapartida, a formação de Alvalade materializa apenas 10% dos cerca de 15 remates que faz por jogo (nono melhor registo da Liga). Nesses três parâmetros, para o bem e para o mal, a preponderância de Vietto parece-me assinalável. Analisemos, então, os seus números individuais:

Números do reforço com mais impacto imediato e influência no jogo da equipa leonina
Fonte: GoalPoint

Através dos dados disponibilizados, procurei contrastá-los com as expectativas que Vietto trouxe consigo e também com a minha perceção do que tem sido realmente a sua primeira época de leão ao peito. Com a saída de Bruno Fernandes, o avançado argentino tornou-se o “chefe de máquinas” no carrossel ofensivo da equipa e, de acordo com o rating da GoalPoint, emerge mesmo como o jogador mais influente do plantel.

Como o mapa apresentado ilustra, apesar de Vietto ter agora responsabilidades similares às que eram exigidas a Bruno Fernandes, a sua área de influência é ligeiramente diferente. O ‘10’ verde e branco iniciou o seu trajeto na equipa “empurrado” para o corredor esquerdo, de maneira a coabitar com o capitão leonino, mas com a intenção sempre explícita de pisar o corredor central, onde se sente mais confortável. Aliás, pelas suas características, é sobretudo liberto no meio, dentro da estrutura adversária, que a equipa mais pode beneficiar das qualidades do talentoso argentino.

Seguindo a ordem apresentada, a relação entre o número (3,6 p/90 mins) e a qualidade dos remates (28% enquadrados) de Vietto apresenta uma disparidade evidente, o que acaba por refletir o menor sucesso do argentino em matéria de finalização. Ainda que com menos 63 minutos em campo, Vietto rematou mais, em média por jogo, do que Bruno Fernandes esta época de leão ao peito, por exemplo. No entanto, o internacional português conseguiu rematar enquadrado 40% das vezes.

Ainda assim, é verdade que o argentino de 26 anos leva quatro golos no campeonato depois de participar em 20 jogos (1.463 minutos), um registo concretizador só superado pelos seis tiros certeiros de Luiz Phellype na competição doméstica. No entanto, confesso que esperava mais “poder de fogo” e melhor finalização por parte do argentino. O camisola ‘10’ é provavelmente um dos rematadores da equipa com melhor meia-distância, mas também não foram raras as vezes em que Vietto, apesar de estar em condições favoráveis, desperdiçou boas oportunidades. Aquando da sua contratação, a época sensacional no Villareal CF (20 golos e oito assistências em 2014/15) estava na cabeça de muitos adeptos, mas, até ao momento, essa tem-se revelado uma exceção nos seus números e não uma regra, depois de passagens mais discretas por Atlético de Madrid (3G e 5A), Sevilla FC (10G e 6A), Valencia CF (5G e 1A) e FC Fulham (1G e 4A).

Embora o seu registo de cara à baliza possa ser melhorado em Alvalade, pois tem qualidade para mais, Luciano Vietto revelou-se ainda, com quatro passes para golo, como o líder de assistências da equipa no campeonato (cinco assistências em todas as competições). Por jogo, em média, tem oferecido pouco mais do que um passe para finalização, mas, como vimos, nem o contexto, nem o aproveitamento leonino das oportunidades são os melhores.

Apesar disso, a influência de Vietto na manobra ofensiva da equipa é notória. Devido também à posição que lhe foi designada, tem-se assumido como um jogador nuclear principalmente na fase de criação dos leões, dadas as suas valências no jogo entre linhas, ora na mobilidade e imprevisibilidade que oferece ao ataque, através da sua liberdade de movimentos e da forma como concebe os espaços; ora na qualidade demonstrada a decidir e a executar o passe, incitando preferencialmente a um jogo mais associativo, mas com igual capacidade em passes mais longos e de variação do centro de jogo.

Outra característica que destaca Vietto dos restantes jogadores do plantel é a sua capacidade de condução e qualidade no drible, ambos fruto da sua técnica. Segundo os dados recolhidos pela GoalPoint, por jogo no campeonato, o criativo argentino completa com sucesso, em média, 2,2 dribles, assim como sofre cerca de duas faltas por cada 90 minutos. O seu descaramento no 1v1 e as arrancadas com a bola dominada, tirando adversários do caminho com as suas mudanças de ritmo e de direção, têm-se tornado movimentos habituais nos relvados nacionais.

