Tribuna VIP: O Benfica precisa de voltar a saber o que quer ser

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João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.

Terminada mais uma época, fica uma sensação difícil de ignorar para quem olha o futebol com olhos de treinador e de construção desportiva, o Benfica continua a ter talento, capacidade financeira, dimensão internacional e uma das melhores academias do mundo, mas perdeu algo fundamental nos grandes clubes, a continuidade estratégica.

E quando um clube perde continuidade, acaba inevitavelmente por perder identidade. Hoje, olhando para os principais rivais, percebe-se claramente a diferença de organização.

O Sporting construiu estabilidade, existe alinhamento entre direção, treinador, recrutamento e modelo de jogo, o mercado é preparado cedo, os perfis são identificados com clareza e os jogadores chegam já enquadrados numa ideia competitiva consolidada.

O FC Porto, mesmo atravessando dificuldades financeiras evidentes, transmite neste momento sinais de reorganização estrutural, Villas-Boas percebeu rapidamente que recuperar competitividade não passa apenas por só contratar jogadores, passa por reorganizar liderança, criar estabilidade interna e voltar a definir uma visão desportiva clara para o futuro do clube. No Benfica, pelo contrário, a sensação é muitas vezes de reação permanente aos acontecimentos.

Um clube desta dimensão não pode entrar no verão sem, reinador totalmente estabilizado, liderança do balneário definida, mercado alinhado e uma ideia clara sobre a construção do próximo ciclo competitivo.

A situação de Otamendi acaba por simbolizar parte dessa instabilidade, um capitão, referência competitiva e líder emocional do grupo não pode chegar a uma fase decisiva da época sem clareza sobre o seu futuro, não é apenas uma questão contratual, é uma questão de liderança e organização interna. Os grandes clubes têm que antecipar decisões e não reagirem atrás delas.

Outro ponto que me parece evidente é a falta de coerência entre recrutamento e identidade competitiva. O Benfica parece dividido entre duas necessidades, ganhar no presente e criar ativos financeiros para o futuro.

Hoje parece existir uma procura constante pelo próximo grande ativo internacional, muitas vezes em detrimento de jogadores já provados no campeonato português e isso levanta uma questão importante. Porque motivo é considerado excessivo investir 20 ou 30 milhões num jogador totalmente adaptado à Liga Portuguesa, mas aceitável pagar o mesmo valor por atletas cujo rendimento competitivo continua a ser uma incógnita?

O futebol moderno vive cada vez menos de potencial teórico e cada vez mais de rendimento imediato, intensidade competitiva e adaptação emocional ao contexto. E no caso do Benfica, o contexto competitivo é muito específico. Em Portugal, o Benfica domina a maioria dos jogos, isso obriga a construir uma equipa preparada para:

  • Viver instalada no meio-campo adversário;
  • Atacar blocos baixos;
  • Pressionar imediatamente após perda;
  • Manter intensidade física e mental durante 90 minutos;
  •  Suportar emocionalmente a obrigação permanente de vencer.

Não basta contratar talento ou projeção futura, é preciso contratar jogadores para uma ideia clara de jogo.

Existe ainda outra contradição difícil de ignorar, o Benfica continua a ter uma das melhores formações da Europa, mas não consegue transformar regularmente essa qualidade numa base estrutural forte da equipa principal.

E apostar verdadeiramente na formação não significa lançar jovens nos minutos finais de jogos resolvidos, significa criar um modelo transversal desde a academia até à equipa A, preparando jogadores durante anos para responder exatamente às exigências competitivas do clube. Talvez seja precisamente aqui que o Benfica mais precise de refletir.

Os clubes que dominam durante muitos anos não vivem apenas de investimento, vivem de estabilidade, liderança, identidade, alinhamento estratégico, coragem nas decisões e continuidade metodológica. Ter o 5 treinador desde a presidência de Rui Costa não revela nada disto.

O Benfica continua a ter tudo para liderar o futebol português durante muitos anos. Mas para isso precisa primeiro de recuperar algo essencial em qualquer clube grande, uma visão desportiva clara, transversal e preparada para o futuro.

João Prates
João Prateshttp://www.bolanarede.pt
João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Egito, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.

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