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No futebol como no Wrestling

Nuno Almeida · 3 min

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sporting cp cabeçalho 1O Futebol cada vez mais parece wrestling. Não, não vou falar de “fariseus”, “samaritanos” ou “pizzas”. Vou falar de um espectáculo de showoffs, combates combinados e discursos ensaiados. Vendo a situação desta forma, quase não dá para perceber se me refiro a um ou a outro desporto, uma vez que cada vez mais estes “ingredientes” se observam em ambos.

Ainda me lembro de, aos fins-de-semana e pela hora de almoço, estar a ver os combates de wrestling comentados pelo “Tarzan” Taborda e ficar impressionado com a paixão com que o mesmo falava desse desporto, convidando qualquer lutador a enfrentá-lo no ringue e dando como certa a sua vitória (sim, Mayweather e McGregor ainda eram crianças, infelizmente). Apesar de eu não poder pôr em causa a valia do comentador dentro dos ringues, por nunca o ter visto lutar, gerava-me alguma estranheza tal confiança num atleta que lutava num desporto com regras tão próprias, que dificilmente outros lutadores aceitariam (isso passou-me depois do combate Mayweather/McGregor). Só conseguiria aceitar toda aquela confiança se o confronto fosse com qualquer outro lutador da mesma modalidade, com todas as regras (ou falta delas) e campeões pré-estabelecidos. Ainda assim, naquela altura o programa entretinha-me e eu via-o regularmente.

Depois de cada emissão juntava-me com alguns amigos, adeptos daquele desporto, a quem eu tentava demonstrar os golpes ensaiados e as cadeiras que surgiam do nada, situações associadas a árbitros que nunca viam as “infracções”, ao que eles retorquiam com a beleza de cada voo, uppercut, quase mostrando total cegueira ou desprezo pelo óbvio.

Por mais óbvia que seja uma infracção, nunca se admite desde que seja feita por um jogador da sua equipa Fonte: CM TV/Mister do Café
Por mais óbvia que seja uma infracção, nunca se admite desde que seja feita por um jogador da sua equipa
Fonte: CM TV/Mister do Café

Acabei por ir perdendo o interesse, ao cansar-me de ver golpes que apenas atingiam o chão do ringue e combates que terminavam quando os intervenientes decidiam ou combinavam que havia chegado o momento de acabar. Bem sei que, neste caso, o que interessa é o espectáculo, e todos sabem que são essas as regras, e todos sabem o que esperar.

Pelo menos no wrestling eles assumem que é só “faz de conta”. Já no futebol, todos sabem que é faz de conta e ninguém o assume.

É que, se pensarmos bem, tudo o que se lê acima pode aplicar-se ao futebol português. Temos árbitros que não vêem infracções, ou fazem de conta que não vêm, existem jogos combinados, e quase todos entram na competição sabendo a quem prestar vassalagem, a quem devem favores. No fundo, quase todos estarão de acordo em “ajudar” quem os “ajuda”. E, como no wrestling, por vezes aparecem “amigos” inesperados a ajudar a ganhar qualquer luta.

Todos sabem que isso acontece no futebol, mas todos negam. Ninguém assume que este desporto já serve apenas como espectáculo de showoffs, de entretenimento de massas, para nos manter ocupados, alegres, chateados, a culpar este e aquele, enquanto os poderes instalados se vão movimentando e levando a água ao seu moinho.

A verdade é que, até aqui, eu dizia que este caminho que o futebol estava a tomar o iria destruir, mas vendo pelo sucesso que tem o wrestling talvez esteja enganado. Porque preferimos mil vezes uma boa história inventada, cheia de tramas, traições e crime a uma história sem sal, que conte apenas a verdade. Adoramos ser entretidos, e isso nunca vai mudar, ou não fossem as novelas e os reality shows os programas de mais audiência em Portugal. Ah! E o futebol. Qualquer dia ainda vemos o “Tarzan” Taborda a ter sucesso no futebol nacional.

Ao recordar os combates de wrestling daquele tempo, com todas aquelas personagens, consigo fazer um paralelismo com as do nosso futebol. Apenas não consigo encontrar no desporto de combate um papel que pudesse ser interpretado pelo Sporting.

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Tarzan Taborda daria um bom substituto para a lateral esquerda de certos clubes
Fonte: Online World of Wrestling

É que não me lembro de ver por lá nenhum interveniente que quisesse sair daquele esquema, talvez por lá todos saírem a ganhar. Já no futebol não é bem assim. Porque no wrestling todos ganham e ninguém quer “destruir” o negócio que os alimenta; já no futebol há sempre quem fique a perder com os esquemas, e por isso tenha de se impor contra o negócio. Se ao menos fosse um modelo justo, ainda que apenas para entreter…

O futebol é mesmo quase como o wrestling. Fica a faltar apenas esse pequeno pormenor, o de ter um modelo de faz de conta em que todos pudessem tirar dividendos em partes iguais. Já não era mau. Ainda assim, o desporto de combate é bem mais justo e democrático.

Acho que fui injusto com o wrestling e demasiado condescendente com o futebol. Devia era ter deixado de gostar de futebol.

 

Revisto por: Vítor Miguel Gonçalves

Foto de Capa: Bola na Rede

Nuno Almeida

Redação Bola na Rede · ver artigos