sextoviolino

1) É sabido que os Sportinguistas são frequentemente chamados de “chorões”, “calimeros”, “antis”, etc. por parte dos adeptos do Benfica. Não vou discutir a justeza dessas afirmações, que considero não só despropositadas como também potencialmente perigosas, porque varrem para debaixo do tapete a necessidade de uma discussão séria sobre o futebol português. Mas a realidade é que a imagem de pessoas despropositadamente contestatárias está, infelizmente, muito associada aos adeptos do Sporting.

Foi, por isso, com curiosidade que constatei, depois da final da Liga Europa, que grande parte das considerações de adeptos benfiquistas sobre o jogo falavam quer do Sporting (porque muitos Sportinguistas apoiaram o Sevilha) quer da “cabala” montada por Michel Platini e pela UEFA contra eles (porque, servindo-me de um “argumento” que tantas vezes oiço quando aponto em conversas os erros dos juízes em prejuízo do Sporting, “descarregaram nos árbitros o facto de não terem sido capazes de ir para cima do adversário e marcar mais um golo do que ele”).

Sobre a relação entre Benfica e Sporting, o que se passa é que existe uma rivalidade. É, portanto, normal que a maioria dos sportinguistas não torça pelo Benfica, tal como o contrário também acontece. É assim entre os rivais de todo o mundo. O Benfica, lamento dizê-lo, não é nenhum caso excepcional nem despoleta nos Sportinguistas outro sentimento que não seja a rivalidade – a mesma que os benfiquistas também nutrem pelos adeptos leoninos. Já sobre Platini e a UEFA, pede-se um pouco mais de coerência a quem ridiculariza o Sporting por estar na linha da frente da luta pela transparência do futebol português – nas devidas instâncias, não nos jornais e em bocas desorientadas contra a UEFA. O aparecimento do Movimento Basta (organização na qual, note-se, não me revejo a 100%) foi criticado por muitas das mesmas pessoas que, depois de Turim, subscreveram uma petição “contra a UEFA” (quase 25 000 assinantes) e que chegaram ao ridículo de tentar convocar uma “manifestação” para o dia da final da Champions. A estas pessoas, repito, pede-se maior coerência.

2) Depois de uma lista de 30 pré-convocados claramente provocatória, a escolha final de Paulo Bento até pareceu quase pacífica. Mas há escolhas que têm de ser debatidas. As mais escandalosas, falando agora dos 30 pré-convocados, são as inclusões de André Almeida, André Gomes, Ivan Cavaleiro e João Mário – opções que se tornam ainda mais incompreensíveis quando há jogadores melhores que ficaram de fora. Cédric (cuja ausência dos 23 até perceberia, mas dos 30 nunca, ainda para mais quando é preterido em detrimento de André Almeida) e Adrien são os casos mais gritantes; nunca me passaria pela cabeça convocar Carlos Mané, mas se Cavaleiro lá está então a presença do extremo do Sporting teria feito muito mais sentido. Para que se tenha uma noção das coisas, nada melhor do que deixar os números falar: no que diz respeito ao campeonato, Mané (o menos utilizado dos 3 sportinguistas) fez 843 minutos; os atletas do Benfica, todos somados, perfizeram 1308.

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Que não se pense que estou a dar primazia aos meus gostos pessoais. Simplesmente, os Sportinguistas não têm culpa de que os casos mais estranhos a nível de ausências envolvam jogadores do seu clube… Foi assim com Manuel Fernandes em 1986 (marcou 30 golos no campeonato), com Moutinho em 2006 e 2010 e repete-se agora com estes três atletas. Se Bento teve a decência de prescindir de Gomes e de Cavaleiro, confesso que não consigo perceber a ida de André Almeida. Mesmo tendo em conta a lesão de Sílvio, o 34 do Benfica teria, pelo menos, Miguel Lopes, Antunes e Cédric claramente à sua frente. É certo que a polivalência deve ser um argumento a considerar (e Lopes também faz os dois flancos), mas apenas se estivermos a falar de jogadores que mereçam estar sequer a ser comparados. Não deve servir nunca para sustentar que jogadores suplentes (André Almeida começou a jogar em Abril) e que pouco se destacaram passem à frente de quem merecia realmente ser chamado.

"É certo que o seleccionador tem sempre a última palavra, mas algumas das opções de Paulo Bento para são difíceis de compreender"  Fonte: Zerozero
É certo que o seleccionador tem sempre a última palavra, mas algumas das opções de Paulo Bento são difíceis de compreender 
Fonte: Zerozero

Já Adrien é o exemplo de como uma carreira pode ser comprometida duas vezes pelo mesmo treinador: Bento lançou o médio no Sporting quando este tinha 18 anos e colocou-o sempre a trinco, fora da sua posição natural – as exibições não foram as melhores e o jogador começou a ser criticado, entrando numa roda-viva de empréstimos que só acabaram há duas épocas; agora, o mesmo Bento recusa levar um dos melhores médios do campeonato ao Mundial, impedindo a valorização do jogador e a concretização de um sonho pessoal. Com todas estas “brincadeiras”, certo é que, no próximo Campeonato do Mundo, Adrien terá 29 anos. Será, provavelmente, a sua última oportunidade de disputar a competição desportiva mais importante do planeta. Ver isto a acontecer ao mesmo tempo que André Gomes e João Mário são pré-convocados não é fácil de compreender…

3) Tenho de dar os parabéns a Daniel Carriço. Nunca me encheu as medidas enquanto central (ser lançado às feras com 20 anos num Sporting em ruínas e jogar ao lado de Anderson Polga também não é fácil…), mas sempre apreciei o seu profissionalismo. As suas palavras após a conquista da Liga Europa são um bom exemplo daquilo que é ser um grande Sportinguista: não teve problemas em elogiar a excelente equipa do Benfica, disse que “deve tudo” ao clube de Alvalade e que “o coração não muda e ficará sempre do Sporting”, além de ter tido a seriedade, a frontalidade e a presença de espírito para, no meio da festa, lembrar os jornalistas daquilo de que muita gente por vezes se esquece e até ridiculariza: o Sporting podia ter ido ainda mais longe neste campeonato se não fossem algumas arbitragens. Depois de vários anos “a penar”, Carriço merece como poucos a glória alcançada. Pena que tal nunca tenha acontecido ao serviço do clube do coração… A jogadores como este, só consigo desejar o melhor possível. Foi um orgulho ouvir estas palavras!

4) Leonardo Jardim saiu, Marco Silva entrou. Confesso que a saída do madeirense me apanhou desprevenido, mas acabo por percebê-la. E o Sporting continua. Tenho a convicção de que a experiência com o novo treinador será de extremos: ou correrá muito bem, ou correrá muito mal. Esperemos que se verifique a primeira opção. Que tenha toda a sorte do mundo e que confirme num grande clube as boas indicações que deixou no Estoril, é o meu desejo.

 

P.S.: Mesmo debilitado fisicamente, Cristiano Ronaldo conquistou ontem a segunda Liga dos Campeões da carreira, a tão ansiada “décima” do Real  Madrid. 17 golos em 11 jogos é um registo assombroso. É um orgulho ver que o maior produto da formação do meu clube é o melhor jogador português de todos os tempos e um dos maiores de sempre a nível mundial. E ele promete não parar por aqui. Notável! Os parabéns a Carriço estendem-se também a Ronaldo