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«Não sei se vai ser no FC Porto, mas acredito que vou fazer jogos na Liga dos Campeões» – Entrevista BnR com Luís Mata

Francisco Grácio Martins · 22 min

Foto: Pogon Szczecin

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Professor Neca entrevista À BnR

Em Szczecin, na Polónia, fala-se com sotaque do Porto. Luís Mata foi o responsável por levar para o balneário do MKS Pogon Szczecin a pronúncia do norte. Mesmo tendo estado no banco num jogo da Liga dos Campeões frente ao Liverpool, nunca foi lançado por Sérgio Conceição. Terminou a ligação de 14 anos com o Porto quando a equipa B, da qual era capitão, começou a ser curta para as suas ambições. Aos 24 anos, está confortável na Liga Polaca, mas espera experimentar as temperaturas mais amenas de outros campeonatos. Admite desejar que o FC Porto seja campeão com dragões da sua ninhada como Diogo Costa, Fábio Vieira, Vitinha ou João Mário.

– Cresce o jogador, cresce o clube –

«Em termos de condições, o Pogon vai ficar ao nível do Porto» Luís Mata

Bola na RedeÉ o teu segundo ano na Polónia. Já te sentes em casa?

Luís Mata: Sinto-me bastante bem e completamente adaptado. A equipa técnica recebeu-me muito bem. Os primeiros seis meses foram de adaptação a uma língua, cultura e clima diferentes. Não sinto que esteja distante de Portugal, porque tenho um colega que fala português, o Luka Zahovic e, no ano passado, tive também o Tomás Podstawski. Ajuda teres pessoas que falam a tua língua. No clube, toda a gente fala inglês, o que facilita a integração. O polaco é mesmo uma língua muito complexa. Posso-te dar um exemplo, a primeira vez que saí na capa de um jornal o meu nome aparecia “Luisa Maty”, porque eles têm oito tempos verbais que mudam o nome das pessoas. Perguntei aos meus colegas e eles disseram-me que era mesmo assim. Em relação ao clima, cheguei a jogar com neve. Sentem-se temperaturas negativas que, em Portugal, são raras.

Bola na RedeFoi devido a essas dificuldades iniciais que chegaste a rodar na equipa B do Pogon?

Luís Mata: Exatamente. De março a dezembro, praticamente não tive jogos, porque o campeonato da Segunda Liga, onde jogava pelo Porto B, parou. Até dezembro, tinha três jogos e só num é que joguei de início. Cheguei à Polónia no dia 1 de agosto e começo a fazer a pré-época. Passado alguns treinos, tive uma lesão e só recupero em setembro. Quando estou a voltar, a equipa teve que ficar 15 dias em casa por causa da pandemia. Saímos desse isolamento quase em outubro, ou seja, já tinha passado quase dois meses na Polónia e nem um jogo amigável tinha feito. Quando começo a treinar, a equipa já estava com mais ritmo do que eu e acabo por fazer dois jogos pela equipa B. No início de novembro, já vou começando a ter minutos. A minha primeira oportunidade a titular é no primeiro jogo de dezembro, em que acabo por me lesionar. A partir de janeiro, comecei a jogar, fui sempre titular e fiz os jogos quase todos. Desde aí, até ao início desta época, tenho jogado sempre. Foi um período muito complicado. Sentia que tinha qualidade para jogar, mas há coisas que acontecem no futebol que não podem ser controladas. Foi um período difícil, mas que me fez crescer. A tua parte mental aí também é muito importante. Se me tenho deixado ir abaixo, podia não estar com a quantidade e qualidade de jogos que tenho agora. A parte mental é uma das coisas mais importantes num jogador de futebol. Aqui jogamos sempre com estádios cheios, com adeptos com muita exigência, que na equipa B do Porto não tinha, e que me fez evoluir muito.

Bola na RedeFizeste trabalho com psicólogo?

Luís Mata: Concordo que é muito importante para o jogador de futebol trabalhar com psicólogos, mas, por acaso, não. Falei mais com amigos e família.

Bola na RedeEstá tudo a correr como esperavas?

