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Olegário Benquerença é um dos nomes de referência na arbitragem portuguesa e marcou, sem dúvida, o início do século. No seu currículo conta com o Euro’2008 e Mundial’2010 e vários jogos para as competições de clubes da UEFA. É um árbitro de elite. O antigo árbitro leiriense fala, pela primeira vez desde que terminou a carreira, sobre como é este mundo da arbitragem e as suas opiniões em relação às novas tecnologias no futebol, à próxima geração de árbitros e aos presentes de clubes a árbitros.

Bola na Rede: Faz em Junho um ano que se afastou dos relvados. Sente saudades?

Olegário Benquerença: Eu nesse assunto digo muito simplesmente: não tenho saudades. Tudo na vida tem um tempo e se há actividade que está devidamente estipulada quanto à sua permanência é a arbitragem. Todos os árbitros sabem que aos 45 anos de idade terminam as suas carreiras. Portanto, penso que quem for organizado mentalmente se prepara atempadamente para chegar ao fim; fechar a porta e viver apenas de recordações dos bons momentos que teve ao longo desses anos todos.

BnR: Durante os anos em que arbitrou conseguiu sempre separar a sua profissão da actividade de árbitro?

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O.B.: Quando se chega ao nível de uma primeira categoria, a árbitro internacional, a arbitragem torna-se muito absorvente em termos de tempo e disponibilidade para o exercício da função. Os árbitros adequam as suas vidas para poderem estar em disponibilidade total para a arbitragem. Portanto quando se fala no profissionalismo da arbitragem fala-se de uma falsa questão. Os árbitros são já profissionais na atitude, profissionais na dedicação e na disponibilidade que têm para o desempenho, com jogos ao domingo, à quarta, jogos nas ilhas, jogos internacionais… A nossa vida passa por ser-se árbitro e nas horas vagas trabalhar nas profissões que temos. No meu caso concreto, foi uma opção que eu tomei em 2002. Eu era profissional de seguros, trabalhava numa seguradora, e abdiquei da minha carreira pessoal para ter uma disponibilidade total para a arbitragem.

BnR: Qual é que é a história mais marcante que guarda dos anos em que arbitrou?

O.B.: Tenho felizmente muito boas recordações de diversos momentos da minha carreira. Não consigo destacar nenhum momento em particular por razões desportivas, ou porque este jogo foi melhor do que aquele… No entanto, é verdade que o momento mais simbólico de toda a minha carreira foi a estreia no Campeonato do Mundo. Foram muitos anos a sonhar. Quando eu entrei para a arbitragem já alimentava esse sonho e lutei toda a minha carreira para conseguir concretizá-lo. Felizmente consegui e no dia em que fiz o meu primeiro jogo [Mundial de África do Sul de 2010] senti a recompensa por todos os anos de sacrifícios pessoais, profissionais e familiares que tive que fazer ao longo desse período.

BnR: Por falar em competições internacionais de selecções, não há árbitros portugueses no Euro 2016. Acha que se perdeu qualidade na arbitragem?

O.B.: Eu não acho que se tenha perdido qualidade. Provavelmente aquilo que se perdeu, e não foi agora, foi a preparação do momento após a minha saída e após a saída do Pedro Proença. As pessoas, e nomeadamente as pessoas do Conselho de Arbitragem, preocuparam-se sempre muito mais com a gestão das suas próprias carreiras do que com a gestão da arbitragem portuguesa; e a gestão da sua sobrevivência. A prova disso é que ao fim destes anos, nós, arbitragem, fomos forçados a colocar quatro árbitros na lista da FIFA que em conjunto não tinham sequer dez jogos de primeira categoria. Isto é claramente um caso único na história da arbitragem portuguesa, e isto sem pôr em causa o mérito e a capacidade individual de cada um deles.

BnR: As pessoas parecem estar muito longe de conhecer o processo de selecção…

O.B.: Há um desconhecimento muito grande do público em geral, no que diz respeito à forma como são seleccionados os árbitros para as competições internacionais. E essa ausência de conhecimento leva a que se cometam muitos erros de análise, que se cometam muitas injustiças na avaliação, como dizer que o árbitro A ou o árbitro B teoricamente não fez um bom trabalho no jogo A ou B. Não é nada disso. Posso dizer que quando fui ao Campeonato do Mundo de 2010, a pré-selecção dos árbitros que iriam ao Mundial nesse ano foi feita em 2007. Três anos antes! Três anos antes já o mundo sabia de que lote de 54 árbitros sairiam os 24 que iriam ao Campeonato do Mundo. Portanto, durante três anos foi uma ignorância total sobre aquilo que iria ou não iria ser o Mundial no que diz respeito à arbitragem. As pessoas não percebem que o Europeu de 2016 foi preparado em 2013. Assim que acaba o Europeu de 2012 começa-se a preparar o Europeu de 2016. Neste momento, o Mundial de 2018 já tem os árbitros pré-seleccionados.

BnR: Acha que em 2018 Portugal já vai estar representado ao nível da arbitragem?

O.B.: Salvo qualquer imponderabilidade, como abandono de carreira, morte, enfim… Salvo qualquer coisa do outro mundo, Portugal em 2018 estará  representado pelo Artur Soares Dias. Ou não terá árbitros. O Artur foi pré-seleccionado pela FIFA, foi fazer testes já no ano passado e está neste momento a competir, se quisermos assim, com um grupo de árbitros do mundo inteiro. Seis meses antes é apresentada a lista, mas essa lista já vem de um trabalho longo de três anos de preparação, selecção, de presença em competições. O Artur esteve no Campeonato do Mundo na Nova Zelândia há seis meses já no plano de preparação. Foi seleccionado para esse Mundial para ser avaliado, para ser acompanhado, monitorizado, e chegará ao fim e terá resultados, ou não. Portanto já sei que daqui a um ano e meio, quando sair a lista, se por infortúnio nosso o Artur não for seleccionado ninguém irá falar disto que estamos aqui a dizer hoje. Dir-se-á na altura que é por causa das arbitragens que ainda hão-de ser feitas no campeonato de 2017/2018 que os árbitros portugueses não irão estar ou irão estar.