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“O triunfo dos porcos”

João V. Sousa · 3 min

“O triunfo dos porcos”

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Ser adepto de um clube com um vasto historial de razões de queixa das equipas de arbitragem deixa marcas. No meu caso, uma das principais é a mania que ganhei de só festejar certos golos depois de olhar para o auxiliar que acompanha o ataque do Sporting – não vá ele, com ou sem razão, invalidar a jogada por qualquer motivo. Foi o que aconteceu no golo de Carlos Mané, em que só comecei a celebrar depois de ter confirmado que a bandeira continuava em baixo. Para alguns este maneirismo pode parecer despropositado, mas a verdade é que, pouco tempo depois, vi-me de novo recordado do porquê de o fazer.

Fredy Montero cumpriu o seu papel e quebrou finalmente a sua seca de golos, mas já não é da sua responsabilidade que esses golos sejam erradamente anulados. Noutros estádios, o fora-de-jogo inventado pelo auxiliar Hernâni Fernandes já daria para várias semanas de “vêem como afinal os prejudicados somos nós?”. Em Alvalade, contudo, os árbitros costumam ir muito mais longe na sua audácia, e o último fim-de-semana não foi excepção. À entrada para a segunda parte, Pedro Garcia, o fiscal-de-linha do lado dos bancos de suplentes, dirigiu-se para a baliza perto da qual me encontrava. O propósito, pensava-se, seria inspeccionar o estado das redes. A bancada irrompeu nos tradicionais assobios e algumas bocas, às quais os intervenientes normalmente reagem com indiferença. Mas Pedro Garcia estava a encarar os adeptos e a sorrir com ar de gozo, fazendo de seguida um gesto a simular um acto sexual. A desvantagem de não haver imagens é óbvia; por outro lado, neste futebol onde tudo acontece ao contrário, se elas existissem o Sporting talvez acabasse multado por ter adeptos que assediaram o simpático profissional da arbitragem ao ponto de fazerem o pobre homem tocar-se em público. Parece ridículo mas se fosse verdade não me espantaria, porque não é muito diferente da inversão dos factos que se tem vindo a fazer relativamente ao caso da Taça da Liga. O FC Porto quebrou os regulamentos mas o Sporting é que devia ter atrasado o seu jogo, o Sporting é que devia ter alertado os delegados… É certo que os mesmos de sempre irão desvalorizar a atitude de Pedro Garcia, mas um comportamento destes é inaceitável e mostra bem ao que vêm as equipas de arbitragem quando apitam jogos do Sporting. Tudo isto ultrapassa as fronteiras do razoável e atinge proporções escandalosas.

Pedro Garcia, o árbitro assistente que insultou as bancadas de Alvalade Fonte: Albertohelder.blogspot.pt
Pedro Garcia, o árbitro assistente que insultou as bancadas de Alvalade
Fonte: Albertohelder.blogspot.pt

Por falar em escândalo, foi hoje oficializado aquilo que já se sabia: o FC Porto ainda manda no futebol português. Por outras palavras, o clube nortenho viu confirmada a sua permanência na Taça da Liga, troféu que assim se assume cada vez mais como um rebuçado dado pela Liga ao clube que, de entre Benfica e FC Porto, não consegue ganhar o campeonato. Não me causa grande transtorno ter sido eliminado. O que me deixa confuso é a existência de regulamentos que, como se viu, não são para cumprir. Tudo o que se pôde concluir com este episódio é que o FC Porto precisa de contratar novos argumentistas para escrever o guião das desculpas que apresenta, uma vez que este da lesão do Fernando nem sequer batia certo. Mas, se eu fosse portista, talvez até desse desconto: entre tentativas de convencer juízes de que Pinto da Costa tinha ido passear a Espanha no preciso dia em que iria ser detido ou que “fruta” e “café com leite” se referiam realmente a pequenos-almoços, esse departamento do clube já deve ter esgotado a sua criatividade no processo Apito Dourado.

Em 2014 o futebol português vive os últimos capítulos, espera-se, de um longuíssimo “triunfo dos porcos” ao vivo e a cores. O que me alegra é que tudo tem o seu tempo, e o de Pinto da Costa enquanto dono do futebol nacional já esteve mais longe do fim. Até lá, porém, resta aos Sportinguistas a raiva silenciosa de ver um árbitro suficientemente confiante para insultar as bancadas de Alvalade e sair impune, e também o sabor amargo de cumprir os regulamentos e ser afastado de uma competição.

João V. Sousa

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