Luís Mata: Antes de vires, tens sempre dúvidas. Foi algo muito bem pensado. O Pogon superou as minhas expectativas, pois sinto que estou num clube muito estável. É um clube muito tranquilo em termos de resultados e em termos financeiros. Não me preocupo com assuntos externos ao futebol. É um projeto que está a crescer muito bem na Polónia. Em termos de infraestruturas, o estádio está a acabar de ser construído e vai ficar lindíssimo. Temos um centro de treinos novo com quatro ou cinco campos. Temos bons ginásios. Em termos de condições, o Pogon vai ficar ao nível do Porto quando as obras acabarem. Já conhecia a qualidade dos jogadores e dos treinadores, porque falei com o Tomás Podstawski antes de vir. O objetivo do clube é ser um dos melhores da Polónia e apurar-se para as competições europeias. Temos uma excelente equipa. No ano passado, ficámos em terceiro lugar e podíamos ter ficado melhor não fosse nos últimos jogos termos feito poucos pontos. Por que não tentarmos o segundo ou mesmo o primeiro lugar este ano? Podemos perfeitamente jogar competições europeias para o ano, embora esta época não nos tenhamos conseguido qualificar para a Conference League. Faz parte do processo de um clube em crescimento. O campeonato polaco é muito competitivo e tem muitos portugueses.

Bola na RedeÉ especial defrontar portugueses?

Luís Mata: É sempre especial, porque estás na Polónia, a muitos quilómetros de casa, e é bom competires contra eles. Cada vez há mais jogadores portugueses a virem para aqui e a acrescentarem muita qualidade ao campeonato, pois Portugal é uma das potências mundiais do futebol. Alguns desses jogadores chegaram a jogar comigo nas seleções nacionais jovens e mesmo no Porto.

Bola na RedeA evolução do clube é suficientemente cativante para prolongares a tua ligação?

Luís Mata: Penso muito no presente. Apesar de ter ofertas de clubes da Primeira Liga, optei por não ficar em Portugal devido às condições que temos aqui. Joguei no Porto e também sei quais são as condições do Sporting, do Benfica, do Braga, mas as equipas mais do fundo da tabela não têm condições nem parecidas com as do Pogon. Algo que o campeonato polaco tem de muito superior ao futebol português é que jogamos sempre com os estádios cheios, o que te faz gostar mais do futebol, porque jogas para as pessoas. Estou muito feliz aqui, mas, com o campeonato que estou a fazer, por que não ir para uma liga ainda melhor? Confio muito nas minhas capacidades.

Bola na RedeO contrato de três anos demonstra também uma aposta tua no clube?

Luís Mata: Foi o período certo. O primeiro ano é sempre uma incógnita para ver como te vais adaptar. No segundo ano, já te sentes confortável para te afirmares. O último ano de contrato é sempre estranho para todos, porque o jogador pode assinar por outra equipa e o clube pode não te pôr a jogar tanto tempo por querer apostar noutros. O contrato é de três anos, mas pode ser de dois ou pode ser de mais. Se eu e o Pogon estivermos de acordo que o melhor para o clube e para mim é eu sair e ajudar o clube na parte financeira, por que não sair? Também estou muito feliz aqui caso a opção seja ficar. É continuar o trabalho aqui e, no final do ano, vejo se continuo ou vou para um campeonato melhor.

– Contra dogmáticos do futebol polaco –

«Um dos melhores métodos para se chegar ao golo é o cruzamento. O cruzamento é um passe»

Bola na RedeEm termos de jogo jogado, como é que caracterizas esta equipa do Pogon?

Luís Mata: Fugimos um pouco ao que é o típico futebol polaco, o que é bom para mim. Não sou um jogador muito propício a futebol direto. Foi muito bom para mim, porque foi o futebol a que me habituei na formação do Porto e nas seleções nacionais. No futebol português, as equipas preocupam-se mais com a parte tática, com a posse de bola e com o jogo mais pensado. Aqui, é um jogo em que se corre muito mais, agressivo, mais rápido, muito mais à futebol inglês, por exemplo. A nossa equipa contraria isso, porque somos uma equipa mais parecida com as portuguesas. Somos sempre a equipa com mais posse de bola, porque as características dos nossos jogadores são essas. Temos sempre 60/65% de posse de bola, ou seja, dominamos a bola. Se vires outro jogo do campeonato polaco, é um jogo mais partido.

