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«Infelizmente não partilhei balneário com Sérgio Conceição, mas para quem esteve com o Co Adriaanse…» – Entrevista BnR com Helton Arruda

Redação BnR · 21 min

Helton
Foto: UD Leiria

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Professor Neca entrevista À BnR

Pouco mais de uma hora de conversa que tinha tudo para ser um grande desafio. Não era todos os dias que o Bola na Rede tinha na sua presença um homem que raramente deixava a bola entrar na rede. Mas, para esta entrevista, Helton fez questão de largar as luvas e as calças de treino que tão bem o caracterizaram para nos contar o seu percurso. Na verdade, não são precisas grandes apresentações: vencedor da Liga Europa pelo FC Porto, sete Campeonatos Nacionais, quatro Taças de Portugal, seis Supertaças Portuguesas, uma Taça do Brasil e uma Copa América. São dados coletivos que, a juntar às estatísticas individuais, conferiram ao guardião brasileiro o estatuto de um dos melhores de sempre do futebol português. Mas uma coisa pudemos perceber. Aquele sorriso que conquistou os rivais e a paixão pela música mantém-se bem intactos. Venham daí sentir a brisa carioca que conquistou Portugal.

«Lembro-me quando o mister Valente me dizia “Meu, eu nunca vi defender e trabalhar assim”»

 

Bola na RedeOlá, Helton! Obrigado por estares aqui connosco em mais uma entrevista do Bola na Rede. Todos te conhecemos por usares calças de treino em vez de calções. É um amuleto de sorte ou é mais uma questão técnica?

Helton: (risos) Olá, obrigado pelo convite! Eu agradeço pelo carinho, atenção e trabalho realizado. Eu sempre utilizei as calças por conforto. Eu sempre achei que me sentia melhor de calças, embora algumas vezes tivesse jogado com calções. Na seleção, era raro quando eu conseguia jogar com as calças e no Vasco da Gama também.

Bola na RedeOlhando para o início da tua carreira, podias ter ingressado no Flamengo, mas o destino trocou-te as voltas e acabaste no Vasco da Gama, o clube do teu coração. Dentro das dificuldades financeiras e do acidente que tiveste na altura, é caso para dizer que há males que vieram por bem…

Helton: (risos) Sem dúvida! Passei pelo Fluminense, não consegui ficar por morar muito longe e um grande amigo que eu tenho, o professor Leonardo Amorim, teve um acidente e a minha mãe ficou preocupada que eu fosse para lá sozinho porque eu era muito novo. Depois tive essa passagem pelo Flamengo, onde já tinha sido aprovado. Mas, na época de Carnaval, caí de uma árvore e fiquei em coma. Disseram que eu não iria jogar mais futebol, não iria fazer mais nada e iria ficar com algumas sequelas. Foi quando eu apareci no São Cristóvão, fiz um teste, passei também e, curiosamente, num jogo com o Vasco da Gama, tive um olheiro de lá que pediu para que eu lá fosse e aí fiquei por lá. Graças a Deus consegui lá os títulos para que também pudesse agregar aqueles que tive aqui em Portugal.

Bola na RedeOlhando para a tua chegada ao futebol português, o que é que passa pela cabeça de um jovem guarda-redes brasileiro que vê em Portugal a entrada nos maiores palcos europeus?

Helton: Eu tive uma saída do Vasco da Gama onde muitos não acreditavam que eu viesse para Portugal e encaixar no UD Leiria, mas eu acho que vai muito daquilo que nós acreditamos. Eu acreditei em abrir essa porta, tive a oportunidade no UD Leiria, se bem que na altura o meu empresário tinha dito que eu ia para o FC Porto, mas eu precisava de passar 6 meses para me poder adaptar ao futebol português. Eu continuei a acreditar no meu trabalho e depois tive a oportunidade de finalmente chegar ao clube que me tinha sido prometido. Mas sim, é sempre o sonho de grande atleta representar o seu país fora do seu país. Graças a Deus, a estrelinha também me ajudou.

Bola na RedeSentiste algumas diferenças entre o futebol brasileiro e português?

