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Paulo Caroço, o treinador português que devolveu o Batalhão à elite do Tocantins

João Esteves · 6 min

Paulo Caroço
Foto: Instagram Paulo Caroço

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De Lisboa a Palmas, no coração do Brasil, Paulo Caroço construiu um percurso marcado pela formação e pela persistência. Aos 53 anos, o treinador português acaba de alcançar um dos principais objetivos da carreira no futebol tocantinense: conduzir o Batalhão FC de volta à Primeira Divisão, seis anos depois da última presença do clube na elite. A promoção para 2027 é o reconhecimento de um trabalho assente na valorização dos jovens e na capacidade de competir.

Há portugueses a construir carreira no futebol muito para além dos circuitos habituais. Paulo César Pedreira Caroço é um deles. Nascido em Lisboa, encontrou no estado brasileiro do Tocantins o espaço para desenvolver a sua profissão e conquistar reconhecimento. Aos 53 anos, acaba de acrescentar um capítulo importante ao percurso: levou o Batalhão FC de regresso à Primeira Divisão do Campeonato Tocantinense, depois de uma campanha em que a juventude do plantel não impediu a ambição competitiva.

A promoção ficou confirmada no último sábado, 31 de outubro, na segunda mão das meias-finais da Segunda Divisão estadual. Depois de vencer o Interporto por 4-1 na primeira partida, o Batalhão empatou 2-2 na deslocação a Porto Nacional e fechou a eliminatória com um agregado de 6-3. A passagem à final trouxe consigo a garantia do regresso à elite em 2027.

Para perceber quem é Paulo Caroço e o significado desta conquista, importa recuar ao início de uma ligação ao futebol que começou ainda na adolescência, em Portugal, e ganhou dimensão do outro lado do Atlântico.

De Lisboa para o futebol brasileiro

Paulo Caroço nasceu em Lisboa e começou a treinar muito cedo. Aos 12 anos já orientava uma equipa de Sub-15 na Damaia, na Amadora. Em vez de procurar um percurso como jogador, encontrou no banco uma vocação que acabaria por transformar em profissão.

Em 2007, aos 34 anos, assumiu funções de treinador-adjunto numa equipa de Sub-11. Seguiram-se os cursos de formação da UEFA e a construção de um percurso que o levou ao Brasil, onde encontrou no Tocantins um território de oportunidades e desafios.

A sua carreira não foi construída através de passagens por clubes mediáticos ou campeonatos de grande exposição. Foi a trabalhar com jovens, a desenvolver equipas e a conquistar resultados que começou a afirmar o próprio nome no futebol estadual brasileiro.

Uma carreira feita de formação e títulos

O currículo de Paulo Caroço revela uma ligação profunda ao futebol de formação. Conquistou dois títulos estaduais de Sub-12, um de Sub-13, dois de Sub-14, dois de Sub-15 e quatro campeonatos tocantinenses de Sub-20. Entre estes últimos, destaca-se a campanha de 2022 pelo Palmas, concluída com 100% de vitórias.

Um dos primeiros momentos decisivos aconteceu em 2018, quando conquistou o Campeonato Tocantinense de Sub-20 ao serviço do Capital. Segundo o próprio, esse título foi determinante para deixar de ser identificado apenas como treinador de escolinhas e passar a merecer reconhecimento no futebol de competição.

Também no Palmas deixou a sua marca, integrando a equipa técnica que conquistou o campeonato estadual profissional na sequência da tragédia aérea de 2021. Em 2024, já como treinador principal, voltou a chegar longe: terminou como vice-campeão da Segunda Divisão tocantinense.

O trabalho desenvolvido ao longo dos anos permitiu-lhe conhecer profundamente a realidade do futebol local, os jogadores disponíveis e as exigências de uma competição em que a capacidade de aproveitar recursos é frequentemente tão importante como a ambição.

A juventude como aposta — e não como desculpa

A campanha do Batalhão em 2026 teve uma particularidade que ajuda a dimensionar o trabalho de Caroço. Entre os quatro semifinalistas, a equipa apresentou a média de idades mais baixa: apenas 20,3 anos, contra os 25,3 do Interporto.