Por fim, há um número que pode surpreender os mais distraídos: o contributo defensivo de Luciano Vietto. Colar a imagem de jogador “pouco intenso”, ou pouco dado a tarefas defensivas, a um futebolista com as características do ‘10’ leonino é algo habitual, perfaz precisamente um daqueles lugares-comuns do futebol e, por isso, essa crítica não tardou em ser endereçada ao avançado argentino. Porém, como qualquer relógio estragado que acerta nas horas duas vezes por dia, os lugares-comuns umas vezes têm correspondência com a realidade que representam, mas noutras são aplicados erroneamente. Um fenómeno que não se cinge ao futebol e que deriva essencialmente da procura e da tentativa pela hipersimplificação de temas que envolvem uma certa e obrigatória complexidade e que por isso devem ser desmistificados caso a caso.

Ora, tal como foi observado pela GoalPoint, Vietto tem em média 3,9 ações defensivas por jogo, um número que resulta da soma entre desarmes, interceções, alívios e bloqueios de remates, passes ou cruzamentos realizados, neste caso, pelo avançado argentino. Por si só, o número pode surpreender, mas quando é comparado com o registo de jogadores com responsabilidades defensivas similares (Bruno Fernandes 4,1 e Bolasie 2,1) ou até acrescidas (Wendel 1,6), torna-se ainda mais evidente o esforço e a importância defensiva de Vietto. Não deixa de ser curioso como é que, neste parâmetro em particular, a exclusiva interpretação qualitativa do jogo permite não reconhecer e até criticar o esforço defensivo de Vietto e, em contrapartida, elogiar o compromisso defensivo de Bruno Fernandes, quando na verdade a distância que os separa na quantidade de ações defensivas é mínima.

A breve análise a este indicador acaba por ilustrar e reforçar aquilo que as analytics podem oferecer, que, longe de explicarem tudo o que acontece num jogo de futebol, fornecem indubitavelmente um importante contributo para a aproximação a um melhor entendimento sobre o que se passa de facto dentro das quatro linhas.

Voltando a Luciano Vietto. Quando aterrou em Alvalade, seria expectável, e exigida talvez, uma maior frieza finalizadora do que a demonstrada até agora. No entanto, ser relegado para a posição de extremo, além de o ter afastado da área, deu-lhe também maiores responsabilidades na fase de criação. Dividido entre as duas tarefas mais importantes na manobra ofensiva da equipa, Vietto conseguiu balançar as redes por oito vezes e oferecer de bandeja cinco golos, depois de participar em 31 jogos das várias competições.

Em termos gerais, os golos e assistências, que são mais vistosos, já permitem ter uma noção clara da influência direta de Vietto nos registos leoninos. Contudo, acrescentando à análise alguns indicadores de ações mais dificilmente observáveis, neste caso disponibilizados pela GoalPoint, a preponderância do avançado argentino no jogo verde e branco é efetivamente mais alargada.

CONCLUSÃO

A viver a sua época de estreia em Portugal e de leão ao peito, Luciano Vietto revelou-se até ao momento, no contexto a que esteve submetido, como um criativo – o principal do plantel – e que, além disso, se compromete defensivamente como poucos. Falta-lhe talvez mais confiança e sentir-se querido e importante na equipa, algo que foi perdendo à medida que os seus empréstimos se sucediam. Por isso, Rúben Amorim terá não só a tarefa de lhe dar essa confiança à base de continuidade e regularidade nas opções, mas também procurando oferecer um contexto tático mais benéfico para um jogador que se pode destacar acima dos restantes e tornar-se uma das figuras do campeonato.

Com a saída de Bruno Fernandes, Vietto tem de deixar o corredor esquerdo para pisar definitivamente o seu “habitat natural” na zona central, como segundo avançado que ligue o meio-campo ao ataque. Além dessa mudança posicional, acredito que o Sporting CP de Amorim deverá rodear Vietto de jogadores mais capazes de entender a linguagem futebolística do argentino, que ora alimentem a sua capacidade goleadora, ora preconizem um jogo mais associativo. Um bom exemplo ilustrativo deste entendimento foi a fugaz coexistência de Vietto e Bruno Fernandes no “onze” verde e branco. Porém, caso os leões não sejam capazes de criar essa envolvência ao argentino, muita da dependência ofensiva que outrora foi colocada em Bruno Fernandes corre o risco de ser transferida para as costas do ’10’ verde e branco, que ainda está a dar os seus primeiros passos de leão ao peito. Agora, a qualidade para ser génio e figura deste Sporting CP está toda lá, da cabeça aos pés do talentoso argentino, que quer relançar a carreira, e que, desde que chegou a Alvalade, marca o ritmo dos ataques leoninos.

Artigo revisto

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