É verdade que os pupilos de Rúben Amorim conseguiram uma importante vitória em Portimão. Todavia, a sua performance esteve muito longe do nível que se pretende para um clube grande. Com efeito, a inércia em controlar o jogo, após 20 minutos iniciais de grande domínio, poderiam ter custado caro perante um outro adversário que não um frágil Portimonense SC, despromovido na época passada. 

De facto, estas vitórias vão acontecendo porque o nível médio das equipas do campeonato português é muito fraco – e é preciso que se diga isto -, pois há muitos intelectuais do futebol que, não fazendo ideia do futebol que é praticado nas grandes ligas europeias, julgam que a nossa liga é muito competitiva.

Isto deveria ser motivo de preocupação para Rúben Amorim enquanto treinador que orienta todos os dias o treino dos jogadores e define a estratégia a ser empregue em campo. No entanto, as últimas declarações públicas de Rúben Amorim têm sido surreais.

Dizia ele, em antevisão ao último jogo dos leões, que os adeptos desistiram do Sporting CP, como se a culpa pelo descalabro que foi a prestação da equipa frente aos austríacos fosse dos adeptos. Um processo defensivo lastimoso, uma saída de bola deplorável e um ataque que está muito dependente de rasgos individuais como aconteceu em Portimão não serão culpa do treinador?

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Com efeito, se alguém desistiu da equipa, como ele diz, não foram os seus adeptos, mas sim o próprio treinador.

Ganhar a uma equipa que, em condições normais, estaria na segunda divisão é mais do que obrigatório e nunca motivo de regozijo. Mais, em virtude da sua dimensão e história, o Sporting CP tem sempre obrigação de lutar pelo campeonato, ainda para mais numa época em que tem um plantel melhor que o da época passada e que jogará de “domingo a domingo”.

Pior do que esse regozijo inglório é o discurso relapso do treinador que parece procurar mentalizar os sportinguistas de que o objectivo é o terceiro lugar e de que o Sporting CP não tem as mesmas “armas” do que SL Benfica e FC Porto (só pode estar a referir-se às “armas” fora das quatro linhas).

Na antevisão do jogo diante do Portimonense FC, Rúben Amorim discursou e os adeptos manifestaram o seu descontentamento

Que conversa é esta? Admite-se que um treinador, sendo adepto de um clube rival, fale do Sporting CP a um nível baixíssimo e, por consequência, nos remeta para o lugar classificativo que esse clube rival sempre achou que devíamos estar? E que mensagem é passada à equipa e , sobretudo, aos mais jovens? 

Esta conversa só vem exacerbar o loserismo de muitos, que é crónico para alguns, que defendem as escolhas da actual direcção. Noutros clubes, até mais pequenos, isto nunca aconteceria. 

O problema, diz Rúben Amorim, foi ter passado muitos anos no outro clube da 2.ª circular e que há coisas que nos distanciam dos outros rivais.  

Há, sim. Desde logo, contratar um treinador-estagiário por dez milhões, que, entretanto, já se tornaram em 15, a um clube que utiliza o Sporting CP para se meter em bicos de pés.  

Se o treinador entende que a sua equipa é assim tão inferior, porque é que não se demite? O que é que veio fazer para Alvalade? Um treinador que quisesse realmente ganhar não viria a público dizer estas incúrias e até se recusaria a trabalhar com a entourage que governa a estrutura do futebol leonino. 

No fundo, Rúben Amorim está a viver um dream job: é o segundo treinador com melhor salário e vai serenamente fazendo o seu estágio de treinador, sem grande pressão dos adeptos para ganhar e sem qualquer exigência por parte de uma Direção que apostou nele todas as fichas e que nunca se poderá atrever a despedi-lo.  

Artigo revisto por Mariana Plácido