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Há uma altura em todas as épocas em que olhamos para a classificação da Premier League e procuramos os intrusos. Aqueles clubes que, por alguma razão, decidiram não respeitar a hierarquia habitual e instalaram-se em lugares que, à partida, pareciam reservados aos mesmos de sempre. Este ano, apenas cinco jornadas decorreram para dois nomes já começarem a desviar a atenção, o Brighton e o Leeds.
O primeiro está em terceiro. O segundo, em quinto. Ambos invictos e separados por apenas um ponto. Mas talvez mais interessante do que a posição que ocupam seja a sensação de que nenhum dos dois parece estar ali por acaso… Mas analisemos com factos. O Brighton já marcou 16 golos em cinco jornadas, mais do que qualquer outra equipa do campeonato, e só perdeu um jogo. O Leeds sofreu apenas três golos e ainda não conheceu a derrota.
A questão que se impõe inevitavelmente é até quando podemos continuar a chamar-lhes surpresas. Porque a verdade é que o Brighton já deveria deixar de receber esse rótulo (que apesar de ser um elogio, não deixa de ter o seu caráter negativo).
Há uns anos atrás, ver o Brighton na parte de cima da tabela era uma agradável “anomalia”. Hoje, começa a ser quase como uma consequência lógica de tudo aquilo que o clube tem construído. Na época passada terminou em oitavo e garantiu novamente presença europeia, depois de já ter terminado no top 8 em 2024/25. Foi a primeira vez na história do clube (estando na Premier League) que conseguiu duas classificações consecutivas entre os oito primeiros lugares.
E poderia dizer-se que é sorte. Mas não é. É toda uma estrutura que trabalha com o foco no clube e no nome que representam. Os treinadores e os jogadores vestem as camisolas que lhes dão. Mas são as estruturas, as pessoas do clube, que fazem com que estes fenómenos aconteçam. Por isso é que o Brighton, por muitas mudanças que possa sofrer, se mantém firme. O Graham Potter saiu, o Roberto De Zerbi saiu, jogadores importantes foram vendidos. E, ainda assim, o clube encontrou maneiras diferentes de continuar competitivo. Na época passada, por exemplo, terminou com a terceira melhor defesa da Premier League e liderou o campeonato em recuperações de bola em zonas altas.

Agora, Fabian Hürzeler tem uma equipa capaz de marcar três, quatro ou cinco golos sem parecer interessada em pedir desculpa por isso. E talvez seja esse o maior elogio que se pode fazer ao Brighton. Já não parece uma equipa que está a tentar provar que merece estar entre os grandes, mas finalmente parece uma equipa que acredita que merece estar.
Por outro lado, e num capítulo diferente da história, temos o Leeds. Há aqui uma camisola pesada, uma massa adepta enorme e uma história que faz com que o quinto lugar seja simultaneamente surpreendente e familiar. O clube está a viver um início de época que não tinha desde 2001/02. São cinco jornadas sem perder e com a melhor defesa do campeonato até ao momento, sofrendo apenas três golos. É impossível olhar para a tabela classificativa e não pensar no passado.
Em 2001/02 o Leeds terminou em quinto. Agora, mais de duas décadas depois, volta a aparecer em quinto após cinco jornadas. Mas atenção, a nostalgia não pode ser confundida com realidade até porque o atual Leeds não é o mesmo que deixou marca e moça no passado. A equipa de Daniel Farke não está a tentar recuperar o passado à força, mas a construir uma versão nova de si própria. Mais pragmática, mais equilibrada e, sobretudo, capaz de perceber que uma época não se ganha em setembro (como muitos parecem acreditar).
O empate com o Brighton foi simultaneamente simbólico e irónico. De um lado tivemos uma equipa que já se habituou a desafiar a ordem estabelecida. Do outro, uma equipa que está a tentar descobrir se pode fazer o mesmo. O resultado foi o mais perfeito que podia ser, um golo para cada lado e, algumas semanas depois, continuam ambos entre os cinco primeiros.
Isto para provar que a história é construída pelos clubes que, de longe a longe, fazem estas surpresas. Mas a verdadeira reflexão é sobre a liga inglesa e os preconceitos que a ela ainda estão atribuídos. Porque a velha ideia de que há um pequeno grupo de clubes que manda e todos os outros tentam aproximar-se começa a parecer cada vez mais cansada.
Manchester City e Arsenal continuam naturalmente na frente. Liverpool continua por perto. Não contradigo que o dinheiro, a dimensão ou a qualidade dos grandes clubes deixaram de importar. Mas há uma diferença entre ameaçar os grandes durante cinco jornadas e construir uma estrutura que permita fazê-lo repetidamente.
O Brighton parece ter conseguido isso, e o Leeds está a descobrir se consegue. E talvez seja por isso que a expressão “surpresa” já não seja suficiente. Porque algo que é surpresa é porque só aparece uma vez, mas aqui temos um novo conceito que é a consistência (maioritariamente para o lado do Brighton). E, enquanto os gigantes discutem títulos, milhões e estrelas, há clubes que perceberam outra coisa talvez muito mais significativa e importante que é não precisar de ganhar a Premier League para mudar a conversa sobre ela, às vezes basta ocupar lugares que todos julgavam já ter dono.











