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Os emails não revelados: Jorge Jesus escreve ao futebol português

Tiago Ferreira · 4 min

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Caríssimos

Quase 30 anos depois de começar a carreira de treinador ao serviço do meu Amora (que saudades), eis que o meu país não foi suficientemente grande para me albergar enquanto treinador de Futebol. Sim, é verdade, 30 anos. O tempo passa mesmo a correr.

Quando olho para estes 30 anos e relembro o jovem treinador que era, os primeiros passos que dei, as expectativas e os sonhos de quem está no início, um rasgado sorriso é forçado a ficar presente na minha face. Um sorriso de três décadas. Um sorriso de memórias, algumas delas memoráveis.

Confesso que não esperava abandonar o meu país. Não agora. Mas muitas vezes a vida rasteira-nos. Por vezes, mesmo querendo muito algo, mesmo fazendo tudo para o conseguir, mesmo procurando que nada nos aflija, que nada nos demova, a nossa força, dedicação e bom senso não são suficientes. Por vezes existem factores que vão para além da nossa capacidade de os dominar ou de lhes dar o fim mais desejado. E quanto a isso, por agora, fico-me por aqui.

Jorge Jesus acabou “abandonado” em plena Alvalade
Fonte: Bola na Rede

Fico por aqui e vou para ali, para um país completamente diferente do meu. Se vou com medo ou com receio de alguma coisa? Claro que não. Já não tenho idade para isso. Vou com a mesma garra de sempre, com a mesma convicção, com a mesma confiança e o mesmo “amor” que é viver o futebol. Somente levo comigo uma mágoa que me apoquenta, mas que passará gradualmente. A mesma mágoa que talvez seja sarada apenas aquando do meu regresso. Sim, porque eu vou regressar “a casa” em breve. Isso não tenho sombra de dúvidas.

Sou muitas vezes “acusado” de ser orgulhoso ou mesmo de ser presunçoso. Pois não sou orgulhoso da forma como muitos tentam fazer passar para a praça pública. Sou orgulhoso sim, mas pelo meu trabalho. Orgulhoso de ter passado por históricos do futebol português e de, em todos, ter deixado a minha marca. De ter conseguido em Braga o que mais ninguém conseguiu. De ter alcançado no Benfica imensos títulos que tenho muitas dúvidas que voltem a acontecer nos tempos mais próximos dessa forma tão regular. De ter preenchido o coração dos sportinguistas de esperanças renovadas, e de ter colocado esse grande clube novamente no mapa dos candidatos ao título, dos candidatos a encantarem os adeptos e simpatizantes.

O Jorge Jesus é orgulhoso de ser um condutor de homens e não só de atletas. De pela minha mão terem passado meninos em que nas chuteiras estava inscrito o sonho ainda distante de serem uma estrela, mas que comigo driblaram os obstáculos que sempre se encontram, até efectuarem o remate final que os levou ao estrelato durante anos. Orgulho-me de ter para além das capacidades técnicas, a capacidade emocional de entender o que cada jogador pretende. E só assim se consegue tirar o melhor de cada um, tornando-os naquilo que muitas vezes nem os próprios acreditavam ser possível.

Bruno Fernandes foi mais um dos muitos jogadores que Jorge Jesus tem potenciado ao longo dos anos
Fonte: Sporting CP

Não receiem! Continuarão a ouvir falar de mim. Certamente que terão algumas surpresas ao longo do ano que vos irão obrigar a isso. Para já, é o Carrillo e o Slimani que são motivos de conversa. Mas haverão mais. E por agora posso-vos confirmar que sim. Que gostava muito de ter esses dois atletas aqui comigo. O primeiro porque comigo já valeria o dobro do que vale (mal empregue tanto talento). O segundo porque infelizmente foi para um clube que não dá atenção à pessoa que ele é, mas somente ao atleta. Comigo voltaria a ser aquele ponta de lança que encanta os adeptos.

Quero e preciso de terminar. Não é na verdade o terminus de nada. É um intervalo. Ou melhor: é o descanso entre o jogo e o prolongamento que se avizinha. Já joguei 90 minutos durante 30 anos. Sei que não conseguirei jogar outros 90. Portanto isto não é mais que o momento em que planeamos a estratégia para “atacar” aquilo que ainda resta na nossa vida.

Os 30 minutos que me restam serão prolongados durante anos. Anos divididos por semanas de treinos, fins de semanas de jogos, conferências em que poderei estar mais ou menos sorridente. Semanas de expectativas, de reflexões, de certezas e de incertezas (eu por vezes também as tenho, mesmo que pensem que não), de comemorações ou de desilusões. E isso, no fundo, é o que me faz a cada dia levantar e ser apaixonado, como há 30 anos o era, pelo futebol.

Uma coisa vos garanto: Os 30 minutos que me faltam serão jogados quase na sua plenitude em Portugal, e eu continuarei a ser o homem que se rege pelos mesmos valores que outrora, mas talvez um pouco mais “refinado”.

Até breve

Jorge Jesus

Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência

Artigo revisto por: Rita Asseiceiro

Tiago Ferreira

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