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Da glória bracarense à espera de oportunidades – Entrevista a Domingos Paciência

André Conde · 19 min

Da glória bracarense à espera de oportunidades – Entrevista a Domingos Paciência

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“Tenho um orgulho enorme em ter jogado no FC Porto”

 

Bola na Rede (BnR): O futebol  sempre foi uma ambição na sua vida?

Domingos Paciência (DP): A minha história é simples, era uma criança de bairro que passava o tempo a jogar futebol, num meio sem grandes condições. Foi ai que cresci e sempre sonhei que podia ser jogador de futebol, na altura ouvia falar no que uma carreira dessas podia dar. Comecei na Académica do Leça, em Futsal e depois tive oportunidade de treinar no Porto e ai começa o sonho.

(BnR): Falar do FC Porto é falar de grande parte da sua carreira. O que significa o clube para si?

(DP): Significa muito. Quando somos crianças, vamos seguindo os exemplos que nos ajudam no futuro. Entrar no Porto foi uma mudança radical no meu crescimento. Além do gosto que se ganha e da família que se constrói, pelos amigos que temos, estou agradecido por tudo o que o Porto me deu e bastante orgulhoso por ter feito parte daquele clube.

Fonte: SVPN
Fonte: SVPN

(BnR): Partilhou também o balneário com Mario Jardel. Chegou a conhecer a outra faceta que Jardel mostrou mais tarde ou na altura só existia o craque?

(DP): Eu conheci o Jardel bem. Chegou no ano em que tinha sido o melhor marcador do campeonato e tive uma lesão na primeira jornada e ele aproveitou essa oportunidade. É uma pessoa fantástica, infelizmente não teve o acompanhamento certo para poder crescer como homem, é uma pessoa demasiado boa, não vê maldade em nada e acabou por ter o caminho que todos sabem. Mas como jogador, principalmente de cabeça era fantástico, até dizia que ele não cabeceava, ele rematava com a cabeça.

(BnR): Para além do FC Porto, o outro único clube que conheceu foi o Tenerife. Que memórias guarda da passagem pelo clube espanhol?

(DP): Não são as melhores. Foi um clube que queria subir de patamar mas não conseguiu. É muito difícil em Espanha, por muito que se queira, meter uma equipa assim a lutar pelo título, acaba sempre para os mesmos. Mas fiz várias amizades, gostei de estar lá, apesar de em termos desportivos não serem os melhores anos. Não me arrependo de ter ido, aliás, a única coisa de que me arrependo é o facto de não ter ido para o estrangeiro mais cedo, poderia ter tido outro tipo de carreira a nível internacional.

(BnR): Quais as diferenças entre ser jogador de futebol na sua altura e ser jogador de futebol actualmente?

(DP): São muitas. Eu apanhei 3 gerações no futebol, aquela que foi campeã europeia, depois a minha, com Baia, Jorge Costa, Fernando Couto e depois os jovens a seguir à minha. O que digo é que o futebol hoje é diferente. As pessoas antes assistiam a um jogo aberto, com muitas mais hipóteses de o golo acontecer. As equipas eram tecnicamente mais evoluídas e os jogadores eram escolhidos pela sua qualidade técnica. Hoje o jogador está formatizado, entra mais numa ideia de colectivo e de equilíbrio de sectores. Hoje para aparecer um jogador que faça a diferença é preciso contar pelos dedos, enquanto o no passado víamos jogadores como Futre ou Chalana.

(BnR): Quando voltou do Tenerife, falou-se que o Sporting esteve muito perto de o contratar, mas quando o Porto mostrou interesse, nem pensou duas vezes em voltar. Foi o amor ao clube que o fez regressar ao Porto?

(DP): Sim. Não foi só o Sporting, também estive perto de assinar pelo Benfica. Há uma questão que é evidente. Temos dois tipos de profissionais, o que o faz por amor à profissão e o que o faz por amor ao clube. Eu tive de distinguir isso a partir de certo momento. Se as pessoas não estão interessadas nos meus serviços, mesmo sendo pessoas que estão à frente do clube de que adoro, tenho de seguir a minha carreira. Ia fazendo como jogador e fiz como treinador. Mas a partir do momento em que existiam propostas de outros clubes mas as pessoas do Porto disseram que precisavam de mim, eu assinei, pois sentia-me em casa. Como treinador foi o mesmo. Só optei por outros clubes porque o Porto nunca mostrou interesse.

