sexto violino

Está a nascer, ao que parece, um bom jovem jogador para os lados da Luz. Renato Sanches é o seu nome, 18 anos a sua idade… 30 milhões o seu valor. Será engano? Não, há quem diga isso sem se rir. Muitos deles serão, até, os mesmos que se indignaram com os valores que o Sporting ofereceu a Jorge Jesus, momentaneamente muito preocupados com a origem do dinheiro e escandalizados com uma determinada ditadura africana. Já aquilo que leva os clubes de Jorge Mendes, a desembolsar grandes quantias por miúdos do Benfica, ou a origem do dinheiro que a NOS irá pagar às águias, não oferece quaisquer dúvidas – a visão de que um negócio é bom ou mau, transparente ou suspeito, conforme o clube que o faz, está a vingar em Portugal.

O Benfica pode não saber segurar treinadores bem-sucedidos e a sua famosa “estrutura” pode muito bem não ser mais do que o tal “mito” de que falava Ricardo Araújo Pereira, mas um mérito tem de ser dado ao clube da Luz: na hora de “saber vender o seu peixe”, não há melhor em Portugal. Quem diz que a hegemonia futebolística se joga apenas dentro de campo ou é ingénuo ou pouco honesto e, nesse sentido, o que se passa nos bastidores tem, muitas vezes, tanta ou mais importância do que os golos que se marcam e se evitam. Hoje, porém, falarei exclusivamente da vertente mediática dessas manobras de bastidores, e daquilo que os holofotes podem fazer em prol de um clube.

O tempo de antena dado ao comentador X em vez de Y, a pretensa imparcialidade mal disfarçada do jornalista Z, que faz campanha manobrando factos de forma ardilosa, a escolha desta ou daquela linha editorial, a colocação de profissionais “de confiança” em locais privilegiados, todas estas práticas andam de braço dado com o jornalismo – não só o desportivo e não só em Portugal, bem entendido. Poucos negarão que as promiscuidades entre media e política existem, mas o número de negacionistas já subirá caso esteja envolvido o clube desportivo da sua predilecção. Afinal de contas, o desporto é um palco onde a emoção joga um papel importante, e a desculpa de que “futebol também é irracionalidade” tem as costas largas.

Não devemos perder de vista que, nos últimos anos, a falta de regulação no futebol – e no mundo dos negócios em geral – elevou a fasquia dos valores praticados para níveis nunca antes vistos (7 das 10 maiores transferências de sempre do futebol aconteceram nos três últimos anos), aumentando cada vez mais a imoralidade das transacções entre clubes num mundo que produz riqueza suficiente para que toda a humanidade tenha uma vida digna, mas cuja distribuição está cada vez mais concentrada em meia dúzia de mãos.

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Uma outra forma de “colinho”

Porém, mesmo tendo em conta o cenário cada vez mais delirante do futebol-negócio, as artimanhas benfiquistas não deixam de se fazer notar pelo arrojo. Voltando a Renato Sanches e aos 30 milhões que, supostamente, o miúdo “vale”, o departamento de propaganda encarnado não tardou a pôr a circular a existência de uma suposta “sondagem” de 30 milhões (!) pelo jovem médio. Note-se que, no último dia do mercado de Verão, e numa altura em que Vieira estava em cheque após a saída de Jesus para o Sporting, já tinha sido avançada a recusa de uma proposta de 20 milhões por Gonçalo Guedes, que então somava um total de 37 minutos disputados no campeonato português. Uma outra narrativa então criada (não ouso chamar-lhe notícia) dava conta de uma possível mudança de Guedes para Barcelona – e não, não se tratava da sua viagem de finalistas. É sabido que os empresários, os jornais e os próprios clubes inventam muitos supostos factos, mas lançar uma história como esta é apenas fazer das pessoas parvas. O problema é que há umas que – sem noção alguma – não se importam.

Não está em causa o potencial de Renato Sanches ou de Gonçalo Guedes, que são quem menos responsabilidade tem em tudo isto. Ambos já mostraram bons pormenores, mais o primeiro do que o segundo, mas daí até serem craques vai uma grande distância. A notícia dos pretensos 30 milhões por Sanches surgiu, pasme-se, ao fim de cinco jogos (286 minutos) do médio na equipa principal do Benfica. Apetece, pois, perguntar onde estará Renato Sanches daqui a outros 286 minutos de competição. No Barcelona talvez não seja (apenas porque os culés ainda não podem inscrever jogadores, claro), mas não será completamente descabido dizer que poderá já ter ganho um lugar nas próximas escolhas de Fernando Santos. Iniciada que está a campanha para levar Guedes ao Europeu, Sanches poderá igualmente, com algum jeitinho, integrar os 23 da selecção de Mendes, agora que Tiago se lesionou com gravidade e que se ficou a perceber um pouco melhor o repentino desaparecimento de Adrien das convocatórias – o médio do Sporting, para além de não beneficiar das campanhas de propaganda do outro lado da Segunda Circular, deixou recentemente de ser representado pelo referido empresário.

Antes de terminar, não consigo deixar de notar a ironia que é ver os adeptos encarnados maravilhados com a sua “cantera”. A formação é muito importante para o futebol, embora concorde com aquilo que sempre ouvi de muitos benfiquistas: por si só, ela não ganha campeonatos. Tenho isto bem presente, uma vez que vi, durante vários anos, o plantel do Sporting ser composto quase exclusivamente por miúdos a quem se pedia mundos e fundos.

Claro que o Benfica não está em vias de jogar só com atletas vindos dos seus quadros inferiores, uma vez que Guedes e Sanches são os únicos casos num clube tão peculiar que, dos outros dois supostos “canteranos” com presença regular na equipa principal, um – Victor Andrade – foi comprado por 4 milhões (sensivelmente um salário anual de Jesus) ao Santos e outro – Nelson Semedo – chegou à Luz com quase 19 anos (ainda me recordo de benfiquistas quererem à força que Nani não fosse formado no Sporting porque tinha chegado a Alvalade já com 16 primaveras). Ainda assim, nessas épocas em que o Sporting era capitaneado por miúdos de 18 e 19 anos, lembro-me de muitos benfiquistas escarnecerem da importância que o seu rival atribuía à formação. Agora, é curioso ver muitos deles a falarem mais de formação nos últimos 4 meses do que no resto da sua vida anterior. É sinal de que algum valor a formação de jovens futebolistas há-de ter… embora esse valor não seja 15 ou 30 milhões por cabeça.

Foto de capa: Federação Portuguesa de Futebol