
Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google
Filho de uma Lisboa castiça, Augusto Inácio nasceu e cresceu numa família de leões onde só era permitido sonhar com um futuro de trabalho que valesse o pão à mesa. O futebol entrou na sua vida sem pedir licença. E Augusto tornou-se Inácio, um tanto por acaso, outro por talento, mas muito mais por vontade – a mesma que sempre fez as bancadas fixarem o olhar no canhoto franzino e raçudo que disputava cada lance como se fosse questão de vida ou morte. Campeão no “seu” Sporting, foi ao serviço do FC Porto que conquistou a Europa e o mundo. Como treinador, correu o globo inteiro, mas foi em casa que logrou o seu maior feito, devolvendo o título de campeão nacional ao Sporting, em 1999, após uma longa espera de 18 anos. Jogador, treinador, comentador e dirigente desportivo. Augusto Inácio, 65 anos, é hoje o protagonista de uma entrevista que atravessa uma vida inteira e uma carreira repleta de histórias (da bola) para contar.
«Eu, inocentemente, respondo: “- Quem é o Ayala?”. “- O jogador da seleção da Argentina”, diz o Juca. E eu respondo: “- O Ayala é que vai apanhar o Inácio do Alto do Pina”»
Bola na RedeAinda te lembras do momento em que o futebol passou a fazer parte da tua vida?
Augusto Inácio: Sim, isto começou tudo na minha “meninice”. Lembro-me que qualquer bocadinho era para jogar à bola. Bolas ou chuteiras… isso era mentira. Jogava descalço ou com os sapatos que só usava ao domingo, que era o dia de família. De resto, era com chinelos ou mesmo descalço. Punha uns papéis nas meias da minha mãe para fazer as bolas e jogávamos com portas a fazerem de balizas, a minha e a dos meus vizinhos, e quem metesse lá a bola marcava golo.
Bola na RedeEram outros tempos…
Augusto Inácio: Sim. Lembro-me também que roubávamos as bolas dos matraquilhos para jogarmos. Até jogávamos de sarjeta a sarjeta, e quando alguém marcava golo tínhamos de lá pôr a mão para recuperar a bola e continuar o jogo. Depois, fui crescendo. Quando fui para a escola Afonso Domingues, em Marvila, já com os meus 16 anos, o meu professor de ginástica disse-me que tinha jeito para o futebol e deu-me um cartão para ir aos treinos de preparação do Sporting. E eu fui. Na primeira vez, perguntaram-me em que posição jogava e respondi que era extremo esquerdo. Na segunda, a mesma coisa, mas dessa vez disseram-nos ao intervalo que quem quisesse podia trocar de lugares. Como estava a jogar a extremo, driblava bem, mas era muito franzino e quando cruzava a bola não chegava à área, pensei: “– Augusto, vai mas é para trás e os outros que cruzem. Tu ficas aqui mais folgado e nem corres tanto”.
Bola na Rede“Desceste” para defesa-esquerdo e não saíste mais de lá.
Augusto Inácio: E não saí mais de lá. (risos) Fiquei no Sporting, fiz uma época nos juvenis e outra nos juniores, e quando esperava – como todos os outros da minha idade – que a minha vida seria trabalhar de dia e jogar à noite, o Sporting apresenta-me uma proposta para ser profissional de futebol, com um contrato de dois anos. Eu só perguntei: “– Onde é que está o papel para assinar?”. (risos) Eu só queria assinar…
Bola na RedeE ainda te lembras da tua estreia na equipa principal do Sporting?
Augusto Inácio: Sim, foi em 1975, num jogo para a Taça de Portugal, em Coimbra, contra a Académica [vitória do Sporting por 4-1]. O treinador era o Fernando Riera. O jogo já estava resolvido e entrei a três minutos do fim.
Bola na RedeNessa equipa jogavam o Vítor Damas e o Yazalde. Como foi para um miúdo de 20 anos partilhar o balneário com estas figuras do futebol português?
Augusto Inácio: Era tratando os craques por “senhor”. Até nos treinos. Naquela altura, havia muitos treinos conjuntos entre o plantel principal e as reservas. E antes da estreia pela equipa principal já jogava nas reservas. Há lá uma vez em que faço uma grande jogada, uma “cuequinha ao José Carlos e depois o Vítor Damas sai e com o pé esquerdo faço uma “trivelada” e marco golo. O José Carlos veio ter comigo e disse-me: “– Oh miúdo, voltas a fazer isso e levas duas chapadas no focinho”. Eu só respondi: “– Desculpe, senhor José Carlos, não volta a acontecer”. (risos)
Bola na RedeA tua família é toda sportinguista, não é? Como é que foi quando começaste a jogar no Sporting?
Augusto Inácio: Era toda sportinguista. O meu pai, a minha mãe, os meus irmãos… Era um grande orgulho. Ainda por cima a família foi toda viver para o Lumiar. Na altura, o peão do Estádio de Alvalade não era fechado, os meus pais viviam num 7.º andar e da janela conseguiam ver o relvado todo. Viam os treinos, viam os jogos… Às vezes até tinha vergonha. Estava a treinar e os meus colegas começavam: “– Oh Inácio, estão ali os teus pais a ver”. Eu baixava a cabeça, acenava assim com a mão [faz gesto a acenar], um bocado envergonhado… Para eles era um grande orgulho.
Bola na RedeSempre acompanharam o teu percurso de perto…
Augusto Inácio: Sempre, sempre. Acreditavam muito no meu valor, mas nunca tendo incentivaram para que seguisse uma carreira de jogador de futebol. Foi algo que surgiu naturalmente. Quando fui viver para o Lumiar tinha 14 anos e pratiquei boxe, andebol, hóquei em patins, mini-basquete… E até gostava muito de hóquei em patins. Era guarda-redes, porque mal sabia patinhar (risos), mas a determinada altura fui confrontado entre o hóquei em patins e o futebol. Escolhi o futebol, que era a modalidade que mais gostava de praticar, mas tive pena de não continuar no hóquei em patins. Pensei cá para comigo: “– Augusto, fazes um ano como juvenil e um ano como júnior e depois fazes como todos os outros, vais tirar o curso na escola industrial Afonso Domingues, em Marvila, vais trabalhar para a companhia dos telefones – que era aquilo que os meus colegas iam todos fazer – e, à noite, jogas no Savanense ou no Oriental, um clube assim.
Bola na RedeMas quando chegas ao Sporting não tens o sonho de ser jogador de futebol profissional?
Augusto Inácio: Não, não. Fazia aquilo por desporto, mas sabia que chegar à primeira equipa do Sporting era uma coisa muito difícil, muito complicada. Só quando me deram o primeiro contrato de dois anos é que comecei a pensar nisso. Tinha 18 anos e só quando fiz 20 anos pensei: “– Augusto, agarra-te a isto, que é a tua ‘ferramenta’ para a vida. Vai à luta e à procura do sonho”. Por isso, só a partir dos 20 anos é que comecei a sonhar que podia ser jogador de futebol profissional.
Bola na RedeQue memórias guardas desses primeiros anos no Sporting?
Augusto Inácio: Costumo dizer que jogava na equipa dos “minhocas”, entre os 18 e os 20 anos. Todas as semanas tínhamos um jogo. No Cartaxo, em Coruche, em Santarém… Era engraçado. Os jogos eram à noite e chegávamos a casa às 2h/3h da manhã. Quando vínhamos no autocarro dizíamos: “– Ganhámos mais um jogo da taça das cidades com vinhas”. No fim havia sempre o jantar, o vinho… Mas havia jogos toda a semana, o que era bom.
Bola na RedeDava para rodar toda a equipa…
Augusto Inácio: Sim, andávamos ali a jogar naqueles “pelados”. Mas Sporting é Sporting, seja nos juniores, nas reservas… Sporting é sempre Sporting. Nesses anos andei a trabalhar no duro para honrar a camisola do Sporting.
Bola na RedeE passas a titular da equipa principal em 1975, com 20 anos. Era o Juca o treinador…
Augusto Inácio: Sim. Entretanto, o Sporting teve dificuldades na posição de defesa-direito. Houve um jogo em que o [Fernando] Tomé se lesionou e o Sporting não tinha outro defesa-direito. Nessa altura fomos jogar a Madrid, contra o Atlético de Madrid, para a festa de despedida de um guarda-redes espanhol chamado Rodri. Nessa equipa do Atlético de Madrid jogava o extremo-esquerdo da seleção da Argentina, o [Rúben] Ayala. E o Juca pergunta-me: “– Oh miúdo, tens algum problema em jogar a defesa-direito?”. Eu respondi: “– Oh mister, eu quero é jogar, nem que seja a guarda-redes. Meta-me a defesa-direito, a ponta de lança, a defesa-central… eu quero é jogar”. E ele: “– Mas tu sabes quem vai apanhar?” E eu: “– Quem, mister?”. “– O Ayala!”, diz-me o treinador. E eu, inocentemente, respondo: “- Quem é o Ayala?”. “– O jogador da seleção da Argentina”, diz o Juca. E eu respondo: “– O Ayala é que vai apanhar o Inácio do Alto do Pina”. (risos) Fomos então a Madrid, começa o jogo e logo no primeiro minuto o Ayala vem com a bola, ele era muito rápido, e dei-lhe uma “porrada” que ele virou os pés pela cabeça. E ele diz-me: “– Hombre!”. E eu: “– Qual hombre qual quê seu..”. Bom, o que disse a seguir já não posso reproduzir aqui. (risos) E foi assim, com raça, que comecei a conquistar a minha posição. Naquela época era inimaginável um esquerdino jogar a defesa-direito, destros a jogar a defesa-esquerdo sim, acontecia, mas o contrário não. Que me recorde fui o primeiro a jogar assim. O certo é que joguei dois anos a defesa-direito e ainda fui convocado à seleção nacional pelo José Maria Pedroto a jogar a defesa-direito. Depois, o [Fernado] Da Costa, um jogador brasileiro, teve um problema e fui para defesa-esquerdo, que acabou por ser o meu lugar ao longo de toda a carreira.
Bola na RedeFalaste de raça. Esse era, de facto, a tua principal característica. Seres um jogador combativo era o que melhor te distinguia dos outros?
Augusto Inácio: É isso mesmo. Já nos juvenis cheguei a ganhar um prémio de “Jogador mais combativo” num torneio em Setúbal. Nunca me esqueci, porque foi a primeira medalha que ganhei. Realmente, a minha maior força era a raça, a determinação, a vontade, o querer… Era um daqueles jogadores que nunca dava nenhuma bola por perdida e isso foi uma característica que se foi interiorizando cada vez mais ao longo da minha carreira. Acho que se não fosse assim não teria chegado onde cheguei – e, diga-se, cheguei onde nunca imaginei chegar.
Some people might be asking if I were old enough to vote for then who would it be? The answer is pretty obvious: Augusto Inacio #EleicoesSporting pic.twitter.com/R7pkElMRMo
— Lion de Leiria 🇳🇬🦁 (@Francis24618034) November 4, 2020
Bola na RedeNestes anos todos de futebol, alguma vez te cruzaste com algum jogador onde te tenhas revisto? Para quem não se recorda do Augusto Inácio jogador, qual é o defesa-esquerdo do futebol português contemporâneo mais parecido contigo?
Augusto Inácio: O Rui Jorge, que era extremo quando era miúdo no FC Porto. Lembro-me que, já no final da minha carreira, ia ver os jogos das camadas jovens na “Constituição”, no “pelado”, e vi um miúdo muito traquina, a jogar pelo lado esquerdo, e perguntei quem era. Disseram-me que se chamava Rui Jorge e fiquei com aquela. Quando terminei a carreira e comecei como treinador na equipa de juniores do Porto pedi a lista dos jogadores, que já incluía os nomes dos miúdos que a ser dispensados. E um deles era precisamente o Rui Jorge. Travei aquilo. Disse logo que, para já, não saía ninguém e quem ia dispensar seria eu. Fiquei ali uns dias com 90 jogadores, tive de mandar uns 30 ou 40 embora, mas um dos que ficou – e que ia ser dispensado – foi o Rui Jorge. Diziam-me que ele ia pouco aos treinos, que queria mais os estudos, e que não era competitivo, mas eu disse que gostei do miúdo e que ia ficar com ele. Qual é a sorte do Rui Jorge? Vamos para um torneio na Venezuela, eu até já estava de férias, mas chamaram-me, para um torneio de sub-23. Aquilo era um torneio espetacular, cheio de seleções, da Venezuela, do Peru, clubes só mesmo o FC Porto e o Perugia de Itália. O Álvaro Gregório, que era o defesa-esquerdo daquela equipa tinha ido para a seleção nacional. E nesse torneio meto o Rui Jorge a jogar, e o miúdo dá uma resposta espetacular. Entrentanto, vai começar o campeonato em Portugal e eu fico com uma “batata quente” na mão: Álvaro Gregório ou Rui Jorge. Bom, o Álvaro é da seleção, começo com o Álvaro. Não gostei da primeira partida do Álvaro Gregório, chamei-o ao meu gabinete e disse-lhe que não me interessava as internacionalizações que ele tinha, que ele tinha de ter cuidado porque estava a jogar com uma certa sobranceria e eu não queria aquilo. No Porto é para “rasgar” e dar tudo dentro do campo. Ele ficou muito surpreendido a olhar para mim, mas no jogo seguinte voltei a colocá-lo a titular. Tirei-o logo aos 20 minutos para colocar o Rui Jorge e, a partir daí, o Rui nunca mais saiu da equipa. Revejo-me muito no Rui Jorge, um jogador muito determinado, muito raçudo, muito técnico, muito inteligente e com uma forte personalidade…
«Não estava psicologicamente preparado para viver no Porto e jogar noutro clube que não fosse o Sporting»
Bola na RedeJá estamos a falar da carreira de treinador, mas já lá vamos. Antes ainda queria regressar aos tempos em que eras jogador. Foste campeão em 1980 e 1982 pelo Sporting, mas depois disso saíste para o FC Porto…
Augusto Inácio: Eu nunca pensei sair do Sporting, porque nunca tinha posto na minha cabeça que pudesse viver fora de Lisboa. Estava habituado, primeiro, ao Alto do Pina, depois, Lumiar. Eu e os meus pais leões… só via Sporting.
