Cristiano Ronaldo abandonou, esta quarta-feira, na véspera do jogo com a Dinamarca, o estágio da Seleção Nacional. Uma semana depois de ter garantido que se afastaria assim que fosse necessário, menos de uma semana depois de ser titular contra o País de Gales e poucos dias depois de ficar de fora na Noruega, o capitão não resistiu às palavras de Jorge Jesus na conferência de antevisão e deixou Copenhaga com a roupa de treino, rumo ao aeroporto e a um jato privado que o transportou para Madrid. Uma decisão técnica que o deixou no banco em Oslo acabou num abandono, e o país passará, por isso, mais uns dias (quiçá semanas) a discutir a braçadeira em vez do futebol.
Ora, Portugal venceu a Noruega, por 1-2, na segunda jornada da Liga das Nações, e Ronaldo ficou os 90 minutos no banco, o que, pela Seleção, não lhe acontecia num jogo oficial há 18 anos. Aqueceu na segunda parte, não entrou e, mal soou o apito final, saiu de campo esbracejando, sem acompanhar os colegas no agradecimento aos adeptos.
Jesus disse que não reparou nesse pormenor e que tinha combinado com o avançado não o utilizar. Segundo a SIC, a história era outra. O plano seria Ronaldo jogar apenas os dois encontros em casa desta pausa, frente ao País de Gales e à Noruega, a 4 de outubro, e na manhã do jogo o selecionador ter-lhe-á dito que afinal o lançaria durante cerca de 30 minutos. Cristiano, segundo a mesma fonte, sente que ficou numa posição ingrata.


Na terça-feira, em Malmo, perguntaram-lhe pela conversa com o treinador e o capitão respondeu com um polegar levantado. Pisou o relvado, não treinou e seguiu para o ginásio do hotel, tal como João Félix e Francisco Conceição, ausentes por lesão. Pedro Proença, esperado nos Açores para o jogo dos sub-21, foi de urgência a Copenhaga. Já de madrugada, Ronaldo e Jesus conversaram e, segundo a RTP, resolveram tudo. De manhã, os três reuniram-se e o caso foi dado como fechado.
À tarde, na conferência, Jesus garantiu que não havia caso nenhum, que Ronaldo não se recusava a treinar e que Gonçalo Ramos seria titular se tudo corresse normalmente, e lembrou que na equipa manda ele. Minutos depois, Ronaldo saiu numa carrinha da Federação sem treinar. Escreveu no Instagram que decidira deixar o estágio e que, a seu tempo, diria a verdade a todos os portugueses. Houve nova reunião, sem efeitos, e a Federação confirmou a saída, garantindo que a preparação prossegue com os restantes 24 jogadores.
Portanto, se havia dúvidas sobre o poder de Ronaldo dentro da Seleção, ficaram dissipadas. Bastou uma decisão técnica banal, num jogo que Portugal ganhou, para a vitória na Noruega virar nota de rodapé, para o presidente da Federação trocar os Açores por Copenhaga e para um selecionador gastar vários minutos de uma conferência de imprensa a jurar que não havia caso.
Aliás, de recordar que tanto o atual selecionador nacional como Rúben Dias o defenderam, naquela conferência, sem uma palavra de crítica, ou seja, fizeram tudo o que podiam para proteger o capitão. E ele agradeceu indo embora.
Repare-se que as polémicas são sempre à volta do mesmo indivíduo. Mudam os selecionadores e mudam as competições, e o elemento comum fica. Copenhaga é a mais grave de todas, mas está longe de ser a primeira. Recordemos.
Em 2010, no Mundial da África do Sul, Portugal caiu com a Espanha nos oitavos de final e Ronaldo passou o jogo a gesticular para o banco, frustrado por a bola não lhe chegar. À saída, perguntaram-lhe como explicava a derrota e respondeu que falassem com Carlos Queiroz. O homem que o ajudara a crescer no Manchester United, quando era adjunto de Alex Ferguson, ouviu isto em direto. Queiroz avisou que ninguém estava acima da Seleção, Ronaldo pediu num comunicado, publicado no site da Gestifute, que não se criassem fantasmas onde não existiam, e, em setembro, o selecionador foi dispensado.