Bola na RedeJogam em 4-3-3.

Luís Mata: Sim, um pivot e dois médios à frente. Em determinadas situações, no decorrer do jogo, já jogámos com dois pivots, mas começamos sempre o jogo em 4-3-3. Aqui encontram-se mesmo muitas equipas a jogar em 3-5-2. Isso é um desafio para mim e para o outro lateral, porque pressionamos de forma diferente. Quando as duas equipas jogam em 4-3-3, ficas sempre no um para um com o extremo. Quando o teu adversário joga em 3-5-2, tens sempre um jogador no meio e também tens que bater de frente com o lateral. Temos que nos adaptar ao futebol moderno.

Bola na RedeHá apenas dois treinadores estrangeiros na liga polaca, um deles o vosso. O que é que o treinador austríaco, Kosta Runjaic, vos tem passado para introduzir essa mentalidade diferente em relação ao contexto em que se encontram?

Luís Mata: O que treinamos é tentarmos saídas curtas por trás. Dá-nos confiança para os jogos treinarmos isso. Por vezes, não arriscamos tanto. Se o adversário tem uma pressão mais forte também sabemos jogar longo e subir linhas. Nunca tive um treinador polaco, mas vendo as ideias deles, acho que o que fazemos tem muito a ver com a mentalidade do nosso treinador.

Bola na RedeFalaste nas saídas baixas. Antes, os laterais colavam-se muito junto à linha e hoje já procuram muitas vezes espaços interiores para criar dinâmicas diferentes nas equipas. Sentes que o teu jogo tem evoluído nesse sentido?

Luís Mata: Essas saídas baixas ajudam a que procure esses espaços mais interiores. Posso ir para o meio e o médio abrir por mim ou então fico mais baixo e jogo na linha, como também estou habituado. Apesar de ser lateral, gosto muito de ir no um para um quando tenho essa oportunidade. Gosto também de fazer assistências e até já fiz três esta época. O que posso evoluir mais e que me pode fazer dar o salto na carreira é procurar mais o golo. Preocupo-me mesmo muito com as assistências.

Bola na RedeAs três assistências que tens são cruzamentos milimétricos. Muitas vezes, as ações de cruzamento são vistas como tendo pouca probabilidade de sucesso. O cruzamento é uma solução válida para o jogo de uma equipa?

Luís Mata: Um dos melhores métodos para se chegar ao golo é o cruzamento. O cruzamento é um passe. Depende também das características do teu adversário. Na Polónia, encontras equipas com centrais muito altos. A jogares contra essas equipas, quando eles têm a linha defensiva bem posicionada, não vais ter sucesso. Numa das minhas assistências, o adversário tinha centrais altos, mas apareceu um espaço que o meu extremo ocupou depois de se ter antecipado ao lateral deles [ver tweet]. Tens que fazer o cruzamento no momento em que achas que podes tirar benefício disso. Por vezes, nos contra-ataques podes fazer um cruzamento forte e rasteiro. Outras vezes, em ataque posicional, podes fazer um cruzamento forte, porque o teu avançado está bem posicionado. Por exemplo, vejo o João Cancelo no Manchester City a fazer muitas assistências em diferentes tipos de cruzamento.

Bola na RedeRecentemente, Fernando Santos disse que o João Cancelo é o melhor lateral do mundo. Concordas?

Luís Mata: Na forma atual, é o melhor do mundo. Tenho visto os jogos do Manchester City muito por causa dele. Ele está nos quatro melhores laterais do mundo. Há um lateral que neste momento não está em forma por causa da equipa, mas que, para mim, foi sempre uma referência, que é o Jordi Alba. Apesar do Barcelona estar numa fase complicada, foi dos laterais que mais me inspirou nos últimos anos. O estilo de jogo dele é muito idêntico ao meu.

Bola na RedeApesar de serem dominantes em termos de posse, atualmente, são a segunda melhor defesa, setor em que te incluis, do campeonato.

