Publicidade

Daniel Vorcaro e os milhões no futebol: Ronaldo, Ronaldinho, Atlético-MG e uma rede sob suspeita

João Esteves · 6 min

Brasileirão
Foto: CBF

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

Comentários (0)

Não se fala de outra coisa no futebol brasileiro. Daniel Vorcaro voltou ao centro da conversa e não apenas por causa do Banco Master, da prisão preventiva ou das investigações que atingem o seu império financeiro. O antigo banqueiro aparece associado a 300 milhões de reais, cerca de 52,45 milhões de euros, investidos no Atlético-MG, a um empréstimo ao Cruzeiro de Ronaldo Nazário, a uma participação de 30% numa casa de apostas e a um projeto para entrar no futebol inglês ao lado de Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho. Uma rede de negócios e contatos que atravessa clubes rivais, apostas, direitos televisivos e um mercado onde dinheiro e influência caminham muitas vezes lado a lado.

As mensagens de 2024, divulgadas pela VEJA a 16 de outubro de 2026, acrescentaram o Queens Park Rangers à história. Vorcaro queria entrar no clube londrino, atribuir uma participação no negócio aos «dois Ronaldos» e utilizar a imagem de ambos para projetar o QPR até à Premier League. As conversas mostram ambição e diligências, mas não uma aquisição concluída nem um compromisso formal dos jogadores. O projeto inglês não avançou. No Brasil, porém, o dinheiro entrou. E é aí que estão as perguntas mais difíceis: quem controlava os fundos, de onde vieram os milhões e quem beneficiava efetivamente dessas operações?

Atlético-MG: 300 milhões e perguntas sem resposta

Entre 2023 e 2024, estruturas ligadas a Vorcaro colocaram 300 milhões de reais, cerca de 52,45 milhões de euros, no Atlético-MG através do Galo Forte FIP. O fundo ficou com aproximadamente 26,9% da Galo Holding, então responsável por 75% da SAF, correspondentes a cerca de 20,2% da sociedade que gere o futebol do clube. Foram 100 milhões de reais em 2023 e outros 200 milhões no ano seguinte.

O problema surgiu quando começaram as dúvidas sobre quem estava realmente por trás do investimento. Em outubro de 2025, o próprio Atlético deu 48 horas a Vorcaro e ao Galo Forte para identificarem os beneficiários e os restantes veículos financeiros envolvidos. Vorcaro tinha sido apresentado como único beneficiário, mas os registos do regulador apontavam para uma pessoa singular e outro fundo como subscritores. No centro da cadeia surge o Astralo 95, fundo que financiou o Galo Forte e que, segundo informações divulgadas pelo UOL, foi apontado pela Procuradoria-Geral da República como possível instrumento de desvio de recursos do Banco Master.

Há ainda uma diferença entre a apresentação pública e a titularidade formal. Segundo o Metrópoles, Vorcaro só terá adquirido pessoalmente a posição no Galo Forte em outubro de 2024, depois de os 300 milhões de reais já terem sido aplicados no Atlético. Uma tabela entregue pela defesa do advogado Daniel Monteiro avaliou essa aquisição em 306 milhões de reais, cerca de 53,50 milhões de euros, pagos em 2025 através de participações na Viking.

O Atlético afirma ter cumprido os procedimentos legais e realizado as verificações necessárias, com assessoria da EY e do BTG. A SAF sustenta não ser alvo da investigação. E esta distinção é essencial: a origem criminosa do dinheiro investido no clube é uma suspeita, não um facto provado. Vorcaro perdeu o lugar no conselho de administração em novembro de 2025 e a sua posição foi posteriormente diluída para cerca de 4%.

Ronaldo Fenómeno pediu ajuda e o dinheiro chegou ao Cruzeiro

Enquanto investia no Atlético, Vorcaro ajudava financeiramente o rival. Em março de 2024, Ronaldo Nazário procurou o banqueiro depois de a eliminação do Cruzeiro na Taça do Brasil ter comprometido receitas previstas. A mensagem foi direta: precisava de ajuda. Dias depois, agradeceu pelo empréstimo.

