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Para ti, Jorge

Fernando Costa · 4 min

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Caro Jorge. Permite-me, apesar da nossa diferença de idades e de nunca ter tido uma interação contigo, que te trate por “tu”. Afinal de contas, supostamente, és um de nós.

Estou desiludido. Não estou cabisbaixo, não estou revoltado, não estou em modo fatalista. Estou apenas e somente desiludido. E estou desiludido, porque quando o Presidente anunciou a tua vinda para o cargo de treinador, eu – e acredito que a larga maioria do universo leonino – já conhecia o teu pedigree, a tua personalidade (desportiva, pelo menos), e o teu jeito de ser. Já estava a par da tua confiança exacerbada, o teu modo prático e simultaneamente complexo de ver o futebol, o teu conhecimento tático, e as tuas dificuldades linguísticas. Já conhecia a tua inaptidão para contratar laterais esquerdos, já conhecia o teu fetiche por jogadores altos e corpulentos. Já conhecia o teu gosto por jogadores estrangeiros, já conhecia as tuas limitações nos planeamentos de pré-época, já conhecia o teu modo intenso como vives o jogo a partir do banco de suplentes. Não foi, de todo, isso que me desiludiu. Só pode ter ficado desiludido quem não te conhecia.

Jorge Jesus está na sua terceira temporada como técnico principal do Sporting Fonte: Sporting CP
Jorge Jesus está na sua terceira temporada como técnico principal do Sporting
Fonte: Sporting CP

O que me desiludiu foi algo que já conhecia, de facto, mas que esperava profundamente que não voltasses a fazê-lo em Alvalade: Falo sobre fazer os adeptos de parvos. Falo das tuas declarações depois de algo que não corre bem. Falo dos Palhinhas que não levaram o guião para o jogo. Falo do trânsito, que impediu que tivéssemos mais vitórias na pré-época. Falo das derrotas que só aconteceram porque foste expulso minutos antes do final. Falo da falta de jogadores quando o resultado não é o esperado. E falo, por fim, do Steaua que aparentemente, está ao nosso nível. E isso eu não te admito.

Quero lá saber se temos dois ou três campeonatos nos últimos trinta anos. Quero lá saber se ainda há pouco tempo estávamos em profunda crise existencial, onde tínhamos de vender jogadores para pagar salários. Quero lá saber dos vouchers, dos mails, dos padres e das missas. Quero lá saber das nossas participações nas competições europeias nos últimos anos. Quero, muito menos, lá saber dos Saraivas, dos Octávios e dos cigarros eletrónicos.

Interessa-me o Sporting Clube de Portugal. Interessa-me os milhões de adeptos que seguem esta instituição ano após ano, mesmo sem títulos para levar na viagem. Interessa-me os jogadores que dão tudo pela camisola. Interessa-me os atletas que aprenderam a amar e a ser Sporting desde os seus 14, 15 anos, na Academia. Interessa-me os milhares de crianças, que mesmo sem títulos e gozados na escola pelos benfiquistas e portistas, Amam este clube acima de qualquer coisa. Interessa-me a nossa postura, de respeito e dedicação, de devoção. esforço e glória.

Obviamente que quero ganhar. Obviamente que quero vencer. Queremos vencer, aliás. Não imaginas o quanto. Mas, acima de tudo, quero ver o Sporting Clube de Portugal e reconhecê-lo. Quero senti-lo quando vejo as pessoas que o representam. E as desculpas que evocas depois de qualquer fracasso, quando ganhas tanto como ganha o Zidane no comando do Real Madrid, assustam-me. Deprimem-me. Desiludem-me. E não aceito. Não podemos aceitar.

Jorge, este estádio está ansioso por ver títulos verde e brancos Fonte: Sporting CP
Jorge, este estádio está ansioso por ver títulos verde e brancos
Fonte: Sporting CP

Não acho o teu trabalho péssimo no comando do Sporting Clube de Portugal, ao contrário de muitos. Fizeste uma primeira época excepcional, em que só um falhanço inacreditável de baliza aberta nos impediu de parar o país e voltar ao Marquês. Fizeste-nos vencer uma Supertaça. Fizeste-nos dominar, de forma evidente, o campeão em título, tanto na Luz como em Alvalade. Fizeste-nos jogar de igual para igual, olhos nos olhos, com o melhor clube do Mundo, o Real Madrid. Mas a grandeza não pode ser só demonstrada nos bons momentos. A grandeza evidencia-se, principalmente, nos maus momentos. Onde temos de assumir o erro. Onde temos assumir o falhanço. Onde não podemos fugir ao fracasso. E nisso, tens falhado redondamente.

Não é o eventual resultado na Roménia que me vai definir a tua opinião sobre ti. Uma derrota ou uma vitória não mudará absolutamente nada, ou, pelo menos, não é isso que me irá surpreender. Mas, pela primeira vez, coloco-te um ultimato: não me venhas com desculpas. Sê e representa o Sporting do primeiro minuto ao último minuto. Do momento em que sais do estágio até ao momento em que regressas a casa. Não quero ouvir que perdemos o apuramento por causa do relvado. Não quero ouvir que perdemos o jogo por causa do tempo. Não quero ouvir que perdemos o jogo porque foste expulso e isso impediu-nos de ganhar. Não quero ouvir que alguém falhou o guião. Não quero ouvir que o apuramento não era nossa obrigação. Não quero ouvir que a Liga Europa afinal é que era boa, e foi tudo pensado. Porque não é. Porque não foi. Porque, e repito-te pela última vez, isto é o Sporting Clube de Portugal.

Não nos mais faças mais passar por parvos. Não o iremos aceitar mais.

Encarecidamente, um adepto do Sporting Clube de Portugal.

Foto de Capa: Sporting Clube de Portugal

Fernando Costa

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