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“O SJ apela aos jornalistas que cobrem as actividades do FC Porto (…) para que continuem a desempenhar a sua missão com a maior coragem e a resistir à intimidação física ou psicológica”. Foi deste modo que o Sindicato dos Jornalistas (SJ) reagiu quando o jornalista Valdemar Duarte foi insultado por Pinto da Costa e agredido por vários seguranças em pleno Estádio do Dragão. Perante tal situação, a organização recomendou “coragem” e expressou “solidariedade”; já quando se trata do presidente do Sporting, Bruno de Carvalho (BdC), a denunciar o papel parcial de alguns jornalistas, coloca-se o governo ao barulho e aconselha-se os profissionais dos media “a procederem criminalmente”. Pequena nuance: quando, em 2009, o carro onde Pinto da Costa seguia atropelou um jornalista e seguiu viagem, o SJ foi menos audaz – na altura apenas disse apoiar a vítima “caso [esta] pretenda apresentar queixa”. Nada de conselhos, portanto.

Ainda esta temporada não acabou e o Sporting já teve um ministro (Pires de Lima) e uma deputada europeia (Ana Gomes) a tecer considerações sobre os seus destinos. Esta nota do SJ é, portanto, apenas mais um episódio deste exótico desfile de figuras de outros quadrantes da vida pública que só parecem querer meter a foice em seara alheia quando o assunto é o clube de Alvalade. Pela minha parte, não escondo que prezo muito a existência e o papel dos sindicatos – uma posição que, a propósito, não estou certo que seja muito popular nos dias que correm. É um facto que, sem eles, a nossa frágil democracia seria ainda mais de fachada, uma vez que a finalidade destes é equilibrar a balança patrões/trabalhadores dando voz aos que menos força têm.

Contudo, o desempenho de funções de responsabilidade, como é o caso do SJ, deve ser feita com equidistância, sob risco de se acabar a “bater” sempre nos mesmos. A este respeito, tenho pena de não ter guardado uma frase do jornalista Alexandre Santos, da RTP, escrita no Facebook a propósito de um episódio em que praticamente todos os jornalistas presentes numa conferência de imprensa do Sporting abandonaram a sala em protesto pelo atraso na apresentação de um jogador. Na altura, o referido jornalista era o único que não bradava slogans de peito cheio contra o Sporting, e aconselhou os colegas a não serem “fortes com os fracos e fracos com os fortes”. Quer se queira quer não, comparado com Porto e Benfica, o Sporting dos últimos anos era – e ainda é – muito mais frágil a todos os níveis. Desse modo, torna-se também um alvo mais apetecível para aqueles que querem “mostrar serviço”. No entanto, enquanto futuro jornalista, quero ser defendido de todos e não só daqueles contra quem é mais fácil engrossar a voz.

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Seria bom que o Sindicato se pronunciasse sobre este tipo de trabalhos pouco profissionais e a roçar a provocação

Consigo compreender que a chegada de BdC ao futebol português tenha subvertido a imagem de clube pacífico (e passivo) que muitos tinham do Sporting. Desta forma, e dito de forma simples, em vez de serem dois, agora são três a fazer barulho. Mas aí é que está: os outros dois não ensinam nada (nada mesmo!) tanto em matéria de inflamar as suas hostes como no que toca a boas relações com os media (aqui, contudo, é necessário fazer um parêntesis para esclarecer que as relações do Porto e, sobretudo, do Benfica com alguns meios de comunicação são até demasiado amistosas, e é justamente isso que o presidente do Sporting critica). Dito isto, apetece colocar algumas questões:

– onde estava o SJ quando Luís Filipe Vieira invadiu um estúdio da SIC em directo?

– não consta também que o SJ tenha tomado posição quando LFV apelidou, em 2005, vários jornalistas de “jagunços”, “lixo”, “porcaria” e os chamou de pessoas “sem valores de família”, acusando um profissional em concreto de “ser pago para dizer mal” através de “almoços, jantares e charutos” para depois escrever artigos “encomendados” (curioso constatar que, há uma década, Vieira era da opinião de que se podia corromper alguém através da oferta de refeições…). Por que motivo o SJ não actuou?

– onde estava o SJ quando o Benfica emitiu um comunicado a acusar, em tom irónico mas explícito, um jornalista do Correio da Manhã de fumar “substâncias proibidas”?

– onde estava o SJ quando Pinto da Costa empurrou um jornalista em directo?

– onde estava o SJ quando Pinto da Costa chamou “parolo” a um jornalista à frente das câmaras?

– onde estava o SJ quando (o mais do que reincidente) Pinto da Costa disse em directo que há jornalistas que “gostam de mexer no esterco”?

– onde estava o SJ quando Rui Cerqueira, ex-jornalista e depois funcionário do Porto, agrediu um antigo colega ao pontapé?

– onde está o SJ quando os jornais desportivos se dirigem, a um ritmo quase diário, a BdC como “Bruno”, e onde estava quando o jornalista d’A Bola, Fernando Guerra, escreveu um artigo intitulado “E agora, Bruno Miguel?”?

– onde estava o SJ quando um jornalista deturpou as palavras de Rui Vitória quando se dirigiu a Jorge Jesus, originando uma declaração evitável do treinador do Sporting?

– onde estava o SJ quando Alexandre Pais, à data director do Record, escreveu, em resposta a José Diogo Quintela, que a decisão de o jornal não investigar o Apito Dourado era deliberada porque os jornais desportivos não iriam “trair” o futebol. Eis as palavras exactas: “quando o futebol perder de todo a credibilidade – traído por aqueles a quem dá de comer – aos generalistas não faltarão outros temas para exibir barba rija. Mas, morto o futebol, o Record perderá a razão de existir. Que mexam no lixo que os tribunais largaram. Nós pertencemos a um circo que vive de emoções – de golos e de erros, títulos e de frustrações. E não temos vergonha disso.”

– Nuno Farinha, director-adjunto do Record que tem estado na linha da frente no que toca à divulgação da propaganda do Benfica (escrevendo, por exemplo, um artigo onde defende que Renato Sanches é o melhor jogador da liga), surgiu na gala dos encarnados ao lado de João Gabriel, director de comunicação do clube da Luz, que por sua vez foi recentemente surpreendido num restaurante enquanto almoçava com Octávio Ribeiro, o director do Correio da Manhã. Que comentário do SJ merece o comportamento de Farinha? Pelos vistos, nenhum.

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Onde estava o Sindicato dos Jornalistas quando Pinto da Costa empurrou um jornalista em directo?

Enquanto estudante de Jornalismo estou, como é óbvio, particularmente atento à classe profissional a que espero em breve vir a pertencer. Contudo, acontece que raras vezes oiço falar do SJ. Correndo o risco de poder estar a ser injusto para com pessoas que dispõem do seu tempo por acreditarem na necessidade de um jornalismo mais certeiro e independente, devo dizer que não vejo nesta organização a combatividade, a eficácia e a participação cívica que um sindicato por norma deve ter. Mesmo não querendo falar por mais gente, e estando consciente de que os tempos não estão para grandes sindicalismos, julgo que a maioria dos estudantes e jovens jornalistas que fui conhecendo também não vê no SJ um bastião incontornável no que toca à defesa da classe. E, de facto, há alguns motivos para isso. Uma vez que o SJ não é, como se sabe, um organismo orientado unicamente para o desporto, faz sentido alargar o leque de perguntas a outras áreas. Vejamos:

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