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«O mercado português faz autênticos milagres» – Entrevista Bola na Rede a Diogo Boa Alma

Diogo Ribeiro · 55 min

Diogo Boa Alma Casa Pia
Foto: Arquivo Pessoal Diogo Boa Alma

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O mundo do dirigismo no futebol português já deixou de ser um sonho, uma miragem distante. Diogo Boa Alma foi um dos responsáveis pela afirmação do dirigente desportivo enquanto função e não papel teórico, com passagens de sucesso por clubes como o Santa Clara ou o Casa Pia e ligado a nomes como Hidemasa Morita, Zaidu Sanusi ou Clayton Silva. Em entrevista em exclusivo ao Bola na Rede, o dirigente faz uma viagem pela carreira, olha para os desafios da função e para as mudanças no mundo dos mercados à escala global.

«No futebol português, como na sociedade em geral e acontece muito no nosso país, as coisas chegam cá um pouco mais tarde». 

Diogo Boa Alma

Bola na RedeBoa tarde, Diogo, agradeço novamente a disponibilidade. Começava, de uma maneira muito geral e para começarmos a conversa, por perguntar quais são os grandes desafios de um diretor desportivo?

Diogo Boa Alma: Muitos. Depende da realidade de cada clube. Eu ainda este fim de semana estive na Lousã numa conferência e falávamos um pouco sobre isso. O papel do diretor desportivo de clube para clube varia. Como é encarado esse papel, quais são as funções, qual a abrangência dessas funções, isso varia bastante. Agora, em teoria e da forma que eu entendo que deve ser, é uma função que tem muitos desafios porque é muito abrangente. É liderar todo o projeto desportivo do clube, lidar, para cima, com a administração, com o presidente, com os investidores, com quem seja, para poder ter as discussões sobre orçamento, objetivos desportivos e financeiros do clube para esse ano e depois, para baixo, implementar tudo isso e criar uma estrutura preparada para responder a esse desafio, cumprindo o orçamento que está estipulado. Depois, os desafios do dia-a-dia de gestão de pessoas. Vemos este episódio que está a marcar a atualidade [polémica entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus] e vemos a importância disso. Muitas vezes olha-se só para as contratações e para as escolhas de treinadores e jogadores, para o mercado, e o diretor desportivo é bem mais do que apenas mercado. É depois, no dia-a-dia, a gestão de conflitos e o fazer funcionar um grupo de forma saudável.

Bola na RedeÉ mais importante no futebol o lado técnico, quer dentro do campo, quer depois também nas contratações, ou o lado humano?

Diogo Boa Alma: Eu acho que cada vez mais o lado humano tem uma importância muito grande. Isto em tudo, não só nos jogadores, nos treinadores, mas também no próprio staff, na posição de diretor desportivo. Acho que tudo isso é muito importante. Costumo dizer que a competência trabalha-se, a confiança e os valores humanos não. Ou tens ou não tens. É uma parte que é menos trabalhável. Temos de ter atenção a esse lado humano antes de trazer pessoas para dentro do projeto.

Bola na RedeNa última década, o que mudou nestes cenários do diretor desportivo, do futebol português, do panorama geral do mercado? Quais foram as maiores mudanças?

Diogo Boa Alma: Acho que no futebol português, como na sociedade em geral e acontece muito no nosso país, as coisas chegam cá um pouco mais tarde. Eu acho que a posição de diretor desportivo também e o entendimento do que é essa função chegaram mais tarde. Nós temos, por tradição, um regime muito presidencialista em todos os clubes. Mesmo os clubes que tinham diretor desportivo durante muitos anos, tinham-no no papel. Tinham essa função no organograma, mas não nas competências e atribuições que o diretor deve ter. Eu acho que está a mudar aos poucos a mentalidade. Acho que há um grande caminho ainda a percorrer, mas alguns bons trabalhos de diretores, que felizmente temos pessoas competentes no nosso país, têm vindo a ajudar a mudar essa mentalidade. Também a entrada de investidores e com isso o profissionalizar mais os clubes e haver a ideia e a necessidade de rentabilizar. Os clubes são empresas. Que tenham lucros e que sejam bem geridas faz com que se procure profissionais no mercado e não tanto o que era tradicional. Os clubes iam acumulando prejuízos e não era responsabilidade de ninguém, portanto não havia essa necessidade de profissionalizar toda a estrutura, começando na figura do diretor desportivo.

Bola na RedeQue trabalhos é que, no futebol nacional ou também futebol internacional, considera de referência, ou pelo menos inspirações ou orgulhos no mundo do dirigismo desportivo?

Diogo Boa Alma: Existem muitos e bons exemplos. A nível internacional, o Monchi marcou uma época, sobretudo no Sevilha, o Victor Orta também é uma referência, sobretudo pelo trabalho que fez no Leeds, mas em todos os clubes onde tem passado. Em termos nacionais, acho que há felizmente bons exemplos. O Pedro Alves é um bom exemplo e tem feito bons trabalhos onde tem passado. O Flávio [Soares] é alguém de quem gosto bastante. Está agora no Gil Vicente e já no Arouca tinha feito bons trabalhos. Felizmente, temos cada vez mais profissionais qualificados internamente. Infelizmente, ainda não há em muitos clubes onde essa função seja efetivamente respeitada.

Bola na RedeVemos no futebol nacional uma espécie de nova vaga de treinadores portugueses a chegar à Primeira Liga com destaque. No mundo do dirigismo também tem sido essa uma das características que tem estado a acontecer, têm surgido novos dirigentes com capacidade para mudar o panorama do clube?

Diogo Boa Alma: Acho que sim e acho que têm de aparecer ainda mais. Cada vez mais há formações na área, formações específicas e eu costumo ser muito crítico também relativamente a isto. Autocrítico [risos], é uma crítica aos dirigentes. Digo muitas vezes que os treinadores para chegarem a uma Primeira Liga e para terem uma licença UEFA Pro têm de fazer oito ou 10 anos de formações, os jogadores para chegarem a um patamar profissional também têm 10 anos de futebol de formação e os dirigentes são aqueles que não têm qualquer exigência de formação específica na área. Isso tem vindo a mudar em termos da oferta formativa, não tem vindo a mudar, a meu ver como deveria, em termos de exigência formativa, ou seja, deveria ser uma obrigação que os dirigentes tivessem determinado tipo de formação. Felizmente, para quem quer e para quem procura o conhecimento já existem. Eu tenho orgulho de dar há vários anos as formações para a Federação Portuguesa de Futebol de Dirigentes Desportivos. Nesta última edição fui também o avaliador e na próxima serei também. Para mim é um orgulho fazê-lo, mas eu próprio tirei lá, nas primeiras edições, essa formação específica e já trabalhava na área. Cada vez mais se tem que procurar esse conhecimento. Há mais oferta nesse aspeto e pode-se ter acesso à informação para se melhorar e para se ter melhores dirigentes no futuro.

«Se tivermos efetivamente a função do diretor desportivo como deve ser, os treinadores estão muito mais blindados e teremos muito mais estabilidade a nível técnico».

Diogo Boa Alma
Diogo Boa Alma
Fonte: Arquivo Pessoal Diogo Boa Alma

Bola na RedeFala-se muito, especialmente no caso dos treinadores, da escola espanhola, da escola italiana, da escola portuguesa. No mundo dos dirigentes essa é também uma ambição?

Diogo Boa Alma: Sim. eu acho que o dirigente português, por, si tem algumas características boas. Nós temos, normalmente, facilidade com línguas. Eu, pessoalmente, falo cinco ou seis línguas e acho que temos essa facilidade. Temos facilidade também na adaptação, no lidar com pessoas de diferentes nacionalidades, diferentes crenças religiosas, diferentes hábitos. Temos essa capacidade como povo de nos adaptarmos melhor. Isso tem sido uma das vantagens dos treinadores e eu acho que a nível de dirigentes também o temos. Depois temos um conhecimento mais abrangente. Há pouco tempo, estive na Polónia e falei com alguns dirigentes. O conhecimento é muito de mercados ali à volta, são poucos mercados que se acompanham. Nós temos, por tradição, de acompanhar mais mercados e ser mais proativos na procura de mercados alternativos, por não termos tanta capacidade económica. Isso dá-nos um conhecimento de ligas, que muitas vezes outros não acompanham, porque foi uma necessidade no nosso trabalho por não termos tantos recursos como outros.

Bola na RedeAntes de entrar no mundo dos mercados e nesta diversidade cultural e futebolística, e até porque há muitas pessoas que têm essa questão, qual é que é de facto o papel de um diretor desportivo no clube? É fácil confundi-lo com um presidente, com um treinador, com um scout. Qual é que é de facto o papel e o trabalho que um diretor desportivo faz diariamente e depois também na questão do mercado?

