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Força da Tática: Um Clássico de Desafios

Júnior Barroso · 9 min

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força da tática

Numa altura em que todas as atenções estão focadas no grande clássico do próximo dia 1 de Abril na Luz, quer os adeptos nortenhos do Futebol Clube do Porto, quer os adeptos da Margem Sul do Sport Lisboa e Benfica vêem neste duelo, para além do jogo do título, uma vingança que vem de trás. Se os benfiquistas querem redimir-se dos últimos jogos com o Futebol Clube do Porto, nomeadamente do último clássico na Luz, em que o Porto saiu vencedor, em Janeiro de 2016, os portistas querem redimir-se dos últimos três campeonatos nacionais, dos quais as águias saíram vencedoras, e assim dar um passo gigante na conquista do título, após mais de um ano sem conhecer o primeiro lugar da tabela.

Vejamos primeiro a situação dos dois clubes. Os encarnados encontram-se no primeiro posto desde o início da temporada, sendo que no início de Janeiro, se encontravam oito pontos à frente de um então frágil Futebol Clube do Porto. Desde então, encontram-se apenas isolados dos dragões por um ponto e contam com as possíveis baixas de Fejsa e Grimaldo. Vêm de um empate e jogadores como Pizzi, Jonas e Salvio, fundamentais na manobra ofensiva do clube de Lisboa, não se encontram no topo das suas formas, o que tem levado a alguma quebra geral do fio de jogo do Benfica. Esta queda geral de rendimento pode também estar relacionada com a saída de Gonçalo Guedes e consequente falta de investimento no Mercado de Inverno.

No Futebol Clube do Porto, vemos uma equipa com uma clara melhoria de jogo, que tem vindo a encurtar a distância para o primeiro lugar e a aumentar a distância para o segundo, que viu em Soares o complemento essencial para o esquema tático de Nuno Espírito Santo e que, apesar do calendário mais acessível que tem tido neste último mês, tem melhorado a sua qualidade de jogo, sobretudo com o regresso de Brahimi e o crescimento como jogador de Óliver Torres. São já a equipa com mais golos marcados e com menos golos sofridos e, apesar do último empate em casa com o Setúbal e a quebra de rendimento de André Silva, segue mais confiante do que nunca para o próximo embate.

Dito isto, o Futebol Clube do Porto é, neste momento, a equipa que pratica o melhor futebol e que possui uma maior confiança no seu estilo de jogo. Contudo, se nos clássicos existe a máxima que “não há favoritos”, neste jogo não será diferente, até porque do outro lado está o atual líder, o tricampeão nacional, Benfica, que, acima de tudo, joga em casa e é mais que capaz de vencer o clube da invicta.

Analisando agora a forma como cada equipa deve jogar. Do lado das águias, o sistema pode tratar-se do habitual 4x4x2 ou também do muito usado nos jogos grandes 4x2x3x1, com um médio organizador de jogo mais avançado e com um jogo posicional mais fluído. A dúvida principal residirá, assim, no facto de Rui Vitória apostar na dupla Jonas/Mitroglou, ou se apenas usará um destes e jogará com Rafa ou Pizzi como Falso 9.

Salvio tem dividido o coração dos adeptos benfiquistas Fonte: Facebook Oficial de Eduardo Salvio
Salvio tem dividido o coração dos adeptos benfiquistas
Fonte: Facebook Oficial de Eduardo Salvio

Na minha opinião, este tem sido o grande problema de Rui Vitória esta época, já que tem três jogadores de grande estatuto com lugar cativo. Primeiro, na defesa, Luisão, um dos melhores centrais da história do Benfica, que tem feito uma época boa, ao seu nível, mas que, dada a sua idade e perda de aceleração/velocidade, limita o comportamento defensivo da equipa benfiquista, por um lado a linha de fora-de-jogo é feita mais lentamente, muitas vezes fora de tempo, e com este várias vezes mal colocado. Por outro, nos jogos grandes, a linha defensiva atua bastante mais recuada e, por isso mesmo, o Benfica joga em bloco médio/baixo, permitindo mais liberdade na construção das equipas adversárias e, limitando a sua construção, obriga ao jogo direto onde, muitas vezes, tem que ser Éderson a colocar as bolas na frente de ataque.

