Marcel Keizer chegou ao Sporting CP há cerca de três semanas e o ar que se respira em Alvalade é um ar puro e fresco, cheio de vitalidade, completamente diferente do que se fazia sentir com a presença de José Peseiro. De um momento de desconfiança e até apreensão, Keizer trouxe consigo um futebol revitalizado, de encher o olho e que entusiasma os adeptos leoninos, mas sobretudo o próprio plantel leonino. É verdade que o tempo de analise é ainda curto e limitado, foram apenas três jogos e com um adversário perfeitamente acessível – sobretudo para a Taça de Portugal – mas a verdade é que os números são impressionantes e falam por si: em três jogos, os Leões conseguiram marcar 13 golos e sofrer apenas três. Uma equipa que praticava um futebol sofrível e tinha dificuldades em finalizar e apresentava lacunas em todo o processo defensivo, consegue nesta fase ter uma excelente média de golos por jogo – cerca de quatro marcados – e de sofrer em média um por jogo. Mas o que sobressai não são apenas estas estatísticas, mas como uma equipa que parecia perdida consegue num curto espaço de tempo mudar a conjetura em que se encontrava e aumentar em muito o seu rendimento quer coletivo, quer individual.

Marcel Keizer conseguiu até à data e num piscar de olhos, colocar novamente as expectativas leoninas em alta, as mesmas que foram esvaziadas por José Peseiro e que haviam ficado em “banho maria” com Tiago Fernandes. O treinador holandês veio mudar por completo o futebol leonino, não só dentro das quatro linhas, mas também fora das mesmas como por exemplo apresentando uma inovadora gestão das folgas. Pragmatismo e simplicidade. O novo treinador dos leões mantém o princípio holandês de jogar bom futebol, mas sem perder a noção de como o mais importante é ganhar.

Volto a reforçar que apesar de ainda ser algo bastante precoce, a entrada do holandês de 49 anos não podia ter sido melhor. Apesar das vitórias bem expressivas por 4-1 frente ao Lusitano Futebol Clube de Vildemoinhos e por 6-1 frente ao FK Qarabag, é no último jogo realizado contra o Rio Ave onde os Leões venceram e convenceram por 3-1 que me quero mais focar. Primeiro porque dos três foi o jogo com maior nível de exigência e em segundo por existirem vários pontos fundamentais que é necessário destacar e salientar. As diferenças para um passado recente são gritantes. Após uma viagem longa e desgastante, com pouco tempo de recuperação entre os jogos e sobretudo com pouco ou quase nenhum tempo de preparação, a verdade é que o Sporting entrou em Vila do Conde como não se via há algum tempo: com garra, fulgor e agressividade frente a um Rio Ave destemido e que tem mostrado grandes sinais na presente temporada.

Bruno Fernandes parece ir ao encontro da sua melhor forma e a dar muito maior dinamismo ao meio-campo leonino, juntamente com Wendel e Gudelj
Fonte: Sporting CP

Voltando as atenções para o que se passa dentro das quatro linhas e nas ideias que Keizer tem demonstrado em todo o seu processo e que tem passado para os seus pupilos e para o público no geral é de que é um fanático por jogar em 4x3x3. A primeira mudança face a José Peseiro que se apresentava sobretudo num 4x2x3x1 com um duplo-pivot defensivo – Battaglia e Gudelj – e com Bruno Fernandes no meio em terrenos ligeiramente mais avançados. Agora esse duplo-pivot foi anulado, invertendo-se o triângulo no meio-campo deixando Gudelj como o homem mais recuado na “posição 6” e deixando assim Bruno Fernandes e Wendel como os homens no miolo à sua frente, sendo que ambos conseguem desempenhar na perfeição a posição de “número 8” e de “número 10”. De salientar o resgate do médio brasileiro

Wendel, que passou de esquecido para titular e um jogador importantíssimo na execução do modelo de Keizer. Um meio-campo com muito maior dinamismo, mobilidade e virtuosismo. Pode nem ganhar nada, mas com esta formula estará certamente mais perto de ganhar e de encantar os estádios e o público.

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A equipa leonina trouxe alguns aspetos estratégicos interessantes para o jogo com o Rio Ave, que já não perdia em casa há 20 jogos. É de salientar nomeadamente o pressing que exerceu sobre a construção da equipa vilacondense. A bola circula sempre mais rápida, mais precisa, mais curta, é também recuperada mais vezes ao adversário. A equipa é mais agressiva e articulada. Frente ao Rio Ave foram 27 as faltas que o Sporting fez no total.