Luís Mata: Isso é a chave para estarmos tão bem classificados, porque nós não marcamos assim tantos golos como isso. É um trabalho que já vem do ano passado onde, em 30 jogos do campeonato, não sofremos golos em 17, mais de 50% dos jogos. Como o futebol aqui é mais direto seria de esperar que sofrêssemos muitos golos. Também treinamos muito a parte defensiva e isso reflete-se. Em termos defensivos, trabalhamos muito bem a linha de quatro mais o pivot. Claro que o resto da equipa também está envolvida, porque a defesa começa com os avançados.

Bola na RedeMesmo assim já marcaram 22 golos e são o quinto melhor ataque.

Luís Mata: No ano passado, tivemos muitas vitórias por 1-0. Este ano estamos melhor no ataque, porque fomos buscar jogadores com muita qualidade.

Bola na RedePaulo Sousa, o selecionador polaco, é português. Já aconteceu ele falar contigo para saber como são os jogadores elegíveis para a seleção polaca fora do campo?

Luís Mata: Ainda não aconteceu, mas já foi ver os nossos jogos. Se algum dia o mister precisar de alguma opinião minha terei todo o gosto em falar com ele.

Bola na RedeO jogador mais jovem a atuar num Europeu, Kacper Kozlowski, joga na vossa equipa. Que avaliação fazes da qualidade dele?

Luís Mata: É um jogador predestinado. Fez agora 18 anos. Tem que trabalhar muito e ter a cabeça no lugar. Se ele quiser, vai jogar nas melhores equipas do mundo. É um jogador mesmo com muita qualidade. Sei que já teve contactos com as melhores equipas da Europa e dificilmente vai ficar connosco. Não sei se vai sair em janeiro ou no final do ano, mas, seguramente, o Pogon vai fazer alguns milhões com ele.

– Opção B –

«Olha-se para o jogador português como há uns anos olhávamos para o jogador brasileiro»

Bola na RedeFalando da tua carreira no Porto. Quando é que sentiste que a equipa B deixou de fazer sentido para ti?

Luís Mata: Fiz mais um ano do que aquilo que queria na equipa B do Porto. Era a minha última tentativa para conseguir ir para a equipa A. Devido a uma lesão, não tive a minha oportunidade na equipa A no ano em que estive num jogo da Liga dos Campeões em Anfield. Não aconteceu, porque não tinha que acontecer. Nessa altura, estava numa fase muito boa. Estava sempre a treinar com a equipa A e só ia à equipa B jogar. Na época seguinte, o Oleg, que agora está no Olympiacos, ia começar a jogar e foi aí que decidi tentar uma aventura no Cartagena. Se subíssemos à Segunda Divisão espanhola ia prolongar o contrato com eles, mas perdemos nos play-offs e não conseguimos subir. Voltei a Portugal e a minha ideia era tentar ir para uma equipa de Primeira Liga. O mister Rui Barros teve uma conversa comigo. Disse que ia ser um jogador importante, que ia ser o capitão e, dependendo do meu trabalho, podia-me estrear na equipa principal do Porto. Foi um ano que me correu muito bem, mas, entretanto, veio a pandemia. Depois, não fazia sentido continuar mais um ano na equipa B, porque ia ser mais do mesmo. A melhor coisa que fiz à minha carreira foi ter vindo para a Polónia.

Bola na RedeTornares-te capitão tem a ver com o facto de seres dos mais velhos ou reconheces em ti capacidades de liderança?

Luís Mata: Reconheço em mim capacidades de liderança. Para seres capitão tens que ser um líder. Nesta altura da minha carreira, dadas as circunstâncias, acho que não faz muito sentido ser capitão. Aqui na Polónia é muito difícil por ser estrangeiro. Acho que, no futuro, tenho capacidades para ser capitão. Na equipa B do Porto, como era o mais velho, aí já era diferente. Estava com 22 anos e tinha mais experiência do que jogadores com 18. Acho que desempenhei um bom papel.

Bola na RedeAs equipas B estão muito ligadas à formação. No Porto B sentias que tinhas mais espaço para errar?

