o passado tambem chuta

Os cinco violinos puseram de moda o avançado-centro com chuto aterrador. O Sporting começou uma grande procura para encontrar outro Peyroteo. Encontrou um novo pé de canhão chamado: Mokuna, natural do Congo, no entanto, não tinha a arte de unir potencia e direção. O Benfica também entrou nessa corrida e encontrou um avançado-centro moçambicano chamado Mário Esteves Coluna que tinha um míssil nos seus pés. O Benfica prometia o fim do mundo com esta nova joia moçambicana. Veio e foi experimentado, no entanto, as bolas saídas dos seus pés faziam os chamados balões; Coluna não seria um novo Peyroteo, no entanto, a sua qualidade e a sua capacidade física situaram-no no meio-campo. Coluna viera para ser ele próprio; para ser Coluna.

O Benfica Bicampeão de Europa  Fonte: Fórum PesClassicStats
O Benfica Bicampeão de Europa
Fonte: Fórum PesClassicStats

1955 bateu à porta. O Benfica começou a transformar-se numa máquina de euforias. Coluna foi apoderando-se do meio-campo. José Águas consolidava-se como um avançado-centro fino, resolutivo e decisivo nos grandes momentos; Ângelo marcava os flancos defensivos com saber e pé hábil em todas as variantes; Costa Pereira começou a destapar a sua caixa mágica. O Benfica crescia como jamais voltou a crescer. Coluna, no meio desta estrutura, começou a agigantar-se de tal forma que na final de Berna, no ano 60, contra um Barcelona recheado de estrelas, marcou um golo que hoje teria dado a volta ao mundo tantas vezes como deu o golo marcado por Zidane na final da Taça da Europa que ganhou com o Real Madrid. A bola foi parar ao Coluna que estava situado na zona da grande área direita; perto do ângulo; a bola procurou-o voando; começou a descer; Mário Esteves Coluna levantou a perna; antes de a bola cair; acomodou o corpo e impactou com violência na bola. O esférico saiu como uma bomba em direção à baliza defendida por Ramalhets e entrou sem consentimento. Golo. Golo magistral do Coluna; golo magistral numa final da Taça da Europa. Golo histórico pela execução técnica e pela importância.

Mário Coluna é um dos jogadores do Benfica que ganhou as duas Taças da Europa e esteve presente em todas as finais dos anos 60 que o Benfica disputou. Ganhou uma dezena de campeonatos e taças várias. Mas, assumiu outras responsabilidades: substituiu na capitania da equipa o homem que levantou as duas Taças de Europa: José Águas. Recebeu e acomodou, por encargo familiar, o grande Eusébio. Coluna representava para a massa associativa do Benfica o jogador com juízo. Era o grande capitão. Foi, também, no Mundial de Inglaterra o Capitão e o peso pesado que dava consistência ao meio-campo da seleção.

Mário Coluna: o Capitão  Fonte: BBC
Mário Coluna: o Capitão
Fonte: BBC

Os anos 60 avançaram e estalara a guerra colonial. Coluna era alvo de rumores e algum azar posterior, mas, a massa associativa jamais o apontou negativamente. Era; foi um jogador respeitado e posteriormente foi um homem do futebol ligado ao seu País, mas, as portas do Benfica sempre estiveram abertas de par em par. No mundo do futebol não conheço um caso de respeito e consideração semelhante. Eusébio; Simões ou o José Augusto foram idolatrados; mas, não eram esperados com o silêncio da consideração como era esperado Mário Esteves Coluna. A casualidade levou que partisse do mundo dos vivos pouco depois da partida do seu protegido Eusébio. Certamente, a esta hora, nesse além do imaginário coletivo onde permanecerão Coluna, Eusébio, José Águas, Costa Pereira e Germano, já está construído um Estádio da Luz, realizado em sonhos, para fazer deleitar todos os espíritos.

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