O jogo de futebol é acima de tudo um jogo de decisões” – Castelo em “A Organização dinâmica de jogo”

Os tempos mudaram e o futebol mudou… Mudou porque as equipas estão cada vez melhores defensivamente, mais coesas, mais compactas, a oferecer menos espaço… Mudou porque a velocidade a que se joga é completamente diferente daquela que se jogava há dez anos… Mudou porque as influências são tantas que os treinadores estão cada vez mais preparados… Mudou porque as equipas com menos valor conseguem bater-se com adversários mais fortes… Mudou porque entrámos na era da estratégia, em que cada pormenor interessa (e muito!).

No futebol moderno, reina aquele que mostra mais inteligência e marca a diferença aquele que pensa e decide antes dos outros, aquele que antevê possíveis cenários. A qualidade no gesto não se relaciona com o fim do mesmo. O gesto deve ser sempre um meio para atingir um fim. O futebol rege-se pela capacidade de decisão de cada jogador. Dentro disso, a qualidade de cada ação deve ser avaliada de acordo com a perceção, intencionalidade, criatividade, decisão e execução.

Vítor Matos dizia na tertúlia Quarentena da Bola o seguinte: “O todo é sempre a soma das partes, mas as partes também estão no todo”, fazendo alusão à importância das individualidades e das suas ações durante o jogo. Apesar de o individual ser cada vez mais valorizado no futebol, nem sempre a avaliação que lhe fazemos é a mais correta. Ações como a receção ou o passe são muitas vezes deixadas de parte, em detrimento de um remate fora da área ou de um drible vistoso. Apesar de, na maioria das vezes, não serem esteticamente tão apreciáveis, têm uma importância inegável dentro da dinâmica do coletivo.

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Além disso, a estatística, aquela que se foca nos números e não na qualidade (e que soma tantos amantes), oferece uma visão demasiado simplista do jogo. Logo o futebol, um desporto tão complexo! Xavi tem uma abordagem curiosa numa entrevista ao So Foot, onde fala sobre a importância que dá às estatísticas: “Faz-me rir ver todos esses GPS‘s que colocam nos nossos corpos. Quando olham para os dados, os analistas estatísticos dizem para eles próprios ’em 100 passes, 80 foram certos’. A sério? E como sabes que foram bons? Sabem como os contam? Para eles, é válido a partir do momento em que o jogador controla a bola que lhe enviei. Isto é um bom passe para o GPS. Sim, ele controlou a bola, mas está rodeado de quatro adversários. Então não, esse foi um mau passe. Um bom teria sido para outro lugar onde alguém estivesse livre de marcação. E o GPS não deteta isso”.

Pedro Bouças partilha da opinião de Xavi e refere que: “o bom jogo está completamente longe de poder ser interpretado ou quantificado por números que queiram trazer avaliações qualitativas. Porque não se pode quantificar a qualidade do que mais importa. As decisões!”. Por exemplo, o vídeo seguinte, produzido por Rodrigo Castro, um dos fundadores do Lateral Esquerdo, explica bem o que um passe banal aos olhos da estatística causou na equipa adversária. Iniesta retarda o passe para atrair a equipa adversária e depois explorar o espaço central.

golo messi from RCB on Vimeo.

Vejo a receção como uma arte! Arte, porque é algo complexo (não de explicar, mas de executar), que envolve várias ações e timings dentro do próprio gesto técnico.

Primeiro que tudo, terá de haver um bom entendimento do jogo, pensar naquilo que vamos fazer antes do adversário, para ganhar tempo e espaço para a próxima ação, seja passe, drible ou remate.

Quando existe uma antecipação do contexto tanto a nível mental como a nível motor, o jogador está mais preparado para agir. Conseguir identificar o contexto em que está inserido através do olhar por cima do ombro, a tomada de decisão prévia, a orientação corporal e a técnica da receção são critérios importantes que ajudam a definir uma boa receção orientada.

Associo o futebol à rapidez. O importante é pensar rápido, executar rápido, procurar que a mente seja mais rápida do que as pernas” – Luís Figo em entrevista ao jornal A BOLA.

Claro que a orientação corporal de cada jogador (que tem muito a ver com a antecipação da ação) é fundamental para quem pretende ser rápido no aproveitamento do espaço ou no desenvolvimento da ação seguinte. Quando um jogador não está bem orientado, forçosamente terá um campo de visão menor, não analisando possíveis ângulos de pressão adversária e não tendo a perceção e identificação de todo o meio que o rodeia, consequentemente, a possibilidade de tomar a decisão mais acertada será menor. A colocação dos apoios (assunto cada vez mais falado nas análises de futebol) também é fundamental. Um jogador com os apoios paralelos perde a oportunidade do primeiro tempo de receção ser utilizado para uma ação em progressão. Normalmente, o correto será ter os apoios na diagonal para que o primeiro toque seja realizado com a parte interior do pé mais avançado em relação ao eixo do corpo e com progressão, o segundo toque serve para desenvolver a ação seguinte (drible, remate, passe …). Guardiola exemplifica e aborda a orientação corporal no vídeo seguinte a partir dos 47 segundos.