Bola na RedeEntão como é que se deu essa saída?
Augusto Inácio: Deu-se porque o Sporting praticamente “empurrou-me”… Essa é que é a verdade. Os adeptos dizem, às vezes, que “este indivíduo traiu-nos, foi para o “inimigo”, mas não sabem o que se passou para as pessoas tomarem estas decisões. Eu nunca fui de me lamentar, por jogadores ganharem mais que eu, nunca fui invejoso, nunca me interessou nada disso. Só me preocupava, quando chegasse a altura de discutir o contrato, de negociar o que achava que tinha direito. Mas nunca fui para os jornais lamentar-me, como muitos colegas meus faziam, que ganhavam pouco ou que deviam ser aumentados… Quando tinha 27 anos comecei a fazer contas à vida. Já era casado, tinha dois filhos e, naquela altura, um jogador com 30 anos já era considerado velho e não conseguia fazer contratos nenhuns. Então pensei que estava na altura para fazer o grande contrato da minha vida ou então nunca o conseguiria fazer. Entretanto, surgiu-me um convite do Amora, que na altura dava terrenos aos jogadores, do Portimonense, que dava apartamentos, e do Vitória de Guimarães, onde estava o José Maria Pedroto. E é a partir daí que começo a perceber que há possibilidade – caso o Sporting não altere a proposta que me fez – de poder sair. Mas nunca pensei que o Sporting me deixasse sair. Naquela altura, ganhava 1.100 contos/ano e o Sporting dava-me mais três contos por mês, ou seja, 1.136 contos/anos. Eu dizia ao Jaime Lopes, que era o homem do departamento de futebol do Sporting: “- Vocês estão a brincar comigo. Há aqui gente a ganhar uma pipa de massa, pelo menos dêem-me dois mil contos/ano, que eu não quero sair do Sporting”.
Bola na RedeEra a desvantagem de ser da “casa”…
Augusto Inácio: Sim, antigamente havia esse estigma que o jogador da “casa” tinha de ganhar pouco e quem vinha de fora era sempre valorizado. Mas era com o Jaime Lopes com quem falava, porque o presidente João Rocha nunca falou comigo de contratos. A resposta do Jaime Lopes era sempre a mesma quando eu falava dos dois mil contos/ano: “Não podemos, não podemos…”. Surgiu então o Vitória de Guimarães que me faz uma proposta e eu faço uma contraproposta e peço-lhes um carro, na altura um Renault 5. Eu pensava: Vou para Guimarães, a mulher tem de usar o carro para levar os miúdos à escola, então eu preciso de um para ir para os treinos. Mas eles disseram-me que não davam carros a ninguém. Na altura em que andávamos a discutir isto, o José Maria Pedroto liga-me e diz-me que não vai ficar em Guimarães. Ou seja, deu-me o recado para eu não assinar pelo Vitória. Passados uns dias, o FC Porto liga-me para nos encontrarmos e faz-me uma proposta de três anos a cinco mil contos/ano. Eram 15 mil contos em três anos. Mas mesmo com esta proposta, vou ter com o Jaime Lopes e digo-lhe: “– Tenho uma proposta de um clube que me dá cinco mil contos/ano. Sei que o Sporting não me pode dar isso, mas dêem-me os dois mil e eu fico”. Ele respondeu-me que já tinha falado com o presidente e que não era possível… Eu ainda lhe disse: “– Vê lá isso, que eu não quero sair do Sporting e vocês estão a obrigar-me a sair do Sporting”. E ele respondeu-me: – “Faz o que tu quiseres”. E eu fiquei… “Faz o que tu quiseres?”, mas isso é resposta que se dê? Quando o FC Porto me “aperta”, mesmo assim, na véspera de assinar, ainda fui novamente ter com o Jaime Lopes e disse-lhe: “– Jaime, assinamos pelos dois mil?”. E ele responde-me: “Já te disse. Não saímos daquele valor”.
Augusto Inácio, 65.º 🎊🎁🎉
Deixa a tua mensagem de parabéns!
Happy birthday!
iFeliz cumpleaños!#FCPorto #FCPortoVintage pic.twitter.com/rtoH0MjBoz— FC Porto (@FCPorto) January 30, 2020
Bola na RedeFoi difícil tomar a decisão de trocar o Sporting pelo FC Porto?
Augusto Inácio: Foi duro. Não estava psicologicamente preparado para viver no Porto e jogar noutro clube que não fosse o Sporting. Na altura, é verdade, o contrato era bom, mas pensava que estava a entrar numa aventura que não sabia no que daria… Ao fim de um mês, quem é que me liga? O João Rocha. Diz-me: “– “Inácio, precisava de falar consigo. Você vem a Lisboa?” Eu, normalmente, vinha a Lisboa todos os fins-de-semana, a casa dos meus pais, à frente do estádio do Sporting, e o João Rocha pediu-me para estar as 13h na Churrasqueira do Campo Grande. Quando chego ao restaurante, qual não é o meu espanto, quando vejo a equipa toda do Sporting a almoçar. Diretores, treinadores, jogadores, departamento médico… E eu já jogador do FC Porto. O João Rocha está à mesa e chama-me. Eu, de onde estou, digo-lhe que não. “Eu não vou para aí. Eu sou jogador do FC Porto, não sou jogador do Sporting. Você é que pediu para falar comigo, você é que vem aqui para falarmos”. Ele levantou-se, aproximou-se e perguntou-me: “Porque é que você não veio sentar-se?”. Disse-lhe: “– Não, eu sou jogador do FC Porto, não tenho de ir ali para o meio. Até parece que ainda sou jogador do Sporting”.
Bola na RedeE o que te disse mais o João Rocha?
Augusto Inácio: Na altura, podia rescindir-se o contrato por razões de ordem psicológica, porque não me adaptei à cidade, por isto ou por aquilo, qualquer coisa dava para rescindir contrato. E ele já me dava os mesmos cinco mil contos/ano que o FC Porto me dava. E eu disse-lhe: “– Oh, presidente, porque é que você não me fez essa oferta antes? Eu até só queria dois mil contos… Agora, vocês querem que volte atrás com a minha palavra, colocando em causa o meu caráter? Não, eu sou jogador do FC Porto e vou continuar a ser jogador do FC Porto”. O que é engraçado, para perceberes como funcionava o FC Porto, é que na segunda-feira seguinte regresso ao Porto, treino e, no final da sessão, o Pinto da Costa quer falar comigo. “– Então Inácio está tudo bem? Estás a adaptar-te bem?”, diz-me ele. E eu: “– Está tudo bem, presidente”. E ele diz-me logo: “– Tens alguma coisa para me dizer?” (risos) “–Por acaso até tenho, não tenho nada a esconder”, respondi-lhe. “– O João Rocha pediu-me para falar com ele…” e contei-lhe a história toda, tudo o que aconteceu. Ele no final só me disse: “– Eu já sabia que você tinha estado com o João Rocha… Olha Inácio, sabia que tinha contratado um grande jogador, agora fico também a saber que contratei um grande homem”. Aquilo, claro, encheu-me de orgulho. E a partir daí comecei o meu percurso como jogador do FC Porto.
Bola na RedeChegaste ao FC Porto em 1982 e, a partir daí, o FC Porto começa a criar uma equipa que, mais tarde, conquistaria tudo: campeonato, Taça dos Campeões Europeus, Taça Intercontinental… Já sentias, naquela altura, que se estava a construir uma equipa que ficaria na história do futebol português?
Augusto Inácio: Realmente, é verdade. O FC Porto começa a construir a sua grande equipa desde 1982, porque tem o presidente Pinto da Costa e José Maria Pedroto. Eu não sei como é que eles faziam as coisas, mas conseguiam recrutar jogadores que davam corpo à equipa, mas também ao plantel. O Pedroto foi selecionando jogadores, época após época, escolhendo aqueles que lhe interessavam, para que o FC Porto fosse ganhando campeonatos. E assim foi… Depois, o que aconteceu? O José Maria Pedroto adoece e tudo ali “tremeu” um bocadinho. O grande líder estava doente e era uma daquelas doenças que não perdoa. Mas o trabalho de base de tudo o que era o projeto FC Porto já estava lá…
Bola na RedeE o Artur Jorge, quando chega, consegue dar continuidade a esse trabalho…
Augusto Inácio: O Artur Jorge vem dar andamento àquilo que já estava nos “carris”. E, de facto, o Artur Jorge encaixou que nem uma luva naquilo que eram as ambições do FC Porto.
Bola na RedeDos treinadores com quem te cruzaste, qual foi aquele que te deixou uma marca mais forte?
Augusto Inácio: José Maria Pedroto e Artur Jorge. Pedroto pela sua liderança natural… O Pedroto, quando falava, era um respeito tal… Bastava ele dizer “bom dia!” e as pessoas ficavam logo em sentido. Era tipo “o homem chegou”. O Artur Jorge também tinha uma militância da RDA [República Democrática Alemã], onde ele estudou, era muito militarizado, muito rígido. No FC Porto – e isto é sempre importante recordar – havia uma exigência e uma responsabilidade muito grandes. Aqueles que saíam fora da linha eram logo chamados a atenção. O FC Porto estava organizado de tal forma que sabia tudo o que se passava com os seus jogadores, se iam para o restaurante, se iam para a noite… O FC Porto até sabia o que eu comia e bebia, se me tinha deitado cedo ou tarde. Havia os “portas”, como se costumava dizer, que ligavam logo: “– Olhem, está aqui um jogador vosso. Atenção!”.
Bola na RedeA cidade também era mais pequena, tudo se sabia…
Augusto Inácio: Sim, mais pequena. E os adeptos também tiveram uma grande influência, porque quando as coisas corriam bem eles ainda avisavam, agora, se as coisas não corriam assim tão bem, se eles apanhavam um jogador na noite, insultavam-no e se fosse preciso davam-lhe um soco, e o jogador não tinha outro remédio que não fosse entrar na linha… Ali não podiam brincar. E essa cultura de exigência foi-se implementando ano após ano. Ao ponto de eu ser treinador adjunto do FC Porto e, por exemplo, empatávamos em Braga e no autocarro não se ouvia uma mosca. A responsabilidade era tanta, que os jogadores tinham de sentir que o empate não nos servia, mas apenas a vitória. E isso era muito diferente da forma como tinha sido educado no Sporting. Eu senti muito mais a exigência no FC Porto do que no Sporting.
Bola na RedeA vitória do FC Porto na Taça dos Campeões Europeus em 1987 era algo impensável anos antes. Como é que viveste esses momentos?
Augusto Inácio: Como disse, isto começou a ser preparado desde 1982. Em 1984, já conseguimos chegar à final da Taça das Taças, contra a Juventus, que perdemos por 2-1. A partir daí, começa a olhar-se para o plantel do FC Porto e os jogadores eram todos internacionais. Se não fossem portugueses eram de outros países. A luta no treino era tal que, às vezes, exigia mais dos jogadores que alguns jogos. Nos treinos do FC Porto, naquela altura, usávamos pitons, caneleiras e meias-altas.
