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Esforço, devoção e anti-benfiquismo

João Amaral Santos · 4 min

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Só é enganado pelo discurso pós-dérbi da “estrutura” do Sporting quem quer – alguns sportinguistas; embora cada vez menos. Os factos explicam-se facilmente e claramente, e em apenas duas linhas: o Benfica ganhou, reforçando a liderança e empurrando o rival para o 3.º lugar (a uma distância de cinco pontos). Por sua vez, Bruno de Carvalho e Jorge Jesus não perderam tempo em atirar mais areia para os olhos daqueles que não conseguem (ou não sabem) desviar-se, usando da habitual retórica populista e demagógica para justificar outro insucesso desportivo. Assim, presidente e treinador do Sporting continuam a auto-ilibar-se, semana após semana, competição após competição, de quaisquer responsabilidades pelos desfechos negativos que se vão somando desde o início desta união profissional, pese o avultado investimento que ambos representam, contrariando as elevadas expectativas dos seus sócios e adeptos.

O discurso de Jorge Jesus não é sério; mas é natural. É compreensível pelo prisma do adversário. Numa semana de eliminação das competições europeias, às mãos do Légia de Varsóvia, perder na Luz, frente ao seu anterior clube, frente a Rui Vitória, abortando a recuperação pontual e classificativa, num jogo em que, sejamos justos, a sua equipa (desta vez focada a 100 por cento) merecia mais, não é, obviamente, fácil de digerir. Por isso, falar de arbitragem entretém sócios e adeptos. No rescaldo do dérbi, evita-se discutir o fracasso europeu, o actual 3.º lugar (a um ponto do 4.º) ou a incompreensível (aos olhos do comum mortal) substituição de Bas Dost. Discute-se, por outro lado, a actuação de Jorge de Sousa, árbitro de má memória para os benfiquistas, rosto dos “ventos de mudança” anunciados há pouco mais de um ano – aquando da eliminação do Benfica na última Taça de Portugal –, mas que, desta vez, se vê convenientemente incluído numa alegada estratégia, preparada à escala planetária, para beneficiar o Benfica e prejudicar o Sporting.

O Inferno da Luz voltou a dar “colinho” ao Glorioso Fonte: SL Benfica
O Inferno da Luz voltou a dar “colinho” ao Glorioso
Fonte: SL Benfica

O discurso de Bruno de Carvalho também não é sério; porém, neste caso, não é natural. Nem o discurso nem, e muito menos, a postura. Embora a estratégia seja antiga, e o seu fim esteja bem identificado – o de se perpetuar no cargo a todo o custo –,  não deixa de surpreender a forma despudorada como Bruno de Carvalho a usa; o presidente do Sporting reinventa, a cada gesto ou palavra, o populismo mais básico e primário.

 

Bruno de Carvalho utiliza a rivalidade entre Benfica e Sporting, natural entre grandes clubes vizinhos, para travar qualquer discussão interna que o possa fragilizar. Bombardeando a comunicação social com dialéctica anti-benfiquista – atacando o clube rival, os seus profissionais e os seus adeptos –, ocupa, desta forma, o espaço mediático que lhe pertence. Recorrendo a um ódio endémico, projetando-o num inimigo externo, instrumentaliza as massas e impede, com todos os recursos de que dispõe, que o sportinguista comum perca demasiado tempo a pensar naquilo que não lhe interessa (a ele, entenda-se, Bruno de Carvalho); perdem-se as energias em discussões de café.

Lançam-se uns beijinhos provocadores, e fala-se de cartolinas e very-lights. Dizem-se mentiras. Cai-se no ridículo. Mas lá vai resultando. Assim, não se fala do fracasso europeu, do actual 3.º lugar (a um ponto do 4.º), da incompreensível (aos olhos do comum mortal) substituição de Bas Dost, do ordenado de Jorge Jesus, do ordenado de Bruno de Carvalho, do túnel de Alvalade, e muito menos se fala da decisão da UEFA sobre o “Caso Vouchers”, essa bandeira pela transparência e pela verdade desportiva, empunhada, há ano e meio, por Bruno de Carvalho. O presidente do Sporting assume-se, então, como profeta, protector e salvador; acena com o medo (a derrota e, sobretudo, a falência), recorda o passado, e mantém a confiança da porção de sócios que, antes de sportinguistas, são essencialmente anti-benfiquistas – vai dando, lamentavelmente, para diabolizar as alternativas democráticas que, assim haja coragem, se prestam a surgir.

Ao ler este texto, a esmagadora maioria dos sportinguistas ofender-me-á. Considerar-me-á um benfiquista, um “lampião”, que apenas quer o bem do seu clube e o mal do Sporting – não estão totalmente errados. Isso não invalida, todavia, que deseje a extinção do eterno rival; muito menos, que considere Bruno de Carvalho com as mínimas condições para ser presidente de um clube desta dimensão (ou de outra qualquer). Creio, pelo que me é dado a observar e a ouvir, que existem cada vez mais sportinguistas a pensar como eu; e cada vez menos a caírem na esparrela e, muito menos, a reverem-se neste presidente. E contra o argumento falso e cansado, propalado como barómetro pelo próprio, de que os benfiquistas temem Bruno de Carvalho, em contraponto com o passado recente e colaboracionista do clube, existem os factos: com José Roquette, Dias da Cunha, Soares Franco, José Eduardo Bettencourt e Godinho Lopes, entre 1996 e 2013, o Benfica venceu dois campeonatos; com Bruno de Carvalho, entre Março de 2013 e 2016, vão lá ver quantos ganhou.

Apesar de ser benfiquista, e de querer ser campeão mil anos consecutivos, nem ao meu pior inimigo posso desejar tanto mal.

Foto de Capa: Sporting CP

João Amaral Santos

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