Em 2016, em Lyon, na manhã do jogo decisivo com a Hungria, da fase de grupos do Campeonato da Europa, que, como se sabe, Portugal viria a conquistar, tirou o microfone das mãos de um repórter da CMTV e atirou-o a um lago. Dez anos depois, Ronaldo é um dos donos da atual Medialivre, que detém o jornal Correio da Manhã, a CMTV, o jornal Record, o jornal Negócios e a revista Sábado.
Em 2021, em Belgrado, o árbitro, sem VAR e sem a tecnologia da linha de golo, não validou, nos descontos, um golo que tinha claramente entrado e Ronaldo, já depois de ter visto cartão amarelo por ter corrido em direção ao árbitro assistente e gesticulado incessantemente, arrancou a braçadeira, atirou-a ao chão e saiu pela linha de fundo, ainda antes do apito final.


Tinha razão quanto ao golo, e o árbitro neerlandês, Danny Makkelie, dias depois, revelou mesmo que foi ao balneário da Seleção Nacional para pedir desculpa a Fernando Santos e a toda a equipa pelo erro. Continua, porém, a ser a braçadeira no chão, mesmo que, depois, CR7 se tenha justificado nas redes sociais: “Ser capitão da Seleção de Portugal é um dos maiores orgulhos e privilégios da minha vida. Há momentos difíceis de lidar, especialmente quando sentimos que está a ser prejudicada toda uma nação. Levantar a cabeça e enfrentar o próximo desafio agora!”, escreveu, na altura.
Pelo lado positivo, a mesma braçadeira que Cristiano atirou ao chão foi recolhida por Dorde Vukicevic, um bombeiro sérvio que estava de serviço no jogo e que, em vez de a guardar, acabou por doá-la a uma instituição de solidariedade para ajudar a financiar o tratamento médico de um bebé sérvio de seis meses que sofria de atrofia muscular espinhal. A braçadeira acabaria, então, por ser leiloada por 64 mil euros.
Continuando, a maior, até esta semana, foi a do Catar. No Mundial 2022, já com o apuramento para os ‘oitavos’ garantido, Fernando Santos substituiu-o contra a Coreia do Sul, por volta dos 65 minutos, e Ronaldo, a caminho do banco, foi apanhado a dizer umas coisas não muito bonitas relativamente à “pressa” que, supostamente, o então selecionador teve para tirá-lo de campo.
Posteriormente, explicou que falava com um sul-coreano. Fernando Santos, que, a princípio, disse nada ter visto, viu as imagens e não escondeu o desagrado, lembrando que as coisas se resolvem dentro de casa. Nos ‘oitavos’, deixou-o no banco e Gonçalo Ramos fez um hat-trick. Contra Marrocos, manteve-se a decisão, Ronaldo só entrou na segunda parte, com Portugal já a perder, e, depois de confirmada a eliminação, saiu do estádio em lágrimas, sozinho pelo túnel. De referir ainda que, pelo meio, a Federação teve de desmentir que o próprio ameaçara deixar o Mundial, depois de ter ficado no ginásio em vez de treinar com os suplentes.
Fernando Santos saiu semanas depois. Um ano mais tarde, contou que nunca mais tinham falado, comparou Ronaldo a um filho ou a um irmão mais novo e disse que o telefone podia tocar quando ele quisesse e precisasse.
Repare-se, agora, no padrão. Em 2010, a culpa era do treinador, em 2016, do jornalista, em 2021, do árbitro, em 2022, do selecionador e, em 2026, do selecionador outra vez, por ter tido a ousadia de dizer em público quem manda. Os culpados mudam e a reação não. Só há uma variável constante e vai com a braçadeira no braço.