Diogo Boa Alma: É como digo, varia de clube para clube. Eu gosto sempre de dizer o que eu acho que é o modelo ideal, que deveria ser seguido e o que é verdadeiramente a função de um diretor desportivo se levarmos à letra. É quase um CEO para a parte desportiva. No fundo é isto. É a pessoa que está responsável por tudo o que vem daí abaixo, seja o staff de apoio, a parte médica, a parte de scouting. Todas as outras funções que estão ligadas à equipa de futebol estão abaixo do diretor desportivo. O diretor desportivo é que deve, como digo, estar num setor intermédio entre a administração e todas as outras funções abaixo. É ele que deve definir a política desportiva do clube, é ele que recebe instruções de cima sobre orçamento que está disponível e sobre objetivos desportivos e financeiros a atingir e tem de elaborar o plano e pô-lo em prática para atingir esses mesmos objetivos e cumprir o orçamento. Acho que é uma posição de tal importância que, no final da temporada, deve ser feito um balanço entre a administração e o diretor desportivo sobre a satisfação de ambas as partes com a forma como está a decorrer e se foram ou não foram atingidos todos os objetivos que estavam estabelecidos, sejam eles desportivos ou financeiros. Eu gosto de fazê-lo desta maneira e não ter contratos muito longos. É ele [o diretor desportivo] que tem essa responsabilidade de prestar contas. Se tivermos efetivamente a função do diretor desportivo como deve ser, os próprios treinadores estão muito mais blindados e teremos muito mais estabilidade a nível técnico. Não é como atualmente se passa no futebol português, onde o treinador é responsabilizado porque não há uma figura que tenha essa responsabilidade pela política desportiva.

«A Liga Portuguesa é muito bem vista em termos internacionais como uma liga de valorização de ativos». 

Diogo Boa Alma
Diogo Boa Alma Santa Clara
Fonte: Arquivo Pessoal Diogo Boa Alma

Bola na RedeIniciando então a viagem pelos mercados globais, qual é que é neste momento o ponto de situação do mercado português? Já há clubes fora dos três grandes e do Braga a fechar grandes vendas, o mercado interno é cada vez mais caro, há cada vez negócios mais caros entre clubes portugueses. Qual é que é o ponto de situação que é possível fazer do mercado português?

Diogo Boa Alma: Eu acho que o mercado português faz autênticos milagres. Mesmo a nível dos grandes faz, olhando às competições europeias com equipas com outro poderio financeiro, mas sobretudo se excluirmos os três grandes ou quatro, se incluirmos já o Braga, com a realidade financeira, com as receitas que existem faz autênticos milagres na forma como consegue competir ao mais alto nível com o valor de receita que temos. Cada vez mais, Portugal vai perdendo poder de compra e poder de competição com outros campeonatos. Quando nós falamos em termos de Ranking, estamos a disputar o sexto lugar e tentando até aproximar do quinto da França, mas depois em termos de realidade financeira é muito diferente desta realidade. Temos muita dificuldade em competir com mercados emergentes e que têm muito mais capacidade financeira do que a nossa. O da Polónia, por exemplo, já é um dos mercados que tem mais capacidade do que os clubes médios em Portugal. Estamos a falar da realidade média da liga, não falamos dos grandes. Olhando à realidade média, há muitas ligas acima da nossa. Não sei se estaríamos no top-15 em termos de capacidade financeira dentro do mercado europeu para poder competir pela aquisição dos jogadores. Temos de ser realmente muito mais criativos para conseguir ter os resultados que temos e conseguir fazer as vendas que fazemos. Acho que isso é uma das coisas boas que o mercado português tem. Continua a ser bem visto pelas ligas principais para contratarem jogadores e sabem que os jogadores que vêm de Portugal vêm preparados. Os jogadores querem vir para cá porque sabem que é uma rampa de lançamento, e sabem que têm visibilidade. Isso é uma vantagem competitiva que temos, ou seja, a Liga é muito bem vista em termos internacionais como uma liga de valorização de ativos. Mas em termos financeiros temos muita dificuldade em competir com outros mercados.

Bola na RedeUm dos mercados que trouxe mais jogadores para Portugal durante os últimos anos foi o mercado brasileiro, o mercado sul-americano no geral, mas cada vez vemos mais clubes fortes do panorama europeu, os tubarões europeus, a conseguir ir à fonte contratar jogadores muito promissores, que antes faziam uma paragem em Portugal antes de dar esse salto. O que é que esta mudança no mercado trouxe de diferente, quer para o jogador em si, quer também para os clubes portugueses?

Diogo Boa Alma: Dentro da própria América do Sul houve uma mudança muito grande, porque o Brasil, em termos financeiros, deu um boom no futebol. Está completamente acima de qualquer outro país sul-americano. Neste momento nós vemos as competições continentais na América do Sul e as finais são sempre disputadas entre clubes brasileiros. Seja a Copa Sul-Americana, seja a Libertadores, as disputas quase das meias-finais já são só clubes brasileiros. Os argentinos River [Plate] e Boca [Juniors], que tinham tradicionalmente uma capacidade financeira grande e estão agora paulatinamente a recuperar com a mudança também de economia no país, mas tiveram crises financeiras muito grandes que levaram a que o futebol sofresse bastante. O futebol brasileiro evoluiu muito e tornou-se aqui um desafio para nós portugueses. Era um mercado em que tradicionalmente nós contratávamos e cada vez é mais difícil para os clubes portugueses contratarem no Brasil. A Serie A do Brasil, neste momento, paga salários muito acima da realidade portuguesa e de qualquer clube português, mesmo dos grande. É difícil a um grande contratar no Brasil um jogador que seja a revelação da Serie A do Brasil. É praticamente impossível. Depois, a Serie B para a realidade de clubes médios em Portugal também já paga acima do que podemos pagar, portanto tem que se olhar ainda mais ao detalhe e para campeonatos estaduais, divisões inferiores e para jogadores que estouram em idade sub-20 no Brasil e não têm acesso às equipas principais dos seus clubes. Já não é possível contratar os jogadores que são destaque nesses campeonatos. Exige uma criatividade maior. Os outros países sul-americanos pedem também cada vez mais dinheiro de transferências. É mais difícil se encontrar negócios como se encontrava anteriormente porque, como dizias e bem, também os outros clubes europeus das outras ligas, já começam a contratar diretamente na fonte. Existindo mais concorrência, os preços vão subindo e vai tornando mais difícil ao mercado português conseguir atrair esses jogadores.

Bola na RedeE o mercado português tem-se virado muito nos últimos anos para as divisões inferiores espanholas, quer nos clubes da Segunda Liga, quer nos clubes de Primeira Liga com menos dinheiro, quer mesmo nos grandes. Até pela proximidade geográfica e cultural, até certo ponto, é um mercado muito atrativo para Portugal?

Diogo Boa Alma: Sim, de alguma forma é. Em Espanha, a realidade financeira da La Liga também é muito superior à nossa, mas isso faz com que os clubes da La Liga contratem também cada vez mais jogadores estrangeiros e o jogador espanhol tenha menos espaço em muitas equipas. Isto, embora existam equipas que tradicionalmente dão esse espaço. Já nem falamos do Athletic Bilbao onde é obrigatório, mas muitas outras têm, por cultura, muitos jogadores espanhóis. Mas de facto vão sobrando os jogadores formados nas canteras dos grandes clubes, que não têm espaço depois para jogar na La Liga, e acabam por jogar numa 2.ª divisão espanhola, mesmo 1.ª ou 2.ª RFEF, que são 3.ª e 4.ª divisões de Espanha e de onde têm vindo muitos jogadores diretamente para Portugal. São jogadores com base de seleções espanholas de formação, e que depois não tiveram espaço no profissional. Vêem Portugal agora de outra forma porque isso também mudou. Não foi só a forma como nós encarámos o mercado espanhol, mas também como o jogador espanhol passou a encarar a Liga Portuguesa. Há uns anos quando falávamos com jogadores e agentes espanhóis, eles consideravam Portugal quase como uma Roménia ou como um Chipre. Não viam como uma Liga de primeiro mundo e uma Liga que pudesse ter valorização, e hoje já percebem o que é a Liga Portuguesa e o que permite em termos de projeção desses jogadores, portanto têm mais abertura e mais desejo de vir para o mercado português. Foi um mercado que foi muito aproveitado com esta crise de contratar no mercado sud-americano e foi um dos mercados que, em Portugal, se começou a olhar com mais atenção.

«O futuro do futebol estará em África». 

Diogo Boa Alma
Diogo Boa Alma AVS SAD
Fonte: AVS SAD

Bola na RedeOutro destes mercados é o nórdico. Há cada vez mais jogadores do norte da Europa a vir para Portugal. Em que é que o perfil destes jogadores os diferencia para se tornarem tão atrativos?

