A ideia de jogar a final da Taça da Liga no estrangeiro parece surgir dum fundo de ostentação e luxúria, procurando beber também da incontrolável torneira árabe como outros já fazem: quando, em Agosto último, Pedro Proença referiu que há «territórios onde interessa estar», a intenção parecia aludir aos exemplos já dados por Espanha, França ou Itália, que potenciaram financeiramente a realização das suas Supertaças ao transportarem-nas para fora.
Defendeu-se Proença quando ressalvou que não «está a ser equacionado um território em específico»: do ponto de vista sociológico, interessará também a hipótese de reafirmar a marca do futebol português junto das grandes congregações de língua portuguesa em território europeu (comunidades emigrantes em França ou Suíça, por exemplo) ou africano, como Angola ou Moçambique. Esta ideia é a que mais reúne consenso no subconsciente da massa adepta portuguesa, se for obrigada a aceitar essa reformulação competitiva.


Mas surge uma natural apreensão, largamente por questões identitárias, de afirmação clubística e exaltação das grandes tradições ritualísticas em volta do jogo – a romaria ao Jamor, o ‘Marquês’, e outros conceitos de acompanhamento do fenómeno –, da qual resulta relação umbilical com recintos históricos e emblemáticos. Tirar a Taça do Jamor, como aconteceu pontualmente, leva a uma descaracterização do espectáculo e a uma evidente falta de entusiasmo. Se faria sentido levar uma final da Taça ou da Taça da Liga ou da Supertaça para fora do País? Sim, desde que se valorize a portugalidade, dando oportunidade a quem está fora de ver os craques de perto. Isto cria desde aí um factor eliminatório na escolha do troféu a deslocar: com a maioria dos emigrantes cá em Agosto, a Supertaça fica muito bem onde está no calendário.
A Taça, indissociável do Jamor, terá eventualmente de encontrar nova casa, com a degradação natural do recinto e a falta de melhorias ou remodelações. Mas como Wembley nunca deixou de existir no imaginário colectivo, apesar do desaparecimento temporário entre 2000 e 2007, a mesma solução terá de ser pensada para o Jamor, pelo seu peso simbólico. O oportunismo do aproveitamento desse interregno, levando a final da Taça a realizar-se fora do país, apesar de tentadora, seria uma afronta para todo o ritualismo do pré-jogo da ocasião e contribuiria, paradoxalmente, para a noção de centralismo institucionalizada sobretudo pelas gentes do Norte, personificadas largas vezes pela figura de Pinto da Costa e das suas tentativas em levar a Taça para o Norte do País. Alegar-se-ia uma sobreposição na fila de espera e de prioridades.
Por conseguinte, a Taça da Liga seria a mais óbvia escolha para seguir o modelo de exposição internacional da marca portuguesa. O actual figurino cronológico, com constituição nominal do título de Campeão de Inverno e realização em Janeiro, bate certo com as datas definidas pelas federações espanhola, italiana e francesa para as suas Supertaças – e as duas primeiras em modelos competitivos em tudo idênticos à nossa Taça da Liga, em final four.
O que ganharam essas federações em levar o seu futebol à península arábica? No caso italiano, os primeiros a assinar contrato de longa duração (e talvez por isso tenham ficado a perder), a coisa fez-se por 23 milhões, com 16 a dividir pelos participantes e o restante pela organização; No caso espanhol, em contrato assinado em 2019, ficaram ditados… 40 milhões ao ano, mais 75% que a congénere mediterrânica.


Estes são valores irrealistas para a nossa realidade, dado o desnível em qualidade individual e as indefinições em torno das questões de bilhética e direitos televisivos, com os impasses conhecidos no eixo da centralização. E por esse assunto poderemos prever uma eventual interesse árabe em ver in loco Benfica, Sporting ou Porto se atentarmos às dificuldades que a Ligue 1 enfrentou para vender os seus direitos: o objectivo francês, em 2023, eram os mil milhões por ano; os interessados nunca chegaram, só a DAZN se chegou por fim à frente e aproveitou a inerente vantagem negocial para baixar a fasquia – dos mil milhões inicialmente previstos, o acordo fez-se por valores em volta dos… 400M – processo que deu depois para o torto, obrigando a Ligue 1 a tomar conta dos seus próprios direitos ao criar a plataforma de streaming Ligue1+
Esta foi uma medida inovadora que permitiu aos adeptos optar por pacotes de jogos de época inteira ou avulso, influência do acordo entre a MLS e a Apple TV. A adesão superou as previsões iniciais (o milhão previsto para a totalidade da época foi alcançado logo em Agosto) mas a volatilidade das subscrições e a dificuldade na retenção e estabilidade do consumo levou a um número bastante abaixo (440 milhões) dos praticados anteriormente, em contratos anteriores com a MediaPro e Canal +. Tudo somado e retiradas as despesas de transmissão e divulgação, da total responsabilidade do broadcasting, levou a que fossem divididos pelos clubes apenas 80 milhões – o campeão PSG recebeu menos (4,75) que os últimos classificados da Ligue 1 noutros contratos.
O aviso é claro. Em 2024, Rui Caeiro, então dirigente com responsabilidades executivas na Liga, estipulou os 300 milhões como meta para a venda dos direitos, sem grandes conclusões ou realizações até hoje.
Outro aspecto que convém realçar é a experiência organizacional das federações já referidas na realização de certames internacionais. Os franceses têm ampla bagagem, com recorrentes finais da Supertaça no estrangeiro desde 2009 (do Canadá à China, passando por Israel, Tunísia ou Gabão); E os italianos já em 1993 faziam Milan e Torino defrontar-se em Washington pela conquista do troféu – desde aí, foi Tripoli (2002), Nova Iorque (2003), China ou Catar.


No nosso contexto, só há registo de finais de competições jogadas fora em 1994 e 1995, quando se realizaram as finalíssimas da Supertaça no Parque dos Príncipes. Antes disso, só as aventuras africanas na Taça de Portugal, quando os campeões das colónias jogavam entravam na competição. E mesmo aí, numa abertura que começou apenas em 1958, só dez anos mais tarde os da Metrópole começaram a deslocar-se à casa do adversário meridional (quando o Benfica foi a Angola derrotar o ASA por quatro golos, hattrick de Eusébio).
A hipótese africana seduz pela vertente sociólogica e pela recuperação da importância do futebol luso nos antigos territórios ultramarinos, já quase completamente emancipados do ponto de vista cultural e desportivo – nas gerações mais novas, já não Benfica ou Porto o foco das atenções, naturalmente já Real Madrid ou Manchester City, tendência, aliás, já observável no nosso próprio território.
Mas dúvidas surgem, nesse caso, da aptidão diplomática dos responsáveis da Liga e da Federação para que não transformem um evento desportivo num espectáculo de folclore político e de sustentação de ideologias fora do âmbito do jogo. Até porque, para começar, a geografia não parece mesmo ser o forte dos actuais dirigentes.