Segundo, Salvio, desde a sua longa lesão, perdeu velocidade e aceleração (essenciais para o seu jogo) o que, se juntarmos a sua falta de capacidade na tomada de decisão (continua com as suas investidas de 1×2, 1×3 e 1×4), fá-lo tornar-se muito mais previsível. Por último, Jonas é, sem dúvida, um dos melhores jogadores do Benfica e é um dos principais pensadores do esquema de Rui Vitória. Contudo, nestes jogos, com uma marcação individual mais cerrada e com menos possibilidade em jogar entre linhas como tanto gosta, não é a melhor opção e deve ser utilizado consoante o rumo do jogo, no decorrer da segunda parte. Isto tudo, pode não ser a melhor opção, sobretudo se o Benfica assumir um contra-ataque como irei falar a seguir.

Com isto quero dizer que Rui Vitória nunca venceu nenhum duelo com dois avançados e, sendo o Futebol Clube do Porto uma equipa que joga com quatro a cinco médios e com um pressing bastante alto, o treinador benfiquista deve comportar-se tal como fez com o Sporting, na primeira volta do campeonato. Isto é, o Futebol Clube do Porto deverá entrar bastante forte, o que levará o Benfica a recuar a linha defensiva e a jogar direto. Entram assim os contra ataques do plantel encarnado que, com os jogadores certos, pode funcionar na perfeição, exigindo assim bastante velocidade na frente de ataque e, por isso, apenas um avançado que, em perfeitas condições, deveria ser Raúl Jimenez.

Neste sistema, Raúl iria limitar o jogo de Danilo, Salvio seria titular, já que impediria o avanço no terreno, em muitas ocasiões, por Alex Telles e, por fim, Cervi e Rafa estariam no apoio a Samaris e Pizzi, no meio campo Benfiquista. Note-se que, caso joguem André Almeida e Samaris, a forma de atuar do Benfica será completamente diferente, já que Pizzi jogará na frente destes e existirá uma perda de qualidade ofensiva do clube na Luz. Rafa e Cervi, pouco utilizados nos últimos tempos, devem ser as escolhas de Rui Vitória, não só pela sua rapidez, mas também pela sua entrega ao jogo. Resta-me dizer que Rui Vitória, caso assuma esta leitura de jogo, pode muito bem jogar com Mitroglou ou Jonas na frente de ataque, em detrimento de Jimenez, até porque, com o mexicano, passaria a ter um ataque com três jogadores menos utilizados.

No Futebol Clube do Porto, existirá a dúvida entre o 4x3x3, sem André Silva, ou no 4x4x2 (e não um 4x2x4 como muitos gostam de afirmar), com André e Soares na frente de ataque, por parte de NES. O 4x3x3 é a tática mais utilizada pelo Futebol Clube do Porto desde sempre. Contudo, com a vinda de Soares e o regresso de Brahimi, é no 4x4x2 que os dragões se sentem mais à vontade e que praticam o melhor futebol. Neste sistema, jogar com Corona e Brahimi, ou apenas com um deles, indica um comportamento completamente diferente no estilo de jogo, sobretudo na quantidade de jogadores no miolo.

Na minha opinião, caso assuma este sistema, Nuno deve preterir Corona e jogará, assim, com uma espécie de 4x4x2 losango, em que terá um trinco e dois interiores e terá depois Brahimi mais solto que, apesar de preferir descair da esquerda para o centro, estará nas costas dos dois avançados e será sempre complementado por Soares, com André Silva a jogar mais fixo na frente do ataque.

Maxi Pereira espera mais uma receção calorosa pelos adeptos encarnados Fonte:  FC Porto
Maxi Pereira espera mais uma receção calorosa pelos adeptos encarnados
Fonte: FC Porto

O problema continua a estar na lateral direita, onde, apesar de Maxi ter melhorado a sua forma, perdeu bastante intensidade com a idade e continua a apresentar um controlo da profundidade bastante deficitário, sobretudo se compararmos com o lado esquerdo de Alex Telles. Caso jogue Layun, o seu rendimento na ala direita é bastante inferior ao seu rendimento na esquerda. No entanto, continua a oferecer uma maior qualidade de jogo em termos de posse de bola, em zonas mais avançadas do terreno, comparando com Maxi. Com a forma recente do Futebol Clube do Porto, que só perdeu por uma vez nesta edição da Liga NOS 2016/17, frente ao Sporting, deverá preterir o 4x3x3 e atuar com o 4x4x2, que tem dado futebol e qualidade de jogo convincente para a massa associativa.