Bola na RedeDavam todos 100% em qualquer momento…
Augusto Inácio: Sim. E quando alguém levava uma “porrada” e ficava de fora, o outro não dizia nada, mas ficava contente. “Ui, ainda bem que este levou esta “porrada” para ver se eu jogo”. Porque a luta era danada e cada oportunidade que se tinha – no treino e no jogo – era para provar que merecíamos jogar. Quando começamos aquela campanha de 1986/1987 tínhamos, realmente, um plantel fantástico. Saía um ou dois, entrava um ou dois e a qualidade da equipa não se alterava. E depois ainda tínhamos uns extras… Quem eram? O Futre, um grande jogador. O Fernando Gomes, um goleador. O Madjer, um criador. E os combatentes: os “Inácios”, os “Limas Pereiras”, os “Andrés”, os “Sousas”, os “Quins”, os “Frascos”, os “Jaimes Magalhães”… João Pinto, Celso… Quer dizer, havia ali uma mistura. E depois não era uma equipa jovem. O mais jovem devia ter para aí uns 24/25 anos.
Bola na RedeEra um plantel que tinha um pouco de tudo e complementava-se…
Augusto Inácio: Eu acho que aquele plantel tinha tudo aquilo que um treinador gosta.
Bola na RedeEssa foi a melhor equipa da história do FC Porto? Melhor ainda que a equipa de José Mourinho de 2003/2004?
Augusto Inácio: Cada um tem a sua opinião. Mas acho que sim. Acho que a equipa do FC Porto de 1986/1987 abriu a “porta” para que os jogadores que viessem a seguir, de outras gerações, não pensassem que aquilo era impossível. “É possível lá chegar, porque aqueles já conseguiram”. E, a partir daí, acho que houve uma transformação mental no FC Porto e no próprio futebol português. Conseguimos provar a nós próprios que afinal éramos iguais às equipas inglesas ou espanholas.
Bola na RedeHavia esse complexo quando as equipas portuguesas defrontavam os clubes dos principais campeonatos?
Augusto Inácio: Havia, havia. Claro que havia exceções, como foi o caso do Benfica, na década de 1960. Mas quando cheguei ao FC Porto até havia complexo quando atravessávamos a Ponte da Arrábida. Descer ao Sul era mais complicado, mas, lá está, os tabus são para se irem quebrando. Vai-se quebrando, quebrando, quebrando, ao ponto de que quando se falava de Portugal falava-se imediatamente de FC Porto. Era um clube falado em todo o mundo, porque ganhou a Taça dos Campeões Europeus, porque foi campeão do mundo, depois de ganhar ao Peñarol em Tóquio, de forma completamente inédita. Ganhou a Supertaça Europeia, ganhando os dois jogos ao Ajax. O FC Porto começou a dar nome a ele próprio, mas também a dar nome ao país. E lá fora começaram a olhar para o nosso futebol como não olhavam… E acho que o FC Porto é realmente o pioneiro dessa grande transformação.
Diamantino Miranda – Augusto Inácio – Carlos Manuel – Jaime Pacheco -António André – António Oliveira – António Sousa – Álvaro Magalhães – Frederico Rosa – Fernando Gomes – Manuel Bento (c). pic.twitter.com/gx3U0s0TXu
— OldFootballPhotos (@OldFootball11) January 12, 2018
Bola na RedeDe todos os jogadores com quem partilhaste o balneário, qual foi aquele que mais te impressionou?
Augusto Inácio: Houve alguns. Se me perguntares com quem me dou melhor… Dou-me com o Eurico, o Fernando Tomé, uma das pessoas mais “puras” do futebol português, o Zé Eduardo… E depois, quando fui para o FC Porto a maior amizade que fiz foi com o Rodolfo Reis. Ainda hoje nos falamos semanalmente e gosto dele como gosto de um irmão. Depois dou-me bem com muitos outros: João Pinto, Frasco, Fernando Gomes… Enfim, guardamos sempre estas amizades. Outra pessoa de quem gosto muito, embora nunca tenha jogado com ele, é o Vítor Manuel, pai do Vítor Bruno, treinador adjunto do Sérgio Conceição no FC Porto, que é uma pessoa com quem tenho uma grande ligação.
Bola na RedeMas essas são as tuas amizades. Eu referia-me mais a craques que te impressionaram com a bola nos pés…
Augusto Inácio: Craques? Houve um: o Jordão era um jogador… (suspiro). E enquanto treinador tive o Peter Schmeichel, um guarda-redes de uma grande dimensão, o Beto Acosta – um jogador que quando cheguei ai Sporting queriam dispensá-lo em dezembro –, com grande carácter, uma humildade incrível… Às vezes não é só ser um grande jogador, é também a personalidade que nos marca. Outro foi o André Cruz, também um grande jogador que encontrei no Sporting.
«Tenho quase 100% de certeza que se o André Cruz não viesse em janeiro o Sporting não teria sido campeão»
Bola na RedeA carreira de treinador começa em 1989/1990, logo no ano imediatamente a seguir a teres deixado a carreira de futebolista. Ser treinador era algo que sempre quiseste ser?
Augusto Inácio: Quis ser treinador a partir dos 28 anos. Comecei a questionar o professor Hernâni Gonçalves, que era o preparador-físico do FC Porto: Porque fazíamos aqueles alongamentos no princípio do treino ou aqueles intervalados no final? E comecei a apontar num caderno as respostas que ele me dava. E depois comecei a pensar no que diria aos jogadores antes do jogo ou ao intervalo caso fosse o treinador. E fazia uma palestra à frente do espelho. Depois, ouvia o treinador… Às vezes coincidia, outras não. Mas comecei a fazer estes exercícios. Foram seis anos a preparar-me, a observar o balneário. Naquele tempo para tirar os cursos de treinador bastava ser jogador internacional, faziamo-nos meia dúzia de perguntas e tínhamos o “canudo” na mão. Mas, lá está, depois os passos que cada um dá são determinantes para a carreira. Eu já dei uns passos errados, é verdade, mas no início dei um passo certíssimo: tenho um convite para ir para o Maia, que tinha subido da 3.ª para a 2.ª, e o FC Porto oferece-me o lugar de treinador dos juniores. A diferença de dinheiro era abismal, o Maia oferecia-me, na época, cinco mil euros por mês e o FC Porto apenas mil. Mas pensei: “– Augusto, isto de tu saberes o que é liderares 30 homens… Começa por baixo”. E então comecei por baixo, pelos juniores. Quando o FC Porto me oferece mil euros por mês, eu pergunto: “– Como? Mil euros, então mas o Maia dava-me cinco mil”. “– É aquilo que podemos pagar ao treinador dos juniores”, foi a resposta que ouvi. Ok, está bem. Fiquei ali dois anos, fomos campeões logo no primeiro, e quando acaba o contrato queriam que renovasse por mais dois anos. E penso: “Não, agora quero outro patamar. Agora, quero treinar profissionais”. E vou para o Rio Ave e levo nove miúdos dos juniores do FC Porto para lá. Eles não tinham dinheiro e só me pediam para não descer de divisão. A equipa era tão jovem, tinha uma média de idades de 20,1 anos, penso eu. Jogava lá o Paulinho Santos, que era jogador do Rio Ave, e que depois foi para o FC Porto por indicação minha. O certo é que ficámos em quarto lugar, a um lugar de subir à 1.ª divisão, porque subiam três equipas, e nós só não subimos por jogadas de bastidores que agora não interessa estar aqui a contar. E não é desculpa aquilo que estou aqui a dizer…
Bola na RedeQuem subiu nesse ano?
Augusto Inácio: Lembro-me que subiu o Tirsense, que ficou em terceiro lugar. Eu andava à luta com o Tirsense, que era treinado pelo meu amigo Rodolfo [Reis], e eu sei como é que eles subiram… Subiu ainda o Sp. Espinho e o Belenenses. O Tirsense subiu ali nas últimas jornadas.
Bola na RedeO Rio Ave nessa época tinha uma excelente: Bino, Tulipa, Paulinho Santos…
Augusto Inácio: Sim, sim. Ainda estava lá o Cao, o Gamboa…
Bola na RedeE o Rui Jorge também está lá?
Augusto Inácio: Sim, sim. O Rui Jorge levei para lá. Depois dessa época tive um convite do Paços Ferreira, mas é quando o Reinaldo Teles me convida para ser treinador adjunto do Carlos Alberto Silva, no FC Porto. E é assim que começa quatro quatro anos como treinador adjunto: do Carlos Alberto Silva, do Tomislav Ivic e do Bobby Robson…
Bola na RedeTrês grandes treinadores que, infelizmente, já nos deixaram. Foram muito importantes no teu percurso?
Augusto Inácio: Sim, muito importantes. O Bobby Robson então… Era um ‘gentleman’, mas no treino era uma figura. (risos) Uma vez estávamos no campo de treinos e ele gostava muito de fazer aqueles exercícios de finalização. Há uma altura em que alguém faz um cruzamento muito “bombeado”, a bola ia devagarinho. Então, ele atirou-se para o chão e, deitado no relvado, começou a apontar com o dedo para o céu e a dizer: “– Neve, neve”. (risos) Nós olhámos para aquilo e começámos todos a rir às gargalhadas. Só dissemos para quem estava a cruzar: “– Oh pá, não se sejas palhaço, cruza isso como deve ser, isto não é neve, não é neve”. (risos) Mas pronto, ele era organizado, tinha um bom apoio nos seus adjuntos – eu e o José Mourinho (mas mais o Mourinho que já sabia falar bem inglês) – e era, sobretudo, uma pessoa extremamente positiva. Com ele aprendi uma coisa, quer dizer, aprendi mas nunca exerci. Ele dizia-me: “– Inácio, sabe que equipa vai jogar no domingo? Aprenda, na quinta-feira, na cabeça do treinador, já não pode haver dúvidas. Senão está com dúvidas na quinta, na sexta, no sábado… E nunca chega a uma conclusão”. Eu ficava a matutar naquilo, quem joga, quem não joga, e ele, a partir de quinta-feira, já dormia descansado, já não pensava mais naquilo. E eu pergunto, quem é que está certo? Eu ou Bobby Robson?
Bola na RedeMas nunca adotaste essa estratégia?
Augusto Inácio: Não. Eu pensava: o homem tem razão. Mas a minha mentalidade não é essa.
Bola na RedeE o Tomislav Ivic? Também foi um treinador que marcou o futebol português…
Augusto Inácio: O Ivic era o maluco da tática. Se fosse duas ou três horas no autocarro, entre Porto e Lisboa, ele ia com um bloco de notas a viagem toda a fazer tácticas: 4x3x3, 4x2x3x1, 3x5x2… Eram tantas. Eu dizia-lhe: “– Oh mister, eu só conheço o 4x4x2, o 4x3x3, o 4x2x3x1, o 3x5x2… Há mais alguma tática? É que eu estou a ver tantas nos seus papéis que não estou a perceber”. (risos) E ele dizia-me: “– Não, é para tirar aqui ideias e ver isto em relação ao jogo que vamos fazer e também em relação ao futuro”. Ele tinha montes e montes de folhas com táticas, sempre a verde e a vermelho. Aquele homem era fanático pela tática. Há um dia em que vamos jogar ao Feyenoord, há “banheira” de Roterdão. Tinhamos ganho 1-0 nas Antas e aquilo era um jogo super complicado para nós. E então jogámos com três centrais, dois defesas-direitas, dois defesas-esquerdos, a povoar o meio-campo e só o Kostadinov lá na frente. Resultado final: 0-0. Remates à baliza: um. Posse de bola: acho que eles deviam ter 90% e nós só dez. No final, o Ivic pergunta-me, mas com um descaramento engraçado: “– Oh Inácio, acha que jogámos muito à defesa? Ouvi dizer que jogámos muito à defesa”. (risos) Só faltou pôr tijolos e cimento à frente da baliza. (risos)
Bola na RedeO Ivic era o que se chama hoje um resultadista. Aliás, lembro-me bem que ele era muito criticado por isso…
Augusto Inácio: Era, era. A ideia dele era: primeiro, não sofrer golos. Se depois pudermos marcar um golo, marcamos. Mas sofrer é que não. Era este o princípio básico dele.
“O grande suporte de um clube grande como o SPORTING são os seus associados. Se este clube continuam a ser grande é graças à sua massa associativa, sem eles o SPORTING já não existia!”
By: @Augusto__Inacio
A Grande Entrevista!