(BnR): Que treinador o marcou mais enquanto jogador?

(DP): Falo sempre de um treinador que tive em Espanha e que serve de referência também ao Guardiola. Hoje percebo essa admiração do Guardiola. É o Juanma Lillo. Tinha uma forma de trabalhar e de comunicar diferente. Mas também seria injusto dizer que outros treinadores não foram importantes, como o Bobby Robson, como o Ivic, Carlos Alberto Silva, Fernando Santos. Com todos eles aprendi aspectos que valorizo enquanto treinador mas também aspectos que não devo seguir.

“Senti o meu lugar em risco no Sporting de Braga”

(BnR): Que treinador o marcou mais enquanto jogador?

(DP): Falo sempre de um treinador que tive em Espanha e que serve de referência também ao Guardiola. Hoje percebo essa admiração do Guardiola. É o Juanma Lillo. Tinha uma forma de trabalhar e de comunicar diferente. Mas também seria injusto dizer que outros treinadores não foram importantes, como o Bobby Robson, como o Ivic, Carlos Alberto Silva, Fernando Santos. Com todos eles aprendi aspectos que valorizo enquanto treinador mas também aspectos que não devo seguir.

(BnR): E qual o inspirou mais enquanto treinador?

(DP): Fui buscar a um pouco de todos. As pessoas dizem que o Fernando Santos é ranhoso, mas às vezes temos de ser, o Bobby Robson era um espectaculo na forma como treinava e motivava o jogador, é importante que isso seja levado para o treino, a organização do Mourinho e de outros também é importante. A parte lunática do Quinito e a forma como falava também é importante. O Ivic, que riscava um livro todo, e eu achava aquilo uma parvoíce, mas a verdade é que mais tarde eu fazia o mesmo. Percebi o que ele queria explicar quando eu falava com os jogadores e fazia isso num quadro. Quando se é jogador acha-se isso uma estupidez mas quando se é treinador é perfeitamente normal.

(BnR): Ser treinador era algo que já estava nos seus planos?

(DP): Quando acabei a minha carreira, o presidente convidou-me para ficar ligado à formação do FC Porto, primeiro como adjunto na equipa B e depois como treinador principal. Foram 3 anos como adjunto e 1 como treinador principal e foram esses anos que me fizeram perceber que era aquilo que queria seguir. Serviu como incubadora para eu perceber se crescia como treinador ou não.

(BnR): A sua passagem pela Académica fica marcada por duas vitórias na Luz, uma delas com um surpreendente 3-0. Qual foi o segredo para essas vitórias?

(DP): Já com Leiria tinha feitos bons resultados na Luz. Passados 54 anos, A Académica ganhou na Luz. Houve uma estratégia, tínhamos Luís Aguiar, Miguel Pedro, Sougou, jogadores que faziam a diferença e que eram rápidos e jogavam bem em transições, além disso aproveitamos os erros que o Benfica cometeu. Queria também referir que senti um orgulho muito grande em treinar a Académica, pela forma como aquela cidade vive e como aquela gente vibra com o futebol. A Académica é um histórico e merece estar na Primeira Liga.

(BnR): Foi no Sporting de Braga que teve as suas melhores épocas e foi, provavelmente, um dos treinadores que melhores recordações deixou. No entanto a época começou com uma eliminação precoce na Liga Europa e alguma contestação por parte dos adeptos. Sentiu o apoio do presidente nessa altura?

(DP): Não, não senti. Senti o lugar em perigo. É normal quando se aposta num treinador que vem de outra realidade e falha esse objectivo, a continuidade esteja em causa. Não foi fácil, tínhamos muitas lesões, fiz uma lista para a UEFA de 22 jogadores e na altura do jogo com o Elfsborg 10 deles não estavam disponíveis. A juntar a isso, tínhamos um adversário já muito avançado na época, com outro andamento. Depois felizmente, contra a Académica, na primeira jornada, aos 87 minutos, o golo do Meyong acaba por me dar um balão de oxigénio, balão esse que foi enchendo e acabamos a lutar pelo título.

