Título do Arsenal | A maldição foi quebrada

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Lançaram-se os foguetes, apanharam-se as canas e fez-se a festa. O Arsenal é, finalmente, campeão da Premier League.

Durante anos, a equipa do norte de Londres viveu presa entre a memória e a frustração. A sombra dos “Invincibles” crescia a cada segundo lugar e a cada desilusão numa corrida pelo título que parecia sempre acabar nas mãos do mesmo adversário. Mas esta época, finalmente, o ciclo quebrou-se. O Arsenal de Mikel Arteta tornou-se campeão inglês 22 anos depois da última conquista da Premier League.

E a verdade é que este título não apareceu por acaso nem nasceu apenas do talento individual. Foi uma conquista construída com desgaste, insistência e evolução estratégica. Arteta passou anos a montar esta equipa peça a peça, enquanto ouvia críticas e era questionado pelo mundo. E não podia ser diferente quando o Arsenal tinha terminado três épocas consecutivas em segundo lugar. Em qualquer outro clube, talvez já não houvesse paciência, esperança ou treinador. Em Londres, houve convicção.

Mikel Arteta Arsenal Jogadores
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

O mais interessante é perceber que este Arsenal campeão não foi propriamente o Arsenal mais “bonito” da era Arteta. Nas épocas anteriores os londrinos dependiam demasiado da fluidez ofensiva, do ritmo alto, das combinações entre Saka e Ødegaard e de momentos de inspiração individual. Mas este ano a equipa tornou-se muito mais completa. Mais fria. Mais controladora. Menos emocional.

Arteta foi capaz de se adaptar a uma Premier League muito mais moderna onde o lema foi muitas vezes “ganhar custe o que custar”. E digamos que custou bastante.

Felizmente o Arsenal passou a dominar os jogos de uma forma quase territorial. Em posse, manteve a habitual estrutura de jogo, mas a grande diferença esteve nos momentos sem bola. A equipa tornou-se provavelmente a melhor estrutura defensiva da Europa. Sofria poucas ocasiões, controlava transições como ninguém e defendia cada vantagem mínima com maturidade competitiva.

As bolas paradas também deixaram de ser detalhe e passaram a ser arma estratégica. Não foi por acaso que a comunicação de vários adversários centrou-se, principalmente, nos pontapés de canto. A realidade é que muitos jogos desbloquearam-se aí. Num campeonato tão equilibrado, transformar cantos em golos foi uma vantagem brutal e a chave de ouro.

William Saliba Declan Rice Jakub Kiwior Arsenal
Fonte: Premier League

Claro que houve momentos em que pareceu tudo perdido. A derrota frente ao Manchester City em abril mudou completamente a narrativa da corrida. O City voltou a aproximar-se, Guardiola pressionou até ao limite e a sensação era familiar para os adeptos do Arsenal… parecia que o “bottling” era inevitável.

Sendo a Premier League a competição que é, faz sentido que a luta tenha ido até ao fim. O City continua a ser o padrão competitivo da liga inglesa e, mesmo numa época menos dominante, continuou a ter o melhor treinador da era moderna inglesa e um plantel construído para ganhar. O Arsenal sabia que qualquer deslize seria fatal. Por isso é que este título tem tanto peso emocional. Não só foi conquistado, como foi ganho contra a equipa que tinha destruído os sonhos londrinos nos anos anteriores.

Poeticamente, o Arsenal não vergou psicologicamente. E essa é talvez seja a maior vitória de Arteta. A equipa resistiu ao desgaste físico de lutar em duas frentes e ainda conseguiu levar a campanha europeia até à final da Liga dos Campeões, algo que o clube não alcançava desde 2006.

Mikel Arteta Arsenal
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

E isso também ajuda a explicar a dimensão desta temporada. O Arsenal não foi campeão porque abdicou da Europa. Em vez disso chegou ao topo interno enquanto construía uma campanha europeia de elite. Eliminou adversários fortes, mostrou personalidade fora de casa e ganhou estatuto continental. A final frente ao Paris Saint-Germain em Budapeste representa o culminar simbólico deste projeto que deu certo.

Mas mais do que falar de Mikel Arteta, é preciso deixar por escrito os vários nomes que fizeram desta comitiva os próximos campeões em título. A nível pessoal, o maior nome desta época é Declan Rice. O médio destacou-se não só pela qualidade individual, que tem para dar e para vender, mas porque representou exatamente aquilo em que o Arsenal se transformou. Teve intensidade, inteligência tática, controlo emocional e liderança, jogou como médio defensivo, médio de pressão, interior de chegada à área e até quase como “box-to-box” em certos momentos.

Declan Rice Arsenal Francisco Trincão Sporting
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Mas também David Raya, o grande guardião da baliza dos Gunners; Bukayo Saka, o “rookie” desequilibrador; Martin Ødegaard, o criativo; Viktor Gyökeres, o agressivo; Riccardo Calafiori, a defesa com os pés que ninguém vai esquecer.

Durante muito tempo, o Arsenal era visto como um clube histórico que vivia de nostalgia. Hoje já não. E há algo brilhantemente adequado no facto de este título surgir 22 anos depois dos “Invincibles”, mas de forma completamente diferente. A equipa de Arsène Wenger encantava pelo caos ofensivo e pela liberdade, enquanto que a de Arteta venceu pelo controlo, disciplina e pela capacidade de dominar todos os momentos do jogo, e não desistir.

Finalmente, Arteta. O norte de Londres voltou a sorrir.

Francisca Marafona Graça
Francisca Marafona Graça
A Francisca apaixonou-se pela bola ainda antes de saber andar. Vive o desporto como quem joga de primeira e escreve como quem faz um passe em profundidade. Licenciada e mestre em jornalismo, vibra com uma boa tática — seja no relvado ou no papel.

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