14/10 🔛 19:06By: @ClubeSem & @Spartac47157352 pic.twitter.com/WOnuC27Lcx
— Spartacus (@Spartac47157352) October 11, 2020
Bola na RedeE regressas ao Sporting em 1999/2000. Assumes o cargo de treinador e, após tantos anos de espera, consegues levar o Sporting à conquista do título de campeão nacional, 18 anos depois. Talvez tenha sido o teu grande momento como treinador…
Augusto Inácio: Deixa-me dizer-te, antes de falarmos disso, que realmente os treinadores só são lembrados quando conquistam títulos. Olha, por exemplo, quando estive no Marítimo [em 1997/1998] fizemos um trabalho fantástico e levámos a equipa à Europa, depois de, na última jornada ganharmos, ao FC Porto [3-2] e o Boavista perder em casa com o Campomaiorense [1-2]. Ficámos em 5.º lugar e fomos às competições europeias. Isso são os tais “títulos” que não são visíveis… E mesmo a passagem pelo Desp. Aves [em 2018/2019], em que conseguimos a manutenção, para mim aquilo também foi um título. Era impensável o Desp. Aves ficar na 1.ª divisão com 12 pontos na primeira volta. Conseguimos 24 pontos na segunda, 36 pontos no total, e conseguimos. Mas só para dizer que não são só os troféus que significam um grande trabalho e um grande momento…
Bola na RedeClaro, mas fala-se mais do Sporting até pelos anos de espera pelo título de campeão, não é? O Sporting já tinha tido grandes equipas e tardava em conquistar o campeonato…
Augusto Inácio: Sim. Nesse ano, pela primeira vez na minha carreira, não estava a fazer uma pré-época, e estava a fazer comentários para a Antena 1. Estava no Estádio das Antas a fazer comentários para o FC Porto-Estrela da Amadora quando recebo uma chamada do Agostinho Abade. Expliquei onde estava e ele pediu para falar comigo num hotel na Avenida da Boavista no final do jogo. Ok. Fui ao hotel, subi ao quarto dele e perguntou-me se podia ir falar com o presidente José Roquette ao escritório dele no Restelo. No dia seguinte, fomos até lá.
Bola na RedeJá ias com esperança de receber um convite para treinador?
Augusto Inácio: Não. Eu sabia que havia qualquer coisa que me queriam, mas não sabia o quê. Quando cheguei o presidente José Roquette disse-me que queria que eu regressasse ao Sporting, que era um homem da casa, que não deveria ter saído… E disse-me que o meu papel seria ser o elo de ligação entre o balneário e a direção. Ok, aceitei, mas disseram-se que me iam apresentar aos jogadores como treinador, embora, para a direção, eu estava ali apenas de forma interina. Eles andavam à procura de treinador e quando ele fosse contratado então assumiria a posição para a qual me tinham convidado. Ok. Antes de me apresentarem no balneário ouço um diretor – não interessa agora quem – dizer o seguinte: “– Ele que não meta o Vidigal a jogar que aqueles pezinhos parecem uns tijolos”. Eu ouvi isto. Começaram-se todos a rir e eu entro dentro da sala e digo ao presidente que também lá estava: “– Oh presidente, você escusa de me apresentar como treinador aos jogadores. Já temos aí um treinador. Ele até já está a dizer que o Vidigal não pode jogar, apresente-o aos jogadores”. Sinceramente, acho que aí marquei posição, que o presidente gostou do que ouviu – eu não gostei do que ouvi, mas ele gostou do que ouviu. A verdade é que se nós deixamos que nos metam a “mão” em cima logo no primeiro momento, então, estamos desgraçados, e nunca permitiria uma coisa dessas. Claro que ganhas inimigos com isto, mas também é uma forma dos jogadores verem como é a tua liderança.
Bola na RedeE foste mesmo apresentado como treinador?
Augusto Inácio: Sim. E as coisas começam a “rolar” e, pronto, até ao fim, até sermos campeões nacionais.
Bola na RedeEm 2000, talvez nem fosse muito expectável o Sporting ser campeão. Fico sempre com a sensação que o segredo para a vitória foi o mercado de inverno, com a contratação do André Cruz, do César Prates e do Mpenza. Concordas?
Augusto Inácio: Foi um dos grandes segredos. E foi por causa da CAN [Taça das Nações Africanas] que havia esse ano. O Saber e o Ayew iam para a CAN durante o mês de janeiro e é quando chegam o André Cruz, o César Prates e o Mpenza. Acho que foi em cheio e, aí, não dêem mérito ao Augusto Inácio, que não tem mérito nenhum. Dêem mérito ao Carlos Freitas que foi ele quem trouxe estes três jogadores. Temos de dar o mérito a quem o tem.
Bola na RedeO André Cruz era o “patrão” da defesa e ainda por cima era decisivo nas bolas paradas…
Augusto Inácio: Tenho quase 100% de certeza que se o André Cruz não viesse em janeiro o Sporting não teria sido campeão. Ele desbloqueou-nos muitos jogos. E depois ficámos com “banco”. Ainda tinha o Toñito, o Edmilson… Mas há ainda um outro segredo para chegarmos ao título e que também foi muito importante.
Bola na RedeQual é o segredo?
Augusto Inácio: O balneário tinha umas 12 nacionalidades: portugueses, brasileiros, argentinos, ganeses, marroquinos, dinamarqueses, espanhóis, belgas, italianos… Havia várias nacionalidades. E pensei: “Como é que vou ‘agarrar’ este balneário com tanta gente diferente? Só eu e os meus assistentes não conseguimos…”. Então arranjei quatro capitães ali dentro: o Beto Acosta dominava os argentinos, o Rui Jorge (que, para mim, era mais homem, mais líder, que o “capitão” do Sporting na altura, que era o Pedro Barbosa) também era um líder, o André Cruz outro “capitão” sem braçadeira e depois o Peter Schmeichel, que era aquela grande figura, respeitado por todos. Portanto, encontrei nestes quatro elementos o apoio que precisava. Quando havia um problema com os argentinos, por exemplo, o Quiroga ou o Duscher, chamava o Acosta, não chamava os outros. “– Acosta, o que se passou ali dentro?”, perguntava-lhe. “– Oh mister, não se preocupe”, dizia-me o Acosta. E eu dizia-lhe: “– Mete-os na linha senão vai sobrar para alguém, e olha que não vai ser para mim”. E eles resolviam o problema. Era importante que quando alguém falasse, os restantes jogadores escutassem. E todos escutavam estes quatro jogadores de corpo feito. Sempre que eles abriam a boca… “– Oi, está a falar o Acosta. – Oi, está a falar o Schmeichel”. Não fiz isto de forma pensada, foi apenas para “segurar” o balneário, mas resultou e resultou muito bem.
Bola na RedeAo ouvir-te dá a ideia que o balneário não era fácil.
Augusto Inácio: Não era, não. Havia alturas… Havia grandes “bocas” naquele balneário. Houve uma vez em que o Duscher não respondeu bem ao rapagão, ao [Vitorino] Bastos, meu amigo, e eu fui logo para cima do Duscher. “– Da maneira como estás a falar com o Bastos, é a mesma coisa que estás a falar para mim. Tens respeito, senão pões-te já daqui para fora. Quem é que tu pensas que és aqui? O que é que mandas aqui? Respeitinho com o treinador”. Para não haver estes stresses, sobretudo, quando não se ganhava. Era um balneário onde tinha de se ter “pulso de ferro”. Aquele balneário não ia lá com palavras mansas. Até porque os jogadores olhavam para mim e pensavam, por tudo o que vinha na comunicação social, que eu estava apenas de passagem, a prazo, que daqui a pouco vinha outro. Então comecei logo a afirmar-me: “– Calma lá. Enquanto estiver aqui vai ser assim, como eu quero”. É claro que precisava de apoio e esses “pesos pesados” do plantel estavam comigo. Claro. Jogavam, não é? Jogavam, por isso estavam comigo. (risos)
«Hoje, não ia como fui. É um conselho que deixo aos treinadores portugueses. Se forem para o Brasil, levem uma equipa técnica toda portuguesa»
Bola na RedeComo jogador foste sempre fiel a Sporting e FC Porto e nunca jogaste no estrangeiro, mas, curiosamente, tornaste-te um treinador que já passou por muitos países: Catar, Grécia, Irão, Angola, Roménia, Egito, Brasil… És um homem de desafios?
Augusto Inácio: Eu nunca tive empresários. Os meus empresários eram aqueles que me traziam as propostas, que me indicavam que este ou aquele clube estava interessado em contratar-me. Eu perguntava sempre qual era o projeto, o que eles queriam e, depois, lá falávamos de dinheiro. Claro que o dinheiro também era importante, se o contrato não fosse bom também não ia, essa é que é a verdade. Mas ia naquela…. Mesmo em Portugal, aceitei desafios que se fosse hoje não aceitava, mas, na altura, parecia o “Tarzan”, acreditava que ia ganhar os desafios todos. Eu metia na cabeça: “Sei que é difícil, mas eu vou para lá e vou ganhar este desafio”. E isso levou-me sempre a ir à luta. Umas vezes venci e outras não.
Bola na RedeArrependes-te de algum passo que julgas ter prejudicado a tua carreira?
Augusto Inácio: A última época no Desp. Aves, por exemplo [em 2019/2020]. Não devia ter continuado.
Bola na RedeE o Avaí?
Augusto Inácio: Para o Avaí fui enganado. Eu sei que Brasil é complicado, mas eu quis ir para perceber porque é que eles mudam de treinadores como quem muda de camisa. O porquê disto? Diz-se muita coisa, ouve-se muita coisa, mas estar a viver in loco é diferente. Então vi uma coisa que nunca vi na minha vida. Há o [campeonato] estadual e o [campeonato] brasileiro. Só que há uma coisa: eles contrataram jogadores de nome. Por exemplo, o António. O António há três anos marcou 30 golos. E eu perguntava: “– E no ano passado quantos marcou?”. E respondiam-me: “– Mister, não interessa. Há três anos marcou 30 golos”. E eu comecei a perceber que eles estavam a contratar velhos, o que para trabalhar era muito complicado. Intensidade é mentira, porque quanto menos correrem melhor, de preferência ginásio, que é onde eles estão mais sossegados, um treino por dia chegava muito bem. Comecei a perceber que ia ser muito complicado exigir em termos de trabalho aquilo que achava que devia exigir. Mas depois apanhei outros contras…
Bola na RedePor exemplo…?
Augusto Inácio: Quando cheguei havia a Recopa para disputar, que era o jogo entre o vencedor do estadual e da taça catarinense. Íamos jogar contra o Brusque, da série C do Brasileiro – que deve agora subir à série B –, que já andava a treinar há dois meses e meio. E o Avaí ia começar a treinar na semana antes. Eu disse ao presidente: “– Oh presidente, é melhor pôr os sub-23 a jogar esta final, já estão em competição e nós ainda não temos capacidade física para jogarmos um jogo destes e ainda podemos ter problemas com lesões”. E ele diz-me: “– Oh mister, mas este jogo é para ganhar. Quem é o Brusque?”. Eu respondo-lhe: “– O problema não é ‘quem é o Brusque?’ É quem é que corre mais? Eles ou nós?”. E ele responde-me: “– Mas nós temos aqui uma grande equipa”. “– Não, presidente, nós temos aqui é nomes do passado que já pertencem aos cromos da bola. Para jogar, garanto-lhe a si, que você não vai a lado nenhum, não sobe de divisão. Está mais perto de perder do que de ganhar”. E disse-lhe logo, que se era para aquilo mais valia ficarmos logo por ali. Ou ele ia buscar mais quatro ou cinco jogadores diferentes, para dar corpo ao que eram as nossas ideias, ou então… E ele diz-me: “– Ah, mas nós temos dinheiro reservado para quando começar o [campeonato brasileiro] da série B irmos buscar mais três ou quatro jogadores. Agora poupamos três meses de salários e depois contratamos”. E eu perguntei: “– E se não aparecerem resultado?”. E ele responde-me: “– Nós aqui não despedimos treinadores”. Ok. Então, está bem. Vamos lá trabalhar.
18/12/2019 – Avaí anuncia Augusto Inácio
“Vim pelo projeto, pois os objetivos estão bem definidos. Falaram muito bem do Avaí, uma equipe que está pronta para avançar.” No projeto, o gajo seria técnico até, pelo menos, dezembro de 2020. pic.twitter.com/wqrxm6Nibn
— Bruno Atanazio (@BAtanazio13) December 5, 2020
Bola na RedeEntão o Estadual de Santa Catarina deveria ser para preparar a equipa e, depois, o plantel seria reforçado para apostar na série B do brasileiro e na subida de divisão. Era isso?
Augusto Inácio: Exatamente. Só que perdemos a Recopa, é claro, por 2-0. Ao fim de meia hora “quebrámos”. E depois outra coisa: perdi os dois extremos que tinha, lesionados. Pensei: o meu meio-campo é muito lento, vou é jogar com três atras, dou profundidade com os laterais e jogo num 3x4x3. Para eles aquilo foi uma grande confusão: – “Três zagueiros [defesas]? ‘Retranqueiro’! Só quer jogar à defesa, ele tem é de jogar ao ataque”. E eu pensava: Ok, mas com quem? O meu ponta-de-lança lesionou-se e só fiquei com um ponta-de-lança dos juniores, que se chama Alemão. Coloquei-o em campo e todos a baterem palmas por ter posto o miúdo. Passado cinco minutos já estava tudo: “– Tira o Alemão, tira o Alemão…”. (risos) É uma mentalidade do “caraças”. Nunca tinha visto uma coisa daquelas.