Helton: Em cada país, o futebol tem a sua mais-valia. Independentemente de onde estejas, tens de te adaptar. Não existe o melhor, nem o pior. Cada um tem a sua forma de entender. Não tive qualquer problema, porque tive a sorte de encontrar pessoas capacitadas para me ajudar e dar continuidade no trabalho. Eu tive pessoas capacitadas como o mister Vítor. Eu acho que quando nós temos essa oportunidade de dar continuidade no trabalho e das pessoas perceberem que já existe algo “entranhado” no atleta e que basta apenas lapidar, as coisas ficam menos complicadas, porque é mais fácil de identificar as necessidades. Lembro-me quando o mister Valente me dizia “Meu, eu nunca vi defender e trabalhar assim”. Eu acho que mais vale a humidade de cada um, quer seja do atleta e do treinador, e graças a Deus não tive esse problema.

«Recordo-me de eu mesmo comemorar com o Alex Sandro ajoelhados, antes de eu correr à frente. A minha preocupação era se levássemos mais tempo, o árbitro poderia cancelar aquela partida ou penalizar-nos»

 

Bola na RedeAssim, chamaste a atenção do futebol português e seguiste o teu caminho para a Invicta. Como é que foi todo o processo de passagem do UD Leiria para o FC Porto?

Helton: Em primeiro lugar, foi com uma tristeza porque eu vim com uma promessa e não cheguei a acordo com o empresário e falei para ele “mais vale eu continuar aqui ou voltar para o Brasil, porque o meu acordo não foi esse. Eu saí de lá para conseguir novos ares, novas oportunidades e ao mesmo tempo dar um conforto à minha família. Mais vale eu voltar e depois arriscar noutro clube”. Depois acabei por ter um telefonema, onde me deram a garantia para eu fazer o meu trabalho e estar tranquilo que em algum momento eu iria para o FC Porto, e assim se sucedeu. Depois foi mesmo a adaptação, conhecer os cantos da casa e fazer por merecer uma oportunidade que eu tive quando eu saí mesmo.

Bola na RedeE a verdade é que rapidamente ultrapassaste Vítor Baía na hierarquia dos guarda-redes do FC Porto. Foi mais um sentimento de responsabilidade ou de orgulho?

Helton: Acho que, em primeiro lugar, temos de nos sentir orgulhosos, e foi o que eu senti. Por ter conquistado a oportunidade. Ninguém nasce titular, eu nasci para trabalhar. Dentro disso, senti-me orgulhoso por conquistar essa oportunidade de trabalhar num dos maiores clubes da europa. Depois com o decorrer do tempo, a ficha vai caindo, e vamos assumindo esse comprometimento e responsabilidade que tem de haver em cada atleta.

Bola na RedeTiveste uma trajetória notável no reino do dragão recheada de títulos. A época em que realizaste mais jogos foi em 2010/2011, onde acumulaste mais de 40 jogos. Lembras-te bem dessa época, sob o comando de André Villas-Boas?

Helton: Recordo-me muito bem e não tem como não recordar. Existem vários fatores pelos quais eu me recordo muito bem. Um deles que é memorável: o título da Liga Europa, que acontece no dia 18 de maio, onde eu faço anos (risos). Depois, eu como capitão da equipa a representar a nação. Para além disso, a oportunidade que eu não tinha tido em nenhum clube que eu passei, de ter um amigo como treinador. Eu a respeitar um treinador que eu considero como amigo e isso para mim, para além do compromisso como capitão e atleta do clube, eu tinha um compromisso de responsabilidade com o meu amigo. Tudo o que eu pensava e fazia, tinha de analisar as consequências, porque o que eu mais queria é o que eu tenho hoje e já tinha. Manter uma amizade depois do futebol com um treinador que muito me ensinou. Isso para mim foi marcante. Nós tivemos uma empatia que fez com que eu ainda mais pudesse valorizá-lo, e isso para mim não tem preço.

Bola na RedeComo é partilhar balneário com Hulk, Falcão, James Rodríguez, Belluschi, Guarín e tantos outros que fizeram história no FC Porto?

Helton: São grupos. Obviamente não vamos conseguir agradar a todos. Mas posso dizer que 99,9% do grupo hoje são meus amigos.

Bola na RedeTambém é inevitável não falar do golo do Kelvin em 2012/2013. Foi um momento em que vários adeptos entraram no relvado e é visível o Helton a tentar acalmar os ânimos. São estes momentos que definem o líder de uma equipa?

Helton: Agradeço por considerar desta forma. Se nós pudermos acalmar, é melhor do que ajudar (risos). Claro que é um momento que não há hipótese. Recordo-me de eu mesmo comemorar com o Alex Sandro ajoelhados, antes de eu correr à frente. A minha preocupação era se levássemos mais tempo, o árbitro poderia cancelar aquela partida ou penalizar-nos. É mesmo um momento que não tem como controlar, vou confessar. E até mesmo para relatares, só vivendo.