Luís Mata: A equipa B é muito importante. É uma das chaves para hoje em dia termos jogadores jovens a mostrar qualidade. Lembro-me que, quando era mais jovem, antes de as equipa B jogarem na Segunda Liga, muito jogadores saíam dos juniores e eram emprestados a equipas do terceiro e segundo escalão e depois não se conseguiam adaptar tão bem. São os primeiros dois, três anos de sénior de um jogador que vem da formação. Jogar nos juniores e jogar a Segunda Liga não tem nada a ver. É um futebol completamente diferente. A equipa B é o melhor espaço para errares, aprenderes e cresceres. É isso que faz com que Portugal esteja no top-3 de melhores jogadores do mundo. Toda a gente na Europa dá valor ao jogador português. Estamos com um bom mercado. O jogador português é um jogador diferente. Olha-se para o jogador português como há uns anos olhávamos para o jogador brasileiro. Esse reconhecimento reflete o trabalho das camadas jovens e as oportunidades dadas pelas equipas B.

Bola na RedeAchas que o Porto devia criar equipa na Liga Revelação?

Luís Mata: Tens clubes que não têm equipa na Segunda Liga para quem a Liga Revelação é importante. Se me falares do Porto, não concordo com a criação da equipa sub-23. Benfica e Sporting têm, mas, se eu fosse responsável no Porto, não criava. Saíres dos juniores e disputares uma Segunda Liga é muito mais desafiante e cresces muito mais. Jogadores que jogaram comigo na equipa B, como o Fábio Vieira, o Vitinha, o João Mário, passaram pelos juniores, pela equipa B e agora estão na equipa A.

Bola na RedeNa formação, jogavas como extremo e só depois é que começaste a atuar como defesa-esquerdo. Na equipa B chegaste também a jogar a lateral-direito. Essa passagem pela equipa secundária do Porto foi importante para construíres a tua identidade enquanto jogador?

Luís Mata: A primeira vez que joguei a defesa-esquerdo foi no meu último ano de júnior. Na altura, estava a jogar a extremo. Fui treinar à equipa B com Luís Castro e ele disse-me que as minhas características davam para ser um excelente defesa-esquerdo no futebol sénior. Foi a opinião dele. A verdade é que, a partir daí, o mister António Folha me começou a testar a defesa-esquerdo. Acabo a fazer a fase final de juniores a defesa-esquerdo e fomos campeões nacionais. Defesa-direito também é uma posição que gosto, pois jogo muito bem com o pé direito e, por isso, sinto-me confortável. Na altura, fiz de defesa-direito e foi aí que dei nas vistas para o mister Sérgio Conceição me chamar.

Bola na RedeComo foi a experiência da viagem a Anfield?

Luís Mata: Eram os oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Apesar do Porto ter perdido 5-0 em casa, foi uma experiência única. O Liverpool, naquele ano, foi a melhor equipa com Salah, Mané e Firmino. Estive na equipa A do Porto com jogadores de enormíssima qualidade, ouvi o hino da Champions e estava com muita vontade de jogar com o estádio completamente cheio. O que é que um jogador de futebol ambiciona? Jogar nos melhores palcos. Não joguei, mas estive presente. Não sei se vai ser no Porto, mas acredito seriamente que vou ter oportunidade de fazer os meus jogos na Liga dos Campeões.

Bola na RedeE o hino do Liverpool?

Luís Mata: A magia daquele estádio, a forma como os adeptos cantam o hino… Sentia-me ali como jogador, mas também um pouco como adepto a aproveitar aquele ambiente todo.

Bola na RedeÉ o jogo em que o Bruno Costa se estreia.

Luís Mata: Ele ficou comigo no quarto. Pensámos os dois que, se calhar, até íamos ficar na bancada. O Bruno não sabia que ia jogar, porque nos treinos não dava para ver. Quando chegamos à palestra, três horas antes do jogo, ele vê que vai jogar. Entrou a titular num jogo da Liga dos Campeões e fez os 90 minutos sem nunca se ter estreado pela equipa principal. Eu também queria ter jogado, mas fiquei muito feliz por ele. Foi aí que ele começou a aventura dele na equipa A.

Bola na RedeDormiste nessa noite?

