«Não estava psicologicamente preparado para viver no Porto e jogar noutro clube que não fosse o Sporting»

 

Bola na Rede: Já estamos a falar da carreira de treinador, mas já lá vamos. Antes ainda queria regressar aos tempos em que eras jogador. Foste campeão em 1980 e 1982 pelo Sporting, mas depois disso saíste para o FC Porto…

Augusto Inácio: Eu nunca pensei sair do Sporting, porque nunca tinha posto na minha cabeça que pudesse viver fora de Lisboa. Estava habituado, primeiro, ao Alto do Pina, depois, Lumiar. Eu e os meus pais leões… só via Sporting.

Bola na Rede: Então como é que se deu essa saída?

Augusto Inácio: Deu-se porque o Sporting praticamente “empurrou-me”… Essa é que é a verdade. Os adeptos dizem, às vezes, que “este indivíduo traiu-nos, foi para o “inimigo”, mas não sabem o que se passou para as pessoas tomarem estas decisões. Eu nunca fui de me lamentar, por jogadores ganharem mais que eu, nunca fui invejoso, nunca me interessou nada disso. Só me preocupava, quando chegasse a altura de discutir o contrato, de negociar o que achava que tinha direito. Mas nunca fui para os jornais lamentar-me, como muitos colegas meus faziam, que ganhavam pouco ou que deviam ser aumentados… Quando tinha 27 anos comecei a fazer contas à vida. Já era casado, tinha dois filhos e, naquela altura, um jogador com 30 anos já era considerado velho e não conseguia fazer contratos nenhuns. Então pensei que estava na altura para fazer o grande contrato da minha vida ou então nunca o conseguiria fazer. Entretanto, surgiu-me um convite do Amora, que na altura dava terrenos aos jogadores, do Portimonense, que dava apartamentos, e do Vitória de Guimarães, onde estava o José Maria Pedroto. E é a partir daí que começo a perceber que há possibilidade – caso o Sporting não altere a proposta que me fez – de poder sair. Mas nunca pensei que o Sporting me deixasse sair. Naquela altura, ganhava 1.100 contos/ano e o Sporting dava-me mais três contos por mês, ou seja, 1.136 contos/anos. Eu dizia ao Jaime Lopes, que era o homem do departamento de futebol do Sporting: “- Vocês estão a brincar comigo. Há aqui gente a ganhar uma pipa de massa, pelo menos dêem-me dois mil contos/ano, que eu não quero sair do Sporting”.

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Bola na Rede: Era a desvantagem de ser da “casa”…

Augusto Inácio: Sim, antigamente havia esse estigma que o jogador da “casa” tinha de ganhar pouco e quem vinha de fora era sempre valorizado. Mas era com o Jaime Lopes com quem falava, porque o presidente João Rocha nunca falou comigo de contratos. A resposta do Jaime Lopes era sempre a mesma quando eu falava dos dois mil contos/ano: “Não podemos, não podemos…”. Surgiu então o Vitória de Guimarães que me faz uma proposta e eu faço uma contraproposta e peço-lhes um carro, na altura um Renault 5. Eu pensava: Vou para Guimarães, a mulher tem de usar o carro para levar os miúdos à escola, então eu preciso de um para ir para os treinos. Mas eles disseram-me que não davam carros a ninguém. Na altura em que andávamos a discutir isto, o José Maria Pedroto liga-me e diz-me que não vai ficar em Guimarães. Ou seja, deu-me o recado para eu não assinar pelo Vitória. Passados uns dias, o FC Porto liga-me para nos encontrarmos e faz-me uma proposta de três anos a cinco mil contos/ano. Eram 15 mil contos em três anos. Mas mesmo com esta proposta, vou ter com o Jaime Lopes e digo-lhe: “– Tenho uma proposta de um clube que me dá cinco mil contos/ano. Sei que o Sporting não me pode dar isso, mas dêem-me os dois mil e eu fico”. Ele respondeu-me que já tinha falado com o presidente e que não era possível… Eu ainda lhe disse: “– Vê lá isso, que eu não quero sair do Sporting e vocês estão a obrigar-me a sair do Sporting”. E ele respondeu-me: – “Faz o que tu quiseres”. E eu fiquei… “Faz o que tu quiseres?”, mas isso é resposta que se dê? Quando o FC Porto me “aperta”, mesmo assim, na véspera de assinar, ainda fui novamente ter com o Jaime Lopes e disse-lhe: “– Jaime, assinamos pelos dois mil?”. E ele responde-me: “Já te disse. Não saímos daquele valor”.