Fonte: UEFA
Fonte: UEFA

(BnR): A partir do momento em que o Sporting de Braga foi eliminado da Europa, passa só a jogar ao fim-de-semana, o objectivo era tentar fazer algo mais no campeonato, como um apuramento para a Champions ou lutar pelo titulo?

(DP): É evidente quando se trabalha semana a semana existe mais tempo para se criar rotinas, preparar processos, recuperar jogadores. Se tivesse na Liga Europa, isso talvez não tivesse acontecido.

(BnR): Como reagiu às palavras de Jesus quando este afirmou que o Domingos apenas aproveitou a base que JJ deixou em Braga? Isso uniu o balneário?

(DP): Sim, quando os jogadores gostam do treinador, eles sentem essas palavras. Eles sentiram que isso era injusto para mim. Entraram jogadores novos e outros renderam mais comigo do que com o Jorge Jesus. É uma falta de respeito enorme para um colega, mas aconteceu comigo e já aconteceu com outros, mas um dia esses iluminados acabam por ter uma lâmpada fundida. Vejam o que aconteceu com Rui Vitória e com Jorge Jesus, na hora da verdade ganhou o mais humilde. Que a equipa tivesse processos bem trabalhados, isso não está em causa, pois ele deve trabalhar bem, pelo menos nos clubes ganha, nos outros não fez nada de especial, mas nos clubes grandes é sempre mais fácil ganhar.

(BnR): Para muitos adeptos do Sporting de Braga, o jogo em Sevilha foi dos jogos mais marcantes enquanto adeptos do clube. Como descreve esse jogo?

(DP): Só quem esteve lá e assistiu à beleza de um dia/noite diferente é que consegue descrever esse jogo. Um calor agradável, uma lua enorme sobre o estádio. Quem viveu aquele jogo jamais o esquecerá, foi memorável pelo ambiente, pela sequência que aconteceu no jogo. Eu próprio senti que aquele era o nosso dia, quando meto o Lima e ele faz 3 golos percebi que estava escrita. Foi uma página bonita na historia do futebol português e na historia do Braga.

(BnR): Após esse jogo, a aventura europeia só acabou na final da Liga Europa, em Dublin, e pela frente caíram clubes como Arsenal, Liverpool, Dinamo Kiev e Benfica. Quando é que sentiu que viesse quem viesse, o Braga ia chegar à final?

(DP): Sim, houve 2 momentos na Liga Europa que são marcantes. O segundo jogo em Liverpool, a equipa faz um jogo fantástico, com uma atitude extraordinária e senti que a partir deste momento já ninguém nos ganhava. O outro momento foi na Luz em que estamos a perder 2-1 e vejo o Jesus a querer segurar o resultado e há algo que me diz para eu também aceitar este resultado pois em casa vamos ganhar 1-0 e vamos à final.

(BnR): O jogo com o Dinamo de Kiev, em que a equipa jogou a partida toda com menos um, também o fez acreditar que estava escrito o Braga ir à final?

(DP): Durante a semana tive uma preocupação muito grande, pois não tinha lateral direito e testei o Paulo César e o Salino. Acabei por optar pelo Paulo César. A verdade é que o Paulo César é expulso na primeira parte, tenho de meter o Salino e a verdade é que o Salino passa a ser lateral direito na época a seguir e vai para o Olympiacos como lateral direito. É engraçado como é o destino dos jogadores. São situações assim que definem uma carreira. Quanto ao jogo, a equipa trabalhou até à exaustão, superou-se.

(BnR): Qual foi a sensação de disputar uma final europeia?

(DP): Era tudo aquilo que eu não queria. Não queria defrontar o Porto na final, não pelo clube que é mas porque a final tinha de ser uma final internacional e a força do Porto na altura era muita, com a base já feita pelo Jesualdo. Com todo o respeito pelo André, que é um grande treinador, ele apanhou uma equipa já com as bases do Jesualdo, com jogadores como Falcão, Moutinho, James ou Hulk. O Porto ganhava os jogos por 3, 4 ou 5 e eu não tinha as mesmas armas que eles. A estratégia era fazer uma primeira parte a segurar o resultado e a segunda a tentar atacar, infelizmente sofri um golo perto do intervalo. Mas sinto-me um privilegiado por ter disputado uma final europeia, é uma grande sensação.

