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Esforço, Dedicação, Devoção e Glória: provavelmente as quatro premissas que guiam o leão nunca fizeram tanto sentido como depois do jogo de hoje. Numa glória titânica, com 120 minutos e tantos capítulos para contar, foi o Sporting quem procurou mais a felicidade de ser feliz. E no final, a Taça acabou mesmo por lhe sorrir. E com todo o mérito.

Mas vamos por partes: esta final da Taça de Portugal tem tudo para ser recordada como uma das melhores da história. Em primeiro lugar, porque as equipas deram tudo; em segundo, porque houve emoção até ao último instante e por último, porque no fim, acabou por vencer quem mais fez por isso. Ainda assim, no meio do enredo desta final absolutamente imprevisível, é impossível não olhar para esta batalha entre leões e bracarenses como um jogo onde a sucessão de erros de parte a parte foi evidente em toda a linha. Do lado sportinguista, Marco Silva optou pelo seu onze de gala, colocando Cédric a titular, remetendo Miguel Lopes e colocando Islam Slimani em vez de Montero na frente de ataque. No SC Braga, Sérgio Conceição optou pelo clássico 4x2x3x1, colocando Mauro e Luiz Carlos à frente do quarteto defensivo, procurando reduzir ao máximo um dos pontos mais fortes dos leões: o jogo entre linhas. No ataque, Pardo e Rafa procuravam sempre que possível a transição, deixando Rúben Micael como a principal muleta de apoio ao ponta de lança Éder.

Ainda assim, e apesar da estratégia previsivelmente defensiva, o que é facto é que coube ao Sporting as rédeas da partida nos primeiros minutos. Com uma pressão alta e um bloco subido, os instantes iniciais trouxeram um Braga claramente apostado a jogar em transições rápidas. E foi dessa forma, a apostar mais no erro do adversário do que a procurar criá-lo, que o Braga chegou à vantagem: do lado esquerdo, Djavan ultrapassou tudo e todos e deixou Cédric com a única opção de o derrubar. Dentro da área, Marco Ferreira não teve outra oportunidade que não a expulsão do lateral leonino. Na conversão do castigo máximo, Éder não falhava perante Rui Patrício e na primeira bola que enviava à baliza, o Braga adiantava-se no marcador. O golo mexeu com o jogo e com as equipas: o Braga tranquilizou-se, assentou jogo e o Sporting, sem nada que o fizesse prever, reduziu a intensidade do seu jogo. No banco, Marco Silva cometeu um erro primário, ao colocar Miguel Lopes no relvado para retirar João Mário do miolo. Do meu ponto de vista, o treinador sportinguista cometeu um erro primário em termos táticos. Quando mais precisava do meio campo, Marco Silva perdeu-o ao retirar o único elemento capaz de desmontar o duplo pivô adversário e de jogar entre linhas. Apenas nove minutos depois do primeiro golo da final, o Braga acabou por dar a segunda machadada no sonho leonino: novamente do lado esquerdo do ataque, Miguel Lopes (exibição medíocre) deixou-se antecipar por Rafa que depois, perante Rui Patrício, fez o 0-2 para a equipa de Conceição.

Bom, possivelmente a esmagadora maioria dos adeptos acreditaria que com uma vantagem folgada no marcador e com uma vantagem em termos numéricos, o resto da final da Taça de Portugal seria um mero exercício de confirmação de algo que parecia evidente, de que o Braga acabaria por conquistar a segunda Taça de Portugal da sua história. Bem vistas as coisas, e apesar do Sporting ter criado algumas ocasiões de perigo – com Nani e Slimani sempre a empurrarem a equipa para a frente – a verdade é que, até bem perto do minuto 90, a estratégia do Braga estava a correr de forma perfeita. No segundo tempo, a equipa de Sérgio Conceição havia entrado taticamente mais equilibrada, perdendo menos bolas e sobretudo ganhando o controlo do jogo, deixando-o correr ao ritmo que mais lhe interessava. Mesmo que Marco Silva tenha procurado emendar a mão, ao colocar Montero e Mané nos lugares de Miguel Lopes e Carrillo, a tarefa de recuperação do Sporting parecia um exercício demasiado difícil, até para o mais fanático dos adeptos leoninos.