Bola na Rede: Foi difícil tomar a decisão de trocar o Sporting pelo FC Porto?

Augusto Inácio: Foi duro. Não estava psicologicamente preparado para viver no Porto e jogar noutro clube que não fosse o Sporting. Na altura, é verdade, o contrato era bom, mas pensava que estava a entrar numa aventura que não sabia no que daria… Ao fim de um mês, quem é que me liga? O João Rocha. Diz-me: “– “Inácio, precisava de falar consigo. Você vem a Lisboa?” Eu, normalmente, vinha a Lisboa todos os fins-de-semana, a casa dos meus pais, à frente do estádio do Sporting, e o João Rocha pediu-me para estar as 13h na Churrasqueira do Campo Grande. Quando chego ao restaurante, qual não é o meu espanto, quando vejo a equipa toda do Sporting a almoçar. Diretores, treinadores, jogadores, departamento médico… E eu já jogador do FC Porto. O João Rocha está à mesa e chama-me. Eu, de onde estou, digo-lhe que não. “Eu não vou para aí. Eu sou jogador do FC Porto, não sou jogador do Sporting. Você é que pediu para falar comigo, você é que vem aqui para falarmos”. Ele levantou-se, aproximou-se e perguntou-me: “Porque é que você não veio sentar-se?”. Disse-lhe: “– Não, eu sou jogador do FC Porto, não tenho de ir ali para o meio. Até parece que ainda sou jogador do Sporting”.

Bola na Rede: E o que te disse mais o João Rocha?

Augusto Inácio: Na altura, podia rescindir-se o contrato por razões de ordem psicológica, porque não me adaptei à cidade, por isto ou por aquilo, qualquer coisa dava para rescindir contrato. E ele já me dava os mesmos cinco mil contos/ano que o FC Porto me dava. E eu disse-lhe: “– Oh, presidente, porque é que você não me fez essa oferta antes? Eu até só queria dois mil contos… Agora, vocês querem que volte atrás com a minha palavra, colocando em causa o meu caráter? Não, eu sou jogador do FC Porto e vou continuar a ser jogador do FC Porto”. O que é engraçado, para perceberes como funcionava o FC Porto, é que na segunda-feira seguinte regresso ao Porto, treino e, no final da sessão, o Pinto da Costa quer falar comigo. “– Então Inácio está tudo bem? Estás a adaptar-te bem?”, diz-me ele. E eu: “– Está tudo bem, presidente”. E ele diz-me logo: “– Tens alguma coisa para me dizer?” (risos) “–Por acaso até tenho, não tenho nada a esconder”, respondi-lhe. “– O João Rocha pediu-me para falar com ele…” e contei-lhe a história toda, tudo o que aconteceu. Ele no final só me disse: “– Eu já sabia que você tinha estado com o João Rocha… Olha Inácio, sabia que tinha contratado um grande jogador, agora fico também a saber que contratei um grande homem”. Aquilo, claro, encheu-me de orgulho. E a partir daí comecei o meu percurso como jogador do FC Porto.

Bola na Rede: Chegaste ao FC Porto em 1982 e, a partir daí, o FC Porto começa a criar uma equipa que, mais tarde, conquistaria tudo: campeonato, Taça dos Campeões Europeus, Taça Intercontinental… Já sentias, naquela altura, que se estava a construir uma equipa que ficaria na história do futebol português?

Augusto Inácio: Realmente, é verdade. O FC Porto começa a construir a sua grande equipa desde 1982, porque tem o presidente Pinto da Costa e José Maria Pedroto. Eu não sei como é que eles faziam as coisas, mas conseguiam recrutar jogadores que davam corpo à equipa, mas também ao plantel. O Pedroto foi selecionando jogadores, época após época, escolhendo aqueles que lhe interessavam, para que o FC Porto fosse ganhando campeonatos. E assim foi… Depois, o que aconteceu? O José Maria Pedroto adoece e tudo ali “tremeu” um bocadinho. O grande líder estava doente e era uma daquelas doenças que não perdoa. Mas o trabalho de base de tudo o que era o projeto FC Porto já estava lá…

Bola na Rede: E o Artur Jorge, quando chega, consegue dar continuidade a esse trabalho…

Augusto Inácio: O Artur Jorge vem dar andamento àquilo que já estava nos “carris”. E, de facto, o Artur Jorge encaixou que nem uma luva naquilo que eram as ambições do FC Porto.

