BnR: Nunca se sentiu ameaçado durante a sua carreira de árbitro?

O.B.: Sabe que a vida não se faz de gente medrosa, a vida não se faz de gente que não assume as suas convicções e que não corre riscos. Quem vai para árbitro sabe o risco que corre e sabe que está sujeito a manipulações de massas que tornam o indivíduo, muitas vezes, vítima de culpa alheia. Não é árbitro quem quer; é árbitro quem pode, quem aguenta. Quem tem, de facto, força e coragem. A ameaça é permanente, mas todos os dias em que pego no carro corro o risco de ser morto na estrada por um acidente de viação em relação ao qual não tenho qualquer responsabilidade. Portanto o risco faz parte da nossa vida e esse é só mais um. Até porque se manifestarmos medo estamos a dar força àqueles que usam o terror como forma de coacção.

BnR: Um árbitro é um ser humano como qualquer outro. Tem convicções, opiniões, um clube… Isso nunca o influenciou dentro de campo?

O.B.: A resposta é dada por qualquer um de nós, mas não é entendida por pessoas que nunca viveram a experiência. Quem é sério e quem procura fazer bons desempenhos quando chega ao relvado esquece todo o mundo à sua volta porque tem necessariamente que esquecer. Não é porque quer ou não; é porque tem de ser. É porque a velocidade do jogo e os níveis de concentração necessários fazem com que nós esqueçamos tudo aquilo; se é o A, se é o B, se é o C. Acima de tudo o árbitro tem também a sua competição, quer também progredir na sua carreira, e está focado em ter o melhor desempenho possível. Depois, como é óbvio, eu particularmente passei por ser benfiquista, sportinguista, portista, consoante os jogos e consoante o teórico desempenho que obtive. Numa semana era do Benfica porque errei a favor do Benfica, na semana a seguir já era do Sporting porque errei a favor do Sporting; no dia a seguir era do Porto porque errei a favor do Porto. E, portanto, esta é a riqueza de estar neste espectáculo. As pessoas renegam-se diariamente e fazem acusações. Desmente-se diariamente em função dos acontecimentos do fim-de-semana. Nós passamos por ser tudo e mais alguma coisa e o contrário também. Não tem influência.

BnR: O Duarte Gomes, que também acabou a carreira recentemente, em entrevista ao Expresso disse que simpatizava com o Benfica. Você também simpatiza com algum clube?

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O.B.: O Duarte é simpatizante do Benfica, sempre o foi, sempre o assumiu, e não é isso que está em causa. Desde miúdo que as pessoas que comigo convivem sabem quais são as minhas simpatias clubistas. Não são sequer segredo, porque nunca o foram, mas a partir de determinada altura essa simpatia, no meu caso concreto, acabou por se dissipar no meu cérebro porque eu segui outro caminho e o caminho que eu segui foi o caminho da arbitragem. Portanto, quando se está na arbitragem a 100%, física e emocionalmente, o nosso clube é a arbitragem. Todos os intervenientes no espectáculo, as equipas que participam nas competições que nós arbitramos, são parceiros.

BnR: Mas agora que terminou a carreira não deixou o ‘clube’ da arbitragem para voltar a apoiar o seu clube?

O.B.: Eu acabei por perder, se quisermos, o fervor clubista que tinha e passei a conviver no meu mundo, o mundo da arbitragem. Aquilo que acontece aos clubes a mim não me diz respeito; não tenho qualquer tipo de influência nas suas tomadas de decisão, não escolho jogadores, não escolho treinadores, não escolho dirigentes. Cada um segue o seu caminho. Os assuntos relacionados com simpatias e clubismos são assuntos que eu nem sequer alimento e portanto não lhe vou dizer, mas não é segredo e toda a gente sabe qual é a minha simpatia. Até porque se eu dissesse estaria a matar o tal mito de que lhe falei há pouco, numa semana sou de um clube, na outra sou de outro… Portanto, é bom que isso subsista na cabeça das pessoas, para alimentar as suas ilusões e as polémicas e a má língua, e que eu não mate 66% dessa questão.

Árbitro de Leiria comentou a atualidade desportiva no BnR Fonte: Torneio Lopes da Silva
Árbitro de Leiria comentou a atualidade desportiva no BnR
Fonte: Torneio Lopes da Silva

BnR: Falando do Benfica, qual é a sua opinião em relação à polémica dos vouchers?

O.B.: É verdade que o Benfica terá oferecido os vouchers aos árbitros e a camisola do Eusébio e isso tudo. Era bom que todos os clubes, os que atacam essa oferta, essa prenda, começassem por fazer um registo de interesses e dizer aquilo que oferecem também, porque, lá voltamos ao mesmo, estar a criminalizar essa oferta é estar a ofender a honra e a dignidade de muita gente, porque significa que as pessoas alteram e adulteram a sua seriedade em função de receberem um vale-refeição. Essa é apenas mais uma daquelas proezas em que a comunicação social portuguesa é pródiga, alimentar em vez de extinguir a polémica, porque é evidente que querem viver com a polémica.

BnR: Recebeu um alguma vez?

O.B.: A única coisa que posso dizer é que não tenho porque não fiz o Benfica, não sei se eles oferecem ou não oferecem porque não recebi, mas não tenho nada contra. E se tivesse feito o Benfica e se mo tivessem oferecido tê-lo-ia recebido embora não o usasse, como é óbvio. Porque felizmente o dinheiro que ganho no futebol, que ganhei, e que ganho na minha vida profissional ainda chegam para eu comer. Não usaria o voucher como, aliás, nenhum árbitro usou, e a notícia é a oferta quando a notícia devia ser sobre os árbitros que a usaram, mas isso extinguia o problema porque nunca nenhum árbitro utilizou esse voucher, portanto nunca nenhum árbitro comeu à conta do Benfica nesse pressuposto.

BnR: Recebeu prendas de outros clubes?

O.B.: Tenho, felizmente, um museu riquíssimo de recordações da minha carreira que inclui centenas de camisolas, inclui o mais diverso tipo de recordações. Fundamentalmente aquilo que sempre me guiou foi… Primeiro, o que quer que fosse não significaria nada, não conseguiria atingir o objectivo de me influenciar ou de me sugestionar de alguma forma. Segundo, toda e qualquer oferta que me fosse efectuada e que me parecesse estar associada a uma tentativa de excessiva simpatia ou até de conquista de favor seria liminarmente rejeitada. E deixei ao longo da minha carreira, várias vezes, as prendas, as lembranças, que me eram dadas naqueles momentos. Agora é uma falsa questão porque toda a gente, em todos os sectores de actividade, entende como gesto de cortesia quando se visita alguém levar alguma coisa ou quando se recebe alguém importante oferecer alguma coisa. E isso é um gesto de cortesia. A maldade das pessoas e a necessidade constante de encontrar bodes expiatórios para os seus fracassos e insucessos é que leva a que se diabolize um gesto tão simples… Ao ponto de… Quer dizer, este ano houve uma história à volta de um roupão. Chegou-se ao ponto de considerar que um roupão colocado num balneário para uso da equipa de arbitragem fosse considerado suborno! – na cabeça das pessoas, entenda-se.

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O Tomás é sócio do Benfica desde os dois meses. Amante do desporto rei, o seu passatempo favorito é passar os domingos a beber imperial e a comer tremoços com o rabo enterrado no sofá enquanto vê Premier League.                                                                                                                                                 O Tomás escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.