A verdade é que, depois de lances de perigo de um e de outro lado, o Sporting acabou por arrancar para dez minutos finais de uma alma absolutamente impressionantes. Por um lado, culpa do Sp. Braga, que decidiu jogar com o relógio – as perdas de tempo dos seus jogadores foram demasiadas durante a segunda parte – cedo demais. Mas mais do que o demérito do Braga, houve foi muito crer e vontade do Sporting, que acabou por aproveitar dois brindes da defesa contrária para chegar a um prolongamento absolutamente merecido. Neste jogo de lotaria, primeiro foi Baiano que decidiu dar de mão beijada a Slimani a oportunidade de reduzir o marcador; depois, aos 90 + 2 minutos, foi Aderlan Santos que cometeu um erro primário ao deixar passar a bola por cima de si, deixando Montero perante Kritciuk, que pouco pôde fazer.

O Sporting somou a 16.ª Taça de Portugal da sua história Fonte: FPF
O Sporting somou a 16.ª Taça de Portugal da sua história
Fonte: FPF

O Jamor estava ao rubro: quando nada o fazia prever, o Sporting renascia das cinzas. Mesmo que as forças tivessem caído progressivamente ao longo do segundo tempo, até devido à inferioridade numérica, o que é facto é que a alma leonina acabou por superar o cansaço físico. Com o empate, a componente psicológica foi totalmente para o lado sportinguista. Do lado bracarense, a desolação do treinador e dos jogadores parecia sinónimo de que só faltava mesmo o golpe final para que o Braga visse a Taça de Portugal decididamente fugir-lhe da mão. No prolongamento, como seria expectável, o medo de perder acabou por se superiorizar à vontade de ganhar. Com menos um homem em campo, o Sporting optou por recuar o bloco e deixar o ritmo da partida no controlo do adversário. Um adversário que, mesmo jogando com mais um elemento durante quase toda a partida, raramente mostrou armas para desmontar uma estratégia que foi crescendo à medida que a alma do leão crescia.

Nos trinta minutos de prolongamento, apenas Nani e Salvador Agra estiveram perto de decidir a final. Do lado leonino, a bola do internacional português passou a centímetros do poste esquerdo da baliza do Braga; do lado bracarense, Agra acabou por ver Rui Patrício fazer uma defesa enorme a salvar o terceiro e decisivo golo da equipa da cidade dos arcebispos. Até ao final dos 120 minutos, Mauro ainda foi expulso, por falta sobre Adrien, colocando os dois tabuleiros em igualdade. E isso acabou por levar com que até final, as equipas tenham procurado mais as grandes penalidades do que outra coisa. Na decisão da marca dos onze metros, a história acabou por não falhar e a vitória acabou por sorrir a quem fez mais por isso: em quatro grandes penalidades, o Braga falhou três, levando a que apenas três golos leoninos tenham sido suficientes para que, sete anos depois, a alegria pela conquista de um troféu tenha voltado aos rostos leoninos. E diga-se, caro leitor, que possivelmente nenhum adepto sportinguista poderia ter pensado em melhor forma de o conseguir.

Sem nunca desistir, o Sporting foi sempre à luta e acabou por ganhar uma das finais mais épicas da história da Taça de Portugal. Com um Patrício enorme, uma defesa onde os centrais foram de betão, um meio-campo inconstante e um ataque intenso – com Nani e Slimani em destaque – Marco Silva acaba por conseguir algo pelo qual lutou durante toda a época. E isto porque bem vistas as coisas, talvez ele seja mesmo o homem que mais mereça tudo o que aconteceu esta tarde. Com esforço, garra, devoção e glória. Uma vitória à Sporting. Tão simples quanto isso.

Figura do Jogo: Rui Patrício/Nani/Slimani – Depois de uma exibição como a de hoje, possivelmente seria justo que a equipa do Sporting fosse colocada toda em ponto de igualdade como figuras do jogo. Ainda assim, permita-me que destaque a exibição enorme de Rui Patrício – que segurou a equipa no prolongamento – de Nani, que empurrou a equipa para a frente do primeiro ao último momento; e para Slimani, que foi provavelmente a face mais visível da garra e determinação com que o Sporting disputou esta final da Taça.

Fora de Jogo: Sp. Braga – A estratégia era simples: aproveitar o erro contrário e em transição decidir o jogo a seu favor. Até aos 80 minutos, tudo parecia perfeito. A vantagem de dois golos era o espelho de um jogo que corria de feição ao Braga, mesmo que a equipa nunca tenha estado totalmente equilibrada taticamente durante a partida. Os dois golos sofridos em dez minutos e a derrota nas grandes penalidades acaba por ser um castigo merecido para uma equipa que julgou-se vencedora bem antes do que seria suposto.

Foto de Capa: Federação Portuguesa de Futebol

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