«Eu acho que, em primeiro lugar, temos de dar os parabéns, e alguns a mão à palmatória ao mister Sérgio»

 

Bola na RedeEsse golo do Kelvin deu-se num FC Porto-Benfica. Todos sabemos todo o sentimento e emoção que envolve este clássico, algo que vai além do futebol. Como um elemento de balneário que passou por muitos destes jogos e pelas semanas de preparação, qual era o ingrediente novo que entrava na vossa equipa nesses momentos?

Helton: Eu sempre procurei o respeito. Eu nunca fui de polémica. Toda a gente sabia que eu queria ganhar. Eu acho que por aí a minha preparação sempre foi tranquila. Claro que toda a gente trabalha para ganhar, ninguém entra para qualquer desporto, seja ele qual for, para perder. A preparação tem de ser feita da melhor forma, seja para um Porto x Benfica ou para um jogo da distrital. Eu hoje ainda me aventuro a jogar nos masters do Canidelo, e preparo-me como se me preparasse para uma grande final, porque isso é o que mais vale. Então, a preparação sempre foi muito parecida, a minha música, a minha calma.

Bola na RedeE ao nível do balneário, todo o balneário pensava como tu?

Helton: Não se diz que é mais um jogo. É hipocrisia. O respeito não quer dizer que vás preparar mais além do que já estás habituado. Tem de se ter noção do que fazemos. Todos sabemos a realidade que existe. Naquela semana que antecede, tu acabas por trabalhar de forma diferente, isso é normal, mas não é algo premeditado.

Bola na RedeE num balneário com tantas figuras e em ambientes como nesses clássicos, o FC Porto precisava de um capitão que fosse uma figura forte dentro do balneário. Qual era o peso da braçadeira do FC Porto?

Helton: É um peso, posso dizer que sim. Agora, incutir nos teus colegas que estás ali a representar e levar adiante a palavra do balneário, todos precisam de ter esse comprometimento e responsabilidade, porque não sou só eu que vou decidir, é todo o grupo. O capitão não é nada mais que o porta-voz do grupo. E se ele tem o respeito e respeita o grupo, as coisas são facilitadas. Caso contrário, o peso ainda fica maior (risos).

Bola na RedeOlhando para a tua saída do FC Porto, na altura comentou-se que a tua saída podia ter ocorrido de outra forma, também sentes isso?

Helton: Em termos de condições, nós vamos sempre procurar algo de melhor e querer mais, a não ser que uma pessoa não seja ambiciosa. Eu sempre fui ambicioso. Mas isso não me cabe a mim sinceramente responder. Eu acho que cada um tem noção daquilo que faz, como faz e aonde faz. Eu hoje orgulho-me numa coisa que, independentemente da minha saída, eu tive e tenho: o carinho de muitos adeptos, inclusive adeptos que não são simpatizantes do FC Porto. Eles de alguma forma reconhecem o meu trabalho e isso deixa-me orgulhoso por ter cumprido o meu objetivo. Não me faz confusão sinceramente (risos).

Bola na RedeNo teu último jogo pelo FC Porto, despontou uma das grandes pérolas da formação, André Silva [pontapé de bicicleta na final da Taça de Portugal frente ao SC Braga], já aí se via o potencial deste jogador e do que viria a ser a formação dos portistas?

Helton: Eu vejo a formação muito boa. Cada vez mais tem de se aproveitar, eu acho que é dar continuidade. Na altura já havia outros atletas que contavam, que iam para outros clubes rodar, e já demonstravam a qualidade. Cada vez mais tenho visto, o próprio Diogo Costa hoje é uma das revelações. Tem jogado e feito um bom trabalho, eu acho que não tem de se esconder.

Bola na RedePor falar em Diogo Costa, é o futuro da Seleção Nacional?

Helton: Não sei, não depende de mim (risos). Eu torço para que ele se mantenha lá. Para além de termos trabalhado juntos, eu sempre fui um admirador das qualidades dele. E posso dizer que, para mim, ele e o Hugo Ventura foram os dois guarda-redes que passaram connosco com bastante talento. De certeza que poderiam ter tido uma oportunidade diferente, principalmente o Ventura.

Bola na RedeOlhando para a atualidade e para o FC Porto, que méritos podemos dar a esta equipa atualmente?