Com uma defesa bastante rápida e com uma equipa maioritariamente forte fisicamente, Felipe terá a dura tarefa de fazer as dobras a Maxi Pereira, que se adivinha com problemas com bolas nas suas costas, dada a sua falta do controlo de profundidade, e com Rafa certamente a aparecer várias vezes a “esticar” o jogo.  Por outro lado, neste sistema, e caso jogue com Herrera ou André André junto a Oliver, poderemos ver Danilo a aparecer várias vezes mais adiantado a conduzir a bola, sobretudo em jogadas com poucos elementos na frente de ataque, de forma a desconcertar o posicionamento de Pizzi e deixando dois elementos em cima de Samaris, com mais espaço para jogar na frente de ataque.

Caso o Benfica pretenda ganhar, este tem que jogar um futebol rápido e intenso, a um e dois toques, jogando na expetativa, e com Samaris constantemente no apoio a Semedo, limitando o jogo de Brahimi. Rafa será também essencial, já que não permitirá grandes avanços, quer do lateral, quer de Danilo, e será essencial no apoio defensivo a Pizzi (continua a ser a sua principal lacuna), sobretudo retirando a influência no jogo portista do seu principal construtor de jogo, Óliver Torres.

O Porto, jogando em 4x4x2, poderá ser um grande risco, já que necessitará de um maior apoio defensivo por Brahimi, o que lhe retira fulgor ofensivo. Para ganhar, deverá jogar com Herrera, já que equilibra a equipa taticamente e permite assim maior espaço no meio campo benfiquista a Óliver Torres. Na segunda parte, para qualquer que seja o resultado, um Corona fresco será um desconcerto, sobretudo para Eliseu, que se espera que tenha grandes dificuldades em travar o jogador mexicano. Deve assim dar uso ao seu jogo de equipa, em que André Silva deve jogar como um complemento a Soares e não o contrário.

Rafa pode regressar à titularidade no clássico Fonte: SL Benfica
Rafa pode regressar à titularidade no clássico
Fonte: SL Benfica

Numa visão geral, espera-se um jogo muito tático e sobretudo jogado pelas alas, com o Porto a pressionar bastante alto e com pressão no portador da bola, desde a saída na primeira fase de construção e com um jogo de posse, onde Brahimi e Soares estarão mais soltos. No Benfica, espera-se uma defesa recuada, jogando na antecipação e dando uso aos três a quatro jogadores de grande velocidade, tal como já vimos esta época. Será assim um jogo muito tático, em que o mais atrevido poderá trazer os maiores desacertos nas organizações deste jogo, já que não há tática que resista ao futebol total. Daí, defendo a inclusão de Sálvio, já que não acho que nem Zivkovic, com falta de maturidade e físico para a intensidade para o jogo de choque de Alex Telles, nem Carrillo, por ainda não possuir intensidade suficiente para um jogo deste nível, devam ser utilizados.

O XI com que o Benfica deverá actuar: Éderson, Nelson Semedo, Luisão, Lindelof, Eliseu, Samaris, Pizzi, Cervi, Rafa, Salvio, Mitroglou. Contudo, acredito que a grande dúvida resida em Rafa onde, caso Rui Vitória assuma uma tática mais ofensiva, jogará com Jonas e Mitroglou e, caso queira uma tática mais defensiva, jogará com Almeida junto a Samaris. Note-se que, em condições, será Fejsa titular naquela posição de Samaris, Samaris na de Almeida e vice-versa.

O XI do Porto deverá ser: Casillas, Maxi Pereira, Felipe, Marcano, Alex Telles, Danilo, Herrera, Óliver Torres, Brahimi, Soares e André Silva. André André poderá jogar no lugar de Herrera e, numa tática ultra ofensiva, deverá jogar com Corona nesta mesma posição. Por fim, caso assuma com 4x3x3, Corona deve jogar na direita e Brahimi na esquerda, não me parecendo, contudo, que NES opte por este sistema.

Resta-me dizer que espero um clássico bastante tático, com jogo bastante largo e com mais jogo entre linhas para o Porto do que para o Benfica. O meu palpite será para um empate a uma bola.

Artigo revisto por: Francisca Carvalho

Júnior Barroso

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