Diogo Boa Alma: Por um lado a parte financeira, embora os mercados nórdicos já estejam também a começar a ficar mais caros. Cada vez são mais os jogadores que estão a vir e a ter sucesso noutras Ligas e isso vai aumentando o valor do mercado. Foram países que apostaram muito na formação e mudaram muito o perfil de jogador que tinham. Portugal, enfrentou a Noruega e a Dinamarca e viu. Nós chamávamo-lhes os altos e toscos e mudou radicalmente. Fizeram uma grande aposta na formação, e hoje têm jogadores muito técnicos. O perfil físico continua lá e o que o jogador nórdico tem, de ser trabalhador, de ser um jogador de grupo, de ser um jogador de equipa, de ser alguém que cumpre as regras na perfeição, que não é muito individualista, são características que os nórdicos já tinham em si, são povos educados, culturalmente mais avançados em muitos aspectos, e portanto o jogador médio também é um jogador com QI, uma inteligência e uma cultura superior à média nacional. Isso faz com que sejam perfis de que se gosta e que se procuram. Muitas vezes até acabam por ser capitães de equipa, como se passou no Sporting recentemente com o dinamarquês [Hjulmand], e como se passa com o Benfica agora, com o Aursnes a ser o capitão de equipa. São perfis de jogadores de equipa, culturalmente avançados e de que se gosta. Mas depois mudou o perfil futebolístico, porque são jogadores agora muito mais técnicos. Aliam essa capacidade física que já tinham a uma capacidade técnica muito mais evoluída.

Bola na RedeQuais foram os grandes desafios que o mercado saudita trouxe no futebol internacional e no futebol português? Quer por um lado pelo dinheiro que conseguem gastar num jogador, quer depois pensando também numa outra vertente, e, pensando no negócio do Gabri Veiga como exemplo, de um mercado que consegue acolher alguns jogadores muito promissores e que depois acabam inevitavelmente por querer regressar à Europa e poderão estar mais acessíveis do que quando saíram.

Diogo Boa Alma: Acho que houve dois momentos neste fenómeno do futebol saudita. No primeiro momento, realmente só atacaram as grandes estrelas e jogadores já com carreiras consolidadas e praticamente até em final de carreira. Depois tiveram um segundo momento, em que passaram a existir mais vagas só para jogadores sub-21, e passaram a procurar também fazer grandes investimentos em jogadores sub-21 porque tinham essas vagas extra dos estrangeiros para esse tipo de jogadores e conseguiram levar as estrelas emergentes. O Gabri Veiga foi um dos primeiros exemplos, mas depois muitos outros se seguiram. Tivemos em Portugal o Marcos Leonardo, o Roger, que do Braga foi para o Al Ittihad recentemente, o Gustavo Sá teve o ano passado a oportunidade para ir para esse mercado. Eles procuram muito estes jogadores jovens para essas vagas extra de estrangeiros que existem e isso, por um lado, inflaciona o mercado para estes jogadores sub-21. Não é para a realidade dos clubes onde eu tenho passado, porque não tem essa capacidade de compra, mas acho que para os grandes criou esse desafio, porque é mais um competidor por essas estrelas em ascensão. Se eles olharem à parte financeira vão privilegiar a Arábia face ao mercado português e esses grandes. Mas depois virá uma segunda oportunidade, como falavas e bem. Nós sabemos que eles por mentalidade se cansam rapidamente dos jogadores e querem novas estrelas e, no ano seguinte, contratar outros e acabam por libertar estes jogadores, que também já têm a sua vida financeira resolvida e querem voltar à Europa para provar a sua qualidade. O Gabri Veiga já o fez, agora já ouvimos o próprio João Félix a falar da vontade de regressar à Europa no futuro, portanto vai haver este movimento destes jogadores que já foram, passaram lá, já têm outra independência financeira e querem voltar aos grandes mercados da alta roda e ao futebol europeu. Vai ser uma oportunidade para os clubes poderem apanhar novamente estes jogadores em idade ótima, nos seus 24, 25, 26 anos, no seu prime para poderem voltar cá e serem oportunidades de negócio.

Bola na RedeQuais são dois ou três mercados mais alternativos que ainda não são muito explorados em Portugal, mas que poderão ser muito interessantes para os clubes portugueses?

Diogo Boa Alma: Já aproveitámos de alguma forma, mas continuam sub-explorados mercados asiáticos como o japonês e o coreano. Eu falo deles, até no passado, quer com o Morita que trouxe para o Santa Clara, quer o Yuki Soma que veio para o Casa Pia e também é jogador de seleção japonesa. Há esta oportunidade de trazer jogadores de seleção para o contexto português. Claro que é cada vez mais difícil porque nós fomos dos primeiros a fazê-lo, mas a verdade é que hoje já há muitos países europeus que estão a recrutar diretamente lá e inflacionar também os preços, até na própria Premier League, sobretudo nos jovens. Ataca-os cada vez mais cedo para os poder ter nas suas equipas sub-21 e consegue levá-los. São mercados que têm muita qualidade e em que é possível recrutar. O mercado coreano e o mercado japonês são muito interessantes. Depois, obviamente, há mercados alternativos dentro da América do Sul que têm margem, como o Equador, Uruguai, a Colômbia. Depois há o grande filão que ainda existe por explorar mundialmente, que continua a ser África. O futuro do futebol estará lá. Cada vez mais clubes nórdicos têm feito essa aposta de academias em África e têm tirado muitos dividendos daí. Espanta-me que clubes grandes portugueses não o façam e não tenham uma verba do seu orçamento anual para poder investir na formação em África, até porque temos países tradicionalmente ligados a nós e de onde vieram grandes referências do nosso futebol, como o Coluna ou o Eusébio. Não temos um futebol lá feito, não queremos explorar aquele filão que tanto nos deu nos anos 60 e 70 e que deveríamos aproveitá-lo, tendo academias como os nórdicos têm em outros países.

«Não é só o Vitória que precisa de lá estar, é a Liga que precisa de clubes como o Vitória, com adeptos, com tradição e com uma cidade por trás como é Setúbal». 

Diogo Boa Alma
Vitória FC jogadores
Fonte: Vitória FC

Bola na RedeOlhando agora para a carreira como um todo e para alguns anos de experiência. O Vitória de Setúbal é um clube histórico no futebol português. Como é que se olha para a situação atual do clube à luz de tudo o que conquistou no passado e à situação presente muito delicada?

Diogo Boa Alma: Com tristeza acima de tudo. O Vitória, como se diz, não é grande, é enorme. Tenho muito orgulho de ter começado lá a minha carreira, de ter sido vice-presidente do clube. Para mim é com tristeza realmente que vejo o Vitória naquele patamar porque o Vitória é um clube de Primeira Liga, claramente. É um dos maiores clubes nacionais, tem três Taças de Portugal, uma Taça da Liga, inúmeras participações europeias com grandes conquistas no Bonfim, derrotando muitas equipas do mais alto panorama europeu, portanto acho que é um clube que faz falta e que voltará. Está a fazer o seu caminho. Felizmente está a sanear os problemas financeiros que teve. Iniciou o caminho das pedras, começando na Segunda Distrital mas tem vindo a subir anualmente. Já está no Campeonato de Portugal e acredito que muito em breve estará de volta ao lugar que merece, que é a Primeira Liga, porque a própria Primeira Liga precisa do Vitória. Não é só o Vitória que precisa de lá estar, é a Liga que precisa de clubes como o Vitória, com adeptos, com tradição e com uma cidade por trás como é Setúbal.

Bola na RedeEm 2014/15 o clube tinha, e aqui só três exemplos, o Luís Advíncula, o Pelkas ou o SuK, um balneário com jogadores de muita qualidade, internacionais pelos seus países, Quais são os grandes desafios em conjugar jogadores com contextos culturais tão diferentes, com experiências tão diferentes, para praticar o mesmo futebol e pegando nestes três exemplos de qualidade inequívoca, como é que se tem uma primeira experiência no futebol profissional com jogadores com esta qualidade?

