sexto violino

Hoje venho falar de uma realidade alternativa. O Sporting CP foi para o intervalo a perder por 0-2 contra o SC Braga e, após o descanso, não conseguiu anular a desvantagem. FC Porto e SL Benfica venceram os jogos respectivos e, em virtude disso, colocaram-se a um único ponto dos leões. A nação rejubila, substituindo a habitual narrativa do “eu não ligo ao Sporting” pela satisfação de ver o presidente e o treinador mais odiados do país a escorregar. Em seis jogos, esta foi a terceira derrota da equipa de Jorge Jesus, depois da eliminação da Taça e do caricato jogo na Madeira com o União. Se isto tivesse acontecido, não seria difícil imaginar que Portugal inteiro, desde a imprensa ao mais simples adepto rival, caía em cima dos responsáveis leoninos.

Não é, contudo, necessário recorrer a exercícios de imaginação de universos paralelos para ter uma noção clara do que acontece ao mínimo deslize do Sporting, dentro ou fora de campo. N’A Bola de dia 29 de Dezembro, quando o Sporting vinha de dois desaires (Braga e União), da derrota em tribunal com a Doyen e numa altura em que ainda não tinha anunciado o acordo com a NOS, Fernando Guerra assinou um texto que, à distância de três semanas, tem tanto de cómico como de anacrónico. Na peça, intitulada “E agora Bruno Miguel?” (assim mesmo, sem vírgula), o distinto e “imparcial” redactor afirma que, enquanto Vieira e Pinto da Costa “vão solucionando questões complexas dos emblemas a que presidem, Bruno Miguel de Carvalho atira-lhes pedras” (supõe-se que aos problemas e não aos homólogos) e espalha “azedume”. Por entre insinuações de que o presidente do Sporting é tirânico, garoto, vaidoso e o que calhar, tão próprias de adeptos rivais, Guerra (será familiar do outro…?) consegue dizer que “a falar ninguém se lhe compara, mas a mostrar obra… até agora nada”.

guerra
Artigo de Fernando Guerra no jornal A Bola de 29 de Dezembro. Destacam-se as três primeiras colunas

O oportunismo e falta de rigor de textos como este chocariam, não fosse o facto de estarmos em Portugal e de já nenhum Sportinguista se espantar. À habitual fricção própria de uma rivalidade – embora os benfiquistas se sintam bem consigo mesmos a apregoar que “só há o Benfica e o anti-Benfica” – junta-se este ano a péssima digestão que os rivais da Luz têm feito da ida de JJ para o Sporting, com a agravante de, para já, esta estar a revelar-se bem-sucedida. Não foi por acaso que, numa entrevista recente, Jesus disse estar à espera de que os ataques vindos da Luz sejam constantes. O artigo precipitado de Fernando Guerra foi, pois, um pequeno prenúncio do que seria esta semana caso o Sporting não tivesse virado o resultado para 3-2.

Voltemos, contudo, à tal realidade paralela. No dia seguinte à derrota por 0-2 com o Braga não faltam artigos nem personalidades, daquelas que acertam a chave do Euromilhões à segunda-feira, a dizer que Jesus baqueia nos momentos-chave e, explorando ao máximo as derrotas antigas do Benfica de JJ com o Braga para o campeonato, Taça e Liga Europa, bem como a derrota do Sporting com os minhotos para a Taça, defendem que este clube é a “besta negra” de Jesus. No contexto das trocas azedas e infelizes de palavras entre Jorge Jesus e Rui Vitória, o Benfica aproveita a onda para espalhar a mensagem, prontamente posta a circular, de que o seu treinador levou JJ ao tapete nos famosos mind games. Jesus é bombardeado e Vitória sai reforçado. Muitos benfiquistas continuam a cair no ridículo de festejar, com efeitos retroactivos, a derrota do seu próprio clube, então comandado por Jesus, na final da Taça contra um agora confiante Rui Vitória. Com sorte, a ridícula oposição “roquettista” pendura mais um cartaz contra a direcção do Sporting na Segunda Circular.

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Apesar de, no mundo real, o Sporting ter vencido o Braga, António Figueiredo, ex-vice-presidente para o futebol no tempo de Manuel Damásio (e, portanto, responsável por contratações tão sonantes como Nelo, Akwá, Bermúdez, Martin Pringle ou Jorge Soares) disse que “Jesus conduziu o Ferrari, despistou-o três vezes e depois lá conseguiu outras três vezes chegar, de forma titubeante, à meta. Agora está a espremer o Fiat, a ver se chega em primeiro”. João Braz Frade, ex-vice presidente de Vale e Azevedo e mais tarde incorporado no vieirismo – bem na linha do “pensamento único” que, enquanto alguns benfiquistas se entretêm a colar o Sporting actual a uma qualquer Coreia do Norte, se vai instalando cada vez mais no clube da Luz – teve o bom gosto de afirmar que o treinador leonino “ladra conforme o dono manda”. Contudo, no mundo alternativo que aqui simulamos, estes simpáticos ex-integrantes de competentíssimas direcções encarnadas foram, como não podia deixar de ser, ainda mais longe nas suas considerações. O tom triunfal foi por demais evidente e roçou níveis de Abril de 2013; o facto de, mesmo com esta derrota, o Sporting continuar a ser líder e, apesar de ter o terceiro maior orçamento, a equipa que melhor joga em Portugal, foram pormenores sem importância.

