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Armando Sá, antigo internacional português que vestiu as camisolas do Benfica, Villarreal e Leeds United, juntou-se à equipa técnica de Bubista no RS Berkane, em Marrocos, assumindo o cargo de treinador-adjunto. Em entrevista ao Bola na Rede, o técnico de 51 anos refletiu sobre a passagem pelo Pacific FC, abordou a relação com o antigo selecionador cabo-verdiano e analisou o desempenho de Portugal e Cabo Verde no Mundial 2026.
Bola na RedeFoi treinador-adjunto do Pacific FC (Canadá) nos últimos 4 anos. Qual é o balanço que faz e quais foram as principais aprendizagens retiradas?
Armando Sá: Faço um balanço muito positivo. Foram quatro anos importantes para o meu crescimento enquanto treinador e também enquanto pessoa. Trabalhar no Canadá permitiu-me conhecer uma realidade diferente, uma cultura diferente e uma forma diferente de viver e pensar o futebol. Tive responsabilidades sobretudo na organização defensiva e nas bolas paradas, mas, como acontece numa equipa técnica, acabamos por estar envolvidos em todo o processo. Foram anos que me deram experiência, autonomia e capacidade para encontrar soluções em diferentes contextos. Uma das maiores aprendizagens foi precisamente essa capacidade de adaptação. No futebol não podemos estar fechados numa única ideia. Temos de ter princípios fortes, mas perceber os jogadores que temos, o campeonato onde estamos e o contexto em que trabalhamos. Saí do Pacific um treinador mais completo e mais preparado.
Bola na RedeAtualmente é treinador-adjunto do RS Berkane (Marrocos), ao lado de Bubista. Como está a ser a experiência?
Armando Sá: Está a ser uma experiência muito interessante e, ao mesmo tempo, muito exigente. O Berkane é um clube com uma dimensão muito grande em Marrocos e com ambições também no futebol africano. Quando se trabalha num clube que quer ganhar o campeonato e competir na Liga dos Campeões africana, sentimos essa exigência diariamente. Para mim também representa uma realidade nova. Depois da experiência no Canadá, entrar no futebol africano, conhecer outra cultura futebolística e trabalhar num clube desta dimensão acrescenta muito ao meu percurso. Tenho responsabilidades dentro da equipa técnica, nomeadamente na organização defensiva e nas bolas paradas, e sinto que posso acrescentar aquilo que fui adquirindo ao longo dos últimos anos. Ao mesmo tempo, continuo a aprender todos os dias. É isso que procuro nesta fase da minha carreira: competir, aprender e estar preparado para os próximos desafios.

Bola na RedeAinda só com um jogo realizado na Liga, qual é a primeira impressão do campeonato marroquino?
Armando Sá: Ainda é cedo para fazer uma avaliação definitiva, porque estamos no início e uma coisa é observar o campeonato de fora, outra é vivê-lo por dentro. Mas a primeira impressão é de um campeonato competitivo, com jogadores tecnicamente interessantes e equipas bem organizadas. Existe intensidade, muita competitividade e também uma componente emocional forte nos jogos. Além disso, há cada vez mais treinadores estrangeiros, nomeadamente portugueses, o que também está a trazer diferentes metodologias e ideias ao campeonato. Acredito que, à medida que formos jogando contra mais equipas, vou conseguir fazer uma leitura ainda mais completa da Botola.
Bola na RedeHá vários jogadores portugueses a jogar em Marrocos. Há algum que destaque?
Armando Sá: Há jogadores portugueses interessantes. Por exemplo, o Marian Huja, que está no Raja Casablanca, é um defesa-central que conheço também pelo percurso que fez na formação do Belenenses. É um jogador com características interessantes e chegou a um clube com enorme dimensão no futebol marroquino. Mas gosto de ter algum cuidado em individualizar. Estou a chegar ao campeonato e quero primeiro conhecer melhor os jogadores e as equipas. Há qualidade e acredito que a presença portuguesa pode continuar a crescer aqui.
Bola na RedeComo é a sua relação com o treinador Bubista?
Armando Sá: Muito boa. Existe respeito, diálogo e confiança, que para mim são fundamentais numa equipa técnica. O Bubista é uma pessoa tranquila, aberta ao diálogo e com ideias muito claras. Temos naturalmente experiências e percursos diferentes, e acho que isso pode ser uma vantagem. Eu trago aquilo que vivi no futebol europeu e nos últimos anos no Canadá; ele traz todo o conhecimento que tem do futebol africano, do jogador africano e a enorme experiência que acumulou como selecionador. Eu acredito muito que uma equipa técnica cresce quando existe troca de ideias. O adjunto tem de saber qual é o seu espaço, mas também tem de acrescentar valor ao treinador principal. É assim que vejo a minha função e é dessa forma que temos trabalhado.

Bola na RedeComo viu a campanha de Cabo Verde no Mundial 2026 com Bubista no comando?
Armando Sá: Foi histórica. Não apenas por Cabo Verde ter chegado pela primeira vez a um Mundial, mas pela forma como competiu. Mostrou uma equipa organizada, disciplinada, solidária e, acima de tudo, sem medo de competir contra seleções teoricamente superiores. E há algo que valorizo muito: não basta ter uma boa ideia. É preciso conseguir que os jogadores acreditem nela. Quando vemos Cabo Verde competir daquela maneira num Mundial, percebemos que existia uma identidade e uma ligação muito forte entre treinador, jogadores e país. Naturalmente, agora que trabalho diariamente com o Bubista, consigo perceber ainda melhor algumas das razões que estiveram por trás daquele percurso.
Bola na RedeE já agora, que avaliação faz da prestação de Portugal no Mundial?
Armando Sá: Portugal tinha qualidade para ambicionar chegar mais longe. Quando olhamos para a qualidade individual e coletiva da seleção portuguesa, existe sempre uma expectativa muito elevada. E isso é natural, porque Portugal tem hoje jogadores nos maiores clubes e uma profundidade de talento que poucas seleções possuem. Mas um Mundial é uma competição muito particular. Um jogo, um momento ou um detalhe pode decidir tudo. Não considero que se possa avaliar todo um trabalho apenas por uma eliminação. Enquanto português e homem do futebol, quero sempre ver Portugal chegar às fases decisivas e lutar pelo título. Ficou naturalmente a sensação de que esta geração tinha condições para ir mais longe, mas isso não apaga a qualidade que existe no futebol português nem aquilo que esta seleção ainda pode alcançar.