Helton: Eu acho que, em primeiro lugar, temos de dar os parabéns, e alguns a mão à palmatória ao mister Sérgio. Pegamos na personalidade dele e na forma como ele trabalha, ele não descansa. Está sempre atento para que faça melhor, cada vez mais. Eu dou o mérito ao mister e os parabéns aos atletas, que, independentemente da posição e das oportunidades, estão ali para poder representar da melhor forma o trabalho do mister.

Bola na RedeOlhando para a figura do Sérgio Conceição, num cenário hipotético, caso estivesses num balneário com Sérgio Conceição como treinador. Dar-se-iam bem?

Helton: Infelizmente eu não tive essa oportunidade, mas para quem esteve com o Co-Adrieense…

Bola na RedeRecentemente vimos um FC Porto x Sporting CP envolto numa grande polémica no relvado entre os jogadores. Enquanto alguém que já esteve neste palco, como é que vês toda esta situação? Se calhar, era preciso um Helton para apaziguar em momentos como este.

Helton: Não temos como opinar a respeito daquilo que não vivenciamos, eu penso dessa forma. Já estive envolvido numa situação, onde acabei por não fazer nada, mas mais valia ter feito, e mesmo assim ainda fui crucificado. Mas enfim, tenho a minha consciência tranquila, fui dormir sossegado, porque tinha noção de tudo aquilo que se tinha passado. Por isso, como não tivemos lá, não podemos opinar ou julgar alguém sem ter conhecimento dos factos. Eu acho que cada um sabe o que faz e, naquele caso, todos tiveram conhecimento do que fizeram, agora quem tem de punir? Não somos nós, essa é a grande verdade, são as pessoas que têm direito. Então, naquilo tudo que aconteceu, cada um vai pagar pelo preço.

Bola na RedeTiveste em contacto, ao longo da tua carreira, com diversos jogadores jovens. E é nisto que os clubes portugueses cada vez mais estão a investir, na sua estrutura e também na sua formação. Clubes como o SC Braga, o GD Estoril Praia, o Vitória SC, são um exemplo disso. Acreditas que, num futuro próximo, este investimento irá se refletir a nível interno, e, quiçá, a nível europeu?

Helton: Eu acredito muito nisso. Acredito que cada vez mais se dá valor à “prata da casa”, como se diz no Brasil, que é apostar nos jovens da formação. Eu penso que é dar continuidade, trabalhar ao máximo no presente, para poder perspetivar um futuro.

Bola na RedeEste ano a criação da Liga 3 trouxe uma “lufada de ar fresco” ao futebol português. Esta competição quebrou as barreiras existentes entre os escalões profissionais e não profissionais, sentes que é um objetivo a ser cumprido e que ainda pode atingir patamares superiores?

Helton: Hoje, confesso que não tenho acompanhado tanto, mas ainda vou tendo algumas notícias, principalmente a respeito do Leiria. Mas, vejo com bons olhos, acho que profissionalizar não é mau, só vai retribuir bons frutos no futuro. Então, se é para profissionalizar e dar oportunidade a quem tem talento, porque não? É acreditar que aquilo veio e vai ser bom.

«Se tiver a oportunidade e qualidade de chegar diretamente a um clube grande, porquê também não?»

Bola na RedeVoltando ao teu percurso futebolístico, depois da saída do FC Porto, tiveste uma pausa de 5 anos na tua carreira, e aceitaste o desafio de voltar aos relvados com um regresso ao UD Leiria. Foi um misto de saudades e de ajudar o clube que te abriu portas quando chegaste a Portugal?

Helton: Foi sim, foi um pedido do sr. Amando Marques, através de um grande amigo que eu tenho, para que lá estivesse para ajudar o clube. E eu por gratidão regressei.

Bola na RedeNum balanço destas duas passagens por Leiria, se pudesses voltar atrás antes de vires para Portugal, terias escolhido de novo este clube como porta de entrada?

Helton: Não podemos escolher, são oportunidades que criamos. Naquele momento foi o UD Leiria. Era para vir para o FC Porto diretamente, mas cheguei aqui e encontrei essa mudança, mas não trem qualquer problema, tenho de me orgulhar.

Bola na RedeSentes que até foi bom antes passares por um clube como o UD Leiria antes de dares o salto para a invicta?