A aposta nos jovens não foi circunstancial. A participação na Segunda Divisão servia também de preparação para a Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2027, uma das principais competições de formação do Brasil. Mas o projeto não se limitava a desenvolver jogadores. Havia uma promoção para conquistar.

O treinador conseguiu conciliar as duas exigências. A equipa cresceu competitivamente e demonstrou personalidade nos momentos decisivos, sobretudo na primeira mão das meias-finais.

Diante de um Interporto que nunca tinha sido derrotado pelo Batalhão, a formação orientada pelo português esteve em desvantagem por 0-1. A reação foi contundente: recuperou, deu a volta ao marcador e venceu por 4-1, alcançando o primeiro triunfo da história do clube sobre aquele adversário.

No final, Caroço destacou a personalidade dos jogadores e a forma como conseguiram responder à adversidade. Considerou a exibição memorável. Mais do que o resultado, ficou a confirmação de que um grupo jovem podia enfrentar adversários mais experientes sem abdicar da ambição.

Nove golos sofridos não contam uma carreira

O percurso recente de Paulo Caroço também ficou associado a um resultado que teve repercussão no futebol brasileiro: a derrota do Batalhão por 9-0 frente ao Palmeiras, na Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2026.

Foi uma noite particularmente difícil. Do outro lado estava uma equipa de outro nível competitivo e um jovem que acabaria por concentrar grande parte das atenções: Eduardo Conceição, então com 16 anos, marcou quatro golos e fez duas assistências.

A goleada foi pesada e não deve ser desvalorizada. Mas também não pode servir para resumir o trabalho de um treinador ou o desenvolvimento de um grupo de jovens jogadores. A formação implica exposição, aprendizagem e confrontos com adversários que, muitas vezes, dispõem de condições muito diferentes.

A resposta do Batalhão chegou na competição estadual. Meses depois daquele resultado, a equipa voltou a competir, eliminou o Interporto e assegurou a promoção. Uma sequência que mostra como o futebol também se constrói na capacidade de ultrapassar os momentos mais difíceis.

No Tocantins, um português encontrou o seu caminho

Paulo Caroço percorreu uma rota diferente da de muitos treinadores portugueses que trabalham no estrangeiro. Não chegou ao Brasil através de um grande projeto internacional nem encontrou nos principais campeonatos a porta de entrada para a carreira. Foi no Tocantins que desenvolveu o seu trabalho, conquistou títulos e consolidou uma identidade profissional.

Do Capital ao Palmas, passando agora pelo Batalhão, acumulou experiência em diferentes contextos e escalões. A promoção de 2026 representa mais um resultado concreto de um percurso que combina formação, conhecimento do futebol local e ambição competitiva.

A época ainda reserva um último desafio. Com o acesso garantido, o Batalhão vai disputar o título da Segunda Divisão frente ao Guaraí, também promovido à elite, num encontro agendado para 7 de novembro, no Estádio Delfinão, em Guaraí. Do outro lado estará outro treinador estrangeiro, o uruguaio Hugo Pilo.

Independentemente do desfecho da final, Paulo Caroço já alcançou o objetivo que levou o Batalhão a esta campanha: devolver o clube à Primeira Divisão tocantinense.

Saiu de Lisboa, encontrou no futebol brasileiro o espaço para construir uma carreira e fez da formação o alicerce de um percurso com títulos, desafios e reconhecimento. Aos 53 anos, tem agora mais uma conquista para guardar: a de ter conduzido uma equipa jovem ao regresso à elite estadual.

Nem todas as histórias de treinadores portugueses no estrangeiro se escrevem nos grandes estádios ou nos campeonatos mais mediáticos. Algumas constroem-se com trabalho diário, longe dos holofotes e em geografias que raramente chegam às primeiras páginas. A de Paulo Caroço é uma delas. E, em Palmas, tem agora um motivo especial para ser contada também em Portugal.

João Esteves

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