“Se dizem que o Sporting de Jesus joga à bola, comparem com o Sporting de Domingos”

(BnR): No Sporting chegou a ter 10 triunfos consecutivos e a fazer os adeptos sonhar com o título mas acabou por sair a meio da época. O que falhou no Sporting? Acha que Godinho Lopes não lhe deu tempo suficiente?

(DP): O que falhou no Sporting foi a consistência da liderança. Tenho respeito pelo Godinho Lopes, uma pessoa extraordinária mas que tem pouco conhecimento de futebol. Além disso, fazia-se por pessoas que causavam situações ingratas ao próprio presidente, a estrutura não era forte e quem o acompanhava não ajudava e isso acabou por ditar o meu afastamento. Na altura justificou o meu afastamento com a eliminação da Taça da Liga, mas eu acho que não foi isso, só ele saberá. Mais tarde falei com ele e senti o arrependimento de me ter despedido.

(BnR): Como viu as declarações de Godinho, que afirmou que a sua saída não estava em causa, e passados alguns dias o despediu?

(DP): Continuo a dizer que foi influenciado por pessoas que mais tarde se revelaram como pessoas que estavam a fazer mal ao Sporting. Viu-se mais tarde, muitas delas estão em tribunal e não eram pessoas certas para aquilo que se pretendia no Sporting. O projecto era construir um Sporting campeão a 2 anos e ao fim de 6 meses vamos à Luz com toda a gente a dizer que se ganharmos vamos ser campeões. Veja a mudança de realidade. Se dizem que o Sporting de Jesus joga à bola, comparem com o Sporting de Domingos, com a dinâmica e a pressão que a equipa fazia. Não quero puxar a brasa à minha sardinha mas comparem. Eu fiz uma equipa com 16 jogadores novos, não tinha nenhuma herança do Marco Silva, do Leonardo Jardim, e com jogadores oriundos de vários países. Repare na dificuldade, numa palestra, para passar a mensagem nas várias línguas que eles falam.

Fonte: Sporting CP
Fonte: Sporting CP

(BnR): Sente que a sua saída do Sporting foi o início do fim do mandato de Godinho Lopes?

(DP): Eu acho que sim, muita gente foi contra esta decisão. Sentia na rua o agradecimento das pessoas e fez-me acreditar que era possível fazer algo no Sporting. O Godinho não conseguiu manter a sua palavra e ser firme nas suas decisões e teve dificuldades em gerir uma estrutura muito pesada e com muitos vícios. Felizmente o Sporting está no bom caminho, com um presidente que, independentemente do que possa ser acusado, tem uma liderança bem vincada.

(BnR): O que aprendeu com as primeiras experiências no estrangeiro, ao comando do Deportivo e do Kayserispor?

(DP): Aprendi que um treinador tem de acreditar no que faz e não em milagres. Foram clubes que abriram as portas para eu continuar o meu trabalho mas sem condições para tal, com planteis distintos da realidade portuguesa. Promessas de poder melhorar o plantel, mas não havia dinheiro. São coisas que estão sempre ocultas e que nós não sabemos, mas depois acabamos por pagar. Arrependo-me dessas opções tomadas.

(BnR): A passagem pelo APOEL foi curta e na altura, o Domingos mostrou-se desiludido com a Direcção. Porquê?

(DP): Quando assinei pelo APOEL pediram-me para passar a 1ª e a 2ª eliminatória da Champions, pois a Liga Europa era o mínimo e se não passasse não havia condições para continuar, e tentar o apuramento para a Liga dos Campeões, pelo aspecto financeiro e pela visibilidade. Eu assumi esse risco, até pelos adversários que nos poderiam calhar, inferiores a nós. Passamos dificuldades frente a um Vardar muito defensivo e organizado e depois encontramos o campeão da Dinamarca. Só que às vezes as pessoas não percebem que o valor interno é diferente do valor internacional e pensam que o APOEL tem de lutar com os grandes tubarões e esquecem-se que o Chipre está muito abaixo da Dinamarca no ranking. Sair o campeão da Dinamarca ao APOEL era pensar que seriam favas contadas. Ganhamos lá 2-1, num bom jogo e cá perdemos 1-0, mas com o campeão dinamarquês. Quando sai o Astana, então esse clube era ainda mais fácil no pensamento das pessoas do APOEL. Mas esquecem-se que o Astana tem um orçamento superior ao APOEL, tem uma equipa bem entrosada e não conseguimos eliminá-la. Foi a partir desse momento que foi tudo por agua abaixo. O presidente para se defender da pressão dos adeptos, despediu o treinador. Aceitei a decisão, não sou de complicar, ou se está porque as pessoas gostam e querem ou quando se é rejeitado é melhor passar à frente. Quando passados uns dias já existia substituto para o meu lugar, percebi que não era realmente desejado.