Luís Mata: Dormi. Estava entusiasmado, mas consegui descansar. Estava com esperança de ter minutos. Não tive minutos, mas foi uma experiência enriquecedora.

Bola na RedeEstiveste no Portimonense e no Cartagena. Os empréstimos foram importantes para ti?

Luís Mata: Sem dúvida. No empréstimo ao Portimonense tive o prazer de trabalhar com um dos maiores treinadores do futebol português, o mister Vítor Oliveira. Tinha 19 anos e, em cinco meses, aprendi mesmo muito com ele. Tive conversas com ele que foram importantes para o meu crescimento. A segunda experiência foi diferente, numa liga onde, apesar de ser a Terceira Divisão em Espanha, existe muita mesmo muita qualidade. Espanha é um país muito parecido com Portugal, mas, por ser maior, nas ligas inferiores há mais qualidade.

Bola na RedeO Portimonense é um clube muito ligado ao Porto. Foste parte desse processo ou aquela era mesmo a melhor opção para ti?

Luís Mata: Foi um pouco dos dois. Na altura, o meu empresário era o Deco e ele tinha uma excelente relação tanto com o Porto, como com Theodoro Fonseca, que geria o Portimonense. As relações do Porto e do Portimonense facilitaram. Foi bom para mim, porque fui para uma equipa que estava em primeiro que tinha um grande treinador e excelentes jogadores. Queria ir para um contexto diferente. Foram-me buscar à equipa B do Porto não só pela minha qualidade, como também pela excelente relação que havia entre os clubes.

– Dragões da mesma ninhada –

«O Diogo Costa vai ser o guarda-redes do Porto pelo tempo que ele e o clube quiserem»

Bola na RedeDesde que o Alex Telles saiu do Porto, a posição de defesa-esquerdo é um posto bastante contestado. Se tens aguentado um pouco mais na equipa do Porto poderias ter tido a tua oportunidade?

Luís Mata: Não quero estar a pensar se poderia ter acontecido ou não. Se essa tivesse sido a aposta do Porto e do mister Sérgio, eles teriam tido uma conversa comigo. Se assim não aconteceu foi porque eles não quiseram e eu continuei o meu trajeto. O Porto é o meu clube do coração. Tenho que agradecer muito ao Porto por tudo o que sou hoje, porque passei lá quase 14 anos. Foi um período muito bom na minha vida. Continuo a apoiar o Porto. Um dia, se voltar, vou voltar com tudo para mostrar a minha qualidade. Com o Alex Telles, o Porto habituou-se a ter um lateral-esquerdo de qualidade. Agora, tem o Zaidu, tem o Wendell e já jogou lá o Manafá também. É uma posição que não tem um jogador que a domine, vai havendo muita rotação.

Bola na RedeJá referiste nomes como o Fábio Vieira, o Vitinha e o João Mário. O Porto também já teve nomes como o Fábio Silva, o Diogo Dalot, o Diogo Leite, o Diogo Costa, tudo jogadores com quem te cruzaste. A aposta na formação é efetiva?

Luís Mata: É efetiva. A prova disso é que não só no Porto, mas também no Sporting, no Benfica, no Braga, vês jogadores da formação. Há dez anos, não era assim e agora é algo super normal. O que custou foi o início. Já toda a gente perdeu o medo de apostar num jogador com 17, 18, 19 anos. O jogador tem qualidade, vai para o campo.

Bola na RedeO Diogo Costa agarrou definitivamente a baliza do Porto. Esperavas que isso acontecesse mais dia menos dia?

Luís Mata: Joguei com o Diogo, apesar de ele ser dois anos mais novo do que eu, nos juniores e na equipa B. Acima de tudo, o Diogo é um jogador corajoso que não tem medo de arriscar. Confia muito nas suas capacidades. É um guarda-redes que tem uma margem de progressão muito grande. O Diogo Costa é dos melhores guarda-redes da Europa a jogar com os pés. Faz passes interiores, faz passes longos para o lateral, é mesmo muito bom. Dentro da baliza, também tem muita qualidade. Vai ser o guarda-redes do Porto pelo tempo que ele e o clube quiserem. Se acontecer a venda, vai ser para um dos melhores clubes da Europa.