Bola na Rede: Dos treinadores com quem te cruzaste, qual foi aquele que te deixou uma marca mais forte?

Augusto Inácio: José Maria Pedroto e Artur Jorge. Pedroto pela sua liderança natural… O Pedroto, quando falava, era um respeito tal… Bastava ele dizer “bom dia!” e as pessoas ficavam logo em sentido. Era tipo “o homem chegou”. O Artur Jorge também tinha uma militância da RDA [República Democrática Alemã], onde ele estudou, era muito militarizado, muito rígido. No FC Porto – e isto é sempre importante recordar – havia uma exigência e uma responsabilidade muito grandes. Aqueles que saíam fora da linha eram logo chamados a atenção. O FC Porto estava organizado de tal forma que sabia tudo o que se passava com os seus jogadores, se iam para o restaurante, se iam para a noite… O FC Porto até sabia o que eu comia e bebia, se me tinha deitado cedo ou tarde. Havia os “portas”, como se costumava dizer, que ligavam logo: “– Olhem, está aqui um jogador vosso. Atenção!”.

Bola na Rede: A cidade também era mais pequena, tudo se sabia…

Augusto Inácio: Sim, mais pequena. E os adeptos também tiveram uma grande influência, porque quando as coisas corriam bem eles ainda avisavam, agora, se as coisas não corriam assim tão bem, se eles apanhavam um jogador na noite, insultavam-no e se fosse preciso davam-lhe um soco, e o jogador não tinha outro remédio que não fosse entrar na linha… Ali não podiam brincar. E essa cultura de exigência foi-se implementando ano após ano. Ao ponto de eu ser treinador adjunto do FC Porto e, por exemplo, empatávamos em Braga e no autocarro não se ouvia uma mosca. A responsabilidade era tanta, que os jogadores tinham de sentir que o empate não nos servia, mas apenas a vitória. E isso era muito diferente da forma como tinha sido educado no Sporting. Eu senti muito mais a exigência no FC Porto do que no Sporting.

Bola na Rede: A vitória do FC Porto na Taça dos Campeões Europeus em 1987 era algo impensável anos antes. Como é que viveste esses momentos?

Augusto Inácio: Como disse, isto começou a ser preparado desde 1982. Em 1984, já conseguimos chegar à final da Taça das Taças, contra a Juventus, que perdemos por 2-1. A partir daí, começa a olhar-se para o plantel do FC Porto e os jogadores eram todos internacionais. Se não fossem portugueses eram de outros países. A luta no treino era tal que, às vezes, exigia mais dos jogadores que alguns jogos. Nos treinos do FC Porto, naquela altura, usávamos pitons, caneleiras e meias-altas.

Bola na Rede: Davam todos 100% em qualquer momento…

Augusto Inácio: Sim. E quando alguém levava uma “porrada” e ficava de fora, o outro não dizia nada, mas ficava contente. “Ui, ainda bem que este levou esta “porrada” para ver se eu jogo”. Porque a luta era danada e cada oportunidade que se tinha – no treino e no jogo – era para provar que merecíamos jogar. Quando começamos aquela campanha de 1986/1987 tínhamos, realmente, um plantel fantástico. Saía um ou dois, entrava um ou dois e a qualidade da equipa não se alterava. E depois ainda tínhamos uns extras… Quem eram? O Futre, um grande jogador. O Fernando Gomes, um goleador. O Madjer, um criador. E os combatentes: os “Inácios”, os “Limas Pereiras”, os “Andrés”, os “Sousas”, os “Quins”, os “Frascos”, os “Jaimes Magalhães”… João Pinto, Celso… Quer dizer, havia ali uma mistura. E depois não era uma equipa jovem. O mais jovem devia ter para aí uns 24/25 anos.

Bola na Rede: Era um plantel que tinha um pouco de tudo e complementava-se…

Augusto Inácio: Eu acho que aquele plantel tinha tudo aquilo que um treinador gosta.

Bola na Rede: Essa foi a melhor equipa da história do FC Porto? Melhor ainda que a equipa de José Mourinho de 2003/2004?

