José Maria Ricciardi faz-me lembrar aqueles capitalistas de charuto nos beiços sentado numa larga poltrona, olhando com desdém e desconfiança para os que não partilham a mesma posição social que ele. E isso, como marxista que sou, provoca-me náuseas, dá-me arrepios e, enquanto sportinguista, gera-me medo. Medo, pois claro, que esse senhor venha a ser presidente do meu clube.

Dos vários debates televisivos que foram realizados, seja entre todos os candidatos seja em parelha, destaco uma expressão de José Maria Ricciardi num deles que, de forma muito vincada e sobranceira, referiu: “Isto não está para amadores ou estagiários”. Puxou os seus galões de banqueiro conceituado (!?), alegando os seus dotes de gestor exímio (?!) para dizer que o Sporting precisa urgentemente de uma reestruturação nas suas contas e de que as finanças do clube são atualmente insustentáveis. Como se não bastasse, na entrevista ao jornal Record do passado dia 12 de agosto, o banqueiro continuava na mesma senda de velho do Restelo. Diz a dado momento: “Já o disse e não quero ser mal interpretado, mas sinceramente isto não está para estagiários. O Sporting tem um défice de tesouraria este ano completo na casa dos 60 milhões de euros.” (p. 24).

Fazer oposição a quem construiu um pavilhão, fez renascer algumas das modalidades mais históricas no universo sportinguista, tornou o futebol leonino mais competitivo com investimentos sem paralelo, é algo que se pode tornar num exercício complicado para qualquer um dos candidatos. E é por isso que quanto mais vejo, leio e assisto aos debates entre os candidatos à liderança dos Leões mais convicto fico de que o principal problema de Bruno de Carvalho foi não ter sido suficientemente equilibrado (desde logo mentalmente…) para perceber que a luta contra os “interesses instalados” – leia-se instalados, desde logo, no interior do clube – devia ser feita com moderação e cautela. Eles andam aí, meus caros. E Ricciardi, sinceramente, parece ser um deles. Se o Bruno fosse mais contido nas palavras e na impulsividade com que tratou dossiês sensíveis, talvez tivesse sido um dos melhores presidentes do Sporting. Abaixo, claro está, de João Rocha, o eterno presidente leonino.

Ricciardi fez alguns comentários polémicos
Frame: SIC Notícias

Mas voltando ao Sr. Banqueiro Ricciardi, até posso reconhecer que as contas do Sporting podem não ser as melhores do Mundo. Mas puxar dos galões para se afirmara necessidade de uma lógica empresarial ou bancária para o Sporting Clube de Portugal parece-me ridículo e, sobretudo, desfasado daquilo que deve ser um clube de futebol.

O mais recente debate entre as SAD dos clubes e os próprios clubes mostra claramente que os adeptos não estão satisfeitos com o “futebol-empresa” (para uma análise detalhada sobre a cisão das SAD face aos clubes, ver a peça jornalística que saiu no jornal O Jogo do dia 2 de setembro). Haverá, pois, que cumprir as contas, não existem grandes clubes com uma tesouraria frágil, isso é certo. Mas cuidado: se este banqueiro entra para presidente, o Sporting correrá o risco de deixar de ser a maior potência bancária nacional em vez da maior potência desportiva nacional. Tivemos já muitos banqueiros e pessoal da finança no nosso clube e todos vimos as consequências no nosso clube: plantéis paupérrimos, fracamente competitivos ou, como todos nos chamavam, os “Campeões do Natal”. Nas modalidades assistiu-se a uma pobreza franciscana, praticamente reduzidas à mera existência, sem qualquer espírito competitivo e ganhador. E isso, essa cultura do futebol negócio, não queremos novamente, obrigado.

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Se José Maria Ricciardi afirmou que a situação do Sporting não é para estagiários então eu afirmo que este Sporting não é certamente para banqueiros.

Foto de Capa: Sporting CP

artigo revisto por: Ana Ferreira

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Comentários

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O Simão é psicólogo de profissão mas isso para aqui não importa nada. O que interessa é que vibra com as vitórias do Sporting Clube de Portugal e sofre perante as derrotas do seu clube. É um Sportinguista do Norte, mais concretamente da Maia, terra que o viu nascer e na qual habita. Considera que os clubes desportivos não estão nos estádios nem nos pavilhões, mas no palpitar frenético do coração dos adeptos e sócios.                                                                                                                                                 O Simão escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.