sporting cp cabeçalho 1

Ao contrário daquilo que se tem registado nos últimos anos, este Derby, para além dos habituais cenários frenéticos, tinha como aditivo especial a disputa pelo primeiro lugar da tabela, num momento em que o campeonato se prepara para entrar na recta final. Com a confirmação da entrada em campo dos onzes mais prováveis perspectivou-se, também, a produtividade táctica. Analisemos, então, a postura inicial de cada equipa:

Os primeiros minutos evidenciaram a esperada tentativa de pressão em terrenos altos por parte do Benfica, fazendo subir os blocos com e sem posse, e proibindo a equipa do Sporting de sair com a bola e obrigando-a a apostar no jogo directo. Em consequência, as aproximações mais concretas à área do Benfica foram feitas através de bolas paradas ou com as tentativas de jogo directo para o aproveitamento de espaços. Neste último processo, a distância entre Eliseu e Jardel registada nos recuos e nos fechos defensivos permitiu à referência ofensiva do Sporting, Islam Slimani, aparecer com perigo na frente, recaindo, claro, com especial tendência para o lado esquerdo. Para além da acutilância da finalização, o Argelino destaca-se na capacidade de alargar o plano de construção leonino. E é por isso que, por vezes, o adepto mais distraído admira-se pelo facto de o ver em zonas pouco habituais para um ponta-de-lança.

Apesar deste esforço, o domínio nos primeiros vinte minutos foi encarnado. Eis a explicação:

O Benfica das primeiras jornadas do campeonato não é o mesmo Benfica de hoje. E esta mudança é, a meu ver, claramente provocada pelo fortalecimento dos processos desenvolvidos pelos elementos do meio-campo. Sendo certo que, para que tal aconteça, o aparecimento de um craque se revele fulcral, neste jogo houve, porém, um jogador em especial evidência. Samaris foi o pêndulo responsável pela facilidade na rotação do jogo do Benfica, que se registou até ao primeiro e único golo. Até então, o Sporting, bloqueado na construção, somente arriscava quando ganhava bolas durante este processo, aproveitando o erro do adversário, concretamente através da pressão de Bruno César e João Mário, ambos a fechar no interior. A influência de Samaris acabou por não ficar pelo controlo no centro do terreno, acabando por ser o Grego a efectuar o remate que iria, por ressalto, sobrar para o compatriota do ataque, que o finalizaria com sucesso.

Anúncio Publicitário
Samaris foi dos melhores em campo Fonte: SL Benfica
Samaris foi dos melhores em campo
Fonte: SL Benfica

Ao mesmo tempo que o meio-campo do Benfica denotava qualidade nos primeiros vinte minutos, o meio campo do Sporting demonstrou encontrar-se nos antípodas qualitativos, havendo, como sempre, uma explicação para isso. Entrando o Sporting com uma defesa a quatro procedida pelo seu médio de contensão, sabia o Benfica que era essencial dificultar o trabalho de William Carvalho. E este, sendo um trinco de excelência, diminui na sua expressão quando se encontra sobre pressão. Mitroglou foi, tal como no lance do golo, o elemento do Benfica responsável pelo bloqueio do médio Português, implicando, lá está, a incapacidade do Sporting em aumentar a sua propensão ofensiva e o seu controlo na zona central.

Logo após o golo sofrido, a equipa leonina acordou. Aumentou a capacidade de produção, houve mais influência dos laterais na construção e maior liberdade para João Mário no processo de ruptura. Foi o aparecimento mais assíduo do Sporting no ataque, muitas vezes a acontecer pela zona central, que aumentou a agressividade dos jogadores do Benfica nessa mesma zona, eliminando penetrações na área e forçando a lateralização do jogo leonino. É de destacar a qualidade da defesa do Benfica, tantas vezes criticada, que durante a primeira parte primou pela organização e pelas acções cirúrgicas dos centrais. Por isso, só nos consecutivos pontapés de canto, nos cruzamentos ou com a meia distância, como no remate de Jefferson à barra, é que o Sporting conseguiu chegar à baliza adversária. O intervalo chegou com o Benfica a ganhar, mas com o Sporting a dominar.

O fluxo positivo da equipa de Jorge Jesus voltou a registar-se na segunda parte. Há algo que é essencial para o sufoco que o Sporting consegue impor nos jogos, originando toadas constantes em direcção à área contrária. É que, quando a segunda linha consegue subir no terreno, tendo William rápido na recuperação e na oferta de construção, Adrien assertivo na marcação e João Mário exímio no jogo interior e mais presente na assessoria aos atacantes, o Sporting torna-se no colectivo que não deixa o adversário respirar, provocando ataques atrás de ataques. Se a primeira parte tinha sido dividida ao nível da qualidade, destacando-se o Benfica até ao golo, e o Sporting do golo em diante, já a segunda parte, durante os seus primeiros trinta minutos, pertencera totalmente ao Sporting, tendo existido mérito no trabalho de Jorge Jesus, mas, diga-se, também algum demérito nos extremos do Benfica, que foram incapazes de aparecer durante a segunda metade do jogo. Ora, vivendo muito o Benfica do trabalho de Gaitán na sua destreza lateral, e estando este apagado, e sendo essencial o esforço de Renato Sanchez na expulsão em progressão, mas estando este encarregue de tarefas mais defensivas (daí a quantidade de faltas registadas), o equipa da luz perdia os argumentos ofensivos, somando ainda o desaparecimento de Jonas, que não fez um único remate à baliza de Rui Patrício durante o jogo todo.

A fase final do jogo voltou a trazer o equilíbrio entre as duas equipas. O Benfica soube ganhar aos poucos o controlo necessário para arrefecer o entusiasmo do Sporting, que só não empatou o jogo porque o jogador que costuma tornar fácil aquilo que é difícil resolveu, desta vez, tornar difícil aquilo que aparentemente é fácil. Em resumo, o jogo que não foi constante na qualidade, mas que compensou pela força da sua intensidade, acabou por sorrir ao Benfica. E em tom lacónico podemos dizer que, pondo de parte as apostas tácticas de Vitória e de Jesus, ser-se eficaz é a estratégia mais benéfica. O Sporting, que sabe jogar bem futebol, não resolve com a mesma facilidade deste Benfica. Digo “deste” porque, claramente, já existiu outro.

A Figura:

Samaris – Embora Mitroglou seja o responsável directo pela vitória, atribuo a medalha ao seu compatriota Samaris. Foi o elemento decisivo durante o momento mais forte do Benfica na primeira parte e foi, igualmente, dos jogadores mais importantes na dura fase de contensão da segunda parte. Como se não bastasse, participa no lance do golo. Grande época do Grego.

O Fora-de-Jogo:

Jonas – Embora também esteja tentado a atribuir esta medalha negativa a um jogador devido a um lance infeliz e sintomático da sua imaturidade, decido-me por entregá-la ao melhor marcador do campeonato. O Brasileiro Jonas, por coincidência ou destino, voltou a não aparecer no Derby. Não marcou, mas também não rematou à baliza. Nem uma única vez.