Muito se tem falado da falta de qualidade da formação do Sporting e de um período em que deixámos escapar muito talento para o outro lado da Segunda Circular. No entanto, o que tenho visto é muita publicidade, muito marketing de um lado e total falhanço negocial do outro.

Há quem diga que o problema não será bem uma questão de equipas técnicas, recrutamento e atletas, mas falta de qualidade nos colchões – mas como eu não entendo muito de futebol, talvez seja esse mesmo o problema.

Em termos práticos, se estivermos a medir o sucesso da nossa formação tendo por base o facto de não saírem Figos e Cristianos Ronaldo todos os anos, então estamos a falhar redondamente. Se estamos a falar de jogadores com qualidade para poder acrescentar algo à equipa principal, então não. Porque eles vão rodar para outros clubes, em campeonatos tão ou mais competitivos que o nosso, e conseguem demonstrar qualidade e capacidade.

Jogadores como Palhinha, Matheus Pereira, Domingos Duarte ou Demiral são jogadores que foram dispensados/emprestados num momento conturbado do clube, em que todos bradavam que o Sporting não conseguiria ter equipa para competir. Dispensando esses, fomos buscar Ilori e Neto (Serão melhores que Domingos e Demiral?) ; Eduardo Henrique e Doumbia (Palhinha não será superior a algum deles?) ; e para jogar atrás do ponta de lança andamos aos papéis para encontrar alguém, ainda mais agora com a saída de Bruno Fernandes, quando podíamos ter aproveitado Matheus Pereira (pois colocá-lo a jogar encostado às linhas dava para perceber que não ia dar).

Anúncio Publicitário

Qualidade há. Basta apostar neles com convicção e ter uma comunicação amiga que promova os “Meninos de Ouro”, aliada a super-agentes que vendem qualquer um aos seus clubes da rede. Isto se o objetivo for vender e não retê-los para ajudarem a equipa. Porque vender um jogador da formação por dez milhões para ir comprar outro por sete milhões, cujo valor é indefinido, com certeza sairá mais barato não vender. (E sim, esta conta ainda nos daria um saldo positivo de 3 milhões, que pode não compensar, caso quem vem não renda desportivamente.)

Podem argumentar com a comparação da formação do Seixal (e comparo com esta, uma vez que é a que tem feito as maiores vendas, ultimamente), mas de momento ainda não vi de lá sair nenhum melhor do mundo. E não venham com os valores com que foram vendidos, porque todos sabem como se chega a essas quantias, tendo que se considerar os clubes que estão no negócio, qual o empresário, etc… Um jogador de 120 milhões, negociado por outro empresário e vendido a outro clube, talvez nem chegasse a metade desse valor. É relativo.

A qualidade é como o azeite. Com o tempo vem sempre ao de cima. Por muitas parangonas, boa comunicação social ou marketing que se use, a carreira do jogador é que vai mostrar de onde saem os melhores.

É verdade que, para o clube que vende, pouco interessa se aquele jogador vai ser um melhor do mundo no futuro. O que lhe interessa é a expectativa que se consegue criar para extrapolar o valor de venda. No entanto, depois de muitas saídas falhadas, sem grandes resultados práticos, o dourado desaparece. E de pouco importará se, consecutivamente, se ganham prémios no Catar.

Jovane é mais um extremo made in Alcochete, mas ainda procura o seu espaço na equipa principal
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Se formos então a comparar as Academias, (e novamente reforço que estou a comparar a de Alcochete com a do Seixal, apenas pelas pérolas que de lá saíram, ultimamente) não estamos tão distantes. Qualidade há, basta apostar nela com convicção, sem medo e não mandar rodar para outros clubes durante anos, ou entrar somente a cinco minutos do fim do jogo. Damos milhões por alguns com qualidade muito aquém e damos-lhes muitas mais oportunidades, que eles constantemente desperdiçam.

Os dois últimos meninos de ouro que saíram do futebol português também eram totalmente desconhecidos até que um treinador apostasse e adaptasse a equipa à sua forma de jogar, ou as suas características se enquadrassem na forma de jogar da equipa. Seis meses depois, saíram para equipas onde não conseguiram singrar, talvez por não se enquadrarem nas ideias do treinador. Curiosamente, até hoje, o jogador oriundo do Seixal que mais sucesso teve numa das mais competitivas ligas foi vendido num daqueles famosos pacotes de 15 milhões. Isto porque, apesar da sua qualidade, o treinador não apostou nele.

Nem tudo o que é nosso é mau e nem tudo o que é dos outros é bom. Depende, muitas vezes, da publicidade e de quem vende. Apesar de eu considerar que pelo menos um dos meninos de ouro do Seixal tem potencial de ser um dos melhores do mundo. Dependerá de muitas condicionantes.

Depois, os miúdos do Seixal têm outra vantagem. Quando se é jovem (e não só os jovens), é bem mais fácil entrar numa equipa que ganha, que está confiante. Qualquer jogador que jogue numa equipa rotinada, com estabilidade de vitória, com jogadores de qualidade ao seu lado, irá parecer sempre melhor. Os de Alcochete, quando são lançados é com a missão de serem eles a resolver, porque os que lá estão são fracos. No fundo, são lançados às feras e constantemente devorados

Pedro Mendes, quando entrava, mostrava bons sinais, mas para isso era preciso chegar lá a bola. Sporar, até agora, não fez melhor. A sorte do Pedro Mendes foi Luiz Phellype se ter lesionado ou já estaria encostado.

Jovane desapareceu de repente e sempre se mostrou dos extremos mais relevantes no jogo do Sporting. Podem dizer que não jogava por estar lesionado, mas ele saiu da equipa antes disso, e estava tapado por jogadores que ainda não mostraram ser melhores que ele.

Podem dizer que estes miúdos ainda precisam de aprender, no entanto os que ocupam os seus lugares não mostram saber mais que eles e têm mais oportunidades. Aos jovens, se não lhes for dada regularidade a jogar, nunca ganharão o ritmo que necessitam. O melhor exemplo é Rui Patrício, que talvez nunca tivesse chegado a indiscutível da Seleção campeã europeia se não fosse um treinador que, teimosamente, apostou nele, apesar dos erros e da contestação dos adeptos.

Mas quanto à qualidade da formação de Alcochete, se ficarmos presos a desculpas como a da fraca qualidade dos colchões e não apostarmos em melhorar e inovar, com certeza outros irão cavando um fosso cada vez maior, até que a Academia Sporting deixe de ser relevante. Não poderemos viver eternamente do nome de Figo e Cristiano Ronaldo. E esses dois até eram capazes de nem colchão ter.

Foto de Capa: Sporting CP

Artigo revisto por Joana Mendes