Bola na RedeE qual foi o momento decisivo para tua saída?
Augusto Inácio: Fomos ao Figueirense – que é o Benfica-Sporting lá do sítio – e penso cá para comigo: “Augusto, perdes este jogo e fazes as malas, que estes tipos não aguentam mais”. Ganhámos 2-0. Mas substituí aquele que, para eles, é o melhor jogador do plantel, que se chama Valdivia. Tiro o Valdivia e meto outro jogador, que, por acaso, até faz o passe para o segundo golo, mas qual não é o meu espanto quando alguém liga para o “banco”, para o treinador dos guarda-redes, a perguntar quem é que tinha tirado o Valdivia. Eu ouço aquilo e digo: “– Como? Quem tirou o Valdivia foi o treinador.”. E ele responde-me: “– Mas o treinador não tem de tirar o Valdivia”. Bem, no outro dia, estás a imaginar. Reunião e não sei quê: “– Mas afinal quem é que manda aqui?”
Bola na RedeMas foi o presidente que ligou para o “banco”?
Augusto Inácio: Não. Foi o Evandro [Camillato], ponta-de-lança que em Portugal jogou no Vitória de Guimarães e no Estrela da Amadora. Grande “cancro”. É treinador dos sub-23 e treinador adjunto, mas tem uma preponderância muito grande sobre o presidente. E depois há um Marquinhos [Santos], que foi um grande jogador do Avaí e agora é o diretor para o futebol do clube, mas que fez aquele plantel e queria lá um treinador brasileiro. São os dois maiores “cancros” que estão ali no clube. Agora, imagina isto: comecei a época assim. Desde que saí, já contrataram 14 jogadores e cinco que nunca chegaram a jogar comigo, devido a problemas físicos, já recuperaram e já começaram a jogar. Ou seja, 19 jogadores. E já vão no quarto treinador… Eu pergunto: Valeu a pena ter ido, para fazer cinco, seis ou sete jogos e depois ir embora? Hoje, não ia como fui. É um conselho que deixo aos treinadores portugueses. Se forem para o Brasil, levem uma equipa técnica toda portuguesa.
Bola na RedeSentes que foste “atraiçoado” pela equipa técnica da “casa”?
Augusto Inácio: Essa é que foi a grande surpresa. Em Portugal, recebemos muito bem quem vem de fora. E aquele Evandro foi muito bem recebido em Guimarães e na Amadora, e nas conversas que nós tínhamos, diárias, parecia ser uma pessoa que queria ajudar, mas é um falsário. É um traidor. Quando eu saio, venho a saber, porque ainda deixei lá um ou dois amigos, que ele chega ao balneário e diz: “– Então, consegui ou não consegui correr com os portugueses?”. Ele pensava que ia tomar conta da equipa, como já tinha acontecido em anos anteriores. Mas antes de regressar ainda disse ao presidente quem eram aqueles que o iriam atraiçoar. Não deixei de o dizer, mas, não sei porquê, o presidente parece refém daqueles dois, que nunca saem.
Bola na RedeÉ uma realidade difícil…
Augusto Inácio: É. E aquilo está na massa do sangue. Não interessa em que momento estás. Se ganhas dois ou três jogos ficas, se perdes dois ou três jogos sais. E senti que eles têm muitas reticências com treinadores estrangeiros, mas isso é outra história. Até com brasileiros. Houve um treinador brasileiro que já tinha feito seis ou sete jogos, empatou um e ganhou os outros cinco ou seis. Espetacular! Grande campanha! E de repente é despedido. Mas ele foi despedido porquê? O presidente dizia que ele era muito atrevido a atacar… (risos). E despediram-no. Até pensas que estou a inventar, mas isto é mesmo verdade.
Bola na RedeE o “efeito Jorge Jesus” não foi suficiente para mudar essas mentalidades?
Augusto Inácio: Deu abertura para que olhassem com outros olhos para o mercado português e para o treinador português. O Jorge Jesus deu essa abertura. Só que nós, às vezes, vamos para o desconhecido. Ou seja, quando analisei o plantel, passado uma semana, fiz logo uma análise e concluí que precisava de cinco ou seis jogadores. Eu e o José Ribeiro fizemos essa avaliação e transmitimos isso à direcção, mas a direção está mais preocupada com aquilo que os adeptos pensam e dizem do que em tomar decisões. Por exemplo, vou buscar um jogador que há três anos marcou 30 golos. A torcida não diz nada. Mas se o jogador contratado for desconhecido começam logo a “xingar” a direção, começam logo a dizer: “– Assim não vamos a lado nenhum”, apenas porque o jogador não tem nome. E a direção quer proteger-se. Esquece-se, no entanto, é que na competição a equipa não vai dar rendimento e depois é atacada na mesma. E trocam de treinadores como trocam de camisas. Contrataram já 14 jogadores desde que saí! Então, mas que plantel fizeram eles no início da época? É um mundo totalmente diferente da Europa.
Bola na RedeA verdade é que quando pensamos em treinador europeus no Brasil, a experiência do Jorge Jesus foi uma exceção…
Augusto Inácio: E ainda bem que ele teve aquele sucesso todo. Foi bom para ele e foi bom para o futebol português. Mas lembro-me perfeitamente que ele teve um jogo-chave no Flamengo. Já toda a gente no Brasil dizia que ele ia cair na véspera do jogo com aquela equipa do Equador [Emelec]. Perdeu 2-0 na primeira mão da Libertadores e ganhou a segunda por 2-0, no Maracanã. Há quem diga – e isto não é para tirar mérito – que nesse jogo até ficou um penálti por assinalar contra o Flamengo. Mas a eliminatória acabou por ir aos penáltis e foi o Flamengo que passou. Foi a partir daí que o Jorge Jesus “disparou”, mas se é eliminado nessa eliminatória as coisas iam complicar-se muito para ele. Por exemplo, o Jesualdo Ferreira recebe no Santos uma equipa toda “desconjuntada”, sem dinheiro para contratar ninguém e só porque era português tinha de fazer milagres e com a varinha ganhava os jogos todos. E agora o Sá Pinto também anda ali aflito no Vasco da Gama, com um plantel curtíssimo, cheio de “covids”, sem dinheiro. Começou bem ao início, mas agora também já está ali na “corda bamba”. Mas isto é o Brasil.
«Acho que a Liga – mesmo que não o diga – não gostou nada que a final [da Taça da Liga] fosse Sp. Braga-Moreirense»
Bola na RedeEm Portugal, a tua última experiência foi no Desportivo das Aves. Como é tens acompanhado aquilo que se passou no clube nestes últimos meses?
Augusto Inácio: Com muita pena, sinceramente. Fiquei a gostar muito daquela gente. Depois de conseguirmos a manutenção na 1.ª divisão [na época 2018/2019], o plantel saiu praticamente todo. A política do Desp. Aves era ter jogadores só do próprio clube, não ter emprestados, porque tinha acontecido aquilo com o Mama Baldé, que estava emprestado pelo Sporting, faz uma grande época na Vila das Aves e depois o Sporting inclui o jogador no negócio do [Valentin] Rosier com o Dijon, e o clube não ganhou nada com a transferência. A política era ter jogadores só nossos. Dei vários nomes, mas depois comecei a ver que nenhum vinha. Depois, as segundas escolhas também não vinham, as terceiras também não, as quartas também não… Vinham as quintas e sextas opções que eram as mais baratas. Ao ver aquilo, pedi a demissão logo no estágio de pré-época que decorria no Luso. E avisei o presidente que não íamos a lado nenhum com aquela equipa. Tinha havido o milagre do ano anterior, mas não há milagres todos os anos. Mas prometeram-me que viriam aí quatro ou cinco jogadores, daqueles que fazem a diferença, com “peso”. “– O mister vai conseguir, tenha calma e tal”. Acreditei nas pessoas, dava-me bem com elas, tinha de acreditar. A verdade é que esses jogadores nunca vieram. E depois começaram a aparecer os problemas financeiros: paga para a semana, daqui a quinze dias, os jogadores a ficarem cada vez mais incomodados com a situação. Os primeiros jogos nem foram maus: perdemos no Bessa, mas jogámos muito bem, e ganhámos em casa ao Marítimo. A seguir vamos ao Rio Ave e levamos 5-0 e começo a ficar sem opções, sobretudo “centrais”, que tive de ir buscar à equipa dos sub-23. Entrou-se numa “onda” e cheguei à conclusão que o melhor a fazer era o treinador sair, ir embora, para que houvesse um ar fresco no balneário, para que a direção também tivesse consciência que tinha de pagar os salários aos jogadores. Podia ser que com a minha saída as coisas ficassem melhor. Mas não. As coisas foram acontecendo. A única pena que tenho é que, se calhar, os adeptos pensam que quis mandar toda a gente embora de um ano para o outro, que quis trocar o plantel todo, mas isso não é verdade. E tenho muita pena da situação atual do Desp. Aves. Gostei muito de lá estar, gostei muito das pessoas, que são daquelas aguerrida, que gostam e vibram com o seu clube. Como também tenho pena, embora nunca tenha estado lá, da situação que está a atravessar o Vitória de Setúbal.
Foram estes que estão na foto mais o Mama Baldé, juntamente com os maravilhosos adeptos, com alma de primeira, que tornaram possível a manutenção !! @cdaves1930 #almadeprimeira pic.twitter.com/m8WCTUDuo0
— Augusto Inácio (@Augusto__Inacio) May 19, 2019
Bola na RedeO teu último grande feito foi a vitória na Taça da Liga com o Moreirense, em 2017. Foi uma conquista improvável?
Augusto Inácio: Sim, também fazem milagres naquele clube. Quando o Moreirense me contrata o primeiro jogo que faço é precisamente para a Taça da Liga, em Santa Maria da Feira. Como o campeonato estava complicado, pensei que a Taça da Liga era uma boa oportunidade para rodar alguns jogadores, dar-lhes ritmo de jogo, mas tinha mesmo de dar prioridade ao jogo do campeonato. Então, pus dois jogadores titulares, mas mesmo assim ganhámos por 2-1 ao Feirense. E o FC Porto, surpreendentemente, empata 0-0 em casa com o Belenenses. Bom, tínhamos três pontos e dois jogos em casa para fazer, contra Belenenses e FC Porto. Na segunda jornada, pensei a mesma coisa: suplentes a jogar e estamos a perder 3-1 em casa com o Belenenses, mas ainda conseguimos empatar 3-3. Qual não é o meu espanto que o FC Porto empata [1-1] com o Feirense em casa. Ficamos com quatro pontos e o FC Porto com dois. E vamos para o último jogo em casa com o FC Porto e aí já penso: “Epá, agora tenho de tentar ganhar o jogo”. Coloco em campo a melhor equipa e o [Francisco] Geraldes marca. Ganhamos 1-0 e ganhamos a série. E digo para comigo: “Olha, agora vamos para o Algarve. O que é que vou fazer para o Algarve? Tenho um jogo importante para o campeonato, em casa com o Feirense, preciso ganhar esse jogo para sair da aflição”. E ainda por cima a meia-final podia ser contra o Vitória de Setúbal ou Sp. Braga, mas não, calha logo o Benfica, o favorito. Não, não vale a pena. E até pus em campo quatro titulares e sete suplentes.
Bola na RedeO foco continuava a ser o campeonato mesmo nas meias-finais da Taça da Liga?
Augusto Inácio: Sim, contra o Benfica só pensava: “Augusto, não passes é vergonhas. Não leves quatro ou cinco, tenta, acima de tudo, honrar o emblema deste clube”. E vou numa de contenção, obviamente, o Benfica sempre “em cima”. E começo a ver os “centrais” do Benfica muito em cima da linha do meio-campo e pensei: “Hum, eles pensam que só há meio-campo para jogar? Está certo”. O Benfica logo aos sete minutos faz o 1-0, pelo Salvio, e aquilo não estava no programa. Mas conseguimos aguentar o 1-0 e, a determinada altura, chamei o Dramé, pus o [Emmanuel] Boateng a ponta-de-lança e o Podence do lado direito. E só disse ao [Francisco] Geraldes e ao Fernando Alexandre: “– É só meterem a bola na diagonal, por cima dos “centrais”, que os nossos extremos vão ganhar em corrida e eles não vão ter hipótese nenhuma. Eles estão avançados até à linha do meio-campo, é meter a bola a cair nas costas da defesa e vamos começar a fazer golos”. E assim foi. Fizemos o 1-1. Depois, numa jogada estudada, de bola parada, fizemos o 2-1 e, noutro contra-ataque, o 3-1. Quando Benfica “acorda” e quer voltar ao jogo já era tarde. O nosso guarda-redes [Giorgi Makaridze] também esteve muito bem e acabámos por ganhar o jogo 3-1. E penso: “Olha, 3-1…”. E ficamos ali com uma oportunidade única, não só na carreira, mas na vida do Moreirense, para ganhar uma competição daquelas, que não está ao alcance dos “pequenos”. Aquilo é uma prova feita para os “grandes” ganharem. Eu até acho que a Liga – mesmo que não o diga – não gostou nada que a final fosse Sp. Braga-Moreirense. Preferia muito mais que lá estivesse o Benfica.
