Temos tido, nos últimos anos, uma mudança de paradigma no que toca à formação de jogadores de futebol em Portugal. Quando há uns anos se falava de jovens jogadores portugueses, vinha sempre à baila o nome do Sporting CP, de Alvalade, de Alcochete. E, aliás, ainda há pouco tempo, isso reflectia-se, e reflectiu, na seleção portuguesa que ganhou o primeiro campeonato europeu.

No entanto, o cenário mudou. Ultimamente, o Sporting CP tem vindo a ser ultrapassado em competência e qualidade no que toca à formação, principalmente porque se começou a apostar em comprar talento em vez de o desenvolver. O problema é que, com esta política, a competência fugiu para o rival do outro lado da Segunda Circular, o que nos fez perder terreno no campo de prospecção de talento, deixando que os nossos rivais chegassem mais cedo aos jovens promissores.

Pelo menos é nisto que passámos a acreditar, depois de começarmos a ver que os “meninos de ouro” saem apenas dos rivais. Além disso, podemos olhar também para os resultados que os juniores e que a equipa sub-23 têm vindo a apresentar. No entanto, nas últimas semanas, parece ter-se aberto em Alcochete a porta de uma mina de ouro.

Se há uns meses/semanas até a qualidade dos colchões de Alcochete servia de desculpa para explicar a menor qualidade formativa, de há uns dias para cá não param de surgir “tubarões” interessados nos nossos “meninos de lata”.

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Isto talvez se deva ao facto de termos aberto Alvalade ao Alquimista do futebol, que consegue vender até qualquer garoto de palmo e meio de qualidade, desde que entre no seu carrossel de influência.

Alcochete
Há vários jovens que se estão a aproximar da equipa principal
Foto: Sporting CP

Se não, vejamos. A formação, que não apresenta competência nem qualidade e de onde já não sai talento há anos (quando surge esta narrativa, todos esquecemos a tal equipa nacional que ganhou um europeu com quatro jogadores dos quadros do Sporting CP, quer gostemos ou não), tem, de repente, nos seus quadros Eduardo Quaresma e aquele que “vai pagar o treinador do Sporting”, e tem AC Milan e Atlético de Madrid loucos por comprá-lo. Tem Nuno Mendes, jogador que Liverpool não larga. E mesmo Palhinha, que não serve para substituir Borja ou Eduardo, já está a caminho de Inglaterra. Não esquecer também Domingos Duarte, que está a jogar regularmente numa das equipas sensação do campeonato espanhol, e Demiral, que se começa a afirmar no campeão italiano. Até Bruno Paz, que, apesar de ser um jogador de muita qualidade, passou a maior parte da última temporada lesionado, tem interessados em Inglaterra. Por acaso, o clube interessado faz parte do carrossel do mágico que tem agora acesso a Alcochete. Mais uma coincidência.

O que é que todos estes jogadores têm em comum? Nenhum deles servia para o Sporting CP, pelo menos até agora. Inclusive, não davam retorno financeiro ao clube. E mesmo os que ainda estão a ser falados para sair deverão fazê-lo pelo preço de tabela do Alquimista já falado neste texto. O que daqui podemos concluir é que há qualidade onde o Alquimista consegue tocar. O problema maior desse artista/mágico é que a maior parte do “material” que ele consegue “transformar” em “Ouro” fica para ele. Os clubes não passam de veículos para que ele possa aplicar a sua arte.

Assim sendo, e agora que o deixámos entrar na nossa Academia, já podemos estar confiantes quanto à qualidade da nossa formação, tendo a certeza de que iremos conseguir vender os nossos jovens por, no mínimo, 15 milhões. Ou então, talvez, a qualidade sempre lá esteve, mas nós é que nos deixámos levar, mais uma vez, pela oratória de algumas entidades “opinion makers” e pela comparação com outra academia, cujas vendas ao quilo nos turvavam a visão. Não se esqueçam. A qualidade de um jogador não se mede pelos milhões com que são negociados, mas pela quantidade de lances decisivos que consegue mostrar em campo.

Ah, para terminar, e para reforçar esta teoria dos 15 milhões, não esqueçam de que alguns dos jovens de Alcochete estão em fim de contrato. Por isso, ou vendem pelo preço que o alquimista quer, ou saem a custo zero.

Pelo menos agora podemos ter a certeza de que continuamos a ter uma das melhores formações do mundo, mesmo que tenham andado a dormir durante anos em colchões de palha, palha essa que nos andam a tentar dar a comer. E parece estar a resultar.

Foto de Capa: Sporting CP

Artigo revisto por Mariana Plácido

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