(BnR): Qual é o seu próximo passo?

(DP): Não sei, já faz um ano que estou parado. Não estou a trabalhar porque não quero. Os clubes que aparecem não me entusiasmam. Recebi convites do Dubai, da Arábia Saudita, da Bulgária, da Grécia mas vou para um clube que tenha jogadores de outro patamar, pois lutar para não descer é complicado, mas hoje falo assim, amanha poderei falar de outra maneira.

(BnR): Qual era a sensação de defrontar os clubes por onde passou ou por onde jogou, enquanto treinador?

(DP): A sensação é que quando chegamos a esses jogos temos pessoas do outro lado que conhecemos, por termos passado muitas horas juntos. É natural que haja abraços e sorrisos mas queremos ganhar. Mas eu não quero ganhar da maneira de confronto ou com uma atitude de não ver mais nada sem ser a vitória, não olhando para a cara das pessoas com quem trabalhei ao ponto de desprezá-los. Quero ganhar, mas as essas pessoas no final continuam a ser minhas amigas.

“Há pouca gente que sabe o que é realmente a mística do FC Porto”

(BnR): A que se deve o fracasso recente do Porto? É ainda o efeito Lopetegui? Ou a Direcção também cometeu erros?

(DP): Acho que o Porto tem um passado de exemplo, pela sua mística, pela sua gestão e forma de trabalhar. É ai que nos temos de apoiar quando as coisas não correm bem. Tem de continuar a existir a mesma gestão, o mesmo critério em contratar os melhores para ganhar. Quando isso não se faz tem de se olhar para trás e ver que erros se cometeram. As decisões incidem nas pessoas que contrataram. Quando se fala em treinadores são sempre a base do problema porque é neles que assenta a base da estrutura da equipa. Se os jogadores são contratados pelo treinador ou pela direcção, nunca saberemos, mas a verdade é que o Porto não conseguiu buscar grandes jogadores como já foi buscar antes e o Benfica aproveitou essa fragilidade

(BnR): Esta é a época decisiva para o clube e direcção?

(DP): É evidente que ir para um quarto ano sem ganhar, a tolerância será cada vez menor. As pessoas devem estar a fazer o melhor, a procurar fazer uma equipa e vamos ver se é este ano que conseguem trazer alegrias aos adeptos portistas.

(BnR): Nuno Espírito Santo é alguém da casa, que sabe o que é a mística do FC Porto. Para muitos ainda está na memória a frase “Somos Porto”. É o treinador certo para o clube?

(DP): Conheço o Nuno de algumas conversas, não o conheço como treinador. Tenho a minha opinião sobre a imagem que transmite mas vou guardá-la para mim. Se é o treinador certo os resultados é que o dirão. O Nuno está marcado por uma fase do Porto onde assumiu a liderança de um grupo por ser o jogador com mais facilidade no dialogo. Essa frase ficou célebre e hoje essa frase é bastante usada pelos adeptos. Mas eu pergunto qual é o perfil para ser treinador do Porto? Quantos anos tem de ter alguém para ser um homem da casa? O despedimento de um treinador não tem por vezes em conta o tempo de casa. Fala-se muito na mística, mas o que é a mística do Porto? Há muito pouca gente que sabe o que é essa mística. A mística do Porto assentava em aspectos que só um grupo de pessoas é que sabia e que sabiam como passar. Não peçam a toda a gente que saiba passar a mística do Porto. Com todo o respeito por quem está no Porto, tenho muitos amigos lá, mas a mística não passa por ir para um quadro e fazer um desenho de um jogador à Porto, na minha forma de pensar.

(BnR): O aparecimento de jovens como André Silva e Ruben Neves é um sinal de que é nas suas camadas jovens que pode estar a solução para o Porto?