Bola na RedeAchas que o Benfica não levou muito a sério o Moreirense nesse jogo?
Augusto Inácio: Não levou, não. O Benfica marcava cedo e pensava que ia dar três ou quatro, que ganhava à “vontadinha”. Mas quem está num clube “pequeno” e também já esteve num “grande”, como é o meu caso, sabe perfeitamente como pensa quem está de um lado e do outro. Isso para mim foi uma vantagem. Comecei a perceber a postura coletiva do Benfica e pensei: “Eles dão muito espaço atrás e não são rápidos”. Mas alguém agarrava o Dramé ou o Boateng ou o Podence quando vinham embalados? Era depois uma questão de timming de passe. Surtiu efeito.
Bola na RedeE a final com o Sp. Braga?
Augusto Inácio: Aí, já era o tudo por tudo para ganharmos. O Sp. Braga nesse jogo já temeu o Moreirense. As equipas não deram quase espaços, foi um jogo disputado quase sem balizas, muito a meio-campo, remates poucos, até que há uma saída nossa e o guarda-redes faz falta para penálti sobre o “Chico” Geraldes e o Cauê faz o 1-0. Continuamos na mesma toada, poderíamos até ter feito um segundo golo no contra-ataque, mas não fizemos. Nos últimos dez minutos, o Sp. Braga poderia ter empatado, mas tivemos a “estrelinha” do nosso lado e acabámos por ganhar uma taça que não estava minimamente nas previsões. Nem era por ser um clube “pequeno”, mas como o ano estava a decorrer, com o plantel que tínhamos, com a classificação, nem sequer sonhávamos chegar à final, quanto mais ganhar a taça. Mas a oportunidade surgiu e agarrámo-la.
Today @MoreirenseFC38 begins his journey in the league cup, I wish the same lucky as last year. Conquer the league cup was excelente! ⚽️👍 pic.twitter.com/pDry9Yh1UU
— Augusto Inácio (@Augusto__Inacio) October 10, 2017
Bola na RedeE como foi a receção em Moreira de Cónegos?
Augusto Inácio: Epá, eu ainda queria treinar nesse dia, não era bem treino, mas recuperar os jogadores, com banhos e massagens… Mas qual treino? Jesus, aquilo foi uma festa… Fomos à Câmara de Guimarães. São daqueles momentos que marcam as nossas vidas.
Bola na RedeE costumas continuar a acompanhar as equipas onde estiveste. Ainda vês os jogos do Avaí?
Augusto Inácio: Vejo, vejo… Hoje, à meia-noite e meia vou ver. (risos) Acompanho porque, independentemente das coisas, fica sempre qualquer coisa dos clubes por onde passamos e, sinceramente, não é por sair a bem ou a mal que vou desejar mal a esse clube, não. O clube é uma coisa e as pessoas são outra. E temos amigos dentro dos clubes e queremos o bem deles. Por isso, quando estou a ver o Vasco da Gama estou a torcer pelo Sá Pinto para ganhar, quando era o Jorge Jesus torcia pelo Flamengo, quando era o Jesulado Ferreira apoiava o Santos. E também apoio o Avaí porque estão lá duas pessoas da comissão técnica de quem fiquei a gostar muito. Vou sempre torcer por elas.
Bola na RedeO que costumas fazer nos períodos em que não estás a trabalhar? Vês muito futebol na TV?
Augusto Inácio: Olha, aos domingos gosto de ver o meu amigo Rodolfo Reis. Os outros passo só de relance… Mas, acima de tudo, tento manter-me atualizado, fazer um retrospetiva daquilo que foi a minha vida. Vejo muitos jogos de futebol, sim. Deito-me muitas vezes às 04h da manhã. Vejo o Brasileirão e a série B do Brasil, que também tem muitos bons jogadores. O Brasileirão é mesmo muito competitivo.
Bola na RedeE que papel gostavas de assumir num próximo projeto?
Augusto Inácio: Olha, jogador já não posso ser (risos). As perspetivas estão em aberto, Comentador, neste momento, não. Não me estou a ver a fazer isso. Mas estou-me a ver como treinador, como dirigente… Por falar em dirigente, poderá ser isso a acontecer num futuro próximo. Mas vai continuar a ser o momento a determinar o que a vida nos dá.
Bola na RedeJá podemos antecipar esse novo projeto?
Augusto Inácio: Olha, em primeira mão. Há um clube da Tunisia que anda a tentar contratar-me, mas não chegámos a acordo. Agora voltaram à carga, não sei se isto vai ter andamento ou não. E não vou dizer o nome. (risos) Também há aí um clube do Norte de África que também perguntou por mim. E também não fui para uma seleção africana porque tive medo. Sinceramente, com isto do covid, com estas coisas todas, tive algum receio e não fui.
Bola na RedeSeria um regresso ao Norte de África, onde treinaste o Zamalek, do Egito. Gostaste dessa experiência?
Augusto Inácio: Epá, aquilo é espetacular. Os fãs do Zamalek… Eles é que são os fãs, mas eu é que fiquei fã deles. É uma coisa… uma admiração, um apego… Eu digo mesmo: é amor! Aquelas coisas que o Jorge Jesus dizia quando estava no Al Hilal: “- Jesus, I love you!”. Aquilo é mesmo assim. Eles quase que te beijam na boca. (risos)
“Always in my heart. Thanks Zamalek and Zamalek fans!” #AugustoInacio #Zamalek @ZSCOfficial @ZSCWORLD pic.twitter.com/Hcmgk4lx8w
— Augusto Inácio (@Augusto__Inacio) July 29, 2017
Bola na RedeE ainda temos o caso do Manuel José, também adorado no Egito…
Augusto Inácio: Atenção! O Manuel José é deus no Egito. Os adeptos do Al Ahly gostam dele, os adeptos do Zamalek gostam dele… “Manuel José, Manuel José”… Há uma rivalidade muito grande entre os clubes e adoram o Manuel José, é uma coisa incrível. Também tenho continuado a acompanhar o Zamalek, treinado pelo meu amigo Jaime Pacheco. Antes da final da Liga dos Campeões africanos ainda dei umas declarações para a TV do Egito, a dizer que gostava que fosse o Zamalek a ganhar, enviei uma mensagem a desejar boa sorte ao Jaime, mas o Zamalek perdeu [vitória do Al-Ahly, por 2-1]. O Zamalek no jogo foi melhor, mas teve muito azar e acabou por perder. Foi uma pena. O presidente do Zamalek também tem uma cabeça assim… Perde ali dois ou três jogos e começa logo com a cabeça andar à roda… Mas foi uma experiência muito engraçada.
Bola na RedeJá falámos do Augusto Inácio jogador e treinador. Mais recentemente, as pessoas também conheceram a versão do Augusto Inácio comentador e diretor. Como é que gostavas que as pessoas se lembrassem de ti daqui a uns anos?
Augusto Inácio: Gostava que me lembrassem de mim como homem. O Augusto Inácio “homem”. Porque a nossa carreira tem fases. A do jogador, do treinador, com esta coisa dos programas de futebol também do comentador. E também tive a fase do diretor. Mas isto é tudo determinado com as oportunidades do momento. Já tinha conhecido os balneários, depois os gabinetes e a liderança de um plantel, o que é comentar em televisão os vários aspetos da vida desportiva do país, e depois apareceu a oportunidade de ser dirigente – que, para mim, é uma fasquia mais alta da do jogador e do treinador. É quando chegas ao topo do edifício, onde geres tudo a partir lá de cima.
Bola na RedeEssa oportunidade surge como consequência destes anos todos de futebol…
Augusto Inácio: Sim, a minha maior valência, neste momento, é a experiência. Saber o que estão os jogadores a pensar, a sentir, a falar… O porquê de um grupo ou um jogador não estar a render naquele momento. Eu, por várias vezes, já consegui detetar que o jogador tem problemas particulares, que não são desportivos, e que afetam o seu rendimento. Mas para um jogador falar dessas coisas tem de ter uma enorme confiança em ti, senão ele resguarda-se.
Bola na RedeE qual destes papéis gostavas de assumir num futuro próximo?
Augusto Inácio: Jogador já não posso ser. (risos) As perspetivas estão em aberto. Comentador, neste momento, não. Não me estou a ver a fazer isso. Estou-me a ver como treinador, dirigente… Por falar em dirigente, poderá ser isso a acontecer num futuro próximo. Mas vai continuar a ser o momento a determinar o que a vida nos dá.
«Frederico Varandas não é líder. Não tem estilo de líder, não tem capacidade de líder, nem tem imagem de líder»
Bola na RedeVamos então falar da versão do Augusto Inácio dirigente. Foste apoiante do Bruno de Carvalho desde as eleições de 2011 e assumiste o cargo de diretor geral do Sporting quando o Bruno de Carvalho venceu as eleições em março de 2013. O que encontraste quando regressaste ao Sporting?
Augusto Inácio: Encontrei um clube completamente derrotado, sem ambição, que tinha uma cultura de exigência muito curta. As minhas expectativas eram que fosse possível fazer uma grande reviravolta e dar ao clube a dinâmica que o Sporting precisava. E isso aconteceu. O Bruno de Carvalho foi a pessoa certa. Ele dinamizou o clube de uma forma que, dificilmente, naquela altura, mais alguém poderia conseguir. Só aquela, entre aspas, “maluquice” dele é que permitia acreditar que fosse possível fazê-lo. Mas atenção! A palavra “acreditar” também o Sousa Cintra usa. O Sousa Cintra também diz que “acredita”. Eu “acredito” que vou ser campeão. Uma coisa é “acreditar”, outra coisa é fazer por acreditar. Essa é que é a grande diferença.
Bola na RedeE o trabalho do Bruno Carvalho permitiu tornar essa crença em realidade?
Augusto Inácio: Exatamente. Se não acreditasse nas ideias do Bruno de Carvalho nunca o teria apoiado. Antes de aceitar o convite do Bruno de Carvalho eu li todo o programa dele.
Bola na RedeJá o conhecias antes?
Augusto Inácio: Não. Nunca tinha falado com ele na minha vida. Estava a treinar o Moreirense quando ele quis falar comigo pela primeira vez. Encontrámo-nos na Mealhada, a meio do caminho, para ele me explicar quais eram as ideias dele e para me passar para a mão o projeto com 120 pontos. Posso dizer-te que estava de acordo com 118 dos 120 pontos do projeto que o Bruno de Carvalho me apresentou (dois dos pontos eram discutíveis). Eu só lhe perguntei: “– Mas é isso mesmo que você vai fazer?” Diz ele: “– Se não for isto o que eu vou fazer, você pode pode ir para os jornais e ‘rasgar-me’ todo”. As palavras exatas foram estas: “Pode ir para os jornais ‘rasgar-me’ todo”. Bom, eu disse: “– Não o conheço de lado nenhum, mas se você cumprir isto que está aqui estou consigo”. Mas, atenção, nós íamos lutar contra “Godinhos Lopes”, “Carlos Freitas”, “Luis Duques”, os “pesos pesados”. Mas eu não fui para o Sporting por pessoas, fui por projetos. E achava que aquele era o projeto que o Sporting precisava.
O bom filho à casa torna. Bem-vindo de volta, ‘Leão’ @Augusto__Inacio! 🦁 pic.twitter.com/UPqhX6QSvF
— Sporting Clube de Portugal (@Sporting_CP) May 22, 2018
Bola na RedeO Sporting ganha, de facto, uma nova dinâmica nessa altura. Na primeira época do Bruno de Carvalho acaba o campeonato em 2.º lugar, com o Leonardo Jardim, e na segunda conquista a Taça de Portugal, com o Marco Silva. Mas é também nessa época que começam a surgir os primeiros problemas. O clima que se vivia no Sporting continuava a não ser de paz e houve ali um choque entre o Bruno de Carvalho e o Marco Silva. Como é que explicas esta situação?