Diogo Boa Alma: É um desafio lá está. Aí têm de entrar várias coisas. O diretor desportivo, como falávamos há pouco, uma das muitas coisas é ajudar esse jogador no extra-campo a que se adapte o mais rapidamente possível, perceba a cultura do país, entenda a cultura do próprio clube e tente está criar uma identidade no clube para que seja fácil o acolhimento de jogadores de diferentes nacionalidades e diferentes perfis. E depois, óbvio, a parte técnica. O treinador também tem de estar aberto a isso, tem que saber comunicar com este tipo de jogadores, tem que entender as diferenças culturais que existem, mas isso é hoje o desafio global. Quando nós olhamos, em qualquer país, em qualquer liga, cada vez mais olhamos para os plantéis e vemos jogadores de diferentes origens que estão presentes nesses balneários. É um desafio grande. Na minha visão, e é assim que deve ser em qualquer clube, é importante ter uma base nacional, uma base com uma identidade clara e que facilita o acolhimento de quem vem de fora. Integram-se em algo que existe e não é uma manta de retalhos em que vem cada um de seu lado e não se sabe qual é a cultura que impera no balneário, qual é a cultura do próprio clube. Acho que é muito importante haver essa identidade e essa cultura do clube e isso facilita a integração de quem vem de fora

Bola na RedeOlhando para a base nacional, aparecia neste clube o André Horta. O Ricardo Horta já tinha passado no Vitória e o André Horta começava com os primeiros passos no futebol sénior. Foi um jogador, se calhar, que não chegou a um patamar que muitos imaginávamos, obviamente com uma carreira muito respeitável, muito bem sucedida. Podia-se pensar num nível ainda acima. O que é que o André Horta, em 2014/15, oferecia de indicações a alguém que visse o seu jogo de perto.

Diogo Boa Alma: Os Hortinhas, os dois, eram muito acima na formação. Olhava-se claramente como jogadores que iriam atingir a equipa principal e seriam jogadores para projetar. Antes da idade sénior, já estavam integrados na equipa principal. O Ricardo mais cedo pelos golos, pela posição que ocupava no terreno, teve essa transferência. O André era um jogador muito tecnicista, muito criativo, um jogador com uma personalidade também vincada e era aquele jogador que gostava de assumir o jogo, não se escondia, queria ter bola e eu acho que isso foi mostrando ao longo da sua carreira. Como muitos outros, desta posição e destas características, se calhar veio num tempo diferente do ideal para si. Foi um momento em que o tradicional número 10 é menos utilizado no futebol mundial e ele tem as características de um 10 à antiga, que assume a batuta da equipa em termos ofensivos, que nunca se esconde, pede sempre a bola, organiza e faz o último passo. Foi um jogador que teve o desafio de melhorar em termos de intensidade defensiva e de compromisso defensivo que é hoje exigido no futebol mundial. Se calhar esse desafio fez com que o André não tivesse uma projeção tão grande como nós poderíamos esperar, vendo a sua qualidade técnica e a sua capacidade, mas eu acho que está a fazer uma carreira absolutamente fantástica de qualquer forma, sempre no mais alto nível. Como digo, prejudicado um pouco pelas suas características e pela posição que menos treinadores hoje utilizam.

«É difícil atrair os jogadores para deixarem as famílias ou levarem as suas famílias atrás para ir para a ilha para jogar na Segunda Liga». 

Diogo Boa Alma
Diogo Boa Alma Santa Clara
Fonte: Arquivo Pessoal Diogo Boa Alma

Bola na RedeDepois foram seis anos no Santa Clara, se não falham as contas e um trabalho para os manuais. Desde logo, quais é que são os grandes desafios de trabalhar nos Açores, uma ilha isolada do continente, com viagens de duas em duas semanas muito longas, eventualmente uma capacidade diferente de atrair jogadores e seduzir os jogadores, com uma atração de charme diferente? Quais são os grandes desafios de trabalhar nos Açores e no Santa Clara?

Diogo Boa Alma: Quando cheguei, os desafios eram ainda maiores, porque o clube estava na Segunda Liga. Eu cheguei a meio de uma época, porque quando o presidente me convidou, estavam a meio da época e abaixo da linha de água, com a possibilidade de cair da Segunda Liga. Era quase um final para o clube, porque com os problemas financeiros que tinha, uma descida da divisão implicaria um corte grande das verbas que recebia do governo e das receitas que iria ter e com as dívidas, provavelmente determinaria o fim da sobrevivência do clube. O desafio era enorme porque numa Segunda Liga com um orçamento muito baixo, atrair jogadores para irem para a ilha era bem mais difícil. A competição com qualquer clube do continente que oferece o mesmo valor ou mais, é extremamente difícil. É difícil atrair os jogadores para deixarem as famílias ou levarem as suas famílias atrás para ir para a ilha para jogar na Segunda Liga. Depois com o tempo, o trabalho que foi feito, o subir à Primeira Liga e com o projetar de jogadores, os jogadores começaram a ter uma abertura muito maior porque perceberam que era um projeto sólido e que estava a catapultar muitos jogadores para grandes clubes nacionais e estrangeiros. Viam que, quem fosse para lá, se iria muito provavelmente promover e conseguiu dar o salto a seguir, e começou a facilitar. Se a roda começou a girar, passou a ser bem mais fácil atrair os jogadores para lá.

Bola na RedeTenho aqui três jogadores separados, bastante evidentes, e já deves também estar cansado de falar deles, mas todos eles com origens muito diferentes e começava exatamente por aí. O Zaidu vindo de divisões inferiores em Portugal, o Fábio Cardoso vindo com formação de grande, o Morita do mercado japonês. É este o grande desafio para um diretor desportivo?

Diogo Boa Alma: Pegaste em três exemplos que são paradigmáticos dos três casos que nós olhávamos no Santa Clara para conseguir recrutar. Era divisões inferiores. O Zaidu é um desses exemplos, mas o Nené é outro exemplo que foi depois para a Polónia, campeão no Jagiellonia e que fez uma carreira fantástica fora. Vieram de divisões inferiores e vários foram os jogadores que recrutámos em divisões inferiores. O Fábio Cardoso olhando a outro nicho de mercado que era dos jogadores formados nos grandes e sem espaço nos grandes. O Fábio um pouco diferente porque chegou a ter a afirmação no futebol sénior e chegou do Glasgow Rangers, onde tinha tido até uma boa transferência boa, mas teve azar, partiu o nariz, troca de treinador, etc e perdeu o espaço. Voltou e nós tivemos vários jogadores deste perfil, formados nos grandes e jogadores de seleções jovens, mas que depois não tinham aproveitamento. Tivemos o André Ferreira, hoje guarda-redes do Moreirense, e N exemplos de jogadores formados nos grandes que fomos recrutar. O terceiro eram essas tais ligas alternativas para onde nós olhávamos. Foram os três perfis que íamos procurando, jogadores de divisões inferiores, jogadores formados nos grandes e com passado em seleções jovens, mas sem espaço e depois nas ligas estrangeiras com um pouco mais de criatividade para se poder contratar. Isso é um desafio para o diretor e para toda a gente, de podermos integrar estes perfis diferentes dentro da mesma lógica e da mesma cultura. No Santa Clara havia uma cultura muito bem definida, havia um espírito do grupo, havia uma identidade de clube muito bem estabelecida, que demorou tempo a construir. Claramente nos anos de Primeira Liga, nos três anos que passei na no clube, já tinha essa cultura instituída e era muito fácil a quem chegava perceber o que era o Santa Clara e integrar-se rapidamente.

«O Zaidu é um jogador que qualquer treinador quer ter no seu grupo, porque todos os jogadores o adoram». 

Diogo Boa Alma
Sacko seria um enorme reforço para a lateral direita do SL Benfica
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Bola na RedeO Zaidu depois foi transferido para o FC Porto e já é um dos mais veteranos do plantel, no sentido de continuidade no Dragão. Foi muitas vezes tratado como um jogador da confiança de Sérgio Conceição, e obviamente que o era, mas neste momento, e agora está lesionado, mas era o titular do Francesco Farioli. O que é que o jogador tem que consegue fazer com que seja tão importante com vários treinadores, em vários grupos diferentes e que consiga ter este rendimento mesmo com todas as limitações que tem e as mais-valias, porque as duas coisas estão sempre lado a lado?

Diogo Boa Alma: O Zaidu é muitas vezes olhado como o patinho feio. Não pelos adeptos do FC Porto têm um carinho muito grande por ele, mas muitas vezes pelo adepto em geral do futebol, que menospreza as características do Zaidu. O Zaidu, para já, no grupo é fantástico. É um jogador que qualquer treinador quer ter no seu grupo, porque todos os jogadores o adoram. É um profissionalão, é um exemplo de profissional sempre disponível a ajudar a equipa em qualquer momento, disponível para qualquer função. Quando o fui ver, fui ver o Vizela x Mirandela e ele estava a jogar a central, com o Ricardo Mangas a jogar a lateral esquerdo e com o Rui Borges a treinador. Era central na altura e fez a sua carreira praticamente toda como lateral, mas se o quiserem colocar a central, joga e com competência. Pode fazer várias funções no campo e é alguém que se entrega à missão tática que o treinador lhe dá. É realmente um jogador com um perfil físico muito diferente, características extraordinárias desse ponto de vista e depois é um jogador de equipa. Não me admiro nada, que todos os treinadores gostem dele. De início até pode não entrar, e eu acho que aconteceu isso com o Farioli, que vem com a ideia de que é o patinho feio. Vem com essa ideia do jogador e, ao trabalhar com ele, acaba por conquistar o espaço. Ele vai naturalmente jogar em qualquer equipa onde esteja, porque vai ganhar o seu espaço. É um jogador que não se perturba com o facto de ser olhado como o segundo ou o terceiro para a posição. Podem olhar para ele assim inicialmente e ele vai continuar a trabalhar sempre igual e vai acabar a jogar, isso é certo.