(DP): Há timings para tudo. O Porto tem uma responsabilidade muito grande tanto a nível nacional como a nível internacional pelo estatuto que alcançou e tem de continuar a manter essa posição. Não sabemos o futuro. Se o Porto continuar com a mesma gestão de contratação de jogadores de qualidade para continuar nesse patamar, é evidente que temos de respeitar. Mas se as coisas continuarem de uma forma que não se conseguem resultados com essas contratações, é evidente que teremos de ter uma aposta mais forte na formação.

“O Benfica tem sido a melhor equipa”

(BnR): O ultimo campeonato foi disputado até ao fim. O Benfica mereceu ganhar ou Jorge Jesus é o principal culpado por desperdiçar 8 pontos de vantagem e fazer declarações que só fizeram o plantel do Benfica unir-se?

(DP): O Benfica foi a equipa mais regular. O Porto teve uma fase de indefinição muito grande. Lopetegui não resistiu, entrou um treinador novo e como a história diz, quando o Porto mudou, nunca ganhou. O Sporting criou uma dinâmica muito forte, a contratação de Jesus criou um grande suspense no campeonato e a verdade é que ele conseguiu dar continuidade a um bom trabalho de Marco Silva e acrescentou mais dinâmica e acabou por cativar os adeptos. Mas teve 8 pontos à frente e acaba por entregar o campeonato ao Benfica porque com esses pontos teria de saber gerir a vantagem. O Sporting fez-se mais do que o que era, pois uma coisa é passar a mensagem de que se joga bem mas a verdade é que o Sporting não ganhou nada e noutra altura ditaria o afastamento do treinador. Em relação ao Rui Vitória, levou algum tempo a conhecer os jogadores e isso sentiu-se no princípio mas acaba por ter momentos, que são importantes, em que ele consegue cortar a ligação umbilical com o treinador do Sporting. O primeiro foi aquele momento entre o Jonas e o Jesus na SuperTaça em que Vitória deve ter aproveitado para mostrar ao plantel que se o Jesus faz isto ao Jonas faz a qualquer um dos jogadores do Benfica. O segundo momento foram as declarações de Jesus, onde reduziu à pequenez o treinador do Benfica e isso mexeu com o grupo.

(BnR): Quem tem sido a melhor equipa neste campeonato?

(DP): Em termos de visibilidade e beleza de jogo é o Benfica. Tem uma grande dinâmica, está muito confiante e respira saúde, tem dois laterais muito atrevidos, tem um Pizzi que cada vez mais se cimenta como jogador e a falta de Jonas não tem sido um problema. O Sporting tem momentos, mas vive alguma instabilidade sem Adrien e o meio-campo é muito o pulmão da equipa.

(BnR): E sem ser dos 3 grandes?

(DP): O Braga tem tudo para fazer um grande campeonato pois tem um plantel de que gosto muito. Isto é uma opinião de quem está de fora, pois quem trabalha durante a semana tem um conhecimento maior dos jogadores. Mas é uma equipa que pode ainda ser melhor no futuro. O Pedro Martins também está a fazer um grande trabalho, fez grandes contratações para o Vitória e com o tempo poderá ser bem mais forte.

“O nome Paciência já não atormenta o Gonçalo”

 

(BnR): Acha que o Gonçalo sente mais pressão por ser seu filho?

(DP): O peso nas costas é maior. Lembro-me quando o Gonçalo ou o Vasco estavam comigo e alguém se cruzava connosco a primeira coisa que lhes diziam era que iam ser como o pai como se ele fosse obrigado a isso. É crueldade das pessoas, sem má intenção, mas numa criança, numa fase de crescimento causa uma grande pressão, mas já está ultrapassado. Quando acontecem coisas boas ou falam nele vem sempre que é meu filho mas já não o atormenta como o poderia ter atormentado numa fase inicial. Cada um tem de seguir o seu caminho e ser feliz, independentemente do caminho que siga.

(BnR): É fácil separar o Domingos treinador do Domingos pai quando aconselha os seus filhos ou uma junção dos dois é importante para o crescimento deles?

(DP): Eu não sou muito de dar palpites. Às vezes meto-me a jogar à bola com eles mas não aprofundo muito. Eles vão crescer e vão perceber as dificuldades que têm e o que precisam de trabalhar. Uma vez ou outra chamo a atenção para uma situação mas não entro muito por ser meu filho, não quero meter pressão e não sou exigente, dou-lhes liberdade.

André Conde

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