Helton: Não vejo diferença alguma, porque eu comecei no Vasco da Gama, fui campeão brasileiro, da Libertadores, campeão carioca, campeão de S. Paulo, campeão da América do Sul… Não tenho qualquer problema. Graças a Deus, eu não tenho esse problema de dizer assim: se tiver essa oportunidade de passar por um clube mais mediano, para ter experiência, é ótimo. Mas se tiver a oportunidade e qualidade de chegar diretamente a um clube grande, porquê também não? Não temos de ter medo. As apostas também são assim, não devem ser somente pela idade e pela experiência que já se teve. Eu tenho um caso desses. Já passei pelo Freamunde como treinador e o presidente colocou a mão na cabeça a perguntar porque é que eu ia apostar num miúdo que era dos Juniores. E eu disse-lhe que esse miúdo que estava nos Juniores, que tem 17 anos, estava a jogar muito bem, a trabalhar muito bem e estava-me a dar uma garantia de trabalho. Terminou a época e foi vendido para o FC Vizela. Hoje ele [o presidente] agradece-me por isso.

Bola na RedeE podemos voltar a ver o Helton como treinador?

Helton: Não sei (risos)

Bola na RedeE a experiência, como foi?

Helton: Foi ótima, não estive só lá no Freamunde, estive em mais dos clubes e foi ótimo.

Bola na RedeQual é o papel mais difícil, ser treinador e comandar uma equipa ou ser a ordem do treinador enquanto jogador?

Helton: A diferença é muito pouca, a responsabilidade é a mesma (risos)

Bola na RedeRegressando ao UD Leiria, tendo em conta aquilo que já conheces sobre o projeto, acreditas que, a médio longo-prazo, este clube pode estar de regresso à primeira liga?

Helton: No momento eu não conheço o projeto, saí há um ano e o projeto acaba por ser outro, todos os anos se muda. Mas espero que sim, que tenha novas oportunidades de estar na primeira liga, porque foi lá onde encontrei o Leiria quando cá cheguei. Por isso, faço votos para que retorne.

«Foi mais por isso que acabei por desenvolver essa forma de jogar, que sei muito bem que “matava” meia dúzia na bancada quando a bola vinha para os meus pés, eu quase que morria também»

Bola na RedeOlhando para o projeto que desenvolveste mais recentemente “A baliza é tua”. Quão importante são este tipo de projetos para o desenvolvimento profissional de jovens futuros guarda-redes?

Helton: Este é um projeto que iniciei no Brasil, que o trouxe com o meu compadre Carlos Alberto, através de 3 pessoas: o Carlos Paranhos, o Rui Russo e o Diego Marques. Um dia, numa conversa, eles decidiram ajudar-me com isso e disseram: está tudo pronto, em termos de burocracia para começares a realizar o teu projeto. Eu apanhei um susto, jogava ainda, mas conversei com os responsáveis do FC Porto na altura e tive autorização para dar andamento a isso. Todos os anos surgia “A baliza é tua”. E isso fez com que eu entendesse que havia alguma necessidade de dar maior valor à posição, que infelizmente não tinha. Tirando os clubes grandes e da Primeira Liga que tinham treinadores, na formação ainda hoje existe muito essa necessidade. É por isso que eu trabalho com clubes e não apenas com um clube. Tenho os meus colaboradores que são formadores e não treinadores, e isso é uma coisa que eu também gosto de dizer: quando estamos na formação, não temos de treinar, temos de formar, e isso faz total diferença quando se chega aos seniores. Depois de eu ter parado consegui dar mais valor ainda ao projeto.

Bola na RedeA posição do guarda-redes evoluiu bastante nos últimos anos, cada vez mais este jogador é parte integrante do jogo. Por exemplo, o Diogo Costa é um exemplo disso. Por isso, este tipo de projetos, que contribuem para o desenvolvimento do guarda-redes, são necessários no futebol.

Helton: Eu considero que também evoluiu muito, mas participar no jogo não tem somente que ver com o jogo de pés, passa também por orientar a defesa, de tu fazeres parte de um processo global, não somente no momento em que precisas de jogar com os pés. A bola muitas vezes não passa por ti, porém é importante acompanhares a tua defesa a subir para que dês essa segurança nas suas costas. Orientar muitas vezes numa marcação, quando o adversário tem a bola, dando indicações ao central ou ao lateral: isto tudo faz parte de uma metodologia. Eu sempre participei muito nos jogos, sempre fui muito ousado, fui educado assim. Se não só estava ali na baliza para defender e não era isso que o meu treinador pedia, mas sim que eu fosse um décimo-primeiro homem, realmente. Foi mais por isso que acabei por desenvolver essa forma de jogar, que sei muito bem que “matava” meia dúzia na bancada quando a bola vinha para os meus pés, eu quase que morria também (risos).

