Está aí o Portugal de Jorge Jesus, uma fantasia com dois meses de espera e 90 minutos de aprovação. Dizer que é o Portugal de Jorge Jesus é uma afirmação entre o pleonasmo e o eufemismo. Com tão pouco tempo de treino, há muito pouco do novo selecionador nacional. Há muito dos jogadores e há muito das intenções. E é sobre essas que já dá para ter impressões, depois do 1-0 diante do País de Gales.
Não é surpreendente, muito menos desajustado às características do plantel, que a aposta tenha sido no 4-4-2 padrão que marcou toda a carreira do treinador. Também não é, pela amostra da convocatória, que o primeiro onze de Jorge Jesus seja quase o mesmo do último de Roberto Martínez. Só os Neves, com o João a dar entrada ao Rúben, mudaram. O que não significa que nada tenha mudado.
A mudança mais destacada foi no posicionamento do ala esquerdo. Já com Roberto Martínez estava mascarado de jogador de corredor e, com Jorge Jesus, ainda mais se acentuará desta forma. Mais do que o que se ganhou com Bruno Fernandes por fora – e há potencial, na forma como abre o campo e consegue ter espaço para meter passes -, o posicionamento do médio abriu o corredor central para João Félix. E, aí, ganhou-se muita coisa.


É quase poesia que tenha sido o segundo avançado, uma espécie tantas vezes colocada como em vias de extinção nas tendências do futebol atual, mas perfeitamente enquadrada no habitat futebolísticos de Jorge Jesus, o grande destaque da estreia do selecionador nacional. A dupla com Cristiano Ronaldo não é uma novidade, as ordens do mister também não. Ainda assim, mais do que qualquer enquadramento coletivo, João Félix resolveu o jogo pelas perceções individuais. Um dia poderá ser primeiro avançado, qual vaticínio de Jesus, que trocou os milagres pelas previsões, mas continua a ser com liberdade para atuar nas costas dos médios que mais perigo provoca. Sempre que os dois médios mais posicionais avançavam em campo, procurando encaixes mais altos, lá aparecia João Félix a encontrar o espaço certo para receber, rodar e acelerar. Assim se marcou o único golo do jogo, o primeiro da nova era. Sem influência direta no resultado, a estética e funcionalidade com que, ao primeiro toque em muitos momentos, definiu perto da área, também se fizeram notar. Aceitando o desafio da futurologia, será um dos destaques enquanto Jorge Jesus andar pelos bancos da seleção.
Para lá destas dinâmicas, evidentes e sem grande necessidade de treino, há outras certezas. À direita, até para fazer o contraponto, é expectável que jogue um extremo mais natural, quer com a velocidade e agressividade no corredor como Pedro Neto, quer, ainda por estrear, com capacidade de jogar a pé trocado e irreverência de Francisco Conceição. À direita, não há laterais tão agressivos a chegar à frente como à esquerda e as sociedades no corredor são importantes. Por falar na esquerda, é impressionante o domínio de jogo que Nuno Mendes vai ganhando. No dia em que Roberto Carlos confessou que Nuno Mendes será melhor que ele – e são do próprio astro brasileiro as palavras -, o lateral mostrou-lhe razão. Continua a ter na passada larga e na capacidade de chegar à frente fontes de desequilíbrio, mas impressiona cada vez mais pela inteligência e precisão do passe, quer no cruzamento, quer no passe a partir de posições mais recuadas. Entre a assistência e uma série de bons momentos, foi destaque natural.
Há, depois, uma série de outras conclusões. Rúben Neves é o médio posicional para Portugal crescer com bola, Palhinha será o preferido quando os espaços a cobrir forem maiores. Vitinha e João Neves poderão jogar juntos, mas dificilmente como os dois primeiros médios. O favorito na estreia foi Vitinha, até a jogar mais liberto, não como um jogador de ataque à área e de grandes movimentos, mas como mais um gestor de jogadas no último terço. Lá à frente, Cristiano Ronaldo continuará igual a si mesmo nos últimos anos. Jorge Jesus confessou que vai tentar mantê-lo na área, onde mais pode continuar a fazer a diferença, mas se livrou de ver o avançado a tentar jogar por outros terrenos. Aos 41 anos, ninguém espera que esteja no topo da carreira. Faz falta maior aposta nas movimentações para preparar o remate e atacar espaços na área, onde o instinto – que se mantém praticamente inalterado – continua a prevalecer, porque já se sabe que, nas cinco oportunidades, já não sairão sempre quatro ou cinco golos. Cabe a Jorge Jesus passar uma mensagem semelhante e ao próprio avançado reconhecer não só os pontos fortes, mas também as limitações.


Lá atrás, o jogo foi seguro. Renato Veiga, sempre no duelo com Lewis Koumas, chave nas tentativas de jogo mais direto galesas, foi crescendo depois de um início mais turbulento. Rúben Dias, mais longo nas perseguições, também fez um jogo tranquilo. Só por uma vez se sentiram calafrios, já quando do banco saltaram referências galesas para procurar transições – mais velocidade, mais capacidade nos duelos -, mas o balanço defensivo também é ele positivo. Por mais que seja claro que, diante de adversários de nível superior, o País de Gales não seja capaz de provocar os mesmo problemas com bola, também é justo destacar a tendência – ou tentativa, pelo menos – de evitar o descalabro e a equipa partida. É cedo para conclusões precipitadas, claro, mas a amostra ainda é reduzida. Os próximos dias e os próximos jogos darão novidades. Portugal continuará a escrever os 11 mandamentos de Jorge Jesus. 16, se quisermos olhar aos suplentes.
BnR na Conferência de Imprensa
Infelizmente, não nos foi concedida a possibilidade de colocar uma questão a Jorge Jesus, selecionador nacional.
Bola na Rede: O João Félix conseguiu receber a bola entre linhas muitas vezes, especialmente na primeira parte. Quão difícil foi pará-lo e quais foram as maiores preocupações quando o tentou resolver na segunda parte?
Craig Bellamy: Sim, nós sabíamos que nos íamos ter de adaptar. Quando vimos a equipa, percebemos que ele não ia jogar aberto. Já o vejo jogar há anos e sabemos que ele gosta de jogar nesse espaço. Na primeira parte, tivemos alguns encaixes onde não conseguimos trocar e ajustar e eles têm jogadores que conseguem manipular a bola nestas situações. Nós adaptámo-nos três vezes durante o jogo. Nesses momentos, tentámos proteger essas áreas. Sabíamos que para tentar impedir podíamos dar algum espaço por fora. Tentámos guiá-los para fora para que ele não tivesse tanta bola e não pudesse fazer esses movimentos. Esperávamos por isso. Nem sempre funcionou. Ele é um jogador perigoso. Em alguns momentos, conseguiu rodar, fez um remate e deu golo, mas conseguimos que isso não acontecesse muitas vezes. Foi duro para nós, mas poderia ser ainda mais duro.