Mas foram faltas inteligentes e que salientam os índices mais agressivos e ainda a tal regra que Keizer quer implementar: recuperar a bola em apenas 5 segundos ou fazer falta após esses cinco segundos. Impedir o adversário de pensar e de jogar de livre vontade. Na primeira zona de construção pressiona bem alto num 4x4x2 com Nani a juntar-se a Bas Dost e a impedir o Rio Ave de construir desde trás. Quando o Rio Ave tentava entrar mais em zonas do meio-campo defensivo leonino, era Wendel que se juntava a Bas Dost. Após a recuperação da bola, os Leões conseguiam sempre ligar o jogo com critério e sobretudo pelo corredor central, chegando de forma sucessiva a zonas de finalização. Com bola, o Sporting CP foi a equipa que nos tem habituado na era Keizer. Muita capacidade para sair curto na construção e ligar com as zonas adiantadas de forma mais apoiada, com qualidade a jogar dentro da pressão e nas entrelinhas do bloco adversário e com chegada a zonas de finalização com bastante frequência.

Foi um Sporting CP muito capaz com bola, demonstrando paciência e critério até chegar ao último terço, sem parecer cansado, desesperado e sobretudo em busca do jogo directo como era comum na era de José Peseiro, por vezes sem nexo. É de salientar que numa das melhores jogadas do encontro que terminou inclusive num golo anulado a Bas Dost, a bola sofreu cerca de 12 toques, passando inclusive pelo guarda-redes Renan. Mas o que mais me cativou nessa mesma jogada foi ver Coates fazer um passe entrelinhas e a desbloquear o jogo, e não a despejar a bola na frente como fez noutros jogos, sendo a pratica comum do jogo leonino por essa altura. Na transição defensiva, o Sporting esteve bastante bem com uma excelente reação à perda e uma transição defensiva feita homem-homem.

Jovane Cabral tem sido a arma secreta cada vez que salta do banco. Em Vila do Conde, marcou um golo de belo efeito, após ter entrado na partida e sentenciou o jogo
Fonte: Sporting CP

Wendel e Diaby estavam esquecidos na gaveta, enquanto que Bruno Fernandes e Gudelj tardavam em render o que podem e dever render e com este futebol ofensivo e com este ideal, é notória a diferença nos rendimentos de cada um e naquilo que cada um dá à equipa. A equipa procura construir desde trás, tentando ter sempre mais um homem no meio-campo e criar superioridade desde aí. Todos estão disponíveis para receber a bola, não há um único jogador a esconder-se. Até o próprio Bas Dost se dá mais ao jogo. E isso beneficia – e muito – a equipa leonina. Bruno Fernandes voltou a ser o maestro do meio-campo, sendo o jogador com mais toques na bola, com mais posse da equipa, com maior número de passes feitos, com maior número de passes certos e ainda contou com um golo e uma assistência. Wendel também apresenta números interessantes onde tem cerca de 45 passes certos em 49 tentados, fazendo uma fantástica percentagem de 92% de acerto no passe. A dinâmica entre estes jogadores do miolo leonino e sobretudo Nani – que tem procurado terrenos mais interiores tem sido algo de encher o olho e com elevada nota artística. Em apenas três semanas vemos dinamismo e mobilidade que não se via até à data.

É dito na gíria futebolística que acontecem as tais chicotadas psicológicas quando um treinador é despedido, mas a verdade é que no Sporting a chicotada foi futebolística. Não se tratava de motivação, mas sim de aplicar as ideias à prática e de ter sobretudo um treinador com T grande. Em Vila do Conde assistiu-se a um Sporting extremamente personalizado e competente em todos os momentos do jogo na noite de afirmação de Keizer com uma vitória bastante convincente contra um Rio Ave com bastante qualidade individual e coletiva. Uma certeza que não deixa dúvidas absolutamente nenhumas, o Sporting a jogar desta forma estará sempre mais próximo da vitória. O futebol ofensivo em detrimento do defensivo e do frete que parecia acontecer anteriormente.

Enquanto o Sporting mantiver estes números e este rendimento será sempre um sério candidato ao titulo. É certo que as dificuldades vão surgir mais dia, menos dia, mas respira-se confiança em Alvalade. É dar tempo ao tempo e esperar que Marcel Keizer continue no bom caminho, como tem estado até ao presente.

Foto de Capa: Sporting CP