Bola na RedePassando para a tua experiência mais recente, enquanto embaixador da liga, como é que tem sido e como avalias essa tua experiência até ao momento?

Helton: Primeiro, agradeço muito à Liga esta oportunidade, é reconhecimento de trabalho é valorizar tudo aquilo que fizeste, não somente a pessoa, mas a todas as pessoas envolvidas: é uma forma de gratidão eu ter sido escolhido desde a primeira edição. Tenho um carinho e respeito muito grande pela figura do presidente Pedro Proença, pela sua conduta. Portanto, para mim é um orgulho e uma responsabilidade assídua, porque nós somos formadores de opinião e isso já conta bastante.

Bola na RedeTemos o exemplo da grande prestação do SL Benfica e do SC Braga nas competições europeias, nesta época. Enquanto embaixador da Liga Portugal, sentes que aquele pensamento de que as equipas portuguesas não terem capacidade para competir com os colossos europeus está a “desaparecer” aos poucos?

Helton: Eu sempre pensei que isso não existiu, e não precisamos de ir tão longe. Posso falar do próprio FC Porto, porque é que não teria condições? Mais do que demonstrado, Champions, Liga Europa, como não teria condições? Nós temos é de ter noção de que as coisas não são fáceis, não podemos ter a ilusão de que só depende de nós. Do outro lado há um adversário que trabalha como nós, ou até mais do que nós.

Bola na RedeE, no teu tempo, havia essa consciência dentro no balneário, de que a nível europeu a equipa necessitava de “adaptar” a sua forma de jogar perante estas equipas de orçamento superior? No entanto, também é importante manterem o seu estilo de jogo, e as equipas portuguesas cada vez mais o demonstram.

Helton: Eu sou um pouco radical a respeito disso. Se eu tiver de todas as semanas mudar o meu estilo de jogo por causa da equipa que eu vou defrontar, não vou ter personalidade e colocar aquilo que eu penso que é o melhor, já começa por aí. Então, se essas equipas não se assumem, não são elas. Não há qualquer problema em assumir a personalidade daquilo que tu idealizas, e é o que tem acontecido.

Bola na RedeVieste de uma geração de grandes guarda-redes brasileiros. Sentes que essa concorrência, de certa forma, te impossibilitou de ter ainda mais oportunidades na seleção brasileira, para além daquelas que teve?

Helton: Eu não tenho qualquer problema em termos de seleção, estive lá desde a formação. Ao contrário das notícias que dão, que não me preocupam, eu estive muitas vezes na seleção, mais do que aquilo que dizem. São gerações, são momentos, e os treinadores fazem as equipas que lhe dão mais confiança. Se calhar, na altura, o treinador achou que não era e não me convocou mais. Vou ser sincero, houve uma oportunidade para retornar à seleção e eu disse que tinha um jogo importante pelo Porto e preferi ficar aqui, porque ia perder um jogo importante. O Ronaldinho Gaúcho, sempre disse “o pessoal não conhece o gato que tu és” e são nas palavras desses amigos profissionais que eu me fio.

Bola na RedeCaminhando para o final da entrevista, este ano teremos o mundial no Qatar. Muitas pessoas e jogadores têm levantado grandes objeções à realização do torneio neste país. Acreditas que os conflitos políticos e os interesses cada vez mais influem no futebol? A exclusão da Rússia também é um exemplo disso.

Helton: Eu não vejo problema. O futebol não são só as quatro linhas, é muito mais além do que se imagina. Este desporto une pessoas, levanta a autoestima, revigora e cria convívio. Muda pensamentos de miúdos, jovens e adultos, faz com que vejam com outro espírito. O futebol é um espetáculo não só interesse, por isso não vejo qualquer problema.

Bola na RedeJá falámos antes de começar a entrevista, que uma das tuas grandes paixões era a música. Eras tu que punhas a música no balneário?

Helton: Em todos os balneários por onde eu passei, eu tinha a minha viola ou o meu cavaquinho. Depois de um tempo, até bateria (risos). O Alan, do SC Braga, acompanhava-me muito, o Osvaldo, no Porto, que tocava guitarra, e o Romário no Vasco da Gama. Este último, não me deixava entrar no autocarro se eu não trouxesse o cavaquinho (risos).

O apito final terminou da mesma forma que começou. O sorriso no rosto do guardião brasileiro e a paixão pela música colocaram o ponto final nesta conversa com o Bola na Rede.

Entrevista realizada por João Castro e Felipe Ribeiro

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