Chame-se-lhe o que é: ego desmedido e uma autoavaliação sobrevalorizada. Ficar zangado por não jogar acontece a qualquer profissional e até é, de certa forma, saudável. No entanto, 16 anos depois da ‘boca’ a Queiroz, Ronaldo continua a reagir como se o futebol lhe devesse a titularidade e a bola lhe devesse chegar sempre.
Ponha-se isto em perspetiva. Em Oslo, Ronaldo ficou os 90 minutos no banco num jogo oficial pela primeira vez em 18 anos. Dezoito anos de titularidades, de golos, de braçadeira e de estatuto, e bastou a primeira vez para sair do campo sem agradecer aos adeptos. A braçadeira não existe para receber consideração quando tudo corre bem. Existe, acima de tudo, para dar o exemplo quando corre mal, e o exemplo, num jogo ganho fora de casa, era ficar para agradecer e abraçar os colegas, mesmo sem ter jogado. É a parte mais simples da função e Ronaldo falhou-a numa noite em que a equipa fez o que lhe competia, que era vencer, num campo difícil, frente a um adversário de bom nível.
Há, também, a distância entre o que diz e o que faz. Há pouco mais de uma semana, a 23 de setembro, Ronaldo garantiu que se afastaria assim que fosse necessário e que o grupo estava acima de qualquer jogador. Quatro dias depois, ficou no banco e saiu do campo a esbracejar. Uma semana depois, deixou o estágio e, na mensagem em que o anunciou, desejou boa sorte aos companheiros sem exceção.
Só que o grupo que dizia estar acima de tudo era uma equipa que acabara de vencer na Noruega e tinha de treinar em Copenhaga e preparar o jogo seguinte. Quando o capitão se vai embora antes dela, depois de o treinador ter reafirmado em público uma decisão técnica, o amuo de um homem, com a sua popularidade e influência, passa a ser problema de 24 jogadores. E se é verdade que saiu sem esperar pelos colegas nem se despedir deles, como a imprensa relata, a distância entre a palavra e o ato fica completa, porque quem diz que o grupo vem primeiro costuma, pelo menos, despedir-se do próprio grupo.
A verdade é que Ronaldo tem 41 anos e andamos aqui a jogar à “gratidão”. Sente-se, e deve sentir-se, por 234 jogos e 146 golos, e que fique bem claro que nada disto apaga a carreira nem o lugar único que ocupa na história do futebol português. Mas é exatamente por ser quem é e por ser o capitão que cada atitude sua pesa mais, pelo que a exigência tem de ser proporcional. A gratidão não pressiona e não decide onde deve estar um avançado em cada minuto de um jogo. O país pode e deve agradecer-lhe tudo, o que não pode é confundir gratidão com submissão, até porque o culto de personalidade nunca deu bons resultados.
Há, pelo menos, quatro anos que se percebeu que o final de carreira de CR7, tanto pelo clube como pela Seleção, seria penoso e ninguém foi apanhado de surpresa. Segundo a SIC, depois do Mundial, Ronaldo ponderou deixar a Seleção e tinha quase certa a retirada internacional, e o próprio admitiu, uma semana antes de tudo isto, que pensou nessa hipótese.
Todavia, a chegada de Jesus mudou o cenário e ficou combinado que jogaria os dois encontros em casa desta pausa. Jogou o primeiro e saiu antes do segundo. Podia ter saído em grande, com a retirada assumida e as palmas de um país inteiro. Preferiu sair de jato, a meio de um estágio, com o selecionador a ver o caso arder em público. Foi uma crónica de uma morte anunciada, escrita aos poucos e à vista de toda a gente, e Ronaldo ignorou todos os sinais.