Augusto Inácio: Nesse caso, estou completamente de acordo com o Bruno de Carvalho. O Marco Silva foi avisado. Acho que o Marco Silva não foi correto com o Sporting e com o presidente. Acho que ele fez tudo para ser mandado embora. Tudo! O objetivo dele, se calhar, era mesmo esse: ir para outro clube. Acho que sim. E ele acaba a época no Sporting a muito custo, porque foram seguradas muitas “pontas2 apenas para o Sporting não ser considerado um clube que tem três ou quatro treinadores por ano. O Leonardo Jardim teve um ano inteiro. O Marco Silva teve um ano inteiro, mas, sinceramente, Marco Silva não merecia ter estado um ano inteiro no Sporting.
Bola na RedeAfinal, o que se passou?
Augusto Inácio: Começa logo na pré-época, na Corunha, quando o Sporting vai ao torneio Teresa Herrera. E aí começa a entrar a Doyen, o Marcos Rojo, o Carlos Gonçalves… O empresário do Marco Silva é o Carlos Gonçalves.
Bola na RedeSim. Mas estás a dizer-me que estavam a tentar gerir o Sporting de fora para dentro?
Augusto Inácio: Era o que queriam, mas com o Bruno de Carvalho não tiveram hipótese nenhuma. Queriam fazer o que faziam nos anos anteriores, mas ali não entraram. E o Marco Silva estava alinhado com as ideias dos outros, não com as do clube. E nessa altura já esteve “tremido”. E posso dizer-te que segurei muitas “pontas”, muitas mesmos, para que ele chegasse até ao fim. Mas, sinceramente, olhando hoje para a situação, acho que o Bruno de Carvalho é que tinha razão.
Bola na RedeEntão, pelo Bruno de Carvalho, o Marco Silva teria sido despedido ainda antes da final da Taça de Portugal?
Muito antes. No jogo no Nacional da Madeira, o Carlos Mané faz o golo da vitória [1-0], e o Marco Silva vai para o facebook “rasgar” indiretamente o Bruno de Carvalho, o seu próprio presidente. É inadmissível. Depois há uma reunião onde ele não tem a coragem de dizer na cara do Bruno de Carvalho aquilo que ele pensava ou o que queria. E aí começámos a desconfiar que havia, e depois viemos mesmo a confirmar, que havia um clube que andava a sondá-lo para ele ir para lá – mas agora não vale a pena dizer o nome desse clube.
Bola na RedeNessa época houve interferências na vida interna do Sporting de empresários e de outro clube?
Augusto Inácio: Exatamente. Só que os adeptos do Sporting muitas vezes não sabem o que se passa e depois tomam partidos, mas, se calhar, se soubessem era ao contrário. Mas, enfim, lá se conseguiu que as coisas fossem até ao fim.
Bola na RedeE no ano seguinte, com a saída do Marco Silva e a chegada do Jorge Jesus deixas de ser o diretor geral do clube e assumes as relações internacionais. Ficaste com alguma mágoa por teres sido afastado do cargo?
Augusto Inácio: Vamos lá ver… Eu não falava com o Jorge Jesus há vinte e tal anos. Hoje, falo com ele, pois passados dois meses de ele ter chegado ao Sporting tivemos um almoço, onde estive eu, ele e o presidente Bruno de Carvalho.
Bola na RedeFoi o Bruno de Carvalho que promoveu essa reaproximação?
Augusto Inácio: Não, quer dizer, o Jorge Jesus tinha interesse em falar comigo e eu também tinha interesse em falar com ele. As coisas conjugaram-se e o Bruno de Carvalho organizou o almoço. O almoço correu bem. Acho que em cinco minutos ultrapassámos as divergências todas. Depois estivemos ali mais quatro horas a falar de futebol e do Sporting e ele ainda voltou a convidar-me para almoçar com ele e falarmos de coisas do futebol e, principalmente, do Sporting. Não vou dizer que ficou uma grande amizade, mas ficámos com uma relação de respeito mútua e podemos almoçar ou jantar em qualquer altura. Agora está muita gente do Sporting contra ele, por isto ou por aquilo, mas agora não vou deixar de ser amigo só porque ele não está no Sporting. Não. Se fiz as pazes, fiz as pazes. Acabou. Quando ele ganhou a Taça dos Libertadores enviei-lhe uma mensagem a dar-lhe os parabéns, ele agradeceu-me… Ou seja, ficou uma relação simpática.
Bola na RedeMas és afastado do cargo de diretor geral devido a estares de relações cortadas com o Jorge Jesus…
Augusto Inácio: O Bruno de Carvalho tomou a iniciativa de contratar o Jorge Jesus… Se houvesse esse almoço antes da vinda dele para o Sporting, acho, sinceramente, que ainda hoje estaria no Sporting. Mas como aquilo não fazia sentido, estarem a coabitar o treinador e o diretor que não falavam um com o outro… Fui, entre aspas, o “sacrificado”. Fui para as relações internacionais, mas disse logo ao Bruno de Carvalho que aquele cargo não era para mim, que não tinha nada a ver com aquilo que eu entendo ser o futebol. Deixei passar um tempinho, para não fazer muitos estragos, e depois saí de “fininho”, para não fazer tanto ruído.
Bola na RedeE o Sporting ficou a perder? Achas que a dupla Jorge Jesus-Augusto Inácio poderia ter feito um bom trabalho no clube?
Augusto Inácio: Acho que não cometo nenhuma inconfidência se disser que o Jorge Jesus já me disse que há duas pessoas com quem ele gosta muito de falar de futebol: o Rui Costa, do Benfica, e eu. Falamos a mesma linguagem, não dizemos “Amén” a tudo o que ele diz, damos os nossos argumentos, e ele gosta disso, ele gosta do debate. Acho que podia ter sido uma mais-valia para ele e que poderia também ter contribuído para que algumas coisas menos boas que aconteceram não tivessem acontecido.
Bola na RedeEstás a falar de Alcochete?
Augusto Inácio: Não, não… Isso são coisas que não passam pela “cabeça do diabo”. Estou a falar de coisas internas, do dia-a-dia. Às vezes há aquelas coisinhas que não passam cá para fora, mas começam a “moer” lá dentro. Se não forem eliminadas, aquilo torna-se uma bola de neve. É aquele que já não olha de frente para o outro, só de lado, e às vezes há alturas em que temos de sanar as coisas no momento certo. Acho que poderia ter sido uma mais-valia, sim, modéstia à parte.
Bola na RedeHá pouco tempo disseste, numa entrevista, que o Sp. Braga tinha melhor plantel que o Sporting. Com o Sporting a liderar o campeonato, a mostrar bom futebol neste início de época, manténs essa opinião?
Augusto Inácio: Continuo a dizer que o Sp. Braga tem melhor plantel que o Sporting. A grande diferença é que o Sp. Braga está na Liga Europa e o Sporting não está. Ou seja, o Sp. Braga tem um desgaste maior, os seus jogadores têm lesões mais rápidas. O facto de o Sporting ter ficado fora da Europa permite ao Ruben Amorim treinar a equipa semana a semana e, se tiver um jogador com um toque, algum pormenorzinho, pode recuperar em dois ou três dias. Se estivesse na Liga Europa, se calhar, tinha de falhar esse jogo e depois logo se via se podia jogar no campeonato… O Sporting tem, neste momento, a capacidade de poder ter jogadores mais frescos que o Sp. Braga. Mas, sinceramente, acho que o Sporting está fazer um excelente campeonato. O Ruben Amorim está a fazer um excelente trabalho. Vê-se que a equipa está unida, coesa, os jogadores dão o “sangue” uns pelos outros, o que é um dado extremamente positivo. Mas continuo na minha: se o Sporting perder ali dois ou três jogadores nucleares, vai ter muitas dificuldades, não que perca a vontade de ganhar, mas fica com menos argumentos para conseguir ganhar. E acho que se o Sporting não for buscar dois ou três jogadores no mercado de inverno vai ter muitas dificuldades.
Bola na RedePelo que já viste neste início de época quem é, para ti, o principal candidato ao título?
Augusto Inácio: Eu tento fazer uma análise ao ano todo. Se fosse só por este momento, diria o Sporting. Não vejo ninguém a jogar melhor que o Sporting. E mesmo assim mais próximo até está primeiro o Sp. Braga do que o Benfica ou o FC Porto. Mas o campeonato é até maio. Lá no fundo, tenho uma réstia de esperança que o Sporting pode lá chegar… mas, sinceramente, os mais favoritos, para mim, são Benfica e FC Porto ou FC Porto e Benfica, como queiram…
Bola na RedeO Frederico Varandas falou de dificuldades acrescidas face aos rivais numa das suas últimas intervenções públicas. “Este golo jamais seria anulado aos nossos rivais, mas seriam quatro pontos de avanço e começaram a tremer”, disse o presidente do Sporting no final do jogo em Famalicão, após a anulação do golo a Sebastien Coates no último lance da partida. Subscreve estas palavras?
Augusto Inácio: Eu lamento dizer isto, mas o presidente do Sporting, às vezes, fala nos momentos em que não deve falar. Uma coisa é proteger a equipa e falar no momento certo. E depois é a forma como se dizem as coisas. Temos de ser coerentes e frios nas análises. Acho que ele faz uma análise, com certeza, segundo o que lhe contaram. Eu já fiz a análise desse jogo. O Sporting foi muito prejudicado pela arbitragem, mas não pelo golo anulado, que foi bem anulado. O Coates fez falta. Agora, no critério disciplinar, o Pedro Gonçalves foi mal expulso. Nunca deveria ter levado o primeiro amarelo. Depois, leva o segundo por chutar a bola, mas não nos podemos esquecer que o Gustavo Assunção fez a mesma coisa e foi apenas advertido. E depois as pequenas faltas, nota-se quando se tenta que uma equipa não vá para a frente. Não é precisar marcar penáltis para prejudicar uma equipa. Acho que o Sporting tem muitas razões de queixa, mas o presidente do Sporting se quiser defender a sua “dama” – e não é aquilo do golo do Coates, ele não pode defender uma coisa daquelas, porque é falta e ponto –, também não nos podemos esquecer que o Sporting na jornada anterior marcou o golo do empate [pelo Pedro Gonçalves] na receção o Moreirense num lance que deixa muitas dúvidas. Não vou dizer que foi mão ou não, mas deixa muitas dúvidas. E depois é a forma como comunica, falando dos rivais. Para defender o Sporting não é preciso falar dos rivais. Estamos sempre a passar uma imagem de complexo de inferioridade. Temos é de falar do Sporting e do jogo que, neste caso, foi com o Famalicão.
Bola na RedeFrederico Varandas tem estado mais ativo. Achas que Frederico Varandas está, hoje, mais perto do registo combativo que caracterizou a presidência do Bruno de Carvalho?
Augusto Inácio: Para já, não tem capacidade nenhuma. O Frederico Varandas não chega “a um dedo” daquilo que é o Bruno de Carvalho nesse sentido. Está a quilómetros de distância. Este presidente do Sporting, em comunicação, desculpem a expressão, é zero. Zero! Comunica mal, não sabe ser contundente no que tem de dizer. Agora, como as pessoas começaram a dizer que o Ruben Amorim é que é o comunicador, o Ruben Amorim é que é o líder, o Ruben Amorim é que é a voz do Sporting, o Ruben Amorim é que é o único que fala, o Frederico Varandas, nestes momentos, em que sente que foi prejudicado, pensa: “Eu é que sou o líder, eu é que tenho de falar”. Porque ele pensa que se não falar os sportinguistas vão dizer: “O que é que este presidente banana está aqui a fazer que não fala?”. Ele não fala quando deve falar, ele fala para que as pessoas digam: “– Ah, ele também está ali a defender o Sporting. Estás ver como ele anda a falar”. Acho que as coisas não são assim que se fazem. As pessoas ou são líderes ou não são líderes. E eu, sinceramente, tenho de dizer aquilo que sinto: Frederico Varandas não é líder. Não tem estilo de líder, não tem capacidade de líder, nem tem imagem de líder. Não é líder! Ele pode falar, pode dizer o que quiser, mas acho que ninguém o ouve. Mas se for o Ruben Amorim a falar já o ouvem. Só para se ver a diferença. Bola na Rede: Mas o que achas que falta ao Frederico Varandas?
Augusto Inácio: Falta ao Frederico Varandas falar daquilo que ele disse que ia falar, do campeonato de 2015/2016. Porque ele disse que sabia porque é que o Sporting tinha perdido esse campeonato. Falta ao Frederico Varandas falar desse campeonato, que é do Sporting, que foi roubado ao Sporting e que não é do Benfica. O que falta ao Frederico Varandas é liderança e carisma, isso é coisa que ele não tem.
«O foco é saber se, na situação em que está, o Sporting tem 10 milhões para dar por um treinador. Esse é que é o problema!»
Bola na RedeEm que te baseias para afirmar que o campeonato 2015/2016 é do Sporting?
