Vida de Árbitro – Entrevista a Olegário Benquerença

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BnR: Muitas vezes os árbitros acabam por ser os bodes expiatórios do resultado. Não acha que as novas tecnologias podem evitar episódios infelizes como o que aconteceu com Jorge Ferreira há uns meses atrás?

O.B.: Eu não respondo a questões concretas sobre colegas, sobre desempenhos, porque não me compete. Não estou na estrutura, não tenho responsabilidades e não quero, dizendo que estou de fora, estar a interferir com aquilo que acontece. Sobre esse assunto não lhe vou responder.

BnR: Falemos de um modo genérico, então…

O.B.: Generalizando a questão, voltamos ao mesmo. Como é que é possível passar para alguém uma tomada de decisão quando, por exemplo, nós vemos semanalmente a pouca vergonha que são aqueles pseudo-programas de comentário desportivo com pessoas que tinham a obrigação de ter formação intelectual, pessoal, educação, e que se atacam e que se insultam e que fazem verdadeiras demonstrações de pouca vergonha de tudo aquilo que não deve ser o desporto e daquilo que não deve ser o espectáculo e a sã convivência? Por ali temos um bom exemplo daquilo que seria o problema. Já agora, para os árbitros seria fantástico porque passados três ou quatro semanas passaria a ser o realizador o mau da fita.

BnR: Passar-se-ia a contestar a escolha das imagens?

O.B.: É importante percebermos que a mesma imagem em quatro ângulos diferentes pode ter quatro perspectivas e quatro opções de decisão. É passar a responsabilidade da escolha das imagens e das imagens para outra pessoa. E, já agora, para reflexão: porque é que nós vemos tantas repetições de determinados lances em determinadas zonas do terreno a favor de determinadas equipas e só vemos x repetições quando os lances são nas áreas contrárias, quando a situação é contra outras?

BnR: Acha, então, que os portugueses não lidam bem com o insucesso dos seus clubes?

O.B.: O problema dos problemas dos portugueses não se resolve com tecnologia. Resolve-se com educação, formação, com civismo. Há oito dias houve um jogo que foi influenciado por uma má execução de um jogador que fez aquilo que era impensável acontecer… Agora imagine que era o árbitro que tinha tomado aquela decisão. E veja a reacção que tiveram os responsáveis do clube, e muito bem, de protecção ao atleta, comparada com as afirmações e com a atitude que têm quando os erros são das equipas de arbitragem. Todos nós, árbitros e jogadores, directamente, e os treinadores, indirectamente, influenciamos positivamente ou negativamente o jogo, com as nossas decisões e com o nosso nível de desempenho; por isso é que há os melhores e há os menos bons. Os melhores são os que erram menos vezes, porque se quisermos ver dez, vinte, trinta lances do Ronaldo ou do Messi com execuções tão primárias que nem os miúdos dos benjamins as têm também se arranja. É tudo uma questão de perspectiva.

Tomás Gomes
Tomás Gomes
O Tomás é sócio do Benfica desde os dois meses. Amante do desporto rei, o seu passatempo favorito é passar os domingos a beber imperial e a comer tremoços com o rabo enterrado no sofá enquanto vê Premier League.                                                                                                                                                 O Tomás escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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