Escrevo esta crónica depois do empate na Madeira diante do Marítimo, na jornada inaugural do Campeonato. A resposta à questão que titula este texto seria, não fosse a limitação de caracteres, bastante densa e extensa, tendo eu muito para dizer sobre o que falta neste Sporting versão 19/20. Mas vou tentar ser resumido e curto na análise, correndo o risco inevitável de ficar muito, mas mesmo muito, para dizer sobre o tema.

Começo por dizer que não me convenço que Bruno Fernandes, o melhor jogador do nosso campeonato, não tenha sido transferido para qualquer colosso europeu. Tal situação não se deve apenas aos “desvarios do mercado”, como tenho ouvido e lido por aí como justificação para tudo e mais alguma coisa quando algo de estranho acontece no futebol. Não sejamos preguiçosos na análise. Acho que os dirigentes leoninos não estiveram à altura do dossier Bruno Fernandes, pois todos sabemos que além de se vender o peixe, o que se torna às vezes inadiável é saber vendê-lo.

O Tottenham levou uma nega de Varandas, tendo os Spurs avançado com 45M€ mais objetivos para levar Bruno Fernandes para Londres, num valor que poderia chegar facilmente aos 60M€ mais objetivos cumpridos. Os dirigentes do Tottenham jogaram com as conhecidas dificuldades financeiras do clube de Alvalade: numa situação económica que coloca em causa o normal funcionamento da tesouraria dos Leões, os Spurs acenaram com valores abaixo dos exigidos a ver se a coisa cola. Varandas, quer se concorde ou não, não foi na cantiga. Mas isso deixou-o num dilema: ficar com um jogador no plantel a “fazer o frete”, antevendo-se em sub-rendimento e, mais grave ainda, desvalorizando-se a ele e desvalorizando um ativo da SAD. Mas são opções, como tudo na vida. É que Varandas pode ter rejeitado uma proposta de 45M€ imediatos e, no futuro, poderá ser obrigado a vender o jogador maiato por 20 ou 15M€ (!!). Talvez o dirigente leonino prove, nessa altura, o veneno que ele próprio criou.

Mas não fica por aqui o meu “puxão de orelhas”. Não consigo conceber como é que com Thierry Correia no plantel – ele que fez, aliás, uma excelente exibição diante do Benfica – ainda se foi ao mercado contratar um lateral direito. É que Valentin Rosier, ex-Dijón, foi contratado neste defeso por 5M€ e ainda está no estaleiro. Não se percebe. Alguém me explica? Mas este caso é apenas mais um dos muitos exemplos do que falta neste Sporting: a urgência de valorizar os jovens da sua formação, algo que os seus rivais mais diretos estão a fazer já há algum tempo, nomeadamente o SL Benfica. É tempo do Sporting acordar.

Nesta nova temporada, os sorrisos tardam em manter-se por Alvalade
Fonte: Sporting CP

Mas falta sobretudo atitude nesta equipa e staff. É claro que a equipa do Sporting é inferior, repito, inferior, relativamente às equipas dos seus rivais diretos. Andarmos afastados da entrada na Liga dos Campeões é, na minha opinião, a principal razão do fosso financeiro e, por consequência, desportivo, entre a formação verde e branca e o FC Porto e o SL Benfica. Mas ter a equipa mais fraca do que estes rivais não pode justificar tudo. Não pode justificar, por exemplo, que se perca cinco a zero contra o SL Benfica, nem como um mísero empate nos Barreiros que poderia bem terminar em derrota clara para a formação verde e branca.

O que faltou então? A atitude que referi. É um problema já antigo no clube: os jogadores chegam a Alvalade, proferem palavras que fazem perceber aparentemente, repito, aparentemente, a grandeza do clube onde estão mas, rapidamente, salvo raras e boas exceções, isso perde-se no tempo e a atitude resvala para níveis, grosso modo, medíocres. Não pode ser. Há alturas em que penso que o Sporting pode até ter a melhor equipa do Mundo, os melhores jogadores e treinadores do Mundo mas enquanto a mentalidade e a atitude da equipa não se alterarem isso pouco valerá.

Mas talvez o que falta neste Sporting é perder certos tiques burgueses que perduram eternamente no clube. Falo das atitudes do “Sporting Clube de Belas” ou então do “Campo Grande Futebol Clube”, pois aqueles piqueniques de final de tarde em Alvalade antes dos jogos lembram-me o ambiente aristocrático do Ramalhete descrito nos Maias de Eça de Queirós que arrepiam a minha convicção marxista. Esta leve atitude de ser sportinguista, misturando jogos de futebol com passeios à beira mar ou com piqueniques nos grandes jardins é algo que me faz imensa confusão. Mas às vezes os adeptos, às vezes, têm o clube que querem. Ah, e que merecem.

Foto de Capa: Sporting CP

artigo revisto por: Ana Ferreira

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