Bola na RedeDepois, sobre o Morita, parece-me que foi um jogador sempre muito subvalorizado durante todos estes anos. Acho que neste momento, e pegando da percepção que se vai ouvindo de muitos adeptos do Sporting e de muitas pessoas ligadas ao futebol, é se calhar o jogador que mais saudades deixa pela dificuldade em encontrar uma réplica ou um substituto com as suas características. É um jogador muito inteligente, com muita capacidade para ter a bola. Quais é que são as características que fazem do Morita um jogador tão distintivo?

Diogo Boa Alma: É um pouco isso que falavas. É a cultura tática e a inteligência futebolística que ele tem. É um jogador que vê coisas que os outros não veem. Antes de receber a bola, nós dizemos que faz o scan. Vai mapeando, gira muito o pescoço. Quem estiver atento ao Morita e o veja sem bola, ele está sempre a girar o pescoço para saber o que é que está nas costas. Quando vai receber a bola, ele sabe de onde vem a pressão, por isso sabe para que lado ele tem de receber para fugir a essa pressão. É um jogador que dá sobretudo o que eu noto que falta no Sporting agora, e nenhum jogador é capaz de fazer o que ele fazia, e é a temporização. Ele conseguia pedir bola, atrair a pressão e soltar no momento certo. A maior parte dos médios aceleram o jogo constantemente e muitas vezes não é o momento de acelerar. É o momento de ficar com a bola, esperar para que se arranje o espaço, pelo sair de um jogador na pressão. É aí que vai abrir o espaço para a bola entrar e para começar a jogada. Se nós fizermos tudo a 100 acaba por não dar tempo do adversário se desposicionar. O Morita é muito inteligente neste aspeto. Sabe exatamente quando é que tem de acelerar, quando é que tem de prender um pouco mais a bola para atrair o adversário e abrir o espaço para a bola entrar depois, movimenta-se constantemente, dá sempre uma solução, uma linha de passe à sua equipa, defensivamente é muito forte. Mas depois também tem capacidade, e viu-se sobretudo com o Ruben Amorim, que lhe dava muito mais liberdade ofensiva, para aparecer muitas vezes também na área para finalizar. É um médio completo. Acho que a inteligência dele e o conhecimento do jogo são aquilo que mais destaca.

«Precisa de estabilidade e precisa de um bom recrutamento. Acho que o Vitória SC nos últimos anos tem falhado essencialmente nesse ponto».

Diogo Boa Alma
Adeptos do Vitória SC
Fonte: Filipe Oliveira / Bola na Rede

Bola na RedeDepois deu-se uma passagem curta pelo Vitória SC. Quais são os grandes desafios de um clube que é, na prática, uma representação de uma cidade e vivido de forma tão fervorosa?

Diogo Boa Alma: O Vitória é um gigante. Tenho pena de ter estado pouco tempo nessa primeira passagem e muita pena de agora, por pouco, neste verão, não se ter concretizado o regresso. É um clube que eu admiro bastante e um dos clubes por quem desde miúdo mais fascínio tinha e onde mais queria trabalhar. É realmente um clube que tem uma cidade por trás. As pessoas só vivem Vitória, não existe outro clube em Guimarães as pessoas só querem vestir camisolas do Vitória e pensar no Vitória sempre. É um clube que tem um desafio gigantesco, sobretudo por más gestões que foram sentidas ao longo dos anos, por dificuldades financeiras que o clube neste momento atravessa, mas eu acredito que é possível dar a volta a isso com trabalho, com uma formação boa como o Vitória tem neste momento, e surgem cada vez mais jogadores na equipa principal a destacar-se, e que vão produzir também vendas importantes para que o clube possa sanar essa parte financeira. Precisa de estabilidade e precisa de um bom recrutamento também. Acho que o Vitória nos últimos anos tem falhado essencialmente nesse ponto. A sua formação tem alimentado bem a equipa principal, tem feito o seu papel nesse aspeto e dado a base para o Vitória ter uma identidade e ter jogadores para garantir algum sucesso desportivo. Depois o recrutamento tem claramente de melhorar bastante para que o Vitória esteja no patamar que merece estar.

Bola na RedeE olhando para a atualidade, até à luz dessas eleições recentes, à diferença mínima de dois votos que mudaram tudo. Perspectivas diferentes, maneiras diferentes de encarar o clube. O que está a acontecer no Vitória para vermos um clube tradicionalmente nos primeiros lugares da tabela, estar com resultados que fazem com que o clube esteja nos últimos lugares da Primeira Liga?

Diogo Boa Alma: É um mau arranque de temporada, claramente. É um mau arranque do Vitória. É difícil para mim falar vendo de fora e tendo, de alguma forma, estado envolvido nessa questão eleitoral recente. É ingrato falar sobre isso e não quero, obviamente, ser aqui não conhecendo o por dentro. Agora, é claramente um mau arranque do Vitória. A mim deixa-me triste por um lado e espantado por outro. Acho que a base que existia na formação e que já vinha com vários jogadores para a equipa principal na época passada, era uma base boa que permitia olhar para esta época com muito otimismo. Recrutando jogadores certos para os lugares certos que o Vitória precisava, acho que o Vitória tinha todas as condições para fazer um grande campeonato este ano. Espero e desejo que ainda consiga dar a volta a esta situação e terminar a época como merece.

Bola na RedeVoltando ao passado e sabendo que o período no clube de Guimarães foi muito reduzido, no plantel estavam obviamente muitos jogadores jovens que cresceram, mas também o Ricardo Quaresma, um histórico do futebol nacional, campeão europeu, etc. Não é preciso estar aqui a fazer grandes análises ao currículo. O que um jogador com estas características e com esta experiência, com este peso histórico, acrescenta a um clube e, diretamente, como é que se trabalha com o Ricardo Quaresma? Quão fácil é trabalhar com ele?

Diogo Boa Alma: O sucesso dos clubes vem muito de uma mescla entre jogadores mais jovens e jogadores mais experientes. O Ricardo tem um currículo extraordinário, uma carreira fantástica atrás de si e era um jogador que podia ajudar e complementar ali muitos jovens que estavam a aparecer naquela altura na equipa do Vitória, como o [Tomás] Handel o André Almeida ou o Dani Silva. Eram muitos jogadores que estavam a aparecer da equipa B do Vitória e que fizeram depois o trajeto na equipa principal. Foi muito pouco tempo, foi um mês e meio. Deu-me para criar grandes ligações com o Pepa e a equipa técnica, e estamos juntos aqui algumas vezes em Lisboa, agora que aqui estão. Ficou uma ligação grande com vários capitães de equipa, como o [Bruno] Varela ou o Tiago Silva, jogadores que eram marcantes no Vitória. O Ricardo, obviamente, era mais um elemento importante daquela equipa e também foi um prazer trabalhar com ele, com um jogador que teve esse currículo. Foi muito pouco tempo.

«Na altura disse-lhe, e o Clayton Silva ficava triste, que eu torcia contra o sucesso dele para que ele pudesse voltar a estar disponível». 

Diogo Boa Alma
Clayton Silva
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Bola na RedeDepois, no Casa Pia, uma das grandes questões do clube é a questão do estádio e o handicap que é jogar em casa, fora de casa, em Rio Maior. Qual é o peso que esta questão toda traz para o trabalho diário da equipa e qual é a grande influência que tem no grupo de trabalho?

Diogo Boa Alma: É assim, o Casa Pia acaba por, no seu dia-a-dia, fazer a sua base ali em Pina Manique e trabalha normalmente. Tem todas as condições, utiliza o relvado principal do estádio de Pina Manique. Tem a dificuldade, realmente, de nunca jogar em casa. Objetivamente, é uma equipa que faz 34 jogos fora de casa, não tem os seus adeptos próximos, embora a ligação a Rio Maior tenha sido bem feita, se tenha mobilizado a comunidade lá e tenha um apoio significativo, mas tem menos casapianos a poder estar presentes nos seus jogos e a apoiar a sua equipa. Tem a dificuldade de não treinar no estádio onde joga. Era importante, pelo menos, fazer um treino. Eu sei que eles este ano fizeram isso uma semana também, nós também chegámos a experimentar uma ou outra vez ir lá treinar para adaptar ao relevado, mas a verdade é que é muito difícil em termos de logística, porque é mais de uma hora que se demora de autocarro para ir e depois outra para voltar. Não torna prático para os jogadores e para toda a gente fazer uma sessão de treino lá. Nem sequer essa adaptação ao relvado, ao campo, o ter a vantagem de jogar conhecendo melhor o relvado do que o adversário, nem sequer isso tem. Obviamente é desvantajoso ter de fazer sempre o estágio também nos jogos em casa. Cada vez mais há clubes que vão evitando os estágios, sobretudo em casa, pela saturação que é para os atletas tanto estágio, tantas horas, tantos dias de hotel. O Casa Pia, praticamente, é obrigado a fazê-lo, porque senão terá uma grande viagem antes do jogo para poder jogar. Não faz sentido. São vários os desafios nesse aspecto.

