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Sentido de humor precisa-se

Tiago Martins · 4 min

Sentido de humor precisa-se

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camisolasberrantes

Ontem à tarde, enquanto o Benfica defrontava o Paços de Ferreira, tive a felicidade de ver no stream pelo qual acompanhava o jogo aquele que seria o mote para a minha crónica de hoje. Atrás de Jorge Jesus, e junto ao banco do Benfica, lá estava, mais uma vez, o “bitaite” em folha A4 dirigido ao treinador encarnado. Desta vez lia-se – sempre em letras garrafais, claro – «JESUS, põe o MANEL a jogar». Escangalhei-me a rir mais uma vez. E ainda bem. Porque independentemente de o Benfica estar a fazer uma das piores primeiras partes desde o jogo com o Arouca, eu soube manter o meu sentido de humor intacto. Acreditem…não é fácil.

Pastilhas, caipirinhas e desta vez um pedido especial. Jesus já viu de tudo Fonte: facebook.com/c.oculta
Pastilhas, caipirinhas e desta vez um pedido especial. Jesus já viu de tudo
Fonte: facebook.com/c.oculta

Não é fácil, acima de tudo, para os adeptos que bêbedos em cegueira invadem os espaços de opinião, ou de notícia, ressabiados com as inúmeras “injustiças” que se atravessam no caminho do seu clube. Gente que vê maldade na arbitragem. No tipo que está sentado a seu lado a torcer pelo clube rival. No desgraçado do apanha-bolas que ainda nem idade tem para votar, mas que cheio de livre-arbítrio lá queima uns segundinhos na (não) ajuda à reposição. Levantam-se e vociferam. Quer seja no estádio. Ou em casa. Ao pé da mulher. Ao pé do marido. Mesmo ao pé dos filhos. Palavrão para aqui, palavrão para acolá…porque é o “sistema”. É o “compadrio”. É a “corrupção”. É “os de sempre”. É o “ridículo”. É a “roubalheira à descarada e sem propósitos”. É a “fruta”. É o “café com leite”. Mas ainda há alguém que veja futebol neste país?

Acredito – e espero – que sim. Eu faço por ver. E faço por me rir. É que «não há desgraça que não tenha a sua graça», como escreveu uma vez Miguel Esteves Cardoso. Aconselho portanto todos os protagonistas a esboçarem um sorriso quando o árbitro anula (mal) um golo à sua equipa de coração. Quando um cronista da equipa rival aproveita uma péssima exibição para fazer pouco do nome da instituição que tanto amam. Ou mesmo quando têm o Campeonato, a Taça de Portugal e a Liga Europa na mão e, a segundos do fim, vêem tudo a ir pelo cano abaixo. Primeiro, esse sorriso – nem que seja amarelo. E depois chorem. Chorem tudo o que tiverem a chorar. Amaldiçoem e roguem pragas aos sete ventos. Vociferem palavrões até o sol nascer. Arranquem os cabelos pela raiz. Mas tenham, pelo amor do Deus do Futebol, a decência de guardar para vocês mesmos a raiva e a mágoa que vos enche a alma e o coração. Porque…ninguém quer saber.

A imagem mais triste que vi em 22 anos de Benfiquismo Fonte: geracaobenfica.blogspot.com
A imagem mais triste que vi em 22 anos de Benfiquismo
Fonte: geracaobenfica.blogspot.com

E essa é a difícil e triste realidade do adepto de futebol. Quando se sofre, sofre-se sozinho. Não se podem marcar consultas no psicólogo mais próximo para lidar com os sete que o Benfica engoliu a seco, em Vigo. Não se vão comprar antidepressivos para superar o facto de a nossa equipa não vencer na casa do rival desde Janeiro de 2006. E que nem nos passe pela cabeça convidar um amigo para jantar para falar do péssimo treinador que o nosso presidente resolveu contratar com uma confiança cega.

Mergulha-se assim numa espiral recessiva de angústia e ansiedade. Porque à nossa volta há milhões como nós, mas ninguém que nos ouça. A dor é nossa. Ninguém sofre como nós. Mas até no sofrer tem de haver uma certa dignidade. E o mesmo se aplica ao amor e à dedicação. Eu que o diga. Eu que amo um clube que nasceu numa farmácia. Eu que todas as semanas grito por um clube que diz ter nascido em 1904, mas que só se tornou naquilo que realmente é em 1908. Eu que vou ao estádio berrar com lágrimas nos olhos um hino no qual me intitulo de “papoila saltitante”. Eu que tenho como irmãos milhões de adeptos conhecidos por gostarem de couratos, terem bigode até aos joelhos e baterem na mulher quando a águia voa mais baixo. Eu que tive um presidente corrupto que ainda hoje está fugido lá para as Inglaterras. Eu que tenho como Rei omnipresente o homem que via no tremoço o melhor marisco do mundo. Eu que torço por uma equipa que consegue jogar durante semanas sem portugueses no onze inicial. Eu que apoio um treinador que não consegue conjugar uma frase em português correcto para salvar a própria vida. Eu que me lembro de ganhar dois campeonatos desde que sou nascido. Eu que não ganhava ao Porto à grande e à francesa desde sei lá quando.

Mesmo assim…rio-me. Divirto-me. Sou feliz. Não enveneno os outros com as minhas derrotas e os meus pesares. Não me sinto ridículo. Sinto-me o que sou. E sou benfiquista. Para o bem e para o mal. Em qualquer que seja o contexto, sofro sozinho. Não preciso que ninguém sofra por mim.

Tiago Martins

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