Bola na RedeA surpresa maior poderá não ter sido a imposição do Diogo Costa, mas sim a saída do Marchesín.

Luís Mata: Isso mostra o que o Diogo apresenta ao Sérgio Conceição e à equipa técnica. Não há críticas nenhumas a fazer ao Marchesín. Para o Sérgio Conceição escolher o Diogo é porque ele tem mesmo essa qualidade.

Bola na RedeFoi o Diogo Costa o jogador com quem te cruzaste e que mais te impressionou?

Luís Mata: O Diogo foi um dos que mais me impressionou. Cheguei a jogar com o Rúben Neves até aos 16/17 anos, mas depois ele fugiu. Saltou juniores, equipa B, saltou tudo. Foi um dos jogadores mais talentosos com que joguei. Joguei também com o Diogo Dalot e com o André Silva, que estão nos maiores campeonatos. Na seleção nacional, cruzei-me com o Bruno Fernandes. Mais recentemente, na equipa atual do Porto, um jogador que me impressiona e que tem muita margem de progressão é o Fábio Vieira. Tem um pé esquerdo, visão de jogo e irreverência que me impressionaram na equipa B.

Bola na RedePor serem dois jogadores criativos, os Fábio Vieira é muitas vezes comparado ao Vitinha. O que achas que os diferencia mais?

Luís Mata: O Vitinha é mais construtor de jogo, é um médio mais posicional e que parte de zonas mais recuadas. O Fábio é mais vagabundo. Pode jogar como extremo ou como número dez. Têm muita qualidade os dois, mas têm características diferentes. Por isso é que o Fábio faz mais assistências e o Vitinha é melhor na construção de jogo.

– Um campeonato nivelado –

«Intensidade existe sempre com Sérgio Conceição»

Bola na RedeCom uma equipa com vários dos nomes que já aqui falámos, achas que o Porto tem capacidade para ser campeão nacional?

Luís Mata: Sem dúvida que o Porto tem capacidade para ser campeão nacional. A prova disso, mais uma vez, é a campanha que está a fazer na Liga dos Campeões. O Benfica, o Porto e o Sporting estão muito igualados. Não me recordo de haver tanto equilíbrio. A classificação diz isso e a qualidade das equipas também. É muito bom para o campeonato português. Espero que o Porto seja campeão. É o pormenor que vai fazer o campeão. O Porto tem a vantagem de o Sérgio Conceição estar lá há muitos anos. Mas lá está, o Rúben Amorim esteve no Sporting um ano e foi campeão. O Jorge Jesus também já foi campeão no Benfica. Ou seja, tento puxar por vários lados e vejo o equilíbrio assente.

Bola na RedeQuais são os pontos fortes do Porto que podem marcar a diferença?

Luís Mata: A intensidade de jogo é o ponto mais forte do Porto. Intensidade existe sempre com Sérgio Conceição. Por vezes, mesmo que as coisas não estejam a correr bem, o jogador vai correr e lutar. Não param de correr e são muito fortes na transição defensiva e ofensiva. O Porto tem marcado a diferença também através dos passes em profundidade para os avançados. Antes, o Porto fazia muitos passes nas costas da defesa para o Marega e agora faz isso com o Taremi. O Porto joga com dois avançados e um deles faz movimentos para arrastar defesas e criar espaços para outros jogadores. O Taremi tem sido muito importante pelos golos e assistências que tem feito. Ter laterais ofensivos também é muito importante. O João Mário está a fazer uma campanha muito boa.

Bola na RedeO Sérgio Conceição dava-vos muitas duras nos treinos para implementar essa intensidade?

Luís Mata: As pessoas têm a ideia que ele é muito arrogante e um bocado agressivo, mas não. Em contexto de treino, é um mister que, apesar de ser exigente, é uma pessoa espetacular. Recebe muito bem os jogadores jovens. Se tiveres no treino parado, não quiseres bola ou não falares, ele vai para cima de ti. Se estiveres lá com intensidade, não vai reclamar só por reclamar, ele ensina-te e ajuda-te. Não te sentes nervoso nem nada.

Francisco Grácio Martins

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