golo da vitoria
Slimani já cabeceou… e está prestes a mudar radicalmente a semana desportiva
Fonte: Facebook do Sporting CP

Nem vou falar das alucinações dos Pedros Guerras desta vida, a que não dou audiência a bem da minha saúde mental, mas, entre piadas com “Sporting” e “Natal” ou textos mais ou menos provocadores, foi Jorge Baptista quem mais mostrou a sua alegria. Nos estúdios da SIC, o comentador, que em Agosto chamou “calimeros” aos Sportinguistas, não cabia em si de contente na hora de fazer o funeral antecipado ao emblema leonino. Na próxima escorregadela da equipa, talvez já haja margem para se lançar as sementes do início da ruptura entre Bruno de Carvalho e Jorge Jesus, que muitos diziam ser inevitável mas que, até agora, tem sido tão real como este mundo paralelo que aqui expus.

Contudo, assim como o artigo de Fernando Guerra viu a luz do dia ao primeiro sinal de instabilidade no seio leonino, também não foi a reviravolta categórica do Sporting frente ao Braga que impediu Miguel Cardoso Pereira, responsável pela crónica do jogo no jornal A Bola, de dar um “cheirinho” do que vai nas mentes benfiquistas, transformando a seriedade e o rigor jornalísticos em nada mais do que piadas remotas. Primeiro vem a análise a um primeiro tempo, tão ao lado que nos leva a perguntar se o jornalista não se terá enganado no canal e visto outro jogo: “ainda que entre os 15 e os 40 minutos os leões tenham equilibrado (…) ninguém estranhou os golos dos visitantes”. Depois, o tal bitaite ainda mais surreal, a comentar o golo de Adrien: “Por acaso, [foi] o sexto [penálti] a favor do Sporting nesta liga. É verdade que há dúvidas, que pode ter sido bem assinalada, que o árbitro pelo menos o terá achado (…); mas fica a pergunta: o Sporting queixa-se de quê relativamente às arbitragens?”. Perante isto, creio que não será preciso fazer mais comentários.

goalpoint
Excerto da crónica d’A Bola e as estatísticas do site Goalpoint após o fim da primeira parte
Retirado do blog “O Artista do Dia”

A mesma crónica d’A Bola refere, aliás, que, após os dois golos arsenalistas, “Alvalade chovia de tristeza. Por fora e por dentro”. Ora, isso não podia estar mais longe da verdade. Os adeptos leoninos puxaram pela equipa logo após o 0-2, na ida para o intervalo, no regresso das cabines e um pouco por toda a segunda parte, aumentando de tom à medida que o resultado se ia alterando. O espectáculo nas bancadas, iniciado no 0-0, electrizante no 0-2 e eufórico no 3-2, resultou num clima de apoteose sem precedentes em Portugal, diria eu caso fosse adepto de outro clube e tivesse a mania das grandezas. Como não sou, digo apenas que foi algo inédito no estádio de Alvalade. Se o célebre “minuto 70” gerou tanta euforia no mundo benfiquista, vale a pena imaginar o que seria caso o que ocorreu em Alvalade durante 90 minutos se tivesse passado na Luz durante meros 60 segundos… Como não se passou, deixa de ser um momento memorável para passar a ser apenas um bando de adeptos a gritar as coisas da praxe.

O que é que tudo isto interessa aos Sportinguistas? A verdade é que os jornais, como qualquer observador minimamente atento pode comprovar, são o reflexo de quem manda. Com o desporto-rei não é diferente. Quem detém o poder nos bastidores tem também a hegemonia nos media. E, honra seja feita ao Benfica e a Vieira, nesse aspecto o clube da Luz estende os seus tentáculos com mestria. Talvez seja por isso que, de há uns anos para cá, as críticas de benfiquistas ao estado do futebol nacional tenham passado a rarear – para agora reaparecerem em força, sob a forma de ataques tresloucados a Bruno de Carvalho e a Jorge Jesus. É caso para dizer que, enquanto troçavam do facto de o presidente do Sporting ser um “miúdo”, um “adepto” ou um “novo Vale e Azevedo”, a realidade encarregou-se de lhes passar a perna. O mesmo aconteceu quando se começou a falar da mudança de Jesus para o “clube falido”. Agora tentam reagir, mas é possível – e desejável – que já vão tarde.

Que os Sportinguistas não se deixem enganar: o sistema de dominação benfiquista, aquele dos vouchers e dos telefonemas de Vítor Pereira a árbitros, continua bem vivo. O Sporting é que, até agora, não tem dado hipóteses a ninguém nos relvados. Enquanto Sportinguistas, apenas podemos desejar que as coisas se mantenham assim. Caso isso aconteça, será a vitória do que se passa dentro de campo sobre o que sucede fora dele. E que bom será, para todos nós, podermos testemunhar o regresso em pleno do clube que amamos.

 

Foto de capa: Facebook oficial do Sporting CP

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