Bola na RedeOlhando agora ao mercado e aos jogadores trazidos e que chegaram ao Casa Pia, é impossível não olhar para o Diogo e pensar no Clayton Silva. Ele depois acabou por voltar a Portugal mais tarde, transferências de milhões, chegou a ser associado a clubes grandes. O que é que torna este jogador tão especial?

Diogo Boa Alma: O Clayton é engraçado. Eu tenho o hábito de ir ver os Campeonatos Estaduais ao vivo no Brasil. Vou sempre. O Clayton eu vi-o no Campeonato Estadual Goiânia, num dérbi de Goiânia entre o Vila Nova e o Atlético Goianiense em casa do Vila, onde ele jogava. É um jogo onde acaba por fazer golo, mas não foi pelo golo. Faz uma extraordinária exibição, e eu na altura não tinha clube. Recordo-me de dizer “Eu vou levar este jogador para onde for”. E depois entrei, curiosamente, no Vitória de Guimarães, e foi um dos jogadores que eu falei logo com o Pepa para o ano seguinte. Disse “Temos de contratar aqui um avançado”. Depois eu acabo por sair do Vitória e acabo por entrar no Casa Pia e o Clayton entretanto já tinha sido emprestado pelo Vila Nova ou Coritiba para ir jogar a Serie A. Felizmente, e eu brinco porque ele tem hoje o sucesso que tem e a carreira que tem, e eu posso dizer-lhe isto. Na altura disse-lhe, e ele ficava triste, que eu torcia contra o sucesso dele para que ele pudesse voltar a estar disponível, porque se tivesse sucesso naquele empréstimo ao Coritiba, já era um jogador que eu não conseguia trazer para Portugal. Felizmente, jogou muito pouco, teve muito pouco tempo no Coritiba, e conseguimos contratá-lo ao Vila Nova. Ele volta dentro do empréstimo do Coritiba, que não exerce a opção de compra, e o Vila Nova acaba por negociá-lo com o Casa Pia. É um jogador moderno, um avançado moderno. É um jogador que é muito aguerrido a pressionar qualquer defesa, dá trabalho a uma defesa inteira porque vai pressionar, tem capacidade física para aguentar os 90 minutos a alta intensidade. Depois, é um jogador que tem o defeito de ter chegado muito tarde ao futebol profissional, mesmo ao próprio futebol de campo, porque ele jogou futsal até muito tarde. Começou a jogar no Globo, um clube pequeno, ali de Minas Gerais. Começou a jogar com 19 anos em futebol de campo, e muito rapidamente, em três anos, vai até à Serie A ao Coritiba e vem depois para Portugal. Quando chegou, era um jogador que ainda tinha muitas deficiências de fundamentos. Ainda lhe faltava muito trabalho e muita escola. Não tinha tido formação, teve formação de futsal, não teve formação de futebol de campo. Não teve também formação a nível pessoal para o profissionalismo que é exigido a um jogador. Eu tenho uma relação muito próxima com ele. Ele chama-me Paizão e eu tenho muito orgulho nisso, porque eu sei que o ajudei muito no extracampo, para ele entender o que é a exigência de um profissional de futebol. Ele não tinha essa experiência, não tinha passado por isso, não tinha o que muitos têm quando fazem a formação num clube grande e percebem o que é a exigência de um jogador profissional. Ele não tinha nada disso. No seu jogo dentro de campo, também ainda tinha muitas falhas nesses fundamentos, mas tinha um potencial… Via-se que era um diamante em bruto que ali estava. Segurei-o muitas vezes, até por algumas ideias que o clube teve por alguns comportamentos dele. O clube queria cortar a cabeça ao Clayton e segurei-o muitas vezes porque sabia que era um jogador que tinha tudo para triunfar e fico muito feliz com o que ele conseguiu atingir na sua carreira. Acredito que ainda tem muito mais para dar. Espero que lhe deem o tempo de utilização que não lhe deram até agora no Olympiacos para ele mostrar a sua capacidade, porque é um jogador para jogar num patamar muito elevado.

«O Jota Silva é um exemplo de que as carreiras não são todas iguais, não são todas lineares, não tem de se fazer a formação ao mais alto nível para se poder chegar lá».

Diogo Boa Alma
Diogo Boa Alma
Fonte: Casa Pia

Bola na RedeOlhando até pela relação ao Vitória, está o Beni Mukendi. Onde é que um jogador com um perfil físico tão interessante consegue conjugar toda a dimensão técnica, principalmente a nível de pausa que consegue dar ao jogo, de pensamento e estrutura que consegue dar ao jogo? São estas as mais valias do Beni Mukendi?

Diogo Boa Alma: Sim, o Beni tem características físicas incríveis também, mas depois é um jogador tecnicamente muito evoluído. Às vezes, e eu falava muito com ele e os treinadores, sobretudo, batiam muito nesta tecla com ele, ele às vezes até exagera pela capacidade técnica que tem. Às vezes poderia soltar a bola mais rapidamente, mas a gente tem sempre a sensação que ele vai perder e não perde, porque a verdade é que ele depois consegue sair de caminhos apertados em que se coloca muitas vezes. Já melhorou muito e evoluiu muito a esse nível, de aprender a soltar mais rápido a bola, apesar de ter tanta confiança em si que não a vai perder. É um grande recuperador de bolas também, com muita capacidade para o fazer. Tem ainda aspetos a melhorar e acho que ele tem vindo a melhorar para ser um jogador capaz de utilizar mais a meia distância para ter mais golos. Cada vez se pede mais isso aos médios, chegar à área e poder finalizar. Acho que ele tem de meter mais isso no seu jogo. O passe longo também o foi melhorando e tem margem para melhorar. Em espaços curtos e depois tudo o que é tarefas defensivas e com bola, em tudo o que é curto, o Beni é muito forte, muito acima da média. No restante, acho que ele tem margem para evoluir porque é um jogador que também é muito inteligente e consegue perceber rapidamente o que lhe é pedido. Tem margem para evoluir ainda bastante.

Bola na RedePerguntava também sobre o Jota Silva, se não me engano acho que já estava no clube.

Diogo Boa Alma: Eu não me cruzei com o Jota. Eu saio do Vitória e entro no Casa Pia e o Jota faz um movimento inverso [risos], ou seja, o Jota subiu com o Casa Pia e começa a temporada seguinte no Vitória de Guimarães e eu começo a temporada no Casa Pia, que tinha acabado de subir. Mas é um jogador que admiro bastante, um jogador que é um exemplo também de superação. É um exemplo de que as carreiras não são todas iguais, não são todas lineares, não tem de se fazer a formação ao mais alto nível para se poder chegar lá. Pode-se vir de divisões secundárias e subir a pulso. O Jota conseguiu fazê-lo e a sua capacidade de trabalho, e toda a gente que priva com ele, muita gente ali no Casa Pia e no próprio Vitória com quem fui falando sobre o Jota e a sua capacidade de trabalho, é inacreditável. Depois tem golo, que é o que se pede cada vez mais a um avançado. Eu diria que ele nem é um extremo, nem é um ponta de lança, ele é tipicamente um avançado. Pode fazer qualquer posição na frente porque tem golo e é um jogador que merece tudo porque toda a gente fala muito bem dele, em termos pessoais e em termos profissionais.

«O Pedro Lima é um jogador com mais capacidade para ter bola e ditar os momentos do jogo e os ritmos do jogo».

Diogo Boa Alma
Diogo Boa Alma AVS SAD
Fonte: AVS SAD

Bola na RedeTerminava agora a viagem pela carreira no AVS. Vou usar a expressão, obviamente não é literal, mas estava praticamente condenado à descida. Era muito complicado que não se viesse a confirmar e foi o que acabou por acontecer, apesar de uma melhoria clara na segunda metade da época, também com o João Henriques como treinador, com algumas mudanças no mercado. Como se deu toda esta ligação ao clube e como foi vivido o trabalho dentro de um contexto tão delicado e tão difícil?