O crédito, identificado pelo ge nas contas do Cruzeiro, foi de 25 milhões de reais, aproximadamente 4,37 milhões de euros, concedidos através do Fundo Victória, ligado a Vorcaro. Contratado em abril de 2024, foi pago em 2025, já sob o controlo de Pedro Lourenço, por 29,756 milhões de reais, incluindo juros. A operação constava das contas auditadas do clube e não está no centro da investigação ao Banco Master.

Bet.bet: quem era o verdadeiro beneficiário?

Nas apostas, as mensagens tornam a história mais incómoda. Vorcaro esteve ligado à Bet.bet através da Bet Participações e do fundo Oracle. Documentos entregues ao regulador indicavam uma participação de 30%. Quando o Ministério da Fazenda exigiu a identificação do beneficiário final do Oracle, Luiz Rennó, então responsável jurídico do Banco Master, escreveu a Vorcaro: «Vc tem que sumir de lá».

Segundo a documentação citada pela Folha, a participação de Vorcaro era exercida através da Bet Participações, enquanto o Oracle tinha como único cotista Adriano Garzon Correa, despachante ligado a outras estruturas patrimoniais do banqueiro. A Bet.bet chegou a apresentar uma proposta para patrocinar o Atlético-MG, mas o acordo não avançou. Vorcaro saiu formalmente da sociedade em setembro de 2025.

A questão é simples e central: quando um regulador exige saber quem é o beneficiário final, esconder ou tornar difusa essa identidade deixa de ser uma questão meramente administrativa. Passa a ser uma questão sobre quem controla efetivamente o dinheiro.

O dinheiro também chegou aos direitos televisivos

O Astralo 95 surge ainda ligado a um investimento de 33,4 milhões de reais, cerca de 5,84 milhões de euros, no Exa Mídia, fundo que detinha títulos de dívida da Sports Media, envolvida na exploração dos direitos televisivos de clubes da Futebol Forte União, entre eles Corinthians, Vasco, Fluminense, Botafogo e Cruzeiro.

Isto não significa que Vorcaro controlasse esses clubes ou a liga. Era uma exposição financeira ao negócio das transmissões. A Sports Media negou relações comerciais, contratuais ou societárias com o banqueiro, afirmou desconhecer previamente a eventual participação do Astralo 95 e garantiu que Vorcaro nunca participou na gestão da Futebol Forte União.

Ainda assim, é mais uma peça da mesma história: as estruturas financeiras associadas ao banqueiro estavam presentes em diferentes áreas do negócio do futebol brasileiro.

Ronaldo e Ronaldinho: a porta inglesa

Em 2024, Vorcaro estudou a entrada no Queens Park Rangers. Segundo a VEJA, falava no interesse dos «dois Ronaldos» e pretendia dar a Ronaldo Nazário e Ronaldinho Gaúcho uma participação no negócio, utilizando também a imagem de ambos para aumentar a projeção do clube.

As mensagens mostram contatos, reuniões e tentativas de envolver Assis, irmão e empresário de Ronaldinho. Um intermediário chegou a perguntar se poderia apresentar Ronaldo como estando já no projeto. Mas não há contrato que permita afirmar que os dois jogadores tenham sido parceiros formais de Vorcaro no QPR.

O negócio não avançou. O que ficou foi a dimensão da ambição: capital, futebol e duas das maiores marcas individuais da história do futebol brasileiro num projeto pensado para chegar à Premier League.

Neymar, CBF, Messi e uma rede de contatos

As mensagens colocam ainda Neymar, Luciano Huck, Lionel Messi e David Beckham no perímetro desta rede. Neymar surge através de um intermediário ligado ao Santos, mas não há comprovação de reuniões ou pagamentos e o jogador classificou como falsa a notícia que envolvia o pai.