De facto, com Roberto Martínez, o problema foi sendo adiado. Esteve à vista de toda a gente que o espanhol nunca o tratou como mais um, e Ronaldo habituou-se ao conforto. Se achou que com Jesus seria igual, enganou-se, e o engano diz mais sobre os anos anteriores do que sobre o atual selecionador. No fundo, este triste fim foi tão previsível quanto a incapacidade de todos, inclusive de Pedro Proença, em aguentar esta espécie de “bomba-relógio” nas mãos.


De notar que Jesus também não sai limpo, mas sai bem melhor, e traz uma coisa que durante demasiado tempo faltou nesta história: a coerência. À sua boa maneira, decidiu, manteve a decisão, não se escondeu atrás do estatuto do capitão e disse em público quem manda. Um selecionador que entrega a decisão a um jogador, por maior que seja o nome, deixa de gerir uma equipa para gerir um estatuto, e Jesus percebeu isso, no sentido em que, apesar de reconhecer esse estatuto, as regras são iguais para todos.
A história dos 30 minutos, no entanto, deixa-o exposto. Em Oslo, disse que tinha acordado com Cristiano não o utilizar. Segundo a SIC, nessa manhã dissera-lhe que afinal o lançaria durante cerca de meia hora. As duas versões não cabem no mesmo dia. Se a da SIC estiver certa, Jesus criou uma expectativa e desfê-la sem aviso, e nesse ponto, e só nesse, percebe-se que Ronaldo sinta que ficou numa posição ingrata. Um treinador que promete minutos oferece ao jogador um argumento que o relvado depois desmente, porque nenhum selecionador sabe o que o jogo vai pedir ao minuto 60.
Contudo, um erro de comunicação não obrigava a mudar o plano só porque Ronaldo esperava entrar, e é por isso que se pode criticar a promessa e defender a decisão. Enfim, a comunicação ficou a dever muito, mas a autoridade não, e é essa que conta quando se quer construir uma equipa.
Ronaldo prometeu contar a verdade a todos os portugueses, a seu tempo. Que conte. Pode haver razões que ainda desconhecemos, mas os factos que temos chegam para julgar o gesto, e nenhuma versão vai alterar o essencial, que é a reação de um capitão a uma decisão técnica do seu treinador.
Em 2010, explicou-se num comunicado, em 2021, numa publicação nas redes sociais, e agora volta a fazê-lo pela mesma via, a prometer o que ainda não deu. Nem a notícia estava fechada e já as irmãs Kátia e Elma Aveiro, à imagem do que aconteceu nos dois últimos Campeonatos do Mundo, tinham reagido nas redes sociais, pelo que a rapidez diz muito sobre o círculo que o rodeia. A CMTV, que, como já referido, pertence a um grupo de que Ronaldo é acionista, garante que a rutura com Jesus é total e irreversível. Convém esperar que alguém o confirme em voz alta.
Entretanto, há uma Seleção, acima de qualquer um, para reconstruir. Jesus está no início de um ciclo e precisa de trabalhar com um grupo inteiro, não de passar a semana a gerir egos. O encontro do Dragão, aquele que estava reservado ao capitão, vai fazer-se sem ele, sem qualquer problema do ponto de vista desportivo.
Um capitão tem direitos, mas o primeiro dever é a equipa, e uma equipa nacional não pode ficar suspensa do humor de um jogador, por maior que seja. Assim sendo, depois de tudo isto, é inconcebível que Cristiano Ronaldo volte à Seleção e não vejo lugar nem cabimento para esse regresso, excetuando, claro está, a possibilidade de um jogo de despedida, de caráter particular, em jeito de homenagem.
Em suma, o legado também se mede pela forma como se aceita o fim – “Ou morres como um herói, ou vives o suficiente para te tornares um vilão”. Aos 41 anos, o adversário nunca foi Jorge Jesus ou qualquer outro selecionador. É o tempo, que não se convoca e ganha sempre. Convinha que Cristiano, com a idade e a experiência que possui, já o tivesse percebido.

