Os ídolos nunca saem de cena – Entrevista a João Benedito

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BnR: Pegando nos três principais jornais desportivos, a seleção feminina de futebol conseguiu o apuramento inédito para o europeu mas apenas um dos jornais deu o destaque principal a este assunto. O que é preciso fazer por parte das modalidades ou do futebol feminino para que isto mude?

JB: Temos de criar aqui dois patamares de análise. O primeiro, o positivo, é que já existe um jornal desportivo a dar este destaque. Estamos a falar neste caso de órgãos privados e autónomos; eles colocam o que entenderem. Quando existirem os tais blackouts, não devem ficar indignados com tal, porque são tão  autónomos numa situação como são autónomos na outra. Não são, ou não deviam ser, órgãos políticos.
Depois, é um dia marcante, mas temos também de perceber que é um apuramento e não um título. É um trabalho que tem sido fantástico, e aqui da FPF em qualquer uma das vertentes do futebol e modalidades. O futebol de praia, o futsal, o futebol feminino, o futebol de formação e o futebol têm estado com um planeamento que têm posto em prática, e os resultados são prova disto. Os sub-21 que foram à final com o Rui Jorge, os seniores que ganham, o feminino que se apura, Portugal que foi a uma meia-final no futsal, o futebol de praia que é campeão do mundo, o futebol de formação que continua a dar cartas. Existe aqui um grande trabalho por toda a estrutura da FPF e, como é lógico, há que dar os parabéns à seleção feminina de futebol; mas não entrem em euforia, porque o caminho não termina aqui. Às vezes a euforia é um fim de linha e não dá continuidade ao trabalho que está a ser realizado.

BnR: Continuas a sentir o carinho quer dos adeptos do Sporting quer de outras equipas?

JB: São duas coisas muito boas que eu guardo da minha carreira desportiva. Em primeiro lugar, a forma como os adeptos do Sporting me tratam constantemente. E depois há também que perceber que a minha estadia no desporto, a nível competitivo, foi feita de forma transversal; que as pessoas, pelos princípios que empreguei, acho que não pode ser dissociado disto, e as conclusões têm sempre de ser tiradas por parte deste fator indicativo, acho que tive sempre uma postura correta e por vezes os atletas não têm esta postura correta devido à pressão de estar em campo, de ter de ganhar ou ser provocado. Eu, felizmente, tive a sorte de nunca passar das marcas e acho que isto foi transformado pelas pessoas por este carinho que me dão e é bom ver que para além dos clubes, e como deveria ser em tudo no nosso país, o trabalho das pessoas é que é valorizado.

Tifo do jogo Sporting vs Dortmund Fonte: Sporting CP
Tifo do jogo Sporting vs Dortmund
Fonte: Sporting CP

BnR: Agora no jogo com o Dortmund as claques apresentaram um tifo em que estavas lá ao lado de algumas das maiores figuras do Sporting. Há cinco anos atrás disseste: “Nem quero saber como é ganhar por outro clube”. Depois de acabares a carreira sentes que és mesmo uma referência do clube?

JB: Sim, é lógico que o clube são os seus sócios, os seus adeptos e quando há algo assim tão grandioso e poder estar em algo assim ao lado de alguns atletas que foram as tuas referências durante a infância e que nunca pensei poder, aos olhos de alguém, estar no mesmo patamar ou aparecer ligado a estas figuras. Eu lembro-me de ter conhecido o Damas pouco antes de ele falecer e ter sido dos momentos mais felizes da minha vida, neste dia em que fui a um núcleo com ele e que pude falar, em que pude privar com ele, uma pessoa que era uma referência para mim. Estar neste painel ao lado de pessoas que são uma referência do clube é indescritível, dá aquele prazer das conquistas, aquele prazer interior, não das palavras para fora, mas que preenche a pessoa. Não é preciso estar aqui a falar, aqui a berrar que fui bom ou que mereço isto ou aquilo, mas ver isto dá-me claramente o sentido de dever cumprido e a ideia de que ainda tenho mais a fazer neste clube.

BnR: Além de Vítor Damas tens mais algum ídolo?

JB: Eu nunca tive ídolos em quem me tentasse espelhar; tentava sempre recorrer ao que cada um fazia e tirar o melhor de cada um. Identificar características boas, características menos boas, coisas para fazer, coisas para não fazer… E nunca tive ninguém em quem me espelhasse; as minhas referências foram sempre referências do Sporting. Eu lembro-me de que, quando era pequenino, gostava do Joaquim Agostinho, adorava o Pedro Miguel Moura, o Vítor Damas, adorava aquelas pessoas no Sporting que ganhavam, porque era isto que me fazia manter a chama acesa. Porque, quer se queira, quer não se queira, o que liga os jovens aos clubes são sem dúvida as suas referências. Não há diretores, não há treinadores, não há pessoas que andem por fora na estrutura que possam servir de referência tão bem como os jogadores que estão dentro de campo. E eu estou à vontade para o dizer porque nunca vou estar novamente neste patamar; porque já o vivi dentro de campo, e estas são as referências, quando queremos cultivar um clube e queremos que as pessoas se identifiquem com este clube, principalmente os mais jovens que são o futuro, temos de dar palavra, protagonismo aos atletas. E estes sim é que vão trazer as pessoas e depois o resto do trabalho que é feito por trás; não tirando o mérito a ninguém, é um trabalho que também tem de ser valorizado, mas eu digo-o porque vivi e estas pessoas que referi eram pessoas que se calhar podiam ter pouca dimensão a nível mediático, mas com quem eu me identificava porque me faziam viver o clube.

Redação BnR
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