Diogo Boa Alma: Foi um desafio muito interessante. Eu chego à 9ª ou 10ª jornada, não me recordo, com a equipa com um ponto. Era uma missão praticamente impossível e eu sabia-o, mas o desafio foi realmente interessante. Era dar a volta a um contexto muito difícil, com um plantel extremamente extenso, com mais de 30 jogadores. Era difícil para trabalhar, mesmo para os técnicos. Era um desafio neste aspeto, porque são demasiados jogadores para se ter numa sessão de treino. São muitos jogadores a ficar de fora. Eram 20 convocados e ficavam mais de 10 jogadores de fora a cada fim de semana. Isso gerou muitos problemas também no grupo, o que é normal. Em janeiro, o maior desafio até foi encurtar o grupo, mais do que contratar. Tinhas depois uma limitação muito grande, porque já tinham sido utilizadas as 30 vagas e já só poderias fazer cinco substituições tendo em conta os regulamentos da Liga. Só poderiam entrar cinco jogadores no mercado de janeiro e foi esse o limite que nós utilizámos. Precisaríamos de mais, se fosse para poder realmente dar a volta ao contexto desportivo. Era praticamente um milagre que era exigido. Terminando a primeira volta com quatro pontos, a segunda volta tinha de ser uma coisa estratosférica para o clube se manter na Primeira Liga. Não foi, mas foi por pouco. Dos cinco reforços, ainda tivemos o azar do ponta de lança [Antoine Baroan], se lesionar no primeiro jogo, em Alvalade para a Taça. Entra, joga 20 minutos e parte a perna. Era uma das posições em que mais carência no plantel e nós só tínhamos uma vaga para contratar. A contratação não foi reforço, praticamente. Conseguimos acabar por reforçar a baliza, o lateral direito, foi depois um extremo e ir buscar o Roni [Moura] que foi importantíssimo como médio defensivo. Foram esses os quatro reforços que acabámos por ter. Depois, o trabalho fantástico que o mister João Henriques e a sua equipa técnica fizeram, fazendo acreditar sempre o grupo e percebendo que tínhamos de dar uma imagem completamente diferente, independentemente da classificação no final. Foi uma segunda volta muito, muito boa. Acabamos por fazer 17 pontos, se não estou em erro, é o recorde do clube na Primeira Liga numa volta. Era uma pontuação que daria tranquilamente para uma permanência se fosse replicada e se fossem as duas voltas ao mesmo nível. A equipa acabou em grande nível, com os últimos seis jogos sem perder, jogando com o FC Porto Sporting e Vitória de Guimarães. A verdade é que ganhou ao FC Porto, empatou com o Sporting e Vitória, com uma derrota nos últimos 10. A equipa estava realmente muito diferente, muito sólida e valorizou também os jogadores. Foi importantíssimo porque todos eles estavam desvalorizadíssimos na altura em que pegámos no projeto, e a verdade é que se conseguiu. O mais visível foi o Pedro Lima para o Sporting. Uma equipa que desce de divisão e consegue vender um jogador a um grande é muito difícil e muito raro. Não me recordo ter acontecido outra vez. Além dele, muitos outros deram o salto, como deu o Devenisch para a França, como deu o Tunde, como deu o Gustavo Mendonça. Foram vários os jogadores que se valorizaram. Deu-se realmente uma imagem totalmente diferente, fez-se uma boa segunda volta, valorizou-se ativos, deu-se ao clube capacidade para ter a época deste ano com o orçamento pago e sem qualquer necessidade de o investidor ter de colocar o dinheiro que seja este ano. Tem a época e o orçamento garantido através das vendas que foram feitas, portanto, tem o futuro garantido nesse aspecto.

Bola na RedeHá bocado falávamos do Morita e da saída do Sporting. O Pedro Lima não é um perfil exatamente igual, obviamente tem muitas diferenças, mas parece-me ter uma semelhança na forma como consegue ser um jogador capaz de ter a bola e de pensar o jogo a partir da posse de bola, que é se calhar a grande lacuna do início da época do Sporting. O que o Pedro Lima pode oferecer ao Sporting e quais é que foram as bases do trabalho com ele no AVS?

Diogo Boa Alma: O Pedro Lima é um miúdo extraordinário e como pessoa tem uma formação diferente. Já tive a oportunidade, aqui em Lisboa, de estar com a família dele e percebe-se o porquê de ele ser assim, porque tem uma base familiar também muito boa. Depois, é um miúdo com formação do mais alto nível. Fez a formação no Palmeiras e sempre como destaque do Palmeiras. No Brasil era um primeiro volante, como dizem, é um cabeça de área ou um trinco, como nós falamos em Portugal. Era um médio defensivo porque o Palmeiras tinha sempre 70% ou 80% de posse de bola na base. É de uma geração muito boa que ganhou a Copinha com o Endrick, com o Kaique, que hoje está ao lado dele no Sporting, o Gabriel Silva do Braga. São muitos jogadores de qualidade dessa formação do Palmeiras. Ele era o médio defensivo dessa equipa, porque pautava o jogo. Era uma equipa que tinha muita posse de bola e ele era o médio defensivo para iniciar todas as jogadas e as construções da equipa. É muito inteligente, tem uma capacidade técnica acima da média, e falavas e bem, eu acho que ele pode oferecer isso ao Sporting: uma maior capacidade de pausar o jogo, ler o jogo, construir, não ser tanta vertigem como, neste momento, o meio campo do Sporting apresenta. Um jogador com mais capacidade para ter bola e ditar os momentos do jogo e os ritmos do jogo. Um jogador que depois de ser esse 6 no Palmeiras, veio para a Europa jogar quase como 10 e mesmo no próprio Aves inicia como 10. Depois, o mister João Henriques, e bem, colocou-o a jogar como 8, e eu vejo-o como um 8 realmente moderno, com capacidade de fazer ligação entre setores. Ele tem de ver o jogo de trás. Sendo um 10, isso não dá, ele vai jogar de costas e tira-lhe muito do bom que ele tem, que é ver o jogo e começar a pôr a equipa a jogar e a coordenar os lances ofensivos da sua equipa.

«O FC Porto, na minha opinião, tem o melhor mercado pela dificuldade que é em Portugal uma equipa campeã manter todos os seus jogadores». 

Diogo Boa Alma
FC Porto Jogadores
Fonte: Duarte Rêgo / Bola na Rede

Bola na RedeOlhava agora para o mercado de verão, principalmente no cenário português, e tinha aqui um desafio. Qual foi o clube que teve o melhor mercado?

Diogo Boa Alma: Difícil. É difícil dizer. [risos] É difícil olhar porque são perspetivas diferentes. O Sporting mudou muito, e eu acho que faz um grande mercado, mas que vai demorar o tempo normal da revolução que teve. As pessoas tenderão a olhar para o mercado do Sporting menos bem, mas eu acho que o Sporting faz um muito bom mercado. Depois uma perspetiva do Benfica e do FC Porto muito mais de estabilidade e de manutenção. O principal do mercado foi manter os principais jogadores e reforçar pontualmente. No caso do Benfica, na minha opinião, o grande reforço que tem é o treinador. É um treinador que eu admiro bastante e que acho que fará muita diferença no futebol português e no Benfica. No FC Porto, acho que foi claramente a manutenção de quase todos os jogadores, conseguindo fazer esta valorização do [Rodrigo] Mora e mantendo tudo o resto. Pela estabilidade, seria o FC Porto, eventualmente, até a fazer o melhor mercado por isto. Consegue manter uma equipa campeã, e é difícil em Portugal resistir a estas ofertas, não perder um jogador como o Froholdt, que foi fundamental no ano passado, conseguir mantê-lo. Acho que é um mérito muito grande. Normalmente olha-se e o melhor mercado é quem contratou mais e é quem contratou melhor, mas o FC Porto, na minha opinião, tem o melhor mercado pela dificuldade que é em Portugal uma equipa campeã manter todos os seus jogadores. Manter o Diogo Costa e o Froholdt, acima de tudo, acho que é fantástico.

Bola na RedeComo é possível uma equipa manter o Diogo Costa, um dos melhores guarda-redes no mundo, tantos anos consecutivos?

Diogo Boa Alma: Muito mérito do FC Porto. Eu acho que beneficia de ser uma posição específica, porque realmente é uma posição que levanta dois problemas ao Diogo para ter uma carreira numa liga e num grande clube como ele merece. Não que o FC Porto não o seja, que obviamente é, mas numa liga mais importante e num clube que possa olhar para a Liga dos Campeões com a ambição de a vencer. O Diogo tem dois desafios e só isso é que permite que o FC Porto o mantenha. É preciso que a vaga esteja aberta e nem sempre está. Esses grandes clubes estão servidos de guarda-redes e acaba por não ir. A segunda questão são os valores financeiros que são envolvidos nas transferências de guarda-redes, e que tendencialmente são mais baixas. Obviamente que o FC Porto não se vai desfazer de um ativo como o Diogo Costa por valores baixos. Portanto, é um desafio encontrar um tubarão que precise de um guarda-redes para titular e que esteja disposto a pagar o montante que o FC Porto pede pelo Diogo.