O apresentador televisivo Luciano Huck aparece em conversas sobre uma possível candidatura de Ronaldo à presidência da CBF, sem que as mensagens comprovem financiamento ou participação de Vorcaro. O banqueiro surge também associado a tentativas de conseguir bilhetes para o Inter Miami e um encontro com Messi, através de Beckham. Outros episódios, como os convites VIP destinados aos filhos de Alexandre de Moraes, foram igualmente contestados.

São contactos e conversas com diferentes graus de relevância e comprovação. Mas ajudam a desenhar a dimensão da rede construída em torno de Vorcaro.

Seguir os nomes é importante, investigar os milhões é essencial

A defesa de Daniel Vorcaro contestou a autenticidade, autoria e contexto de parte das mensagens divulgadas e pediu ao Supremo Tribunal Federal uma investigação às fugas de informação provenientes do telemóvel do banqueiro. Essa versão tem de ser considerada.

Mas o caso não vive apenas de mensagens. O empréstimo ao Cruzeiro está nas contas do clube. Os investimentos no Atlético-MG estão documentados. A participação na Bet.bet surge em registos e documentos analisados pelas autoridades. E o projeto do Queens Park Rangers está exposto nas conversas divulgadas pela VEJA, embora sem demonstrar uma parceria formal com Ronaldo ou Ronaldinho.

É por isso que o centro desta história não está nas fotografias com estrelas nem sequer nos «dois Ronaldos». Está nos milhões. De onde vieram? Quem os controlava? Quem eram os verdadeiros beneficiários? E como conseguiram chegar tão fundo ao futebol brasileiro?

Daniel Vorcaro construiu uma rede onde dinheiro, futebol e poder se cruzaram de forma particularmente intensa. Agora, mais do que seguir os nomes famosos, é preciso seguir o dinheiro. É aí que estará a verdadeira história.

João Esteves

Redação Bola na Rede · ver artigos

Comentários 0

Comentários moderados.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a dizer o que pensas.

    Respeita os outros leitores: insultos, spam e discurso de ódio são removidos. Política de privacidade.

    Continua a ler

    as mais recentes
    La Liga

    Quem vive do passado é che | Valência

    Para os adeptos do Valência, os che, o virar do milénio foi sinónimo de coleccionar quadros bonitos para mais tarde apreciar. No final dos anos 90 e início dos anos 2000, o Valência encheu a vitrina: uma Taça do Rei, uma Supertaça de Espanha, dois campeonatos, uma Taça UEFA e uma Supertaça Europeia. Importa referir que, embora não tenha vencido, disputou duas finais consecutivas da Liga dos Campeões, sendo derrotado primeiro pelo Real Madrid, depois pelo Bayern de Munique. Em campo brilharam nomes como Santiago Cañizares, David Albelda, Pablo Aimar, Rubén Baraja e Gaizka Mendieta; já no banco, Claudio Ranieri, o futuro obreiro do conto de fadas em Leicester, plantou as sementes que Héctor Cúper e Rafael Benítez souberam regar e transformar em frutos.

    Ailton Pereira · 3 min de leitura
    Ler a crónica
    Seleção Nacional

    5 jogadores que mais se destacaram com Jorge Jesus na Seleção Nacional

    Os primeiros quatro jogos de Jorge Jesus ao comando da Seleção Nacional permitiram perceber quais os jogadores que melhor se adaptaram às ideias do novo selecionador. Entre golos, assistências e novas dinâmicas táticas, cinco nomes destacaram-se pela influência que tiveram no rendimento da equipa e pela forma como potenciaram as suas qualidades individuais. De João Félix a Rúben Neves, passando por Gonçalo Ramos, Vitinha e João Cancelo, este é o top-5 dos jogadores que mais se evidenciaram neste arranque da era Jorge Jesus.

    Miguel Costa · 3 min de leitura
    Ler a crónica

    Newsletter Bola na Rede

    Estamos a preparar a newsletter do Bola na Rede. Deixa o teu email e és dos primeiros a recebê-la. Sem spam.

    Feito. Ficas na lista e avisamos-te quando arrancar.