«Não sei se vai ser no FC Porto, mas acredito que vou fazer jogos na Liga dos Campeões» – Entrevista BnR com Luís Mata

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Professor Neca entrevista À BnR

Em Szczecin, na Polónia, fala-se com sotaque do Porto. Luís Mata foi o responsável por levar para o balneário do MKS Pogon Szczecin a pronúncia do norte. Mesmo tendo estado no banco num jogo da Liga dos Campeões frente ao Liverpool, nunca foi lançado por Sérgio Conceição. Terminou a ligação de 14 anos com o Porto quando a equipa B, da qual era capitão, começou a ser curta para as suas ambições. Aos 24 anos, está confortável na Liga Polaca, mas espera experimentar as temperaturas mais amenas de outros campeonatos. Admite desejar que o FC Porto seja campeão com dragões da sua ninhada como Diogo Costa, Fábio Vieira, Vitinha ou João Mário.

– Cresce o jogador, cresce o clube –

«Em termos de condições, o Pogon vai ficar ao nível do Porto» Luís Mata

Bola na Rede: É o teu segundo ano na Polónia. Já te sentes em casa?

Luís Mata:  Sinto-me bastante bem e completamente adaptado. A equipa técnica recebeu-me muito bem. Os primeiros seis meses foram de adaptação a uma língua, cultura e clima diferentes.  Não sinto que esteja distante de Portugal, porque tenho um colega que fala português, o Luka Zahovic e, no ano passado, tive também o Tomás Podstawski. Ajuda teres pessoas que falam a tua língua. No clube, toda a gente fala inglês, o que facilita a integração. O polaco é mesmo uma língua muito complexa. Posso-te dar um exemplo, a primeira vez que saí na capa de um jornal o meu nome aparecia “Luisa Maty”, porque eles têm oito tempos verbais que mudam o nome das pessoas. Perguntei aos meus colegas e eles disseram-me que era mesmo assim. Em relação ao clima, cheguei a jogar com neve. Sentem-se temperaturas negativas que, em Portugal, são raras.

Bola na Rede: Foi devido a essas dificuldades iniciais que chegaste a rodar na equipa B do Pogon?

Luís Mata: Exatamente. De março a dezembro, praticamente não tive jogos, porque o campeonato da Segunda Liga, onde jogava pelo Porto B, parou. Até dezembro, tinha três jogos e só num é que joguei de início. Cheguei à Polónia no dia 1 de agosto e começo a fazer a pré-época. Passado alguns treinos, tive uma lesão e só recupero em setembro. Quando estou a voltar, a equipa teve que ficar 15 dias em casa por causa da pandemia. Saímos desse isolamento quase em outubro, ou seja, já tinha passado quase dois meses na Polónia e nem um jogo amigável tinha feito. Quando começo a treinar, a equipa já estava com mais ritmo do que eu e acabo por fazer dois jogos pela equipa B. No início de novembro, já vou começando a ter minutos. A minha primeira oportunidade a titular é no primeiro jogo de dezembro, em que acabo por me lesionar. A partir de janeiro, comecei a jogar, fui sempre titular e fiz os jogos quase todos. Desde aí, até ao início desta época, tenho jogado sempre. Foi um período muito complicado. Sentia que tinha qualidade para jogar, mas há coisas que acontecem no futebol que não podem ser controladas. Foi um período difícil, mas que me fez crescer. A tua parte mental aí também é muito importante. Se me tenho deixado ir abaixo, podia não estar com a quantidade e qualidade de jogos que tenho agora. A parte mental é uma das coisas mais importantes num jogador de futebol. Aqui jogamos sempre com estádios cheios, com adeptos com muita exigência, que na equipa B do Porto não tinha, e que me fez evoluir muito.

Bola na Rede: Fizeste trabalho com psicólogo?

Luís Mata: Concordo que é muito importante para o jogador de futebol trabalhar com psicólogos, mas, por acaso, não. Falei mais com amigos e família.

Bola na Rede: Está tudo a correr como esperavas?

Luís Mata: Antes de vires, tens sempre dúvidas. Foi algo muito bem pensado. O Pogon superou as minhas expectativas, pois sinto que estou num clube muito estável. É um clube muito tranquilo em termos de resultados e em termos financeiros. Não me preocupo com assuntos externos ao futebol. É um projeto que está a crescer muito bem na Polónia. Em termos de infraestruturas, o estádio está a acabar de ser construído e vai ficar lindíssimo. Temos um centro de treinos novo com quatro ou cinco campos. Temos bons ginásios. Em termos de condições, o Pogon vai ficar ao nível do Porto quando as obras acabarem. Já conhecia a qualidade dos jogadores e dos treinadores, porque falei com o Tomás Podstawski antes de vir. O objetivo do clube é ser um dos melhores da Polónia e apurar-se para as competições europeias. Temos uma excelente equipa. No ano passado, ficámos em terceiro lugar e podíamos ter ficado melhor não fosse nos últimos jogos termos feito poucos pontos. Por que não tentarmos o segundo ou mesmo o primeiro lugar este ano? Podemos perfeitamente jogar competições europeias para o ano, embora esta época não nos tenhamos conseguido qualificar para a Conference League. Faz parte do processo de um clube em crescimento. O campeonato polaco é muito competitivo e tem muitos portugueses.

Bola na Rede: É especial defrontar portugueses?

Luís Mata:  É sempre especial, porque estás na Polónia, a muitos quilómetros de casa, e é bom competires contra eles. Cada vez há mais jogadores portugueses a virem para aqui e a acrescentarem muita qualidade ao campeonato, pois Portugal é uma das potências mundiais do futebol. Alguns desses jogadores chegaram a jogar comigo nas seleções nacionais jovens e mesmo no Porto.

Bola na Rede: A evolução do clube é suficientemente cativante para prolongares a tua ligação?

Luís Mata: Penso muito no presente. Apesar de ter ofertas de clubes da Primeira Liga, optei por não ficar em Portugal devido às condições que temos aqui. Joguei no Porto e também sei quais são as condições do Sporting, do Benfica, do Braga, mas as equipas mais do fundo da tabela não têm condições nem parecidas com as do Pogon. Algo que o campeonato polaco tem de muito superior ao futebol português é que jogamos sempre com os estádios cheios, o que te faz gostar mais do futebol, porque jogas para as pessoas. Estou muito feliz aqui, mas, com o campeonato que estou a fazer, por que não ir para uma liga ainda melhor? Confio muito nas minhas capacidades.

Bola na Rede: O contrato de três anos demonstra também uma aposta tua no clube?

Luís Mata: Foi o período certo. O primeiro ano é sempre uma incógnita para ver como te vais adaptar. No segundo ano, já te sentes confortável para te afirmares. O último ano de contrato é sempre estranho para todos, porque o jogador pode assinar por outra equipa e o clube pode não te pôr a jogar tanto tempo por querer apostar noutros. O contrato é de três anos, mas pode ser de dois ou pode ser de mais. Se eu e o Pogon estivermos de acordo que o melhor para o clube e para mim é eu sair e ajudar o clube na parte financeira, por que não sair? Também estou muito feliz aqui caso a opção seja ficar. É continuar o trabalho aqui e, no final do ano, vejo se continuo ou vou para um campeonato melhor.

Francisco Grácio Martins
Francisco Grácio Martinshttp://www.bolanarede.pt
Em criança, recreava-se com a bola nos pés. Hoje, escreve sobre quem realmente faz magia com ela. Detém um incessante gosto por ouvir os protagonistas e uma grande curiosidade pelas histórias que contam. É licenciado em Jornalismo e Comunicação pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e frequenta o Mestrado em Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social.

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