Augusto Inácio: Cada um tem a sua opinião. Mas acho que sim. Acho que a equipa do FC Porto de 1986/1987 abriu a “porta” para que os jogadores que viessem a seguir, de outras gerações, não pensassem que aquilo era impossível. “É possível lá chegar, porque aqueles já conseguiram”. E, a partir daí, acho que houve uma transformação mental no FC Porto e no próprio futebol português. Conseguimos provar a nós próprios que afinal éramos iguais às equipas inglesas ou espanholas.

Bola na Rede: Havia esse complexo quando as equipas portuguesas defrontavam os clubes dos principais campeonatos?

Augusto Inácio: Havia, havia. Claro que havia exceções, como foi o caso do Benfica, na década de 1960. Mas quando cheguei ao FC Porto até havia complexo quando atravessávamos a Ponte da Arrábida. Descer ao Sul era mais complicado, mas, lá está, os tabus são para se irem quebrando. Vai-se quebrando, quebrando, quebrando, ao ponto de que quando se falava de Portugal falava-se imediatamente de FC Porto. Era um clube falado em todo o mundo, porque ganhou a Taça dos Campeões Europeus, porque foi campeão do mundo, depois de ganhar ao Peñarol em Tóquio, de forma completamente inédita. Ganhou a Supertaça Europeia, ganhando os dois jogos ao Ajax. O FC Porto começou a dar nome a ele próprio, mas também a dar nome ao país. E lá fora começaram a olhar para o nosso futebol como não olhavam… E acho que o FC Porto é realmente o pioneiro dessa grande transformação.

Bola na Rede: De todos os jogadores com quem partilhaste o balneário, qual foi aquele que mais te impressionou?

Augusto Inácio: Houve alguns. Se me perguntares com quem me dou melhor… Dou-me com o Eurico, o Fernando Tomé, uma das pessoas mais “puras” do futebol português, o Zé Eduardo… E depois, quando fui para o FC Porto a maior amizade que fiz foi com o Rodolfo Reis. Ainda hoje nos falamos semanalmente e gosto dele como gosto de um irmão. Depois dou-me bem com muitos outros: João Pinto, Frasco, Fernando Gomes… Enfim, guardamos sempre estas amizades. Outra pessoa de quem gosto muito, embora nunca tenha jogado com ele, é o Vítor Manuel, pai do Vítor Bruno, treinador adjunto do Sérgio Conceição no FC Porto, que é uma pessoa com quem tenho uma grande ligação.

Bola na Rede: Mas essas são as tuas amizades. Eu referia-me mais a craques que te impressionaram com a bola nos pés…

Augusto Inácio: Craques? Houve um: o Jordão era um jogador… (suspiro). E enquanto treinador tive o Peter Schmeichel, um guarda-redes de uma grande dimensão, o Beto Acosta – um jogador que quando cheguei ai Sporting queriam dispensá-lo em dezembro –, com grande carácter, uma humildade incrível… Às vezes não é só ser um grande jogador, é também a personalidade que nos marca. Outro foi o André Cruz, também um grande jogador que encontrei no Sporting.

3 COMENTÁRIOS

  1. As opiniões do melhor futebol jogado em Portugal? – são questões para entreter o pessoal. O importante é quem chega ao fim lá em cima, ao topo, no topo, a olhar todos, mesmo todos de cima para baixo, o resto…. héhéhé

  2. Inácio, não sou nem nunca fui sócio do Sporting, mas já era sportinguista ainda estava nos testículos do meu pai, e já tenho 70 anos. Puseram-te nas mãos um lote de extraordinários jogares que fizeram de ti campeão nacional. Quem lê esta entrevista, não fica com dúvidas nenhuma. És uma MERDA. Não vales nada.

  3. Para contradizer as barbaridades que o Inácio diz basta comparar as posições de ambas as equipas e ver que a única em que o Braga é claramente superior ao Sporting é a de ponta de lança. Todas as outras o Sporting tem jogadores superiores. Adan é superior a Matheus, Porro é superior a Esgaio, Coates e Feddal são superiores a Bruno Viana e David Carmo, Nuno Mendes é superior a Sequeira, Palhinha é superior a Musrati, João Mário é superior a Fransérgio, Pedro Gonçalves é superior a Iuri ou aos irmãos Horta. Um ou dois destes confrontos até pode ser susceptível a discussão, mas na maioria dos casos não há discussão possível. Isto só mostra a desonestidade e agenda com que o ressabiado do senhor Inácio fala. Saudações Leoninas

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