O futebol é tempo e espaço, mas o espaço tem um tempo” – Fernando Valente

Outro dos aspetos importantes é a capacidade de ajuste que o jogador tem ou não para sair de determinada pressão. Muitas vezes o jogador identifica o espaço antecipadamente, mas depois esse espaço é coberto e a linha de passe passa a não ser tão óbvia. A capacidade de o jogador ajustar e conseguir sair da pressão sem perder a posse é o que distingue o jogador mediano dos melhores.

O bom passe é aquele que fala”, a frase é da autoria de João Almeida Rosa, criador do blog 11 Médios e antigo redator no Bola na Rede e define de forma brilhante a arte de bem passar. Anteriormente, tinha referido que as estatísticas pouco interessam no mundo do futebol, não só por serem demasiado simplistas, como porque não evidenciam de forma correta o que se passa no campo. Por exemplo, se tivermos uma zona congestionada à nossa direita e tivermos espaço e condições para atacar à nossa esquerda, e passarmos a bola à direita, fazendo a bola chegar ao recetor, é óbvio que o nosso gesto não foi o melhor, mas segundo a estatística, o passe foi bem-sucedido.

Um dos atributos mais importantes num jogador é a intencionalidade que tem no seu agir. Numa fase em que as equipas estão cada vez mais confortáveis sem bola, importa desmontar linhas, chamar à pressão e aproveitar as costas, atrair de um lado e explorar o contrário, atrair no corredor central e explorar um dos corredores laterais… Todos os gestos têm de ter uma intenção subjacente. Só assim um coletivo terá mais possibilidades de criar dano ao adversário. É o reflexo das nossas ideias para o jogo. O passe é visto como um meio de controlo e manipulação do adversário. Guardiola realça esta mesma ideia quando diz: “We do not pass to move the ball, we pass to move the opponent”.

Bruno Fidalgo, ex-colaborador do site Lateral Esquerdo e atual analista da equipa do Vitória SC B, explica num artigo chamado “Intencionalidade do passe- Stones” este tipo de comportamentos:

A criatividade que um indivíduo como central tem que revelar é diferente daquela que tem que revelar um gajo que joga num setor mais avançado, mas é absolutamente imprescindível que dentro dos contextos surja, a originalidade na situação ou na solução. E essa é da responsabilidade de quem?! Dos jogadores, mas só se eles forem criados e treinados a ter que pensar, a ter que decidir, a ter que sentir, a tomada de decisão tem que ser deles. A tomada de decisão é em função de um propósito geral, portanto da intenção prévia que eles sabem que existe, mas no agir tendo em conta as circunstâncias. Resolvem melhor ou pior em função da habituação que têm e da capacidade de poder decidir, isto é escolher…, portanto, é absolutamente indispensável que se promova. Agora como diria Valdano “não há criatividade sem ordem”.” – Vítor Frade

O genial professor Vítor Frade exalta a importância da promoção da criatividade na tomada de decisão do jogador. Muitos são aqueles que relacionam a criatividade com um drible ou passe vistoso a sair de zonas de pressão. Também é! Mas criatividade no futebol, muitas vezes é aquilo que não nos desperta tanta atenção. O jogador criativo é aquele que simplifica as situações de jogo e torna os lances mais passíveis de serem bem-sucedidos pelos colegas de equipa. Por exemplo, Busquets é um jogador criativo? Um dos mais criativos do futebol atual!

“Para mim o médio centro tem que estar permanentemente em contacto com o jogo e sempre a antecipar situações que podem ocorrer. Digo sempre que os melhores jogadores táticos que conheci são Sergio Busquets e Philipp Lahm. Fazem tudo para conseguir alguma vantagem tática, sobretudo em decisões a curtas distâncias. Eles agarram na bola e dizem: “Vou fazer isto para que se passe isto”. Isso é inteligência e conhecimento de jogo”. Xabi Alonso

Qual é afinal o melhor passe? É o passe que orienta, ou seja, o passe que induz ao colega determinada ação. Na verdade, este sim, é o “passe que fala”. O passe que consegue dar indicações ou sugestões de um determinado espaço para explorar. Valdano refere numa entrevista que “ninguém na história do jogo fez do passe uma linha de comunicação como Xavi”. Que frase genial e com tanto de veracidade! Gosto de falar de jogadores como Aimar, Messi, Iniesta, Busquets ou Xavi, porque foram eles os principais responsáveis para que eu gostasse de futebol. Eram eles que faziam os outros jogar! Todos eles pensavam como um “10”! Porquê? Porque em posse interpretavam o jogo sempre em busca da melhor solução, sempre em busca de orientar a equipa para uma determinada jogada. O “passe que fala” é exatamente isto, é ser um dez em dez, por um “10”!

O talento é aquele que controla o que faz e o que os outros fazem” – Xavi em entrevista a So Foot.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão