sexto violino

“Jorge Jesus no Sporting? Ahahah, vocês não têm dinheiro para nada”. “Só nos vossos sonhos é que o Jesus vai para Alvalade”. Foram coisas destas que os Sportinguistas tiveram de ler e ouvir logo que surgiram os primeiros e tímidos indícios de que Bruno de Carvalho poderia estar a tentar trazer o treinador do Benfica. Confesso, portanto, que me está a dar “um ganda goze”, como disse um dia o novo técnico do meu clube, assistir às reacções benfiquistas a esta vinda de Jorge Jesus para o Sporting.

De repente acabaram as reacções desdenhosas e condescendentes por parte dos rivais, que agora se mostram repentinamente muito preocupados com a saúde financeira do Sporting e voltam a ir buscar ao baú das memórias o pior de Jorge Jesus, numa tentativa de menorizarem os efeitos daquela que será (aguardo confirmações oficiais, porque atá lá nunca se sabe…) a transferência-sensação deste mercado.

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A verdade é que as certezas benfiquistas quanto à não vinda de Jesus para Alvalade eram um pouco optimistas demais. Arranjar 4 milhões por época não é mais do que abdicar da compra de um novo Slavchev e treinar o Sporting é, neste momento, mais aliciante do que treinar o Benfica. A isto acresce o facto de Jesus ser um conhecido Sportinguista. Muitos esqueceram-se de tudo isto. Não quiseram olhar para a hipótese “Jesus no Sporting” de forma séria e agora assiste-se, no universo benfiquista, a um nítido desamparo e a um estado de pré-pânico. É o que dá o excesso de soberba.

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Jesus fez 16 jogos pelo Sporting em 1975/76, marcando 4 golos
Fonte: Fórum SCP

E é bom lembrar que o emblema da Luz está longe de ser virgem nesta questão de trazer jogadores do Sporting. Estamos a falar de um clube que criou a sua secção de futsal (começando logo na 1ª divisão e contornando as regras, já agora) indo buscar dois jogadores a Alvalade, repetindo-se esses actos até aos dias de hoje; que sustentou grande parte da sua década passada na qualidade de um futebolista, Simão Sabrosa, que tinha sido dos leões; que, no atletismo, tem constantemente deitado mão a alguns dos nossos melhores valores. Não podem, por isso queixar-se muito. Por outro lado, é bom ver as reacções quando os papéis se invertem.

Pela minha parte, apenas aceitaria a saída de Marco Silva se viesse Jesus. Foi o que, ao que tudo indica, aconteceu. E em que é que o até agora treinador do Benfica pode ser útil ao Sporting? Desde logo, é um técnico ambicioso, experiente e habituado a ganhar. A isso junta-se o facto de o Benfica ter uma defesa muito sólida, onde jogadores de nível mediano como Jardel ou Eliseu se superaram e estabilizaram, como também um ataque objectivo, fluido, pressionante e pragmático, mesmo quando não joga bem.

É verdade que, agora, Jesus vai ter de começar tudo do início, mas não é menos verdade que é ele a pessoa indicada para identificar e corrigir os graves problemas que devastaram a defesa verde-e-branca, comprometendo desde cedo a temporada leonina. No que diz respeito ao sector atacante, espero que Jesus se mantenha fiel aos seus princípios e que aposte em Montero no apoio a outro avançado. O Sporting sairia a ganhar. De resto, é também um nome sonante que pode não só ser decisivo na compra de novos reforços como também ajudar a segurar alguns jogadores actuais. E roubá-lo ao Benfica é matar dois coelhos de uma cajadada: não só os rivais ficam mais fracos e levam uma valente “bicada”, como o Sporting fica mais forte. Melhor era impossível!

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Jesus no Jamor em 2002, na zona dos adeptos do Sporting. O seu amor pelo clube é antigo, ou não fosse ele filho de um companheiro de equipa de Peyroteo

Já no que diz respeito a pontos fracos, existe um que há muito aponto a Jesus: o facto de o seu maior inimigo ser ele próprio. É um grande treinador, mas talvez se ache ainda melhor do que é e nem sempre tenha a capacidade para reconhecer que errou. De resto, não estou preocupado com os rumores de desinvestimento na formação. Face ao orçamento limitado, qualquer treinador que venha para Alvalade sabe de antemão que não haverá Di Marías nem Gaitáns. Mas também sabe que, para encontrar talentos nas camadas jovens, não podia estar em muitos clubes melhores do que o Sporting.

Ressalvo ainda que, obviamente, contratar Jesus não é sinónimo de ser campeão. O Sporting continua com menos dinheiro e menos poder de bastidores do que os rivais, e as ajudas da arbitragem decerto não acompanharão o treinador nesta viagem. Ainda assim, pesados os prós e os contras, uma coisa é certa: independentemente dos resultados futuros, Bruno de Carvalho foi buscar o melhor treinador que podia.

Numa entrevista feita há um ano, e cuja citação não consegui recuperar, Jesus contava um episódio da sua juventude em que um amigo apareceu à porta de sua casa para irem tomar café com duas raparigas, tendo o futuro treinador preferido ficar a ouvir o relato de um jogo europeu do Sporting. Não era segredo para ninguém que o filho de Virgolino Jesus, que jogou no Sporting na altura de Peyroteo, era Sportinguista. O próprio Jorge foi atleta leonino. Agora, passados quase quarenta anos, volta pela porta grande, para treinar o clube do seu coração. Que daqui a pelo menos três épocas também saia por essa porta, é o meu desejo.

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P.S. 1: independentemente daquilo que se tenha passado, tenho pena que Marco Silva saia e não acho que tenha sido bem tratado na festa da taça quando, ao contrário de Inácio, não teve direito a ser chamado em nome próprio. Terá sempre a minha gratidão por ter quebrado o nosso jejum de troféus. Mesmo nunca tendo conseguido estabilizar a defesa por completo nem impedido a quebra da equipa na segunda metade da época, tem boas qualidades e vai evoluir. Se não fosse por Jesus, seria o meu treinador.

P.S.2: não queria deixar de dizer que os valores envolvidos e a proveniência destes não me agradam minimamente, e espero pelo esclarecimento das contrapartidas. O futebol é um mundo podre…

P.S. 3: “Para mim o presidente do Sporting ia para o manicómio. Absolutamente inacreditável. Loucura”. Foi esta a reacção de Dias da Cunha à contratação de Jesus. De facto, com Sportinguistas destes, quem precisa de rivais… Os verdadeiros Sportinguistas devem manter-se alerta, porque a antiga casta ainda não disse a sua última palavra. Eles andam aí, e mais cedo ou mais tarde tentarão de novo tomar o clube.

P.S.4: Até agora, a reacção que mais me faz acreditar que Jesus vem mesmo foi a de João Gabriel. E que gozo me está a dar ver esta figura desprezível de cabeça perdida e sem saber para onde se virar. O abominável dirigente, que não tem mais nenhuma função perceptível no Benfica a não ser lançar bílis contra os rivais, deve estar a ter uma boa quinta-feira. Há uns anos, depois de ter ganho uma Taça da Liga ao Sporting de forma fraudulenta, veio dizer, com o troféu ao lado e para gáudio de muitos adeptos, que o Benfica tinha “muito orgulho nesta Taça da Liga”. Pois bem, nós temos muito orgulho no nosso treinador Jorge Jesus. É a vida…

 

Foto de capa: site oficial do Sport Lisboa e Benfica