João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol no Tainan City, de Taiwan, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.
Todos os anos ouvimos a mesma frase: “A pré-época serve para ganhar condição física.” É uma ideia instalada no futebol, mas redutora. Se fosse apenas isso, bastaria entregar um plano de corrida aos jogadores durante as férias e chegar ao primeiro jogo em boa forma. A realidade é muito diferente.
A pré-época é, provavelmente, o período mais importante de toda a temporada. É nela que um treinador começa verdadeiramente a construir uma equipa, não apenas um conjunto de jogadores preparados fisicamente, mas um grupo capaz de pensar, decidir e competir segundo uma identidade comum.
Para o treinador, o objectivo é construir uma identidade
Quando iniciamos uma pré-época num novo projecto, partimos quase sempre do zero. Podemos conhecer os jogadores através de vídeos, estatísticas ou relatórios, mas só o treino diário permite perceber quem toma boas decisões sob pressão, quem lidera naturalmente, quem aprende rapidamente e quem necessita de outro tipo de acompanhamento.
A pré-época permite responder a perguntas fundamentais.
- Como quero defender?
- Como quero atacar?
- Como quero reagir à perda da bola?
- Qual será o meu ritmo de jogo?
- Que comportamentos serão inegociáveis?
É neste período que se instalam os princípios de jogo, os mecanismos coletivos e a linguagem comum da equipa, tudo aquilo que, mais tarde, permitirá aos jogadores reagir quase de forma automática perante diferentes situações do jogo.
Ao mesmo tempo, o treinador começa também a conhecer as pessoas por detrás dos atletas, as suas personalidades, os seus medos, a forma como lidam com a exigência, a derrota ou a concorrência interna, nenhum software consegue fornecer essa informação.
Para os jogadores, conquistar espaço
Para os atletas, a pré-época representa uma oportunidade única, todos começam praticamente no mesmo ponto, o passado pesa menos e o presente ganha enorme importância.
É o momento para mostrar compromisso, capacidade de aprendizagem, disponibilidade para trabalhar e adaptação às ideias da equipa técnica.
Nem sempre os melhores jogadores são aqueles que terminam a pré-época mais valorizados. Muitas vezes são aqueles que aprendem mais depressa, que interpretam melhor os princípios coletivos e que demonstram consistência diariamente.
O treinador observa comportamentos, quem comunica, quem ajuda, quem chega primeiro, quem aceita ser corrigido, quem mantém intensidade quando está cansado. São estes pequenos detalhes que acabam por construir confiança.
A condição física é consequência do modelo
Durante muitos anos, a preparação física era quase independente do treino com bola. Hoje, o futebol de alto rendimento segue uma lógica diferente, a condição física deve ser desenvolvida através dos comportamentos que o jogo exige.
Uma equipa que pretende pressionar alto precisa de treinar repetidamente essas ações. Uma equipa que privilegia transições rápidas deve expor os jogadores, diariamente, a esse tipo de estímulos. A preparação física deixa de ser um objetivo isolado para passar a ser uma consequência da forma como treinamos.
Criar cultura
Talvez o maior desafio da pré-época nem seja táctico nem físico, é cultural. Cada grupo chega com hábitos diferentes, experiências distintas e níveis de profissionalismo muito variados, compete ao treinador estabelecer padrões. Pontualidade, disciplina, exigência, responsabilidade, comunicação, espírito coletivo.
Esses padrões não se impõem apenas através do discurso, constroem-se todos os dias. Cada treino, cada reunião e cada decisão transmitem aos jogadores aquilo que é aceitável e aquilo que nunca será negociável. Quando essa cultura fica consolidada, a equipa torna-se muito mais forte do que a soma das individualidades.
Os treinadores também têm uma pré-época
Há um aspeto de que pouco se fala, os treinadores também fazem a sua pré-época. Ao longo da minha carreira tive a oportunidade de trabalhar em Portugal, na Arábia Saudita, na Lituânia, no Iraque, Noruega e, agora, em Taiwan. Esta experiência ensinou-me que não existem duas pré-épocas iguais.
Cada país tem a sua cultura, cada clube tem a sua história, cada balneário tem as suas crenças, hábitos e forma de viver o futebol.
Um treinador deve ter uma identidade e princípios bem definidos, mas também precisa de saber adaptar a forma como comunica, como lidera e até como treina. Adaptar não significa abdicar das suas ideias, significa perceber o contexto e encontrar o melhor caminho para fazer a equipa crescer.
A pré-época não serve apenas para conhecer os jogadores, serve também para que o treinador conheça o clube, a cultura e as pessoas com quem vai trabalhar. Quanto mais rapidamente compreender esse contexto, maiores serão as probabilidades de construir uma equipa competitiva.

