A festa da Taça é algo pelo qual todos os amantes do futebol português anseiam. E quando falamos em festa da Taça o que é que vem logo à memória? Mais recentemente, talvez a vitória do Desportivo das Aves sobre o Sporting CP, na final do Jamor da época passada. Ou a vitória do Gondomar na antiga Luz, em 2002, no célebre dia em que Jesualdo Ferreira optou por jogar com dois trincos contra o poderoso Gondomar (II Divisão B)? Ou uns anos mais tarde, em 2007, na vitória do Atlético da Tapadinha em pleno Estádio do Dragão, com um golo caricato de David?

Estes e muitos outros momentos fazem parte do imaginário da “Festa da Taça”. Neste artigo recordamos a epopeia do SC Beira-Mar rumo à conquista da Taça de Portugal na época 1998/99.

O SC Beira-Mar começou a sua participação na Taça de Portugal 98/99 na 4.ª eliminatória, assim como todos os restantes clubes da Primeira Divisão. O sorteio colocou os comandados de António Sousa contra o modesto “Fófó” (Clube de Futebol Benfica) da III Divisão. Uma vitória tranquila por 4-2 no Estádio Mário Duarte permitiu aos aveirenses começar com o pé direito a sua participação na Taça de Portugal 98/99. Ao mesmo tempo, a festa da taça tinha a sua primeira versão na edição deste ano, com o Sporting CP a ser derrotado em Barcelos pelo Gil Vicente FC (3-2).

Na ronda seguinte, em pleno Carnaval, o SC Beira-Mar não levou a mal, e cilindrou o Portomosense por esclarecedores 7-0. Uma particularidade sobre este jogo, os sete golos foram apontados por sete jogadores diferentes, a saber: Luís Quintas, Carlos André, Paulo Sérgio, Gila, Ricardo Sousa, Fary e Rakovic. Esta ronda marca ainda a despedida dos grandes da competição, com o FC Porto a ser surpreendido em casa pelo SC Torreense (0-1) e o SL Benfica a sair derrotado do Bonfim por 2-0.

O estádio Mário Duarte foi palco de grande parte da caminhada rumo ao Jamor
Fonte: SC Beira-Mar

Com os três grandes fora da corrida, assistiu-se a um intensificar da luta entre os clubes ainda em competição, na ânsia de conquistar o lugar ao sol que quase ininterruptamente era (é) ocupado por SL Benfica, FC Porto e Sporting CP.

A caminhada do SC Beira-Mar rumo ao Jamor prosseguiu de forma curiosa: oitavos-de-final e quartos-de-final, duas rondas, quatro jogos disputados. Confuso? Eis a explicação: nos oitavos de final, os aveirenses receberam a União de Leiria e no final dos 120 minutos o empate a uma bola persistiu. Por isso, houve lugar a um segundo jogo, de desempate, no Dr. Magalhães Pessoa, jogo esse que o Beira-Mar venceu por 2-1 com um golo quase em cima dos 90’.

Na ronda seguinte, novo empate no final dos 120 minutos, novamente a uma bola, desta feita o adversário foi o Moreirense FC. Dez dias depois, as equipas voltaram a defrontar-se e desta feita os aveirenses receberam e venceram os homens de Moreira de Cónegos pela margem mínima (1-0).

Pasito a pasito”, os comandados de António Sousa iam-se aproximando do Jamor, apesar de no Campeonato as contas estarem muito complicadas: por esta altura os aurinegros estavam já em lugares de despromoção e acabaram por descer de divisão no final da época, fruto do 16.º lugar alcançado. Uma época ao estilo de “Jekyll and Hyde”.

Filho de peixe sabe… marcar?

O último obstáculo antes da chegada ao Jamor: o Vitória FC, equipa sensação do Campeonato nesse ano (terminou em 5.º lugar) e que já tinha eliminado o SL Benfica da Taça. Num jogo extremamente disputado, o SC Beira-Mar voltou a vencer pela margem mínima, com o único golo do jogo a pertencer a Ricardo Sousa. Sim, esse mesmo, filho de António Sousa, o treinador dos aveirenses.

Estava ultrapassado o último adversário antes da presença na final do Jamor, pela segunda vez na história do clube da cidade de Aveiro. E eis que chegamos ao dia 19 de junho de 1999, o dia de uma final que seria no início da época difícil, se não mesmo impossível, de prever: SC Beira-Mar contra SC Campomaiorense.

No topo sul do estádio, um mar amarelo empurrou o SC Beira-Mar para a conquista da Taça de Portugal. A jogar com dez desde os 59’, a equipa de António Sousa chegou à vitória graças a um remate certeiro de Ricardo Sousa (esse mesmo), de pé esquerdo, ainda fora da área. O médio de 20 anos fez a bola entrar bem ao cantinho da baliza sul, para rejúbilo dos milhares de adeptos de amarelo e negro que encheram esse topo.

O troféu que repousa no museu do SC Beira-Mar
Fonte: SC Beira-Mar

Uma final sem grandes, o dia em que António Sousa, uma referência do futebol nacional, “passou” o testemunho e viu o seu filho, Ricardo, escrever uma das mais bonitas páginas da história do SC Beira-Mar e do futebol português. Um dia em que o Estádio do Jamor foi palco de uma autêntica festa da taça. Podia ser sempre assim. Pelo menos uma vez por ano.

 

Foto de Capa: SC Beira-Mar

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