Augusto Inácio: Porque sabemos que foi roubado nos bastidores. Basta ver os processos que o Benfica tem aí. Basta ver por esses processos, só por aí. Mas como o Frederico Varandas disse que sabia perfeitamente que o Sporting tinha sido roubado em 2015/2016 e queria contar tudo… Por isso, continuo à espera que ele conte tudo e que defenda os interesses do Sporting. Porque esse campeonato era nosso! Porque é que não conta agora? Disse que contava e agora não conta? Porquê? Tem medo? É por ser do Bruno de Carvalho? Mas aqui não é ter medo, nem é ser do Bruno de Carvalho. São os interesses do Sporting. E é um título que estão a tirar ao Sporting. Onde é que está essa luta? Onde é que está esse combate?
Bola na RedeAcreditas mesmo que o Sporting ainda será consagrado campeão da época 2015/2016?
Augusto Inácio: Não sei se irá, mais eu ia até às últimas… Eu não me calava com isto. Ai, não me calava, não. Nem ia de certeza ser amiguinho daqueles que nos roubaram o campeonato na batota.
Bola na RedeDiz-se muitas vezes que os problemas do Sporting começam dentro de casa, com um constante clima de guerra interna. Estas tuas declarações sobre o Frederico Varandas indicam isso mesmo. Nunca há uma unanimidade… O que é preciso para que o Sporting viva em paz? Para que o presidente – que foi eleito – ser reconhecido como tal?
Augusto Inácio: Vamos lá ver: uma coisa é apoiar a equipa, os jogadores e o treinador. E já reparaste que separei as coisas completamente. Grande trabalho do Ruben Amorim e dos jogadores. Outra coisa é o outro lado da cortina. O que me faz dizer estas coisas? Olha, em primeiro lugar, tem havido uma perseguição em relação a mim muito grande por parte do Frederico Varandas, e não sei porquê, mas começa logo por aí. Ainda não cheguei a perceber bem. E há ainda outra coisa que não nos podemos esquecer: tu não podes ser acusado, expulso, vilipendiado na praça pública sem haver matéria para que isso aconteça. E não se pode condenar antes de julgar, certo? Bruno de Carvalho não foi acusado de nada, como agora ficou provado em tribunal, e foi expulso da presidência e de sócio do Sporting Clube de Portugal.
Bola na RedeDefendes que essa decisão deve ser revertida?
Augusto Inácio: O Bruno de Carvalho tem todo o direito de retornar a ser sócio do Sporting e, pelo menos, se quiser, candidatar-se numas futuras eleições. Tem todo o direito. Ao se “cortar” essa possibilidade, já se está a dividir a massa associativa do Sporting. O Bruno de Carvalho foi destituído e expulso de sócio numa assembleia-geral. Foi uma decisão dos sócios do Sporting… E, na prática, essa decisão não teve a ver diretamente com o ataque a Alcochete… Só que os estatutos aí valeram. Eu até tenho uma coisa aqui no telefone [pega no telemóvel] que vou ler. Diz assim, uma notícia da Lusa, de 24 junho de 2018, às 14h38. Rogério Alves: “– Sócios são donos do destino do clube”. Foi agora pedida uma assembleia-geral extraordinária, em outubro, e até hoje não foi dito nada pelo Rogério Alves [entretanto a Mesa da Assembleia-Geral do Sporting, liderada por Rogério Alves, indeferiu todos os requerimentos para realização das reuniões magnas extraordinárias para destituir atual direção e reverter expulsão de Bruno de Carvalho]. Em 2018, os sócios mandavam, mas agora os sócios já não mandam nada, quem manda é ele [Rogério Alves]. Os estatutos falam de uma maneira e, em 2020, já falam de outra. E aí é que está o busílis da questão. E aí que as coisas se dividem. Porque não pode haver paz enquanto as pessoas não sentirem que as coisas estão nos seus devido lugares. Como é que te sentirias se fosses acusado de uma coisa pela tua empresa e eras despedido e, depois, mais tarde, concluia-se que não tens culpa de nada? Como é que sentirias? No direito de poder voltar, não é? Pelo menos isso. Acho que era a melhor forma de isto sossegar, porque não há uma ou duas facções no Sporting, há várias. Mesmo esta “guerra” do Varandas com as claques… Para os puritanos: “Ah, este homem não tem medo nenhum, ele enfrenta as claques. Eles têm a mania que mandam no clube”. Não! Há é regras para serem cumpridas e as regras quando não são cumpridas as pessoas devem ser castigadas, ponto. Mas as claques são parte integrante daquilo que é o apoio a um clube de futebol. E são muito importantes nesse sentido. E a forma como estão a lidar com as claques do Sporting, sinceramente, acho que só divide e não aproxima.
Bola na RedeE nem 1.º lugar é capaz de apagar estas divergências?
Augusto Inácio: Não apaga, não. Infelizmente, não apaga. Enquanto não se cumprirem os estatutos haverá sempre “guerra”. E não é por mim, é por aqueles que se sentem injustiçados. Não é por mim…
Bola na RedeEm relação a este assunto podemos dizer que “avançaste a tua vida”?
Augusto Inácio: Olhando para as coisas a “frio” tenho de estar ao lado dos sócios do Sporting, porque os estatutos não estão a ser cumpridos. Quando são os sócios do Sporting a votar no seu representante máximo e o representante máximo descarta completamente aqueles que votaram nele… Por isso é que digo: “–Quando todos os sócios forem reintegrados, menos aqueles que foram condenados judicialmente. Esses não! Mas quando todos os sócios que foram inocentados a nível judicial, que não tiveram nada provado que justificasse a expulsão, forem reintegrados, então, a partir daí, em novas eleições, já ninguém pode dizer ‘aquele não teve direito porque não lhe deram oportunidade’”.
Bola na RedeO episódio de Alcochete ainda não foi esquecido por muita gente no Sporting. Faz sentido ainda se justificar o que de mal se passa no clube com o ataque à Academia?
Augusto Inácio: Faz sentido quando dá jeito. Agora, ninguém fala disso porque o Sporting está à frente no campeonato, mas quando o Sporting começou a perder eram “efeitos de Alcochete”. E as contas negativas são “efeitos de Alcochete”. E qualquer coisa negativa que se passa é o “efeito de Alcochete”. Alcochete vai servir sempre de desculpa quando a coisas não estiverem a correr bem, mas enquanto estiver tudo a correr bem de certeza absoluta que não vais ouvir falar de Alcochete.
Bola na RedeNuma entrevista à rádio Observador afirmaste que o “Bruno de Carvalho sofreu uma golpada e a verdade sobre Alcochete só se saberá, um dia, quando e se as comadres se zangarem. Sei do que estou a falar, mas não tenho provas”. Quem são as comadres?
Augusto Inácio: Não vou responder, mas elas estão aí…
Bola na RedeE pelo que percebi das respostas anteriores, manténs a opinião que Bruno de Carvalho foi vítima de um golpe…
Augusto Inácio: Foi! Foi! Se calhar até posso dizer que o mesmo grupo que avançou com o Frederico Varandas é o mesmo grupo que está para avançar… Se não for o Varandas é outro.
Muito obrigado a todos pelo apoio, carinho e por todas as mensagens. Um grande abraço !! 👍 pic.twitter.com/OgKV4wQPIF
— Augusto Inácio (@Augusto__Inacio) May 23, 2018
Bola na RedeHá pessoas a “controlarem” Frederico Varandas na presidência do Sporting?
Augusto Inácio: Há.
Bola na RedeE porque não avançam essas pessoas à liderança do Sporting?
Augusto Inácio: Porque não dão a cara, preferem estar na sombra.
Bola na RedeAchas que o Bruno de Carvalho veio “quebrar” uma lógica que estava instituída?
Augusto Inácio: Eu nestas coisas gosto de ser pragmático e gosto de falar enquanto estive presente. Porque quando não estamos é o “diz que disse”… in loco é que gosto de falar. Já falámos sobre isso, naqueles dois primeiros anos o Bruno de Carvalho revolucionou completamente o Sporting. Ele pôs o Sporting num patamar de exigência, definido, em primeiro lugar, para ele próprio, e depois veio tudo atrás. Era desde o funcionário mais modesto. Todos tinham de estar ali nos limites. Essas coisas, quando se impõe uma exigência assim, tem os seus contras, criam-se inimigos. Aqueles que estão de boa-fé e querem que o clube vá para a frente seguem aquele caminho – que até pode não dar certo –, mas seguem aquele caminho que permite estar mais próximo do sucesso. O Sporting tinha vinte e tal milhões no primeiro orçamento, com o Leonardo Jardim, enquanto os outros já gastavam 70 ou 80 milhões… Ficámos em 2.º lugar. No ano seguinte, o orçamento nem chegou aos 30 milhões e ganhámos a Taça de Portugal. E os outros a gastarem 70/80… Quando o Bruno de Carvalho começa a gastar como os outros, quase 70/80 milhões, o primeiro, época 2015/2016, é o tal campeonato roubado, mas nos outros não foi roubado. O Sporting fez más aquisições, não jogou tão bem, e depois começou a haver problemas, porque as mais-valias não surgiram. Naquele último ano, as modalidades “limparam” as competições todas. E o orçamento não levantou “voo” como este está agora a levantar. Este relatório e contas que nos apresentaram recentemente, que o Sporting teve 100 milhões e não sei quê… Então e a dívida do Sporting que era de 40 milhões e agora passou para cento e tal milhões? Então mas quando é que Sporting começa a pagar o Rúben Amorim? E o Tabata? Que dinheiro já adiantaram da NOS? Estão à espera das próximas eleições e os outros é que vão pagar a fatura das dívidas que agora estão a fazer?
Bola na RedeAchas que o Bruno de Carvalho continua a contar para o futuro do Sporting?
Augusto Inácio: Tem um franja de sócios e adeptos que continuam a gostar dele e continua fiel às suas ideias e às suas exigências. Acho que serão os sócios do Sporting a terem a última palavra. Primeiro, para ele ser reintegrado como sócio do Sporting e, depois, a partir daí, ele tem todo o direito, se quiser, a se candidatar à presidência do clube. E depois serão os sócios a decidir se ele tem capacidade para ser presidente do Sporting Clube de Portugal. Daquele Bruno de Carvalho, de 2013 a 2015, com quem estive, gostei muito.
Bola na RedeChegaste a dizer numa entrevista que a história dos 10 milhões pelo Ruben Amorim “está mal contada”. O Ruben não está a justificar os 10 milhões?
Augusto Inácio: Estamos a partir do princípio errado. Justifica 40 ou 50 milhões. Justifica tudo desde que o Sporting esteja em 1.º lugar. O foco não é esse. O foco é saber se, na situação em que está, o Sporting tem 10 milhões para dar por um treinador. Esse é que é o problema! Não é o valor, a qualidade, a sabedoria do treinador, não é isso que está em causa… O Sporting agora diz: “tenho aqui 10 milhões e vou buscar o Klopp”. O Sporting não tem 10 milhões para ir buscar o Klopp. O Klopp não é grande treinador? É! Mas o Sporting não tem dinheiro para contratá-lo. Não posso ter só 50 euros para pôr gasolina e andar de Ferrari. Ando ali 100 metros e lá vão os 50 euros de gasolina, o carro “come” aquilo tudo. Não é o valor do treinador que está em causa, é o dinheiro. O Sporting está 1.º lugar, mas se pensarmos como se endividou antes… O Sporting deve ou não deve mais dinheiro agora, desde que este presidente entrou? E depois há outra coisa que não me entra na cabeça. Estas coisas do Nuno Santos? Que vem [do Rio Ave] porque o Benfica perdoa. E depois, não sei quê, vai o do Sporting porque o Sporting tem direito mas também perdoa… Epá, desculpem lá. Esses acordos, para mim… “Cheira-me” que o Sporting está sempre a ser… bom, não posso dizer.
Bola na RedeMas até agora só o Benfica é que, entre aspas, “perdoou”, ao abdicar da parte do passe do Nuno Santos que lhe pertencia…
Augusto Inácio: É o que dizem.
Bola na RedeNo defeso chegou a falar-se que o João Mário poderia ir para o Benfica e até acabou no Sporting. Portanto, neste caso, o Sporting não foi prejudicado…
Augusto Inácio: Vamos ver com o William [Carvalho]. Estamos a falar e ainda só estamos em dezembro. O Bétis quer vender o William por 15 milhões e o Sporting pode dizer dou ou não dou os 15 milhões…Mas estamos a falar assim um bocado hipoteticamente, mas não sabemos bem como são os contornos destes negócios, porque as coisas não são claras, para que não hajam dúvidas.
Bola na RedeNão confias que esta direção seja capaz de defender os interesses do Sporting?
Augusto Inácio: Não, sinceramente não. Eu não posso ser politicamente correto, estou a dizer o que sinto. Não, não confio.
















