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10+10 = 20, de Gaitán

André Eusébio · 2 min

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Solta-te, Nico. Solta-te de uma vez, acende o fósforo da loucura e faz-te Homem. Com H grande, como qualquer um que seja Sport Lisboa e Benfica. Enlouquece, pede um pouco de vontade emprestada ao Enzo, dois terços de raiva ao Maxi e um décimo de genica ao Di María e deixa de ser Riquelme; queres mesmo ficar-te por aí – “o que aquele rapaz podia ter sido…” ou “ia sendo grande”? Traz a Bombonera e a rede atrás da baliza com hinchas pendurados contigo, apanha os papéis azul-amarelo que por ali esvoaçam e guarda tudo na memória. Lembra-te disso quando estiveres num daqueles teus jogos pachorrentos num qualquer relvado frio, envolto em bancadas abandonadas. Imagino-te puto reguila, com sol de Dezembro a queimar Buenos Aires, cordões das sapatilhas pelo chão, pampas à volta e génio à solta. Sempre, sempre com o sorriso malandro e cínico de quem sabe que é muito melhor do que os outros.

Nico é génio e, como qualquer génio, num minuto leva-nos ao céu e no seguinte ao desespero. Durante 89 minutos irrita, desespera e faz-nos soltar impropérios de alto nível. Mas, no minuto que falta para terminar essa coisa linda que é um jogo de futebol, é Deus, são olhos arregalados e bocas espantadas. Tem o dom de poucos, o dom de parecer que a bola é apenas e só uma extensão do corpo. 10+10 = 20 Gaitán, só o 10 não lhe chegava porque vale por dois dezes. Se Salvio tem simplicidade, Enzo tem raça e Cardozo é uma espada nos sportinguistas, Nico tem tudo. Mas não é tudo. E os 25 anos talvez já seja tarde para se começar a sustentar nos excessos e deixar os mínimos. Todos percebemos a fixação de qualquer argentino canhoto em querer imitar Maradona ou Messi. Menos o Gaitán, que só quer ser lembrado assim mesmo: N-I-C-O G-A-I-T-Á-N. Para ele chega-lhe, está bom assim. Talvez para nós, benfiquistas, também. Em qualquer corrida sem bola não dada por preguiça ou qualquer passe demasiado inteligente, vamos ter sempre aquele drible de génio para nos agarrarmos.

Nico Gaitán Fonte: www.record.xl.pt
Nico Gaitán
Fonte: Record

Lá ganhámos ao Braga, como era mais do que nossa obrigação. Parece-me que o Jesus nos enganou bem com os jogos na Grécia e com o Sporting. A paragem para as selecções tirou o ritmo ao fio de jogo que o Benfica aparentava vir ganhando. Voltou a pôr-nos o coração à prova e eis o regresso ao futebol enfadonho, desesperante e sem chama. Com este plantel de luxo é inenarrável fazer exibições tão miseráveis. Valeu-nos a perna-longa sérvia que lá nos salvou de mais uma comprometedora perda de pontos. Lima está uma sombra do que já mostrou (“vendam o Cardozo, temos o Lima”), Djuricic está fora dela e o génio do Markovic parece estar agarrado com uma corda à linha lateral. Espera-nos um calendário muito fácil até ao decisivo jogo com o Porto na Luz, pelo que é impensável perder pontos até lá.

Felizmente há um Porto que joga tão mal ou pior do que nós e que conta com duas vitórias nos últimos seis jogos. A ver quanta e qual a imprensa a falar em “crise no Dragão” ou em “lenços brancos para Paulo Fonseca”.

André Eusébio

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