«O Issa Doumbia é um grande reforço que o Sporting conseguiu». 

Diogo Boa Alma
Issa Doumbia, Sporting
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Bola na RedeE voltando às perguntas mais rápidas, qual o melhor reforço deste verão?

Diogo Boa Alma: Há vários bons reforços, mas eu acho que não devemos fugir. Eu acho que o [Issa] Doumbia é um grande reforço que o Sporting conseguiu. As pessoas ainda não viram todo o Doumbia e tem o desafio de se adaptar a uma realidade diferente e a uma forma de jogar diferente. Acho que é uma grande contratação porque é um jogador com um potencial enorme e que era desejado por muitos clubes.

Bola na RedeOlhando para outras realidades, fora dos principais clubes, qual é que foi o melhor reforço que tenha passado um bocadinho fora dos radares e dos holofotes?

Diogo Boa Alma: Eu gosto particularmente, e eu até comentei isso com o Luís Pinto, o treinador do Gil Vicente. Eu vi há pouco tempo no Brasil, fui ver um jogo do Avaí e gostei muito de um avançado que o Gil Vicente contratou. Acho que é uma excelente contratação. É um jovem, é um jogador que provavelmente ainda não será neste que terá todo o rendimento porque terá de se adaptar. É um jogador que era do Athletico Paranaense, ainda com 19 ou 20 anos, mas já estava a jogar no Avaí na Serie B Brasileira e ia tendo algum destaque, que é o Wallace. Eu acho que o Wallace é um jogador com tudo para dar certo no futebol português. É um perfil, um pouco como falávamos do Clayton. Acho que é um avançado com esse tipo de características e que tem tudo para dar certo no futebol português. Também gosto muito, e já o vi ao vivo agora no Alverca, do médio Ian Luccas, que é um médio que passou no Cruzeiro. Acho que é um jogador também com muita capacidade.

Bola na RedeE olhando ao outro lado da moeda, qual é que foi a melhor venda em Portugal este verão?

Diogo Boa Alma: Eu acho que a melhor venda terá de ser o Gustavo Sá. Pelos valores desenvolvidos, por ser um clube que nunca tinha feito vendas desta dimensão, já tendo feito muitas e revelado jogadores muito importantes para o futebol português e europeu, fazer uma venda deste montante com o Gustavo Sá, um miúdo vindo da sua formação, acho que é a venda que merece o maior destaque.

«Acho que vamos ver uma seleção que vai dar mais prazer aos portugueses ver jogar independentemente dos resultados finais».

Diogo Boa Alma
Portugal Jogadores português
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Bola na RedeEstá a iniciar o ciclo de Jorge Jesus, e já lá vamos ao caso com o Cristiano Ronaldo, mas antes disso, quais é que são os grandes desafios para Portugal desta mudança para um treinador tão diferente e tão singular no panorama português, como é o Jorge Jesus?

Diogo Boa Alma: Eu sou particularmente adepto do futebol das equipas do Jorge Jesus. Eu tenho uma visão um pouco diferente da seleção nacional, claro que quero que a seleção vença, mas sobretudo tenho orgulho quando a seleção joga um bom futebol e é elogiada pelo futebol que joga. Recordo-me dos Euros e Mundiais que assisti, e acho que o Euro que me deu mais prazer foi o Euro 2000, que apelidavam de sexy football, porque Portugal jogava realmente um grande futebol e dava muito gosto vê-lo. Portugal perdeu nas meias-finais. Claro que toda a gente fica satisfeitíssima e o maior orgulho que temos é o Euro 2016 e a conquista, mas deu-me muito mais gozo ver o Euro 2000 e a forma como a seleção jogava nessa época ou no próprio Euro 2004. Eu acho que com o Jorge Jesus vamos ter isso. Vamos ter de volta esse futebol mais atrativo que Portugal tradicionalmente praticava e que acho que, nos últimos anos, se afastou desse tipo de futebol para uma cultura mais resultadista. Não é a cultura do futebol português. Vamos ter o desafio do pouco tempo para treinar e Jorge Jesus precisaria de mais tempo para pôr a equipa a jogar da forma que pretende, mas acho que vamos ver uma seleção que vai dar mais prazer aos portugueses ver jogar independentemente dos resultados finais.

Bola na RedeAinda haverá naturalmente muita tinta a correr sobre este tema, mas até porque já há algumas informações oficiais, o Cristiano Ronaldo para efeitos práticos já anunciou a saída deste estágio. Desde logo pergunto se há futuro para pensar numa continuidade do Cristiano Ronaldo no espaço da seleção e depois perguntava também obviamente como é que se vê toda esta polémica e todo este caso criado em torno do Cristiano Ronaldo e do Jorge Jesus.

Diogo Boa Alma: Penso que não haverá, infelizmente, espaço para uma continuidade. Deve-se é tentar que o final seja bem melhor e de acordo com a grandiosidade do Cristiano e com tudo o que ele fez por mais de 20 anos na seleção. É o maior símbolo do futebol português e tem de ser tratado como tal. É uma pena tudo isto acontecer para a imagem do próprio país. Mais do que o Cristiano, o mister Jorge Jesus ou qualquer um dos envolvidos, é Portugal e é a maior bandeira de Portugal no mundo. Nós andamos no estrangeiro e toda a gente a quem dizemos que somos portugueses fala logo de Cristiano Ronaldo. Temos de ter memória e ter essa gratidão e saber fazer um final digno para o Cristiano como o Messi vai ter na Argentina. É disso que falamos. São símbolos do país e do futebol do seu país. Sobre o caso em si, acho que, infelizmente, as pessoas radicalizam muito entre os pró e os contra Cristiano Ronaldo. Devemos olhar para as coisas de outra maneira. Acho que o lugar dele é intocável. Em termos desportivos, e eu sou daqueles que há muitos anos diz que a utilização do Cristiano Ronaldo deveria ser diferente, porque acho que temos de olhar para o rendimento. O rendimento de outros jogadores tem sido superior e justifica mais tempo de utilização de outros atletas em detrimento do Cristiano. Mas isso é outra questão. A forma como as coisas foram feitas, não foram bem conduzidas. Falta, sobretudo, comunicação, falta estar alinhados. É por isso que dizia que nos clubes o trabalho do diretor é fundamental neste aspeto, para evitar este tipo de conflitos. É conseguir sanear e colocar as pessoas todas dentro do mesmo objetivo e não deixar que exista uma situação resolvida entre duas pessoas. É um problema. Pode extremar posições e vir a ter finais como este. Espero que se resolva, que o Cristiano tenha a homenagem e a despedida que merece e que continue ligado à Federação e à seleção de alguma maneira, como embaixador de futebol que vai ser sempre no mundo. Que Portugal tenha com Jorge Jesus um novo ciclo e um ciclo de sucesso. A geração que temos e as gerações futuras, e vimos os sub-21 a apurar-se para o Europeu, também são muito boas. Os sub-17 foram campeões do Mundo e da Europa. Temos o potencial para ser uma seleção ganhadora e continuar a ganhar. Não vejo o dramatismo que se vê muitas vezes de que Portugal era uma coisa antes do Ronaldo e agora é outra coisa. Objetivamente, é verdade, mas a evolução como um todo do futebol português foi um trabalho de fundo que foi feito, não centrado apenas no jogador.

Bola na RedeE aproveitando a experiência como gestor de homens. Qual É impacto imediato, pensando neste ciclo da Liga das Nações, dentro do próprio grupo da seleção nacional, entre os jogadores que naturalmente conviveram anos e anos com o Cristiano Ronaldo na seleção?

Diogo Boa Alma: Isso depende de muitas coisas. Não sei a ligação que existia entre o Cristiano e os outros jogadores. Acredito que tenham uma boa relação, mas não sei até que ponto uns vão sentir as dores dos outros. Depois, depende muito da gestão do caso que é feita pelos responsáveis da Federação. Desde ontem, a justificar o que aconteceu e explicar claramente ao grupo o que aconteceu. É importante quando acontece algo relevante que o grupo veja resolvido tudo em família. Que a verdade seja dita à frente de todos e seja logo esclarecido o que se sucedeu e porquê, para que se ponha uma pedra e se possa olhar para o futuro. Acho que muitos jogadores poderão ter mais espaço e libertar-se de alguma maneira. É normal que aconteça. Na Argentina, era normal que a bola passasse mais pelo Messi e vai ter de passar por um novo ciclo com uma saída onde não vai ter a tendência de procurar a referência. Portugal também teve muitos anos a procurar a referência, que era o Cristiano Ronaldo, e vai ter de se adaptar a isso, mas também vai trazer novas soluções à seleção. Pode trazer e libertar muitos jogadores a assumir um papel de relevância e liderança

Diogo Ribeiro

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